1 NÚMERO 24 Brasília, junho de 2024 ISSN: 2448-2242 DOI: http://doi.org/10.29396/itcprm.2024.24 OCORRÊNCIA POLIMETÁLICA EM GOSSAN E BRECHAS HIDROTERMAIS NO GRUPO ROOSEVELT, NA REGIÃO DE BOA VISTA DO PACARANA, ESTADO DE RONDÔNIA: RESULTADOS PRELIMINARES. AUTORES Carlos Augusto Silva Provenzano (carlos.provenzano@sgb.gov.br) Gustavo Negrello Bergami (gustavo.bergami@sgb.gov.br) Dalton Rosemberg Valentim da Silva (dalton.rosemberg@sgb.gov.br) Wilson Lopes de Oliveira Neto (wilson.oliveira@sgb.gov.br) Marco Aurelio Piacentini Pinheiro (marco.pinheiro@sgb.gov.br) Carlos Eduardo Santos de Oliveira (carlos.oliveira@sgb.gov.br) Serviço Geológico do Brasil, Residência de Porto Velho ABSTRACT Preliminary data from an occurrence of sulfide bearing breccia and gossan are presented here. Suchoccurrence was found during the 1:100.000 scale geological mapping carried out by the Geological Survey of Brazil – SGB/CPRM, in the region of Boa Vista do Pacarana - Espigão d’Oeste, state of Rondônia. The host rock is an acid metavolcanic paleoproterozoic rock of the Roosevelt Group, southwest Amazon Craton. It is already known from previous works in Mato Grosso state that metal deposits can be formed when rocks from the Roosevelt Group are subjected to hydrothermal alteration related to VHMS system and by late heating and remobi- lization of mineralization by influence of fluids derived from intrusion of calymmian magmatic rocks. Could this environment be alson occurring in Rondônia state? That is a question to be answered in time with further studies. Here we present initial indications from field, petro- graphic and chemical data. Keywords: Sulfides, Gossan, Rondônia, Roosevelt Group. Palavras-chave: Sulfetos, Gossan, Rondônia, Grupo Roosevelt. INFORME TÉCNICO INFORME TÉCNICO 24 2 INTRODUÇÃO Este trabalho faz parte do projeto “Geo- logia e Potencial Mineral do Centro Les- te de Rondônia”, executado pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Residência de Porto Velho, no âmbito do Programa Min- eração Segura e Sustentável/Ação Mapea- mento Geológico do Brasil. A área de tra- balho abrange quatro folhas no recorte cartográfico de escala 1:100.000: Cacoal; Serra Azul; Primavera; e Sargento Paixão. A pesqui- sa incluiu parte dos municípios de Cacoal, Es- pigão d’Oeste, Pimenta Bueno e Vilhena, além das reservas indígenas Sete de Setembro, Zoró e Roosevelt. O objetivo deste informe técnico é apre- sentar dados sobre o alvo prospectivo des- ignado de “Gossan Pacarana”, descoberto durante o mapeamento geológico. Essa ocor- rência está situada a sudoeste (~7,5 km) do distrito de Boa Vista do Pacarana (latitude -11°01’22,332’’; longitude -60°51’37,727’’, da- tum SIRGAS-2000, número de campo 4548- PP-0110, município de Espigão d’Oeste e a leste (~7,5 km) do limite com a Terra Indígena Roosevelt, demarcado pelo Rio Quatorze de Abril (Figura 1). CONTEXTO GEOLÓGICO O Grupo Roosevelt, encaixante do gossan, está distribuído na Província Rondônia-Juru- ena, parte sul do Cráton Amazônico. Consiste em uma extensa faixa de direção dominante- mente E-W, formada por rochas metavulca- nossedimentares de idade estateriana (1,78 Ga a 1,74 Ga), compostas por metavulcanitos ácidos e vulcanoclásticas da Formação Ser- ra do Expedito, além de metassedimentares pelíticas, psamíticas e químicas da Formação Filadélfia, deformadas por zonas de cisal- hamento com metamorfismo em fácies xis- to-verde (Diener; Polo; Carneiro, 2019; Trin- dade Netto et al., 2020). O Gossan Pacarana está localizado nas proximidades da Serra Azul, onde as rochas do Grupo Roosevelt são intrudidas por rochas magmáticas calimianas tipo A da Suíte Serra da Providência. A Suíte Serra da