15 WW GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS (SP) - propostas - Annabel Pérez Aguilar Instituto Geológico/Secretaria do Meio Ambiente Edson José de Barros Secretaria do Meio Ambiente/Prefeitura de Guarulhos Márcio Roberto Magalhães de Andrade Universidade Guarulhos Elton Soares de Oliveira Escola Centro de Conveniência Educacional Paulo Freire Caetano Juliani Instituto de Geociências/Universidade de São Paulo Antonio Manoel dos Santos Oliveira Universidade Guarulhos Vista Geral da Serra de Itaberaba, Município de Guarulhos. Foto: Annabel Pérez Aguilar 545 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP RESUMO O Geoparque Ciclo do Ouro está localizado no Município de Guarulhos, Estado de São Paulo, sudeste do Brasil, possuindo uma área de 169.900 ha. Está inserido no Planalto Paulistano e no segmento central da Faixa Ribeira. Possui atributos geológicos, morfológicos, arqueológicos, his- tóricos e culturais. Abrange principalmente regiões serranas das serras da Cantareira e Mantiqueira que abrigam diversas unidades de conservação. Afloram essencialmente rochas mesoproterozóicas do Grupo Serra do Itaberaba que constitui uma sequência metavulcanossedimentar. As rochas deste grupo foram afetadas por paleossistemas hidrotermais exalativos aos quais está associada a gênese dos protolitos de rochas metamórficas formadas por cummingtonita/antofilita ± cordierita ± granada ± quartzo, margarita ± coríndon ± muscovita ± rutilo, topázio ± rutilo, formações ferríferas do tipo Algoma, turmalinitos e processos mineralizantes em ouro. Mineralizações de ouro primário foram posteriormente concentradas devido à atuação de processos metamórfico-deformacionais. Há pre- sença de abundantes estruturas arqueológicas relacionadas à mineração, de grande valor, do primeiro Ciclo do Ouro no Brasil durante o Período Colonial, assim como igrejas, construções e vestígios de construções desta época, caracterizando atributos históricos e culturais. Palavras chaves: Geoparque Ciclo do Ouro, Guarulhos, Grupo Serra do Itaberaba, estruturas arqueológicas da lavra de ouro, período colonial, mineração de ouro. ABSTRACT Gold Cycle Geopark, Guarulhos, State of São Paulo The Gold Cycle Geopark is located in the Guarulhos Municipality, São Paulo State, South- eastern part of Brazil, having an area of 169,900 ha. It is inserted in the Paulistano Plateau and in the central segment of the Ribeira Fold Belt, having geological, morphological, archaeologic, historical, and cultural attributes. It encloses essentially the highland area of the Cantareira and Mantiqueira mountain ridges, as well as several protected areas. In the area mainly outcrop rocks of the Serra do Itaberaba Group, a Mesoproterozoic metamorphosed volcano-sedimentary sequence. The rocks of this group were affected by hydrothermal and exhalative paleo-systems, to which are genetically associated the genese of protoliths from metamorphic rocks composed of cummingtonite/antho- pyllite ± cordierite ± garnet ± quartz, margarite ± corundum ± muscovite ± rutile, topaz ± rutile, Algoma-type iron formations, tourmalinites, as well as to gold mineralizing processes. Primary gold mineralization was after concentrated due to metamorphic and deformational processes. Abundant archaeologic mining related structures are present of great value from the first Gold Cycle in Brazil, during the Colonial Period, as well as churches, constructions, and rests of constructions from this period, featuring historical and cultural attributes. Keywords: Gold Cycle Geopark, Guarulhos, Serra do Itaberaba Group, archaeological gold mining structures, colonial period, gold mining. 546 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I INTRODUÇÃO em ouro estão associados rochas exóticas, quanto à sua composição química e mineralogia, formadas essencial- O Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos, está mente por coríndon ± margarita ± muscovita ± rutilo e localizado na região metropolitana de São Paulo, pos- por topázio ± rutilo que constituem o produto metamór- suindo uma área de 16.900 ha (Figura 1). Abrange, pre- fico de zonas de alteração argílica e argílica avançada, dominantemente, uma região serrana que inclui parte havendo, no Município de Guarulhos um afloramento das serras da Cantareira e Mantiqueira, que constituem in situ muito representativo dessas rochas (Juliani et al., importantes serranias do Planalto Atlântico localizado 1994; Pérez-Aguilar et al., 2005; 2007; 2011). As rochas no sudeste do Brasil, permitindo fortalecer a gestão de peraluminosas formadas por coríndon ± margarita ± um corredor ecológico entre ambas as serras ao forne- muscovita ± rutilo são denominadas de marunditos cer atributos de grande valor a serem reconhecidos e devido a sua semelhança química com rochas meta- conservados. mórficas primeiro descritas por Hall (1920) presentes O processo de estruturação do Geoparque Ciclo do no Barberton Greenstone Belt da África. Rochas seme- Ouro de Guarulhos, teve o seu início no Decreto nº 25.491 lhantes, desta idade, raramente se preservam in situ em de 9 de junho de 2008 do Município de Guarulhos, pelo afloramentos representativos, uma vez que são geradas qual o Executivo instituiu um grupo de trabalho visando a associadas a extensas zonas de falha que constituem os implantação e gestão da Unidade de Conservação Parque canais de percolação de fluidos mineralizantes. Estas Natural Municipal da Cultura Negra Sítio da Candinha e falhas geralmente são reativadas posteriormente, pro- estabelecer diretrizes para a estruturação deste geoparque. movendo, então, fragmentação e moagem do material. Este grupo esteve constituído por representantes de seto- Também tendem a formar relevos positivos que são res públicos, religiosos, de ensino, ONG’S e da sociedade erodidos de forma preferencial. civil, promovendo discussões em um âmbito multidisci- Os marunditos foram inicialmente explorados para plinar. Os trabalhos desenvolvidos permitiram elencar serem usados como abrasivo natural e como matéria componentes significativos, que culminaram na criação prima para refratários (Hall, 1920). Atualmente estas do Geoparque pelo Decreto Municipal de Guarulhos nº rochas não possuem valor econômico dado o baixo custo 25.974 de 16 de dezembro de 2008. dos abrasivos sintéticos, mas possuem grande interesse O decreto de criação não delimita uma área específica científico pela sua raridade e pelo estudo dos processos nem designa os atributos a ele associados, constituindo, geológicos envolvidos em sua formação (Schreyer et al., entretanto, uma ferramenta jurídica no processo de 1981; Willner et al., 1990; Juliani et al., 1994; Martin & implantação do mesmo. Neste trabalho é delimitada a área Juliani, 1994; Pérez-Aguilar et al., 2011). de ação deste geoparque, abrangendo atributos geológicos, Associadas aos processos mineralizantes em ouro há geomorfológicos, arqueológicos, históricos e culturais, presença, também, de formações ferríferas do tipo Algoma sendo relacionadas as formas atuais de organização do uso e turmalinitos de origem exalativa (Juliani, 1993; Garda et e ocupação do solo e políticas que permitem conservar os al., 2009). Rochas com mineralogia também exótica, for- atributos reconhecidos. madas predominantemente por cummingtonita/antofilita No Geoparque afloram, essencialmente, rochas pré- ± cordierita ± granada ± quartzo (rochas com cumming- -cambrianas que foram inicialmente depositadas em tonita/antofilita), constituem o produto metamórfico de um mar Mesoproterozoico onde havia dorsais oceânicas extensas zonas de alteração clorítica semelhantes àquelas e basaltos do tipo N-MORB (normal-mid ocean ridge zonas associadas a depósitos de metais de base do tipo basalt). Posteriormente, devido à atuação de forças Kuroko. Assim, todos os litotipos acima mencionados são compressivas, formou-se um ambiente de retro-arco o produto de variações físico-químicas de um paleossis- semelhante àquele configurado atualmente pelas ilhas tema hidrotermal-exalativo de longa duração associado vulcânicas do Japão. a mineralizações de ouro e, provavelmente, de metais de Neste último ambiente foram colocados pequenos base (Pérez-Aguilar, 1996; 2001; Pérez-Aguilar