Providência abrange uma ampla área de ocorrência e grande diver- sidade litológica,intrudindo o embasamen- to paleoproterozoico gnáissico-migmatíti- co e metavulcanossedimentar da Província Rondônia-Juruena. Predominam granitos rapakivi, equigranulares a porfiríticos de granulação média a muito grossa (Tassinari, 1984), além de gabros, charnockitos e man- geritos (Rizzotto et al., 1995; Scandolara et al., 1999). Também ocorrem rochas subvul- cânicas, granitos granofíricos e leucogranitos (Iza; costa; Castro, 2016), que variam de isotrópicos não foliados a milonitos e ultrami- lonitos com algum grau de migmatização. Na Serra Azul, ocorrem também intrusões máficas mesoproterozoicas, descritas por CPRM (2000) como gabros e gabros anor- tosíticos de textura inequigranular seriada, média a fina, que podem conter cristais sub- ofíticos de augita e ripiformes de plagioclásio e quantidades menores de opacos, apatita e biotita. Também são encontrados minerais re- sultantes de hidrotermalismo, formando uma massa verde composta por actinolita + clo- rita + epidoto + sericita + albita + opacos + quartzo + carbonatos (CPRM, 2000). Nessas rochas máficas ocorrem teores de 0,1 a 1% de sulfetos finos, incluindo pirita, pirrotita, calco- pirita, pentlandita, cobaltita, vioralita, coveli- ta, calcocita e esfalerita (CPRM, 2000). Esse contexto pode ter gerado metamorfismo ter- mal e metassomatismo, semelhante ao de- scrito por Biondi, Santos e Cury (2013) para o depósito VHMS de Aripuanã, no Mato Grosso. Segundo Neder et al. (2002), o depósito VHMS de Aripuanã é constituído por várias lentes e pipes que contêm pirita, pirrotita, es- falerita, galena, calcopirita e arsenopirita, e os corpos mineralizados são discordantes, do tipo sulfeto maciço hospedado por vulcões. Leite et al. (2005) datou um tufo da pare- de do depósito e obteve uma idade de 1768 +/-28 Ma (método de evaporação de zircão 206Pb-207Pb), similar às idades de 1.762 +/- 6 Ma (U-Pb em dacitos) e de 1.755 +/- 6 Ma (U- Pb em granito) obtida por Neder et al. (2002) para rochas da área do depósito. Eles con- cluíram que o depósito é vulcanogênico, com- posto por rochas vulcânicas e vulcanoclásti- cas félsicas, com uma zona inferior de minério stringer e uma zona superior de minério maciço com sulfetos disseminados. Biondi, Santos e Cury (2013) descreveram que, du- rante a orogenia Quatro Cachoeiras (1,689 Ma – 1,632 Ma), toda a sequência foi deformada, com dobras e foliação metamórficas de fácies xisto-verde médio. Após um período de esta- bilidade geológica, a Província Rondônia-Ju- ruena foi intrudida pelos granitos Aripuanã, datados em 1542 +/- 2 Ma (Rizzotto et al., 2002), o que gerou metamorfismo termal e metassomatismo nas rochas do depósito. Trindade Netto et al. (2020) e Diener, Polo e Carneiro (2019), descreveram que as ro- chas do Grupo Roosevelt, nas proximidades do distrito de Boa Vista do Pacarana (Fig- ura 1), expõem algumas características se- SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 3 e sienogranitos granulares isotrópicos a lo- calmente miloníticos, de granulação média a grossa, leucocráticos, com biotita e magneti- ta, quartzo recristalizado e textura granofíri- ca. Essas rochas contêm, por vezes, enclaves máficos a intermediários e xenólitos de ro- chas do Grupo Roosevelt. Alguns corpos de granitoides podem ser intrusões correlacio- nadas ao Grupo Roosevelt. DESCRIÇÃO DAS OCORRÊNCIAS Na Fazenda Pacarana, afloram hidrotermal- itos hospedados em rochas metavulcânicas ácidas do Grupo Roosevelt (Figura 2), em pequenas elevações que formam duas cris- tas (E-W) descontínuas e sinuosas, com até aproximadamente 450 metros de extensão por 65 metros de largura. Em