et al., 2000; corpos ígneos com composições variando de andesitos a 2005; 2007a;b, 2011). riolitos aos quais se associam paleossistemas hidrotermais Destacam-se na morfologia diversas serras com vege- mineralizados em ouro. Aos processos mineralizantes tação de Mata Atlântica denominadas de Pirucaia, Bananal 547 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP e Itaberaba, assim como os morros de Nhanguçu e Pico Tomé Gonçalves e Tanque Grande, a presença de rochas Pelado, constituindo mirantes naturais e pontos de apoio. exóticas, que correspondem a rochas com cumming- Merecem também destaque as diferentes tipologias dos tonita/antofilita, marunditos e topazitos, assim como a vales que geram cachoeiras e quedas de água. presença de afloramentos de metabasitos, rochas meta- As regiões pioneiras na exploração do ouro na época vulcanoclásticas, formações ferríferas do tipo Algoma, da colônia no Brasil foram Guarulhos, Jaraguá, Santana metapelitos grafitosos, andalusita-clorita xistos, metape- do Parnaíba, Sorocaba e Paranaguá (esta última situada litos e quartzitos. No Geoparque há diversas trilhas em hoje no Estado do Paraná), localizadas na antiga Capi- Mata Atlântica nos parques estaduais da Cantareira e Ita- tania de São Vicente (Bontempi, 1970; Leme, 1772a;b;c; beraba, Parque Natural Municipal da Cultura Negra Sítio Marques, 1980; Juliani, 1993). Estas mineralizações foram da Candinha e Morro Nhanguçu, associadas a mirantes, intensamente lavradas durante o período colonial, tendo afloramentos rochosos, estruturas arqueológicas, biodi- sido preservados, na região de Guarulhos, valiosos regis- versidade e cachoeiras com potencial para o ecoturismo tros desta lavra, realizada em aluviões, coluviões, eluvi- e atividades de turismo religioso, entre as quais merecem ões e saprólito, representando estruturas arqueológicas destaque as cachoeiras do Tanque Grande (lazer, rituais de grande valor histórico em áreas que hoje totalizam religiosos e abastecimento de água para o município), diversos quilômetros quadrados. Também foram encon- do Núcleo Cabuçu e do Parque Estadual da Cantareira tradas na região restos de um pilão de ferro usado para (ecoturismo e lazer), do ribeirão Tomé Gonçalves no a moagem de quartzo de veio e um cadinho utilizado na loteamento Parque Orquidiama (lazer) e do Taboão, fundição deste metal. popularmente chamada de Cachoeira da Macumba ou Há restos da antiga Estrada Geral que foi estruturada Maionga. Esta última cachoeira possui grande interesse seguindo caminhos mais antigos dos indígenas no pla- para as religiões de origem afro, para realizar atividades nalto usados para interligar os aldeamentos criados pelos referentes aos seus rituais e a sua identidade Guarulhos jesuítas e as lavras de ouro da Província de São Paulo. (SP)/Prefeitura, 2008a) Na região de Guarulhos ligava a Igreja Matriz da Nossa Como potencial para esportes radicais pode-se desta- Senhora da Conceição até a Igreja da Nossa Senhora do car a escalada nos paredões da Serra do Itaberaba, rappel, Bonsucesso (Ricardo, 1970; Abreu, 1907; Petrone, 1964, tirolesa, arborismo, vôo livre em toda a região serrana, 1995; Noronha, 1960), sendo que dois ramais partiam da particularmente na Serra do Itaberaba e no mirante do Estrada Geral em direção a Nazaré Paulista e Mairiporã, Nhanguçu. interligando as lavras de ouro de Guarulhos com Minas O cenário de Mata Atlântica primitiva e secundária, Gerais, Mato Grosso e Goiás (Pinheiro, 2008; Noronha, em avançado estágio de recuperação, apresenta uma rica 1960; Knecht, 1950) biodiversidade. Também há presença de relictos de vege- Como valores históricos e culturais cabe também tação de cerrado em meio à Mata Atlântica no Pico Pelado destacar a Casa da Candinha localizada no Parque Natu- e Tanque Grande (Campo et al., no prelo). ral Municipal da Cultura Negra Sítio Casa da Candinha, Como pontos de apoio o Geoparque contará com que provavelmente corresponde a uma casa grande da o Horto Florestal (19,60 ha), que fica entre o Morro o antiga Fazenda Bananal, a presença de muros de taipa Nhanguçu e a Igreja do Bonsucesso, e o Parque Municipal de pilão, a barragem do Cabuçu que foi a primeira obra do Cabuçu (52,09 ha). em concreto armado e represa em arco do Brasil, a O Município de Guarulhos conta com grandes rodo- barragem do Tanque Grande, conhecida antigamente vias de acesso que correspondem à Presidente Dutra, como Tancão, estando à montante da lavra de ouro do Fernão Dias e Ayrton Senna, além de estradas estaduais ribeirão Tanque Grande, assim com diversas igrejas, e federais que o interligam com o resto do Estado de São sendo que às de maior relevância, e cuja criação esteve Paulo (Figura 1). Abriga, também, o Aeroporto Inter- associada ao processo de mineração de ouro, serão des- nacional do Estado de São Paulo e uma diversificada critas posteriormente. estrutura hoteleira. Futuramente haverá possibilidade da Dentro dos atrativos geoturísticos pode-se destacar interligação com São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro, o conjunto de estruturas arqueológicas da lavra do ouro através do projeto em andamento do Trem de Alta Velo- na época da colônia associados aos ribeirões das Lavras cidade (TAV). 548 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I A cidade de Guarulhos possui um área de 318,01 km2, Ayrton Senna (Figura 3). No Município de Guarulhos sendo o segundo maior município paulista em população, pode ser acessado pelas estradas secundárias Dra. Ana com mais de 1.299.283 habitantes Possui um índice de Diniz, do Cabuçu, David Correa e dos Veigas na região desenvolvimento humano (IDH) de 0,798. do Cabuçu, do Saboó na região do Tanque Grande e da Capuava, Juvenal Ponciano de Camargo, Guarulhos – LOCALIZAÇÃO Nazaré Paulista e do Morro Grande na região das Lavras e Morro Grande. O Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos está loca- Com uma extensão total de 16.900 ha, o Geoparque lizado na porção norte da Região Metropolitana de São abrange integralmente os bairros do Cabuçu de Cima, Paulo, entre os paralelos e meridianos apresentados na Tanque Grande, Capelinha, Água Azul, Mato das Cobras Figura 1. e Morro Grande e, parcialmente, os bairros do Cabuçu, Em termos regionais, a região é facilmente acessada Invernada, Bananal, Fortaleza, São João, das Lavras, através das rodovias Presidente Dutra, Fernão Dias e Bonsucesso e Sadokim. Figura 1 - Localização do Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos, em relação a Região Metropolitana e ao Estado de São Paulo, incluindo os rios, as cidades mais importantes e principais vias de acesso à cidade de Guarulhos. 549 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP MINERALIZAÇÕES DE OURO da atividade minerária ocorreu no início do século XIX como atestado pelos trabalhos de Mawe (1812) e Eschwege Na época da colônia, na antiga Capitania de São (1833a,b), durando, portanto, este primeiro ciclo de explo- Vicente, as regiões de Guarulhos, Jaraguá, Pirapora do ração do ouro no Brasil, em torno de 200 anos. Bom Jesus, Sorocaba e Paranaguá (hoje pertencente ao Uma descrição das técnicas de mineração utilizadas na Estado do Paraná) são apontadas por diversos autores lavra de ouro na região de Guarulhos pode ser encontrada como pioneiras na exploração do ouro no Brasil. Existem no trabalho de Juliani et al. (1995) (Figura 2), tendo sido controvérsias quanto às datas de descobertas destas dife- explorados principalmente aluviões, coluviões, eluviões e rentes mineralizações, mas pode-se considerar o intervalo saprólitos, destacando-se as regiões associados aos ribei- compreendido entre 1553 e 1597 como sendo o marco do rões das Lavras, Tomé Gonçalves, Tanque Grande, Gua- início do primeiro ciclo da mineração de ouro no Brasil. racaú e Baquirivu-Guaçú, mas também veios de quartzo. Entretanto, há um consenso de que nos primeiros anos do Os trabalhos de lavra provavelmente foram iniciados nos século XVII a atividade mineira estava bem estabelecida aluviões à jusante da área principal de garimpo, por serem na Província de São Paulo, constituindo importante ati- os depósitos mais ricos e mais facilmente exploráveis. vidade econômica. (Leme, 1772a,b,c; Saint-Hilaire, 1819; Posteriormente devem ter sido minerados paleo-aluviões 1851; Eschwege, 1833a,b; Andrada & Andrada e Silva, e depósitos coluvionares que requerem maior esforço e 1846; Andrada, 1847, 1882; Oliveira, 1888, 1892; Derby, técnicas mais aprimoradas, incluindo o transporte de água 1889; Calógeras, 1904; Egas, 1925; Martins, 1943; Neme, para cotas topográficas mais elevadas com relação a das 1959; Maffei & Nogueira, 1966, ente outros). O declínio respectivas drenagens associadas. Processos de laterização enriqueceram localmente paleo- -aluviões em ouro onde foram lavradas espessuras em geral superiores a 2 m, até se chegar na rocha fresca. Na sequên- cia, após o esgotamento destes minérios, foram minerados eluviões e horizontes de rocha intemperizada. Para a lavra do ouro era feito um desvio de parte da drenagem principal utilizando canais, por vezes paralelos, ou meandros abandonados, que chegava até o local da lavra, sistema que estava associado a diversas barragens. As barragens permitiam a con- centração de água em locais mais altos possibilitando o desenvol- vimento concomitante de várias frentes de lavra. Alguns destes canais possuem mais de 2 km de comprimento, sendo que em Figura 2 - encostas mais íngremes foram Estruturas arqueológicas da lavra de ouro do período colonial do Brasil, presentes no Geossítio Nascentes do Ribeirão das Lavras: valas (1,2); canais paralelos em relação à bancada de revestidos com blocos de pedras lavra (3); pequena barragem associada a área principal de escavação (4); lavra de ouro no aluvião justapostas, oriundas, princi- (5); desvio do ribeirão por meio de um canal paralelo para lavra do aluvião (6); rejeito de cascalho palmente, de veios de quartzo. (7); canal associado à baragem (8); canais paralelos e secundários (9); local de bateiamento e catação (10); bancadas de lavra (11). (Juliani et al., 1995). Em alguns canais revestidos, 550 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I provavelmente mais modernos, os blocos foram unidos metavulcânicas e metavulcanoclásticas intermediárias com argamassa. Frequentemente sistemas de canais foram a ácidas alteradas hidrotermalmente, mas também construídos em diferentes cotas, indicando o pior estado de presente em metapelitos grafitosos ou metabasitos da preservação dos canais construídos em cotas mais baixas Formação Morro da Pedra Preta. O ouro singenético que o processo da lavra de ouro avançou de cotas mais caracteristicamente associa-se a sulfetos, principalmente baixas em direção a níveis topográficos mais altos (Juliani pirrotita e pirita e, secundariamente, calcopirita, que et al., 1995). Desde o geossítio das estruturas arqueológicas tendem a concentrar-se em lâminas ou bandas paralelas do Tanque Grande até o sítio da Parede de Taipa de Pilão a S0/S2, podendo constituir mais de 10% do volume da da Reserva Legal do Loteamento Maria Clara existia um rocha. Apresenta uma granulação muito fina e teores sistema de canais posteriormente descrito. variando entre 0,06 e 11,0 ppm nas rochas metainter- A lavra de ouro era efetuada a partir da desemboca- mediárias e entre 1,5 e 13,0 ppm nos metacherts com dura do canal que trazia a água das barragens pela abertura sulfetos e/ou turmalina e óxidos de ferro (Juliani, 1993; de uma vala de até dezenas de metros de comprimento, Juliani et al., 1995; Beljavskis et al., 1993; 1999; Garda em direção ao sopé da elevação, e outra paralela ao canal et al. 2002). principal, em nível topográfico mais baixo, isolando uma Processos metamórficos e de cisalhamento foram determinada área a ser lavrada, denominada de taboleiro responsáveis pela remobilização e concentração de ouro (Figura 2). epigenético em veios de quartzo e charneiras de dobras O2 Em uma faixa de alguns metros de largura nas laterais As mineralizações epigenéticas associam-se preferencial- do canal superior que se aprofundava até a rocha alterada mente a formações ferríferas do tipo Algoma da Formação ou até a base do horizonte coluvionar, o solo mineralizado Fortaleza e a rochas metavulcanoclásticas básicas cisalha- era retirado manualmente e jogado no canal, onde se das onde constituem veios de quartzo sulfetados man- processava a retirada das frações de argila e silte. Alguns ganesíferos com espessuras alcançando até 1,5 m, quase escravos ficavam dentro do canal remexendo o material sempre intensamente deformados, podendo observar-se e retirando os seixos e blocos que eram depositados nas ocorrência de diversos episódios hidrotermais associados margens do mesmo. Quando o material do fundo do aos eventos cataclásticos (Juliani et al., 1995). Associa-se, canal estava suficientemente livre das frações finas e principalmente, a pirita e pirrotita, com teores variando muito grossas, ele era raspado com enxadas com auxílio entre 0,11 e 25,6 ppm. Muito embora os teores em ouro do fluxo de água e conduzido até uma pequena bacia feita não sejam elevados, pontualmente são verificados até 40 no canal situado no nível inferior. Neste local o material g/t (Beljavskis et al., 1993). era concentrado por bateiamento e catação. Nos elúvios e Na rochas da Formação Morro da Pedra Preta foram saprólito a lavra se desenvolveu sob a forma de bancadas reconhecidos quatro estágios de formação de sulfetos (Figura 2g). associados a mineralizações de ouro (Beljavskis et al.,1999; Knecht (1939) relaciona, no Município de Guaru- Garda et al., 2002), tendo sido caracterizados os dois lhos, três localidades mineralizadas em ouro na região primeiros estágios como associados a mineralizações das Serra do Itaberaba correspondendo a Aroeira singenéticas disseminadas e os outros dois a minerali- Chata, Fazenda Caxambú e Ribeirão das Lavras. Pos- zações epigenéticas. Valores negativos de d34S obtidos teriormente, foram caracterizadas, no Grupo Serra do para pirrotita do estágio I, variando entre −8,7 e −5,5‰, Itaberaba, mineralizações de ouro singenéticas e epige- sugerem suprimento de enxofre a partir da redução do néticas, cuja alteração intempérica e retrabalhamento sulfato presente na água do mar pela ação de bactérias e mecânico deram origem a depósitos secundários em a partir de fluidos hidrotermais vulcanogênicos exalados éluvios, colúvios e aluviões (Juliani, 1993; Beljavskis por fumarolas. Valores positivos de d34S obtidos para pir- et al., 1993, 1999; Garda et al. 2002). A mineralização rotita e pirita do estágio II, variando entre +4,5 e +7,4‰, singenética ocorre em horizontes estratigráficos bem sugere um aporte de enxofre através de diversas fontes, definidos, aflorando a maioria dos corpos mineraliza- incluindo redução termoquímica do sulfato da água do dos na interface entre as unidades vulcânica (Formação mar, lixiviação do sulfato presente na pilha de rochas Morro da Pedra Preta) e metapelítica (Formação For- vulcânicas e magmático associado às intrusões andesíticas taleza), principalmente associada a corpos de rochas a riodacíticas. 551 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Para os estágios III e IV foram obtidos valores de quais ocorrem depósitos detríticos cenozoicos e amplas d34S entre +1,0 a +3,6‰ associados a pirita, pirrotita e planícies aluviais associadas as bacias dos rios Tietê e calcopirita, molibdenita e galena sendo atribuída a fonte Paraíba do Sul. do enxofre destes dois últimos estágios à lixiviação de No cenário das unidades geomorfológicas do enxofre da pilha vulcanossedimentar por fluidos deriva- Brasil (Ross, 2006), a área do Geoparque inclui-se no dos de granitos tipo I. Macrocompartimento de Planaltos e Serras do Atlân- No Grupo Serra do Itaberaba foram reconhecidas tico Leste-Sudeste, que corresponde a uma unidade quatro ocorrências onde afloram pequenas lentes de morfoestrutural formada por cinturões orogenéticos e marunditos (Lefevre, 1958; Coutinho et al., 1982; Barbour, núcleos cristalinos arqueados cujas características são 1987; Juliani, 1993; Juliani et al., 1994; Juliani, 1977; Pérez- apresentadas na Tabela 1. -Aguilar et al. 2007; 2011), aflorando as ocorrências de Considerando as paisagens morfoclimáticas do Brasil, Itaberaba e Pico Pelado no Município de Guarulhos, sendo o Geoparque encontra-se no Domínio Morfoclimático dos que no Pico Pelado há também presença