termos estruturais, foram reconheci- dos três eventos. Uma foliação com atitudes de 012/76 e 200/87, reflexo de um cisalha- mento (D1) verificado tanto em amostras de mão, com estruturas do tipo S/C e C’ (Fig- ura 3), quanto pela orientação geral E-W das cristas e em imagens aerogeofísicas (Figuras 4, 5 e 6). melhantes às do depósito da Serra do Ex- pedito (VMS de Aripuanã), e destacaram as seguintes similaridades: I. Aspectos fisiográficos e associações li- tológicas locais indicam estrutura semelhan- te a uma caldeira vulcânica deformada, vul- canismo bimodal caracterizado por riolitos a riodacitos, andesito, ignimbrito, tufos estrati- ficados (formações ferríferas e tufos cineríti- cos), que podem constituir as porções distais do sistema vulcano-exalativo. Presença de rochas metamáficas hidrotermalizadas, me- tassedimentares clásticas e químicas subordi- nadas, como formações ferríferas compostas por camadas centimétricas de chert e finos níveis de óxido de ferro e manganesíferas, além de granitos porfiríticos associados à Suíte Zé do Torno; II. Evidências de diversos processos de alteração hidrotermal, como ampla serici- tização, por vezes acompanhada de vênulas de quartzo e magnetita, além de sulfetação disseminada (pirita, arsenopirita e calco- pirita). Foram descritos contextos de tufos sericitizados com níveis ricos em pirita e níveis ferruginosos, além de cloritização, epi- dotização, carbonatação e silicificação com ouro associado; III. Destacaram a presença de ignimbrito sericitizado com arsenopirita e com teores de Cu de 691,5 ppm, de Au de 9 ppb, de Pd de 6 ppb e de Pt de 6 ppb; IV. Adicionalmente, descreveram um pa- drão estrutural caracterizado por acama- damento primário dobrado, com foliação plano-axial de direção preferencial E-W. Pon- tualmente, observaram foliação pene- trativa rúptil NE-SW, além de lineamentos estruturais de direção NW-SE, com feições sugerindo cinemática dextral. Esses padrões estruturais se assemelham àqueles obser- vados no Gossan Pacarana. Na região mais ao sul de Boa Vista do Paca- rana, aflora um metatufo cinerítico, de gran- ulação fina, com zonas de muscovita/sericita hidrotermal e bolsões quartzo-feldspáticos que, por vezes, contêm sulfetos. Além dessas rochas, ocorrem metadacitos, metariolitos e metariodacitos com matriz afanítica a fanerítica fina, foliados, por vezes ocorrem com sulfetos finos, óxidos, epidoto e veios de quartzo leitoso, que ocasionalmente for- mam brechas e rede stockwork. As rochas do Grupo Roosevelt são intrudidas por granitos da Suíte Serra da Providência, que apresen- ta grande diversidade de litofácies. Na área próxima à ocorrência do gossan, as rochas dessa suíte são representadas por granófiros INFORME TÉCNICO 24 4 Figura 1 - A) Mapa geológico simplificado da área; e B) imagem de satélite do Google Earth exibindo a delimitação da área de afloramentos da ocorrência mineral na Fazenda Pacarana. Afloramento 01 (Latitude: -11,02287° / Longitude: -60,86047°, UTM20S: 733762 E / 8780656 N). Afloramento 02 (Latitude: -11,02297° / Longitude: -60,86257°, UTM20S: 733533 E / 8780647 N). Fonte: os autores. SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 5 Figura 2: A e B - Aspecto geral do afloramento em crista e em blocos, contendo crostas oxidadas que formam o Gossan Pacarana; C - Amostra de rocha com sílica microcristalina, sulfetos disseminados e concentrados em zonas centimétricas; D – Amostra de rocha metavulcânica sericitizada, com foliação sinuosa ao redor de porfiroclastos de quartzo e feições de soldagem (metatufo (?)); E – Rocha metavulcânica sericitizada, com oxidação de sulfetos, cavidades de sulfetos lixiviados e marcadas dobras de fluxo ígneo (?), metaignimbrito/metatufo (?); F e G – Metatufo (?) oxidado, sericitizado, pseudomorfos de pirita limonitizada em bolsões e disseminada segundo a foliação ígnea (S0). Fonte: os autores C A B D FE G INFORME TÉCNICO 24 6 Figura 3 - Metavulcânica com foliação S/C e C´ em detalhe de amostra de mão. Observa-se detalhe da mineralização com orientação de pseudomorfos de pirita limonitizada que truncam (tardi a pós) as estruturas da deformação regional. Fonte: os autores. Figura 4 - Localização do Gossan Pacarana (PP-110) sobre o Mapa Ternário da Gamaespectrometria (RGB - K, U, Th) em transparência sobre o relevo sombreado. Fonte: os autores. Figura 6 - Figura 6 - Mapa da primeira derivada (1DV) do gradiente total da magnetometria marca deformação D1 (E- W). Fonte: os autores. Figura 5 - Mapa do fator F (gamaespectrometria) que evidencia controle litoestrutural. Fonte: os autores. Nas Figuras 4 e 5, são indicadas a defor- mação regional, representada pela foliação das metavulcânicas hospedeiras (D1 – linha preta pontilhada). Possíveis zonas de cisalha- mento dextrais, com direção geral noroeste (D2), e falhas com direção geral nordeste (D3), que caracterizam eventos deformacio- nais rúpteis, tardios, que também reativam estruturas pretéritas. A Figura 5, além do SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 7 controle litoestrutural, indica prováveis zonas de alterações hidrotermais, marcadas pelo fa- tor F (enriquecimento de potássio e urânio). As feições mais características da ocor- rência são crostas oxidadas gossaníferas as- sociadas a boxworks celulares, esponjosos, retangulares e em a boxworks celulares, esponjosos, retangulares e em seta, carac- terísticos de pirita e/ou esfalerita (?), brechas, stockworks constituídos por sílica microcris- talina, quartzo leitoso e óxidos de ferro (li- monita). Há ocorrência de pirita associada e intercrescida com sílica microcristalina, além de remobilizações por venulações em veios secundários de quartzo e em drusas. O quart- zo microcristalino, por vezes, forma redes em stockwork brechado por remobilizações sili- cosas secundárias (Figuras 8 e 9). Em campo, foi possível identificar pelo menos três fases de hidrotermalismo. A pri- meira é caracterizada pelo predomínio de pirita fina, intercrescida com sílica micro- cristalina a milimétrica, com porções e mas- sas de sulfetos maciços de mesma granu- lação, de cor cinza-escuro ou completamente oxidados, caracterizados pela cor marrom. A segunda fase está associada a um processo de remobilização contemporâneo à tectôni- ca rúptil tardia, caracterizada também por fase/fluido silicoso que formou stockwork de quartzo com pirita de tamanho submilimétri- co (Figura 7). Há, possivelmente, uma tercei- ra fase, relacionada a um sistema de abertura rúptil, preenchido por veios de quartzo leito- so, que formam drusas e dentes de tigre (Fig- ura 8) com pouca presença de pirita. A Figura 7 - Amostra de brecha de sílica microcristalina (esbranquiçada) e sulfeto intercrescido e brechado por rede em stockwork marcada por remobilizações quartzosas secundárias; B e C - Observa-se uma porção marrom, característica de intensa oxidação gerada em fase anterior à venulação silicosa tardia. Fonte: os autores. Figura 8 - Veio de quartzo leitoso com feições de dentes de tigre/drusa. Fonte: os autores. A análise da amostra PP-R-110C, em es- tereomicroscópio, permitiu identificar pirita muito fina, com cor amarela e tom verde-cla- ro, disseminada. Ocorre com hábito cúbico, em grãos isolados, milimétricos, além de mas- sas ou aglomerados angulosos e brechados de diâmetro centimétrico. A matriz é equi- granular muito fina, constituída por quartzo