de topazitos. Mares de Morros Florestados (Ab’ Saber, 1966, 2003), cujas Os marunditos correspondem ao produto metamór- principais características observadas são: (1) predomínio fico de zonas de alteração argílica e argílica avançada que de relevo com formas mamelonadas, que se desenvolvem se desenvolveram associadas à colocação de pequenos em todos os níveis topográficos mascarando superfícies copos de andesitos a riolitos sugerindo que as minera- erosivas, níveis de pedimentação e até de terraços; (2) lizações singenéticas de ouro associadas ao Grupo Serra presença de espessos horizontes de alteração e de for- do Itaberaba são do tipo high-sulfidation, formadas no mas mamelonadas muito arredondadas em depressões ambiente submarino vulcanossedimentar da Formação intermontanas; (3) presença de depósitos coluvionares Morro da Pedra Preta, caracterizando um sistema magmá- soterrando linhas de pedra; (4) presença de planícies tico–hidrotermal (Juliani et al., 1994; Pérez-Aguilar et al., fluviais com canais meândricos constituídas por sedimen- 2007; 2011). Os protolitos dos topazitos se desenvolveram tos finos que predominam; (5) temperaturas elevadas e em partes marginais deste sistema. precipitações anuais variando acima de 1.100 mm, com períodos de chuva bem definidos nos meses de verão (que DESCRIÇÃO GERAL DO GEOPARQUE correspondem aos meses de dezembro, janeiro, fevereiro e março), alternados com períodos de menor índice de Caracterização do território do Geoparque chuva no inverno; (6) presença de florestas tropicais decí- duas e semidecíduas, associadas a enclaves de bosques de Caracterização Física do terrítório araucárias e cerrados. As principais feições geográficas associadas ao geo- A influência de ciclos morfoclimáticos de aplana- parque podem ser vistas na Figura 3. mento está presentes em grande escala na região do O território do Geoparque Ciclo do Ouro de Guaru- Planalto Atlântico. A Superfície de Aplanamento Japi lhos está inserido no contexto geomorfológico do sudeste (Moraes Rego, 1932; de Martonne, 1940; Almeida, 1964) do Estado de São Paulo, no domínio do Planalto Atlântico, é uma feição geomorfológica marcante do Sudeste do conforme primeira referência da denominação de Mon- Brasil, caracterizada pelo nivelamento dos topos das beig (1949). A compartimentação do relevo nesta região Serras do Mar e da Mantiqueira a cerca de 1200 m, evi- deve-se sobremaneira a uma estruturação geológica que denciando uma fase de erosão generalizada (peneplano), se manifesta em grande escala na definição dos contor- atuante no limite Cretáceo-Paleoceno, anterior ao início nos da costa sudeste brasileira, como em média escala na da sedimentação da Bacia de São Paulo (Riccomini et al., compartimentação de blocos estruturais com centenas 2004). de metros a alguns quilômetros de extensão, expressão A Superfície de Erosão São Paulo caracterizada na de ciclos tectônicos diversos que deformaram a crosta região de São Paulo por um nível regional na cota 800 m, terrestre (Almeida, 1964). evidenciaria uma fase de peneplanização local atuante O arranjo espacial configura a presença de blocos no limite Plioceno-Pleistoceno, coincidindo com o fecho morfoestruturais desnivelados e de depressões intermon- da sedimentação da Bacia de São Paulo (Ab’ Saber & tanas subniveladas por superfícies erosivas locais, nas Bernades, 1958). 552 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Fenômenos epigênicos e epicíclicos erosivos após o substrato (Riccomini et al., 2004), configurando eventos Plioceno, ocasionaram a formação de níveis terracea- neotectônicos que se manifestaram no final do Terciário mento fluvial a partir do entalhamento dos sedimentos da (Saadi et al., 2005). Bacia de São Paulo, que são também evidenciados em ano- Muito embora o aspecto morfoestrutural do relevo malias da drenagem instalada nesta (Ab’ Saber & Bernades do Planalto Atlântico seja um consenso, a morfogênese 1958). A Bacia foi retalhada por falhas pós-sedimentares expressa nas coberturas superficiais é objeto de interpre- que causaram soerguimentos e abatimentos locais de seu tações variadas, prevalecendo o modelo da alternância Figura 3 - Área do Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos mostrando geossítios associados, suas principais serras (Pirucaia, Bananal e Itaberaba), bairros (Cabuçu, Tanque Grande, Capelinha, Bonsucesso e Morro Grande) e córregos. Tabela 1 - Características geomorfológicas dos Planaltos e Serras do Atlântico Leste-Sudeste (Ross, 2006). Formas de relevo Altitude (m) Litologias Solos Serras e morros alongados – 900 - 1400 - Gnaisses, migmatitos, micaxistos, filitos, Neossolos litólicos Relevo montanhoso-Batólitos 2600 quartzitos, granitóides. Neossolos câmbicos Argissolos vermelhos Escarpas estruturais/falhas e superfícies 800 - 900 Granitos, sienitos, fonolitos, Afloramentos rochosos de morros de topos convexos calcários, mármores Latossolos vermelho-amarelos Depressões tectônicas cenozóicas 600 - 800 arenitos, argilitos, cascalhos e folhelhos Latossolos vermelho-amarelos 553 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP de fases de morfogênese úmida e seca, cuja principal evidência seria a ocorrência generalizada de pedimentos ou stone lines no território paulista (Ab’ Saber, 1962; 1971; 1979). O Planalto Atlântico no Geo- parque é representado de forma predominante pela subzona conhecida como Serrania de São Roque (Ponçano et al.,1981), que se estende numa faixa sudoeste- -nordeste localizada à norte da Falha do Jaguari, onde se definem as Serras da Pirucaia, do Bananal e do Itaberaba e o conjunto de morros ao seu redor. Essa é a região das cabeceiras das drenagens formadoras do cór- rego Cabuçu de Cima, ribeirão das Lavras e córrego do Jaguari, entre outras, que se dirigem para sul. Associa-se à sudeste desta, uma faixa restrita da zubzona de Morros Cristalinos. O Planalto Paulistano é outra zubzona que se estende à sul da Figura 4 - Mapa hipsométrico mostrando as principais feições morfológicas da área do geoparque e Falha do Jaguari, definido na arredores, assim como localização dos perfis morfológicos A-B e C-D detalhados na Figura 5. A linha porção sul do Geoparque o relevo branca tracejada delimita a área do geoparque (elaborado no Laboratório de Geoprocessamento formado por morrotes cristalinos – UnG). que rapidamente passam para as Colinas de São Paulo (Ponçano et al.,1981), localizados na margem direita do córrego Baquirivu-Guaçú e na margem esquerda do rio do Jaguari, níveis de base locais do setor leste do Geoparque. O mapa hipsométrico (Figura 4) e os perfis topográ- ficos (Figura 5) permitem observar como se organiza essa compartimentação regional do relevo no Geoparque. Os sistemas de relevo reconhecidos do Geoparque base- ado em Ponçano et al. (1981), são apresentados na Tabela 2. O Geoparque abrange uma porção do divisor regional das bacias hidrográficas do Tietê e do Paraíba do Sul, na região conhecida como Alto de Arujá. Localmente, essas bacias estão representadas pelas sub-bacias do córrego Baquirivu-Guaçú e do rio Jaguari, respectivamente. As Figura 5 - Perfis morfológicos A-B e C-D do mapa hipsométrico, corres- feições geomorfológicas mais notáveis no Geoparque são pondendo o primeiro ao trecho entre a serra da Pirucaia e o rio Tietê e, o segundo, ao trecho entre a serra do Itaberaba e o rio Tietê, em apresentados na Tabela 3. Guarulhos (elaborado no Laboratório de Geoprocessamento – UnG). 554 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Tabela 2 - Sistemas de relevo presentes no Geoparque Ciclo do Ouro, baseado em Ponçano et al. (1981). Relevo de planícies – predominam declividades muito baixas, abaixo de 5% Planícies aluviais Terrenos baixos e mais ou menos planos, junto às margens de rios, sujeitos periodicamente a inundações Relevo colinoso – predominam baixas declividades de até 15% e amplitudes locais inferiores a 100 metros Colinas pequenas Predominam interflúvios sem orientação, com área inferior a 1Km 2, topos aplainados a arredondados, vertentes com espigões locais ravinadas com perfis convexos a retilíneos. Drenagem de média a baixa densidade, padrão subparalelo à dendrítico, vales fechados, planícies aluviais interiores restritas Relevo de morrotes – predominam declividades médias a altas, acima de 15%, e amplitudes locais inferiores a 100 metros Relevo ondulado, onde predominam amplitudes locais menores que 50 metros. Topos arredondados, vertentes Morrotes baixos com perfis convexos a retilíneos. Drenagem de alta densidade, padrão em treliça, vales fechados a abertos, planícies aluviais interiores restritas. Presença eventual de colinas nas cabeceiras dos cursos d’água principais Relevo de morros – predominam declividades médias a altas, acima de 15%, e amplitudes locais de 100 a 300 metros Morros paralelos Topos arredondados, vertentes com perfis retilíneos a convexos. Drenagem de alta densidade, padrão em treliça a localmente sub-dendrítica, vales fechados a abertos, planícies aluvionares interiores restritas Morros com serras restritas Morros de topos arredondados, vertentes com perfis retilíneos, por vezes abruptas, presença de serras restritas. Drenagem de alta densidade, padrão dendrítico a pinulado, vales fechados, planícies aluvionares interiores restritas Relevo montanhoso – predominam declividades médias a altas, acima de 15% e amplitudes locais acima de 300 metros Serras alongadas Topos angulosos, vertentes ravinadas com perfis retilíneos, por vezes abruptas. Drenagem de alta densidade, padrão paralelo pinulado, vales fechados Tabela 3 - Feições geomorfológicas mais notáveis do Geoparque A rigor, a região de morros e montanhas situada na Ciclo do Ouro. porção norte do Geoparque, que se desenvolve numa faixa de orientação sudoeste-nordeste, implicou na permanên- Bacia Feição Altitude (metros) cia de expressivas áreas com vegetação nativa, muitas delas Serra do Itaberaba 1.422 hoje sob incidência de unidades de conservação e áreas de Paraíba do Sul Serra da Onça 1.004 proteção aos mananciais. Outras áreas rurais se formaram Depressão do rio Jaguari 662 com atividades agrícolas restritas, havendo certa expansão da silvicultura de eucaliptos, e da mineração de brita e Serra da Pirucaia 1.184 areia, especialmente. Serra do Bananal 1.125 A partir da década de 60, alguns loteamentos de chá- Alto Tietê Morro do Nhanguçu 991 caras foram implantados na região de morros do Cabuçu Pico Pelado 914 e Tanque Grande (Andrade, 2009). Hoje, boa parte deles Foz do ribeirão das Lavras 750 transformou-se em áreas de expansão urbana adensadas como são o Recreio São Jorge, as Chácaras Cabuçu e o A área do Geoparque apresenta tipos de uso do solo Novo Recreio, com sérios conflitos de ocupação em áreas diversificados resultantes de uma dinâmica territorial inadequadas e efeitos negativos sobre os remanescentes complexa que se deu em diferentes ciclos e processos. naturais de floresta. Algumas tentativas de urbanização Seu histórico remonta a fase de colonização do planalto sobre morros através de obras de terra de grande porte se paulistano iniciada no século XVI, passa pelo período deram ainda na implantação dos loteamentos Jd. Fortaleza de intensa metropolização a partir de meados do século e Pq. Continental. XX e, atualmente, observa-se a tendência de conurbação Por outro lado, a região de colinas e morrotes situada com outras regiões, a multiplicação e intensificação de na porção sudeste do Geoparque, apresenta uma urbani- eixos estruturadores, a propagação de uma urbanização zação em evidente evolução nos bairros das Lavras, São periférica e o isolamento de áreas naturais e rurais. João, Bonsucesso e Sadokim. Com uma topografia e um 555 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP substrato geológico mais favorável, este trecho do Geo- com florestas em praticamente ¾ do Geoparque. Esse fato parque possui aptidão ao assentamento urbano (Andrade, atribui uma evidente vocação para conservação ambien- 1999) o que viabiliza as tendências atuais de ocupação. tal e atividades de manejo ecológico-econômico para o Em virtude de certo distanciamento da região central de Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos. Guarulhos que retardaram a expansão urbana, observa- O geoparque abrange dentro do seu perímetro -se atualmente uma situação heterogênea em relação ao diversas unidades de conservação, segundo critérios uso do solo, havendo áreas agrícolas em meio e ao redor estabelecidos pelo Sistema Nacional de Unidades de dos focos urbanos. Conservação (SNUC) (Lei Federal 9985/00), abrangendo A Figura 6 apresenta um gráfico sobre a situação de parcialmente uma unidade federal e duas unidades uso do solo que revela a predominância de áreas naturais Tabela 4 - Unidades de Conservação presentes no Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos, segundo critérios do SNUC. Categoria Denominação da Unidade Parque Estadual da Cantareira Parque Estadual de Itaberaba Unidade de conservação Parque Natural Municipal da Cultura de proteção integral Negra Sítio da Candinha Reserva Biológica Burle Marx Reserva Ecológica Municipal do Tanque Grande Área de Proteção Ambiental do Paraíba Do Sul Unidade de conservação Figura 6 - Gráfico da situação do uso do solo no Geoparque Ciclo do de uso sustentável Área de Proteção Ambiental Cabuçu – Tanque Grande Ouro. (Elaborado a partir de Oliveira et al. (2009), com base em imagens Ikonos de março de 2007). Floresta Estadual de Guarulhos Figura 7 - Localização do Geoparque Ciclo do Ouro (área tracejada) no Município de Guarulhos, mostrando as unidades de conservação parcial e totalmente abrangidas por ele, assim como os sítios histórico-culturais associados. 556 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I estaduais e, integralmente, uma unidade estadual e qua- são cortadas por granitóides sin- a pós-colisionais com tro municipais (Tabela 4; Figura 7), inseridas dentro da idades do neoproterozoico ao Cambriano e por zonas de Reserva da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da cisalhamento em direção NE-SW, destacando-se as de Cidade de São Paulo (RBCV) (Rodrigues et al., 2006). Jundiuvira e do Jaguari. Estas unidades de conservação serão descritas no item As rochas sedimentares da Bacia de São Paulo fazem medidas de proteção. Inclui, também, todas as três áreas parte do Rift Continental do Sudeste Brasileiro (Ricco- de proteção aos mananciais de Guarulhos previstas na Lei mini, 1989) e compõem o Grupo Taubaté, que inclui Estadual 898/75 que são as do Cabuçu, Tanque Grande as formações Resende (depósitos de sistemas de leques e do Jaguari. aluviais e de rios entrelaçados), Tremembé (depósitos de sistemas lacustres) e São Paulo (depósitos de sistemas Caracterização Geológica Regional de rios meandrantes). Na porção sul do Município de A área do geoparque está localizada no segmento Guarulhos aflora a Formação Resende, representada por central da Faixa Ribeira (Almeida et al., 1973). conglomerados de leques aluviais, com leitos de arenitos O Município de Guarulhos possui dois comparti- grossos a finos, siltitos argilosos, lamitos e argilitos lacus- mentos geológicos maiores aflorando, ao norte da falha tres e lamitos seixosos de leques proximais. Os sedimentos do Jaguari, predominantemente, rochas pré-cambrianas quaternários estão constituídos por aluviões com casca- e, ao sul, essencialmente rochas sedimentares do Terciário lheiras, leitos arenosos, siltosos e argilosos (Juliani et al., e aluviões do Quaternário (Almeida et al. 1981) (Figura no prelo a, b). 