microcristalino, opacos e biotita. Também foram observadas massas e/ou fenocristais de albita (?) com textura poiquilítica, con- tendo xenocristais de pirita cúbica no interi- or dos fenocristais. Na superfície externa da amostra, ocorre intensa oxidação (limonita) e corrosão de óxidos, com brilho amarelado e esverdeado, além da presença de arsenopiri- ta e ouro (Au) muito fino (?). Foram também observados raros grãos de sulfeto muito fino com iridescência, possivel- mente calcopirita. Há porções e cavidades com cristais fibrosos/esponjosos e esbran- quiçados (sericita?). Duas seções polidas foram analisadas (Figura 10), identificando-se a presença de pirita fina com inclusões de dois minerais metálicos diferentes de difícil identificação exata: um de cor vermelha/mar- rom, e outro cinza-chumbo B C INFORME TÉCNICO 24 8 Figura 9 - A – Matacão com crosta de sulfetos oxidados; B – Detalhe no mesmo matacão (em A) com cavidades tabulares decimétricas de sulfeto maciço lixiviado; C - Opacos maciços; D e E – Crostas com cores de alteração branca, marrom, vermelha, amarela e esverdeada; F - Superfície de oxidação botrioidal com cores brancas a cinza (cerussita?), amarela, laranja, marrom e verde (sulfeto de níquel/ferro?) e alteração superficial tipo “tarnish”, típica da bornita; G – Sílica microcristalina e pirita com textura de boxworks celulares, esponjosos e retangulares; H – Boxworks com cerussita?; I - Cavidades em textura “esponja” derivada de pirita e algumas terminações em seta que indicam possível esfalerita?; J - Massa de sílica microcristalina, limonita e textura de boxworks celulares e esponjosos de pirita; K – Crosta de alteração. Obs. Fotos G à K, a escala é papel milimetrado de fundo com quadrículas de 0,5 cm. Fonte: os autores. A B C D E F G H I J SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 9 Figura 10 - A. Seção polida PP-110C; B. Fotomicrografia da seção PP-110C, exibe pirita fraturada com até 7 mm, em aumento de 2x; C. Seção polida PP-110D; D. Fotomicrografia da seção polida PP-110D, exibindo cristais de pirita, goethita e hematita, em aumento de 10x. Fonte: os autores. As amostras PP-R-110 (Figura 9 C, D e E) foram analisadas em XRF portátil, Olympus Delta, com resultados apresentados nas Ta- belas 1 e 2. Nos resultados de litoquímica, por fire assay, as amostras PP-110B e PP-110C apresentaram 0,181 ppm e 0,037 ppm de Au, respectivamente (Tabela 3). Nas Tabelas 1, 2 e 3 e na Figura 11, desta- cam-se os valores detectados para a seguinte associação de elementos comuns para de- pósitos VHMS: 181 ppb de Au (fire assay); 283 ppm de Ag (XRF); 134 ppm de Bi (XRF); 1030 ppm de Co (XRF); 107 ppm de Sn (XRF); 360 ppm de Cd (XRF); 64 ppm de As (XRF); 820 ppm de Cu (XRF); 95 ppm de Pb (XRF); 1272 ppm de Zn (MXRF); 137 ppm de Tl (MXRF) e 1415 ppm de Sb (MXRF). Tabela 1 - Análises da amostra PP-110C (rocha), realizadas com XRF portátil Olympus Delta no modo Mining Plus. LE = Light elements (elementos leves que o detector do XRF não determina). Leitu- ra – % ↓ #23-1 PP-R110 C #23-2 PP-R110 C #25-2 PP-R110 C #31-1 PP- R110 C Valor Má- ximo (ppm) LE 57,0750 57,2830 19,8150 44,0190 --- Si 25,5830 2525,4440 2724,7390 38,5930 --- S 7,7020 7,6300 27,6390 9,2660 --- Al 1,5170 1,4780 0,6350 0,0898 --- Fe 6,3260 6,2950 258840 5,6690 --- Mg 0,6840 0,7740 1,0980 1,2070 --- K 0,7990 0,8030 --- 0,1390 --- Ti 0,0950 0,0810 --- 0,0400 --- Ag 0,0184 0,0183 --- 0,0179 184,00 As 0,0000 0,0045 0,0064 --- 64,00 Bi 0,0052 0,0254 --- 0,0040 52,00 Cd 0,0268 0,0200 0,0280 0,0243 280,00 Co 0,0250 0,0820 0,1030 0,0260 1030,00 Cu 0,0810 0,0120 0,0180 0,0560 820,00 Mn 0,0120 0,0014 --- 0,0080 120,00 Mo 0,0012 0,0078 --- 0,0010 14,00 Pb 0,0073 --- --- 0,0018 78,00 Sb 0,0078 0,0076 0,0068 0,0076 78,00 Sn 0,0072 0,0160 --- 0,0068 76,00 V 0,0180 0,0160 0,0130 180,00 Zn --- 0,0200 --- 200,00 zr 0,0090 0,0084 0,0010 0,0023 90,00 SOMA 99,9999 99,9914 99,9932 99,1915 --- A B C D INFORME TÉCNICO 24 10 Tabela 3 - Resultados de análise litogeoquímica por fire assay. O limite de detecção do método é de 5 ppb. Amostra Au (ppb) PP-110B 1 81 PP-110C 37 PP-110D <5 PP-110E 9 Tabela 2 - Resultados das análises de pó de rocha, realizadas com XRF portátil Olympus Delta no modo Mining Plus. #8Avg PP 110 C #9Avg PP 110 C #10 Avg PP 110 D #20 Avg PP 110 D #21 Avg PP 110 E #22 Avg PP 110 E Valor Máximo (ppm) LE 53,6960 53,0900 59,0990 61,4010 80,4380 79,9650 --- Si 21,9260 22,1490 18,4960 17,1760 12,4120 13,0260 --- Fe 12,2160 12,2550 17,4440 16,8300 2,3430 2,2720 --- S 9,3540 9,4510 1,8720 1,8310 1,4700 1,5270 --- Al 1,0110 1,0660 1,0760 1,0060 1,1600 1,1830 --- Mg 1,1070 1,3220 1,2470 0,9860 0,7020 --- --- K 0,3890 0,3870 0,5290 0,5270 1,2250 1,2530 --- Ti 0,450 0,0400 0,0560 0,0400 0,0800 0,0800 800,00 Ag 0,0276 0,0283 --- --- 0,0236 0,0255 283,00 As --- 0,0026 --- --- --- --- 26,00 Bi 0,0111 0,0110 0,0134 0,0131 0,0025 0,0028 134,00 Cd 0,0347 0,0356 0,0350 0,320 0,0327 0,0360 360,00 Cl --- --- --- --- --- --- 0,00 Co 0,0600 0,0550 0,0380 0,0410 --- 0,0070 600,00 Cr 0,0130 0,0140 --- --- 0,0190 0,0230 230,00 Cu 0,0250 0,0240 0,0104 0,0106 0,0034 0,0038 250,00 Mn 0,260 0,0230 0,0310 0,0250 0,0320 0,0310 320,00 Mo 0,0013 0,0015 0,0071 0,0072 --- 0,008 72,00 Ni --- --- --- --- 0,0059 0,0067 67,00 Pb 0,0023 0,0027 0,0027 0,090 0,0022 0,0021 95,00 Sb 0,0111 0,0107 0,0110 0,0105 0,0108 0,0119 119,00 Sn 0,0098 0,100 0,0099 0,0099 0,0099 0,0107 107,00 V 0,0170 --- --- 0,0130 0,0160 0,0280 280,00 W 0,0043 0,0051 0,0052 0,0051 0,0031 0,0034 52,00 Zn 0,0088 0,0077 --- --- --- --- 88,00 Zr 0,0023 0,0023 0,0049 0,0046 0,0055 0,0050 55,00 SOMA 999,983 999,935 999,944 999,780 99,9966 99,5037 --- Leitura %↓ SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 11 Figura 11 - Análise de seções polidas realizadas por meio de mapeamento composicional Micro XRF. Fonte: os autores. GEOQUÍMICA DE SUPERFÍCIE O levantamento geoquímico de sedimen- tos ativos de corrente (SC) do projeto contou com 487 estações de amostragem, resultan- do em uma densidade média de 1:15 km2. Dentre essas estações, 35 foram executadas na região de predomínio de rochas do Grupo Roosevelt. No laboratório, as amostras foram peneiradas a 0,177 mm (80 mesh), e o ma- terial passante foi digerido em água-régia e analisado por ICP-MS/OES para 52 elemen- tos. Adicionalmente, 50 gramas da fração analisada foram submetidas à fusão, co- pelação e digestão ácida (HNO3 e HCl), com leitura em ICP-MS para ouro, paládio e platina (fire assay). Para o estudo da dispersão dos elemen- tos químicos em superfície, baseou-se na distribuição dos elementos em SC e nas relações com o ambiente em que ocorrem. Assim, foi possível determinar faixas de back- ground geoquímico das principais unidades litoestratigráficas da área do projeto, o que possibilitou a comparação dessas infor- mações obtidas em cada unidade. O Grupo Roosevelt, revelou ter teores médios mais elevados que as demais uni- dades, para os elementos Ag, As, Be, Bi, Cd, Co, Cu, Fe, In, Mn, Mo, Pb, Sb, Sn, Sr, Tl, V e Zn, em sua maioria calcófilos, conforme a clas- sificação de Goldsmith, conhecidos por sua grande afinidade geoquímica com fases sulfe- tadas. Os boxplots dos elementos Ag, Cu, Pb e Zn, visualizados na Figura 12, demonstram essa comparação. INFORME TÉCNICO 24 12 Figura 12 - Boxplot com a distribuição de Ag, Cu, Pb e Zn para as unidades estratigráficas na área do projeto. Fonte: os