8), estando a maior parte da área do Geoparque Ciclo do Ouro inserida no compartimento superior (Figuras 8, 9). GEOLOGIA DO GEOPARQUE As rochas pré-cambrianas fazem parte do Grupo do Itaberaba, Mesoproterozoico, representado por uma sequ- No Grupo Serra do Itaberaba afloram, da base para ência metavulcanossedimentar, parcialmente recoberta o topo, as formações Morro da Pedra Preta, Jardim pelo Grupo São Roque, Neoproterozoico, predominan- Fortaleza, Nhanguçu e Pirucaia (Juliani et al., no prelo temente metassedimentar (Juliani et al., 2000; Juliani & a, b) (Figura 9). A Formação Morro da Pedra Preta está Beljavskis, 1995; hackspacher et al., 1999. estas unidades composta por metabasitos de dorsais oceânicas do tipo N-MOR, havendo presença de lavas almofadadas metamorfisa- das, rochas metavulcanoclásticas, metatufos, metassedimentos tufí- ticos, rochas calciossilicáticas e, subordinadamente rochas com cummingtonita/antofilita, marun- ditos e topazitos. A Formação Jardim Fortaleza está constituída por metapelitos, xistos grafitosos, xistos ricos em sulfeto, rochas cal- ciossilicáticas, metassedimentos tufíticos, formações ferríferas do tipo Algoma, turmalinitos e alguns corpos de metabasitos e metatu- fos. A Formação Nhanguçu está composta por xistos ferro-manga- nesíferos, xistos calciossilicáticos e pequenas lentes de metabasaltos, Figura 8 - metatufos e mármores, capeados Contexto geológico regional do Grupo Serra do Itaberaba (segundo Sachs & Morais, 1999, baseado em Perrotta et al., 2005). Em branco, área do geoparque. por andalusita-clorita xistos. Na 557 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Figura 9 - Contexto geológico da área do Geoparque (Segundo Juliani et al., no prelo a, b). (Elaborado no Laboratório de Geoprocessamento – UnG). Formação Pirucaia predominam quartzitos quase puros iniciou-se um processo de subducção de crosta oceânica com presença de leitos de quartzitos feldpsáticos que entrando por baixo de crosta oceânica, gerando-se uma exibem contatos gradacionais a relativamente bruscos bacia de retro-arco. Como conseqüência, na parte superior com xistos quartzosos (muscovita-biotita-quartzo xistos da Formação Morro da Pedra Preta houve a colocação e muscovita-quartzo xistos) xistos micáceos e xistos con- de pequenos corpos de andesitos, dacitos, riodacitos e glomeráticos (com grânulos e pequenos seixos arredon- riolitos, possuindo formas de pequenos domos, rodeados dados de quartzo, com até 1,5 cm de diâmetro) que têm por brechas vulcânicas e tufos, associados aos quais se passagem, por granodecrescência, para metassiltitos com desenvolveram paleo-sistemas hidrotermais (Juliani, 1993; contribuição pelítica. Corpos de metassedimentos quart- Pérez-Aguilar, 1996, 2001; Pérez-Aguilar et al., 2000, 2005, zosos rítmicos ocorrem posicionados estratigraficamente 2011). Geneticamente associadas a estes paleo-sistemas sobre derrames de rochas básicas metamorfisadas. hidrotermais houve processos mineralizantes em ouro Nas partes mais profundas da bacia foram depositados (Juliani, 1993, Beljavskis et al.1993; 1999, Garda et al. os metabasitos e rochas associadas da Formação Morro 2002, Pérez-Aguilar et al., 2011) (Figura 10). da Pedra Preta como conseqüência da abertura de um Estes paleo-sistemas hidrotermais foram res- oceano durante o Mesoproterozoico. Posteriormente, ponsáveis pela formação de extensas zonas de alte- devido à atuação de um regime de esforços compressivos ração clorítica (ZC1; rochas com cummingtonita/ 558 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Também geneticamente associados aos paleo-sistemas hidrotermais são encontra- das granada-anfibolitos, metapelitos ferro– manganesíferos, metapelitos grafitosos e/ou ricos em sulfetos, assim como os produtos metamórficos de zonas carbonatizadas, potassificadas e silicificadas (Juliani, 1993; Pérez-Aguilar, 1996; 2001; Garda et al. 2003; 2009; Pérez-Aguilar et al., 2005). A variedade de rochas associados à ativi- dade hidrotermal-exalativa reflete o processo de evolução físico–química dos fluidos de paleo-sistemas hidrotermais mesoprote- rozoicos de longa duração numa bacia de retro-arco, mostrando a importância destes litotipos no modelamento metalogenético de paleo-sistemas hidrotermais em sequên- cias vulcano-sedimentares metamorfisadas em grau médio (Pérez-Aguilar, 1996, 2001; Pérez-Aguilar et al. 2005, 2007a,b; 2011). A atividade vulcânica exalativa que teve lugar neste oceano deixou seus maiores regis- tros nas rochas que compõem a Formação Jardim Fortaleza, estando associado à gênese das formações ferríferas do tipo Algoma e turmalinitos (Juliani, 1993; Garda et al., 2003; 2009). A um progressivo fechamento da bacia de retro-arco associa-se a deposição dos sedimentos da Formação Nhanguçu, havendo grande aporte de material provindo do continente em profundidades progressi- vamente menores da lâmina de água. Nas partes mais rasas e marginais desta bacia de retro-arco foram depositados os metassedi- Figura 10 - Esquema evolutivo dos grupos Serra do Itaberaba (GSI) e São Roque (GSR), mentos da Formação Pirucaia, sendo inter- modifi cado de Juliani (1993). pretados os ritmitos como correspondendo a metaturbiditos. antofilita) cortadas por um segundo evento de alteração As rochas deste grupo foram afetadas por dois clorítica (ZC2; clorititos) e por zonas de alteração argí- eventos metamórficos regionais progressivos de grau lica e argílica avançada (marunditos e topazitos)(Pérez- médio com trajetórias horárias. O primeiro deles ocorreu Aguilar, 1996; 2001; Pérez-Aguilar et al., 2005, 2007, 2011), durante o Mesoproterozoico caracterizando um evento semelhantes àquelas presentes nos depósitos de metais de de pressão intermediária (tipo Barrowiano) (490 – 650 base hospedados em rochas vulcânicas do tipo Kuroko ou oC; 4 – 7 kbar) e o segundo, durante o Neoprotero- volcanic-hosted massive sulfide (VHMS) (Franklin et al. zoico, caracterizando um evento de baixa pressão (tipo 1981; e.g. Franklin, 1993; Ohmoto, 1996; Shikazono, 2003, Abukuma) (500 – 580 oC; 4 – 4.7 kbar). Posteriormente, assim como por mineralizações de ouro (Juliani, 1993; as rochas foram afetadas por um evento retrometamór- Beljavskis et al., 1993; 1999; Garda et al., 2002). fico de baixo grau. A estes eventos estão associados o 559 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP desenvolvimento das foliações S , S e S (Juliani et al., Juliani (2004a, 2004b) considerou que o Grupo São 1 2 3 1997; 2004a, b). Roque foi afetado por metamorfismo de fácies xisto-verde O Grupo São Roque é formado, da base para o de baixa pressão (tipo Abukuma), localmente alcançando topo, pelas formações Pirapora do Bom Jesus (filitos um grau metamórfico mais elevado devido à ação termal carbonáticos com intercalações de filitos sericítico, de rochas granitóides nele intrusivas. As trajetórias meta- grafitosos e manganesíferos e metabasitos), Morro Doce mórficas dos minerais da S1 do grupo, segundo esse autor, (metaconglomerados polimíticos, metarcóseos e filitos), acoplam-se perfeitamente com a evolução horária do evento Boturuna (quartzitos e metarenitos feldspáticos), Estrada registrado pela S2 do Grupo Serra do Itaberaba, indicando dos Romeiros (metarritmitos) e Jordanésia (filitos seri- que o mesmo evento afetou ambos os grupos, mas com o cíticos, cloríticos e carbonáticos, metarritmitos, filitos Grupo São Roque situado em níveis crustais mais rasos, o grafitosos e metabasitos e metassedimentos tufíticos que é atestado por discordâncias erosivas locais. subordinados. O Grupo São Roque aflora de forma res- trita no Município de Guarulhos aflorando no nordeste SÍTIOS GEOLÓGICOS SELECIONADOS da área do Geoparque somente metarritmitos da Estrada dos Romeiros. Os limites com o Grupo Serra do Itabe- Os geossítios serão descritos seguindo o seu agrupamento raba são dados por falhas transcorrentes e de empurrão nas quatro áreas maiores citadas na introdução: Cabuçu, (Juliani et al., no prelo a, b). Bananal, Bairro das Lavras, Nhanguçu e Serra do Itaberaba. Tabela 5 - Geossítios do Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos, SP. Nr. Nome/descrição curta valor científico Inf. adicionais 1 Mirante da Serra da Pirucaia/ mirante Geom Mir/Gtur/Edu/Cien/Pmet/PE/Fb 2 Metavulcanoclásticas da Barragem Cabuçu Pmet/Tect Gtur/Edu/PE/Fm 3 Marundito do Pico Pelado/ rochas formadas por margarita ± coríndon ± muscovita ± rutilo e por topázio ± rutilo. Met/Econ/Pmet/Min/Tec/Mir Int/Cien/Geom/Gtur/Edu/MN/Ouc/Fb 4 Metapelito do Novo Recreio/dobras isoclinais e falhas Met/Tec/Min Reg-Loc/Edu/Tect/Ouc/Fm 5 Formação Ferrífera do Tanque Grande formações ferríferas do tipo Algoma com magnetita xistos, anfibolito Mn xistos e metacherts. Met/Pmet/Min Reg-Loc/Cien/Edu/Gtur/Ouc/Fm 6 Estruturas Arqueológicas do Tanque Grande/antiga mina de ouro. Arqm/Met/Pmet Int/Ouc/Gtur/Edu/Fa 7 Estruturas Arqueológicas do Fortaleza/antiga mina de ouro. Arqm/Met/Pmet Int/Gtur/Edu/Fa 8 Estruturas Arqueológicas do Seminário Imaculada Conceição/antiga mina de ouro Arqm/Met/Pmet/Sed Loc/Gtur/ Edu/Fa 9 Estruturas Arqueológicas do Jardim Hanna/antiga mina de