autores. Figura 13 - Distribuição das classes de teores de cobre nos sedimentos de corrente do Grupo Roosevelt, baseadas nas populações encontradas no QQ-plot e indicação da faixa de background. Fonte: os autores. O estudo da distribuição e dispersão geoquímica em superfície dos elementos, com base em amostras da área do Grupo Roosevelt, revelou as áreas com a maior disponibilidade dos elementos de interesse. O cobre foi utilizado como exemplo, como mostrado na Figura 13, onde os mapas ex- ibem os teores classificados de acordo com as populações observadas no QQ-plot. Tam- bém são apresentados os mapas com os re- sultados de Ag, Pb e Zn (Figura 14) com a identificação dos ambientes com maior dis- ponibilidade desses elementos em superfície. Os mapas ainda mostram que os maiores teores encontrados no domínio do Grupo Roosevelt estão localizados na região da Ser- ra Azul, onde ocorrem as formações Filadél- fia e Serra do Expedito, intrudidas por rochas máfico-ultramáficas mesoproterozoicas (Ro- maninI, 2000). SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 13 Figura 14 - Distribuição dos teores de Ag, Pb e Zn em sedimento de corrente do Grupo Roosevelt na área do projeto e indicação do Gossan Pacarana. Fonte: os autores. A estação de SC, cuja bacia de captação contém a localização do Gossan Pacara- na, apresentou teores de 0,4 ppm de prata, 12,7 ppm de cobre, 5,7 ppm de chumbo e 8 ppm de zinco. Outros elementos com teores destacados nesta amostra são o bismuto, com 0,98 ppm, o molibdênio, com 0,84 ppm, e o telúrio, com 0,1 ppm. Este último, juntam- ente com mais duas bacias contíguas, consti- tui uma das únicas ocorrências acima do lim- ite inferior de detecção desse elemento nos SC dessa unidade. As faixas de background geoquímico foram estimadas para o Grupo Roosevelt, utilizando os resultados das amostras de SC conforme a metodologia descrita anteriormente, e calcu- ladas por meio do boxplot (Tukey, 1977), com a distribuição log-transformada. Os resulta- dos estão expressos no sumário estatístico da Tabela 4, que apresenta para os elemen- tos citados a respectiva unidade de medida, o limite de detecção inferior (LDI) do método, o grau de detecção e os limites inferior e su- perior das faixas de background. INFORME TÉCNICO 24 14 Elemento LDI Detecção L inf. L sup. Ag (ppm) 0,01 97% 0,01 0,09 As (ppm) 1 40% <1 10 Be (ppm) 0,01 100% 0,1 2,3 Bi (ppm) 0,02 100% 0,03 0,75 Cd (ppm) 0,01 83% <0,01 0,2 Co (ppm) 0,05 100% 0,1 4,8 Cu (ppm) 0,05 100% 2,1 32 Fe (%) 0,01 100% - - In (ppm) 0,02 63% <0,02 0,3 Mn (ppm) 0,05 100% 85 1216 Mo (ppm) 0,05 100% 0,1 1,45 Pb (ppm) 0,1 100% 3 55,8 Sb (ppm) 0,05 89% <0,05 1,68 Sn (ppm) 0,3 94% <0,3 4,47 Sr (ppm) 0,1 100% 0,5 5,7 Tl (ppm) 0,02 97% <0,02 0,1 V (ppm) 1 100% 10 121 Zn (ppm) 1 100% 5 86 Tabela 4 - Unidades de medida, limite de detecção inferior do método (LDI), grau de detecção e limites inferior (L inf.) e superior (L sup.) das faixas de background dos elementos Ag, As, Be, Bi, Cd, Co, Cu, Fe, In, Mn, Mo, Pb, Sb, Sn, Sr, Tl, V e Zn. Essas informações podem ser utilizadas como valores de referência, tanto em trabalhos de cunho prospectivo, de mapeamento geoquímico e trabalhos ambientais, possibilitando com- parações com outras regiões, como comparações da mesma área levantada em momentos diferentes. SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL 15 COMENTÁRIOS FINAIS Trindade Neto et al. (2020) descrevem que depósitos polimetálicos do tipo exalativo são grandes fontes minerais dos elementos Zn, Pb, Cu, Ag e Au, associados a importantes ele- mentos secundários como Co, Sn, Se, Mn, Cd, In, Bi, Te, Ga e Ge, além de As, Sb e Hg. Esses depósitos normalmente ocorrem na forma de