ouro. Arqm/Met/Sed Int/Gtur/Edu/Fa 10 Estruturas Arqueológicas das Nascentes do Ribeirão das Lavras/antiga mina de ouro. Arqm/Met/Pmet Int/Ouc/Gtur/Edu/Fa 11 Mirante do Nhanguçu/mirante Geom/Pmet/Min Mir/Reg-Loc/Gtur/Edu/Fb 12 Mirante Serra do Itaberaba/mirante Geom/Pig/Min Mir/Reg-Loc/Gtur/Edu/PE/Ouc 13 Rochas com Cummingtonita/Antofilita/rochas com cummingtonita/antofilita ± cordierita ± granada ± quartzo Met/Pmet/Min Reg-Loc/Edu/Cien/PE/Ouc/Fb 14 Estruturas Arqueológicas do ribeirão Tomé Gonçalves /antiga mina de ouro com cotas de pedro Arqm/Met/Pmet Int/Ouc/Gtur/Edu/Fa ABREvIATURAS USADAS: Interesse Científico: Geomorfologia: Geom / Metalogenia: Met / Mineralogia: Min / Petrologia ígnea: Ig / Petrologia metamórfica: Pmet / Sedimentologia: Sed / Tectônica: Tect Relevância: Internacional: Int / Nacional: Nac / Regional/Local: Reg-Loc Uso Potencial: Educação: Edu / Geoturismo: Gtur / Ciência: Cien / Economia: Econ Estado de Proteção: Monumento Natural: MN / Parque Estadual: PE / Outra Unidade Conservação: Ouc Fragilidade: Alta: Fa / Média: Fm / Baixa: Fb Outras Informações: Mirante: Mir / Arqueologia mineira: Arqm 560 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I ÁREA CABUÇU o processo de formação de rochas metavulcanoclásticas, onde a variação de composição se deve ao maior ou GEOSSÍTIO N° 1: MIRANTE DA SERRA menor aporte de material vulcânico ou terrígeno em uma DA PIRUCAIA bacia oceânica, assim como para exemplificar processos de fusão (veios de quartzo) formados como resposta Latitude: 23°21’41,797”S Longitude: 46°31’51,423”W aos processos metamórficos e deformacionais. Ao valor Altitude: 1172 m didático deste afloramento junta-se o valor histórico da barragem de Cabuçu que foi a primeira barragem em Esta serra limita o Município de Guarulhos ao noro- concreto armado e em arco do Brasil, a qual entrou em este com o Município de Mairiporã, estabelecendo o limite funcionamento em 1908, em conjunto com o sistema de norte do Parque Estadual da Cantareira em Guarulhos adutora, para abastecer água para a cidade de São Paulo, (Núcleo Cabuçu). Está composta essencialmente por no início do processo de industrialização (Oliveira et al., quartzitos e por xistos quartzosos que afloram por até 2008). Possui três trilhas de ecoturismo implantadas em dezenas de metros, já explorados com fins econômicos Mata Atlântica, associadas à represa do Cabuçu e cacho- (Knecht, 1950). Estas rochas correspondem ao produto eiras, podendo ser acessada a serra da Pirucaia. (Figuras metamórfico de sedimentos depositados na borda da 11c, 11d, 11e, 11f). bacia. O acesso à serra se dá por trilhas em Mata Atlântica e possui o visitado Morro do Sabão. Do topo deste mirante GEOSSÍTIO N° 3: MARUNDITO DO PICO PELADO é possível avistar, no sentido sul, o Parque Estadual da Cantareira, o Pico Pelado a seguir descrito, a barragem do Latitude: 23°24’56,748”S Longitude: 46°31’46,513”W Cabuçu, o avanço da área urbana do bairro do Cabuçu, Altitude: 914 m a região central de Guarulhos e, parcialmente, a Cidade de São Paulo e, no sentido norte, a Mata Fria na Serra da Este geossítio está localizado no morro do Pico Pelado, Cantareira. No cume da serra existe uma trilha que segue constituindo, também, um mirante natural. Afloram duas o trajeto do antigo caminho da Repartição de Águas (Ins- lentes de marunditos e topazitos, possuindo a maior delas tituto Geológico e Geográfico, 1938). Constitui um divisor uma espessura de aproximadamente 60 m. Afloramentos das águas dos ribeirões Barrocada e Cabuçu de Cima que in situ, de alguns metros de comprimento, estão associados desembocam no rio Cabuçu (Figuras 11a, 11b). a matacões e blocos dispersos. Os marunditos possuem cor azul escura, granulação variando de fina a grossa, GEOSSÍTIO N° 2: ROChAS METAvULCANOCLÁS- possuindo alguns exemplares minerais de coríndon de TICAS DA BARRAGEM CABUÇU aproximadamente 1 cm de diâmetro. Os topazitos apresen- tam granulação muito fina e cores variando entre marrom Latitude: 23°24’03,365”S Longitude: 46°31’56,467”W (quando muito ricos em rutilo) e branca. Há abundância Altitude: 767 m de veios tardios compostos essencialmente por coríndon ± rutilo ou por muscovita ± margarita. A sua importância Há presença do produto intempérico de rochas meta- didática reside em representarem o produto metamórfico vulcanoclásticas, onde se observa alternância de leitos de rochas afetadas por processos hidrotermais-metasso- centimétricos até métricos compostos essencialmente máticos que mudaram a composição original de protolitos por rochas metabásicas e por metatufos e, secundaria- ígneos e vulcanoclásticos e geraram zonas de alteração mente, por metatufitos e metapelitos grafitosos. Todo o argílica e argílica avançada, pré-eventos metamórficos pacote encontra-se intemperizado. Perto da ombreira da associados a processos mineralizantes em ouro (Figuras barragem uma foliação milonítica Sm N320/90 corta este 12a, 12b, 12c). pacote de rochas. Há presença de metavulcanoclásticas Estas lentes estão associadas a pequenos corpos de silicificadas devido ao aporte de sílica durante o processo sericita-xistos e sericita-quartzo xistos que apresentam de cisalhamento. Observa-se, também, um sistema de dobras fechadas D2 associadas à geração de uma foliação juntas tardias e veios de quartzo de até 40 cm de lar- de crenulação S 2 que exemplificam processos metamórfi- gura. Este geossítio serve para explicar, didaticamente, cos causados por processos de compressão crustal. Estão 561 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Figura 11 - Aspectos da Serra da Pirucaia do geossíto 01(A e B); aspectos das rochas metavulcanoclásticas do Geossítio 02, observando-se intercalações de metatufos (vermelho alaranjado) e metabásicas (marrom claro) intemperizadas (C) e de metatufitos (vermelho) e metapelitos grafitosos (cinza avermelhado) (D); metatufos falhados e silicificados (E); barragem em concreto armado da barragem Cabuçu (F). 562 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Figura 12 - Aspecto do Geossítio 03 mostrando rochas formadas por processos hidrotermais, correspondendo a parte escura a rocha formada essencialmente por coríndon ± margarita ± rutilo (marunditos) e, a parte marrom clara, a topázio xisto (topazito) (A); detalhe de marundito (B) e de topazito (C); aspectos do Geossítio 05 mostrando afloramento de formação ferrífera do tipo Algoma (D) e detalhe de esta formação (E). 563 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP encaixadas em um pacote composto predominantemente sequências vulcanossedimentares. Corresponde ao por metatufos. Devido à proximidade da zona de cisalha- flanco inverso de uma dobra D2 com presença de veios de mento do Rio Jaguari muitas destas rochas apresentam quartzo. Predomina a alternância de camadas desde mili- uma foliação milonítica Sm, muito didática para expli- métricas até centimétricas da fácies silicato, compostas car processos de moagem e recristalização provocados essencialmente por anfibólio manganesífero e granada, por grandes sistemas de falhas presentes em cinturões e de metachert. Estão presentes, de forma mais restrita, metamórficos. Pela sua mineralogia exótica representam camadas da fácies óxido compostas essencialmente por rochas-guías para a exploração de ouro em sequências magnetita e quartzo, metapelitos grafitosos, clorita xistos, metavulcanossedimentares metamorfisadas em grau além de rochas metavulcanocásticas representadas por médio (Pérez-Aguilar et al., 2011). camadas compostas essencialmente por hornblenda, plagioclásio e quartzo. Na base da seqüência (ou seja, GEOSSÍTIO N° 4: METAPELITO DO NOvO RECREIO no topo do afloramento, por ser um flanco invertido), aflora um pacote métrico de clorita-sericita xistos. Latitude: 23°24’07,241”S Longitude: 46°30’48,986”W Devido a processos intempéricos, há abundante perco- Altitude: 850 m lação de óxidos de Mn e/ou limonitização, sendo que as percolações de Mn conferem à rocha um aspecto escuro. Localizado no Bairro do Novo Recreio, este geossítio Predomina uma foliação milonítica Sm, havendo presença mostra produto intempérico de dobras fechadas D2 em de boudins e dobras intrafoliais S2. Didaticamente, serve metapelitos de granulação muito fina a