lentes concordantes de precipitados de sulfe- tos maciços, sobrejacentes a sistemas de vei- os discordantes do tipo stockwork, associa- dos a um halo de alteração hidrotermal. Eles se formam sob ou próximo a ambientes vul- cânicos subaquosos e, por isso, suas rochas hospedeiras podem ser tanto vulcanogênicas quanto sedimentares. A alteração intempérica avançada de um corpo de sulfetos maciços e brechas hi- drotermais ricos em quartzo, hospedados em rochas metavulcânicas ácidas do Grupo Roo- sevelt, pode ter sido o processo que resultou na formação da crosta gossanífera Pacarana. Essa crosta pode representar a porção super- ficial de um depósito VHMS do tipo bimodal félsico, que é hospedado por sequências de rochas vulcânicas com predominância de ro- chas félsicas, menor presença de máficas e ausência ou pouca quantidade de sedimen- tos. Se não for um gossan transportado, ou seja, se os óxidos não migraram dissolvi- dos em ácidos para se precipitar longe dos sulfetos de origem, o Gossan Pacarana pode representar a expressão superficial oxida- da de uma zona de minérios subjacentes (Taylor, 2011). Nesse caso, formaria uma zona de pirita que poderia corresponder a um de- pósito VHMS subjacente ou uma zona de raiz de depósito VHMS, formada por stockwork silicoso e pirítico, onde depósitos de esfaleri- ta, galena, calcopirita, pirrotita, Au e Ag já te- riam sido erodidos. Nas proximidades dessa ocorrência, próxi- mos às fácies metavulcanossedimentares do Grupo Roosevelt, há afloramentos de granó- firos, gabro, diabásio e um corpo granítico da Suíte Providência (semelhante ao corpo in- trusivo do depósito VMS Aripuanã, no Mato Grosso). O contexto geológico da região de Boa Vista do Pacarana, junto à associação de elementos comuns a depósitos VHMS, princi- palmente os elementos-traço menos móveis ainda presentes em estágios pós lixiviação in- tempérica, sugere uma forte correlação com o depósito polimetálico de Aripuanã-MT. O estudo geoquímico dos sedimentos de corrente coletados na área do projeto in- dicou que o Grupo Roosevelt apresenta te- ores médios mais elevados principalmente de elementos calcófilos, junto a siderófilos e minoritariamente litófilos. Observou-se que no domínio Roosevelt os maiores teores de Ag, Cu, Pb e Zn estão localizados na região da Serra Azul, onde afloram rochas das for- mações Filadélfia e Serra do Expedito, intru- didas por rochas máficas e por granitos Serra da Providência. A distribuição desses elemen- tos (Ag, Cu, Pb e Zn) em superfície é obser- vada em outras áreas, além de onde o gossan foi encontrado, o que indica a possibilidade de ocorrerem outras áreas potenciais para a descoberta de ocorrências polimetálicas se- melhantes no Grupo Roosevelt, em Rondônia. INFORME TÉCNICO 24 16 REFERÊNCIAS BIONDI, João Carlos; SANTOS, Roberto Ventu- ra; CURY, Leonardo Fadel. The Paleoproterozoic Aripuanã Zn-Pb Ag (Au, Cu) Volcanogenic Mas- sive Sulfide Deposit, Mato Grosso, Brazil: Geol- ogy, Geochemistry of Alteration, Carbon and Oxygen Isotope Modeling, and Implications for Genesis.Economic Geology, v. 108, n. 4, p. 781 – 811, 2013. DOI: https://doi.org/10.2113/econ- geo.108.4.781. 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Central Brasília, 1º andar Brasília - DF - Brasil CEP: 70040-904 Telefone:(61) 2108-8400 www.sgb.gov.br Contatos: seus@sgb.gov.br marcelo.esteves@sgb.gov.br DIRETOR DE GEOLOGIA E RECURSOS MINERAIS Francisco Valdir Silveira CORPO EDITORIAL Maisa Abram Bastos Guilherme Ferreira da Silva REVISÃO Gilmar José Rizzotto REVISÃO GRAMATICAL E ORTOGRÁFICA Irinéa Barbosa da Silva NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA Maria Gasparina de Lima DIAGRAMAÇÃO Iago Duarte de Jesus