fina, onde predo- para explicar processos de formação de minério de ferro, minam camadas centimétricas de cor marrom de metape- inversão da estratigrafia, foliação milonítica, assim como lito com intercalações de camadas cor cinza de metapelito da presença de um oceano relativamente oxidado devido grafitoso. Loclamente, as dobras são seccionadas por à abundância de Mn que confere às rochas um aspecto falhas. Estas feições geológicas possuem importância didá- preto. (Figuras 12d, 12e). tica para explicar os processos de encurtamento da crosta em zonas de colisão de placas tectônicas onde, em um GEOSSÍTIO N° 06: ESTRUTURAS primeiro momento, um menor encurtamento é respon- ARQUEOLÓGICAS DO TANQUE GRANDE sável pelo dobramento das rochas e, refletindo o avanço da deformação, se sobrepõem processos de falhamento. Latitude: 23°22’31,835”S Longitude: 46°27’25,607”W Adicionalmente, as camadas de metapelito grafitoso, no Altitude: 825 m Área: 3 ha âmbito do Grupo Serra do Itaberaba, constituem uma das rochas hospedeiras das mineralizações de ouro primário. Abrange diversos tipos de estruturas arqueológicas Este afloramento situa-se em área densamente ocupada em diferentes níveis topográficos, incluindo canais em setor de morros altos transicionando para serra, per- revestidos ou não em pedra (Figuras 13a, 13b, 13g, mitindo que sejam desenvolvidos roteiros associados a 13h), assim como um túnel e um muro de pedra seca de risco geológico (escorregamento). grande porte. As estruturas arqueológicas mais abun- dantes correspondem a antigos canais não revestidos ÁREA BANANAL que podem possuir alturas superiores a 2 m por 1 m de largura. Canais menores revestidos de pedra desem- GEOSSÍTIO N° 5: FORMAÇÃO FERRÍFERA DO bocam em uma pequena cachoeira e poço de água que TANQUE GRANDE deve ter representado uma área maior de lavagem e bateiamento de ouro. O túnel possui aproximadamente Latitude: 23°22’29,439”S Longitude: 46°27’38,741”W 20 m de comprimento e 1,60 m de altura maior, cor- Altitude: 828 m respondendo a uma estrutura associada aos processos de captação de água para a lavra de ouro (Figuras 13e, Afloramento de aproximadamente 100 m de com- 13f). Esta estrutura confirma as observações levantadas primento por 15 m de altura de uma formação ferrífera por Noronha (1960), relatando que nas proximidades do tipo Algoma, a qual tipicamente está associada a do Casarão do Bairro das Lavras, do sítio Parede de 564 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Taipa de Pilão da Reserva Legal do Loteamento Maria de uma vala de água que vinha de cotas topográficas Clara, posteriormente descrito, ainda na meia encosta maiores aos do geossítio, assim como há presença de da colina, havia um pequeno valo, por onde corria a valas laterais que chegam até o aluvião. Há predomí- água destinada à mineração, tratando-se de vestígios nio de canais não revestidos. Canais principais mais de um primitivo curso do aqueduto que se estendia por compridos de até 2,5 m de largura por 1,70 m de altura alguns quilômetros. Constitui um trabalho perfeito de estão associados a estruturas de canais em paralelo de engenharia, seguindo curvas de nível pelas encostas 90 cm de largura onde há abundantes pilhas de rejeito sinuosas dos morros, captando a água que vinha do de cascalho formando diques marginais de 1,90 m de Tanque Grande, através de uns 15 km de vala. largura. Há também presença de pequenas barragens Com relação aos afloramentos geológicos destaca-se a para armazenamento de água e bateiamento do ouro, presença de um afloramento didático, em escala métrica, assim como pilhas métricas de rejeito de cascalho e de metapelitos grafitosos que contém mineralizações de uma pequena cava na montanha. Uma concentração de ouro primário, posteriormente concentrado em charnei- ouro primário e secundário se deu devido a presença ras de dobras fechadas D2 (Figura 13i). de um intenso processo de cisalhamento que afetou, Um grande muro de pedra seca, de aproximada- também, veios de quartzo de pelo menos 80 cm de mente 50 m de comprimento e 3 m de altura, acompanha largura, formando localmente pseudotaquilito. Sua o córrego na porção próxima à represa do Tanque Grande proximidade em relação à estrada torna o local um indicando que a mesma já era utilizada como barragem sítio favorável para a visitação. (Figuras 14a, 14b, 14c, na época da colonia em processos associados à lavra de 14d, 14e, 14f, 14g). ouro (Figuras 13c, 13d). GEOSSÍTIO N° 8: ESTRUTURAS ARQUEOLÓGICAS ÁREA BAIRRO DAS LAvRAS DO SEMINÁRIO IMACULADA CONCEIÇÃO GEOSSÍTIO N° 7: ESTRUTURAS Latitude: 23°22’43,551”S Longitude: 46°26’01,749”W ARQUEOLÓGICAS DO FORTALEZA Altitude: 785 m Área: 6,31 ha Latitude: 23°23’03,104”S Longitude: 46°26’09.097”W Este geossítio abrange diversas estruturas da lavra Altitude: 815 m Área: 9,15 ha de ouro que parcialmente estão localizadas em meta- pelitos grafitosos intemperizados e, localmente, cisa- Este geossítio está localizado próximo à estrada de lhados do Grupo Serra do Itaberaba e em sedimentos rodagem que liga Guarulhos a Nazaré Paulista em uma essencialmente argilosos, localmente siltosos e com encosta de declividade suave. Neste geossítio o processo presença de seixos de até 4 por 2 cm principalmente de lavra provavelmente começou no aluvião associado de metatufo e de metatufito, correlacionáveis aos lami- ao ribeirão das Lavras e foi, posteriormente, prosse- tos proximais da Formação Resende (e.g. Riccomini, guindo em direção a cotas topográficas cada vez mais 1989). As duas unidades estão em contato através de altas. Primeiro, lavrou-se um pacote essencialmente uma falha com componente normal. Nos metapelitos composto por metapelitos grafitosos que grada para há presença de canais, alguns mostrando restos de um pacote onde predominam metatufos com lentes de paredes de pedra preservadas, que podem medir até metabásicas e metatufitos que, por sua vez, vão sendo 2 m de largura por 1,30 m de altura, diques marginais progressivamente enriquecidos em material terrígeno. formados por cascalho de quartzo de veio e áreas mais Na interface entre os metatufos e os metapelitos há pre- abertas para bateiamento do material. Nos sedimentos sença de uma frente de lavra de aproximadamente 100 terciários as estruturas se mostram mais rasas e aber- m de comprimeito no contato entre a sequência meta- tas, representando essencialmente áreas de lavagem vulcanossedimentar da Formação Morro da Pedra Preta e bateiamento. A presença de ouro nos sedimentos e a formação predominantemente metassedimentar terciários denota processos de retrabalhamento do do Jardim Fortaleza. Este constitui um dos horizontes ouro presente na sequência metavulcanossedimentar. mineralizados no Grupo Serra do Itaberaba. Há restos (Figuras 14h, 14i) 565 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Figura 13 - Aspectos do Geossítio 06 mostrando canais revestidos em pedra por onde ainda corre o rio (A, B); muro em pedra (C, D); túnel (E, F); canais não revestidos em nível topográfico mais alto (G, H) e metapelito grafitoso, rocha hospedeira de mineralização de ouro primário (I). 566 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Figura 14 - Aspectos do Geossítio 07 mostrando pequena cava na montanha (A); frente de lavra de diversos metros de altura (B); desnível gerado devido à lavra do ouro (C); sistema de canais paralelos (D, E) com cascalhos entre dois canais (E) ou amontoados no chão de área de lavagem métrica (F) ou em uma das margens de canal (G); aspectos do Geossítio 08 mostrando canais em metapelitos grafitosos localmente cisalhados (H, I). 567 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP GEOSSÍTIO N° 9: ESTRUTURAS ARQUEOLÓGICAS parte mais a jusante, conhecida como Lavras Velhas do DO JARDIM hANNA Geraldo, predominam valas, canais paralelos e secun- dários não revestidos, ou cujo revestimento foi parcial Latitude: 23°24’2,360”S Longitude: 46°25’45,046”W ou totalmente perdido, rejeitos de cascalho e lavra no Altitude: 766 m Área: 2,8 ha aluvião, associados à presença de pequenas áreas de lavagem de material, locais de bateiamento e catação Representa um antigo garimpo de ouro, atualmente e frentes de lavra preservadas (Figura 2). Nesta parte, localizado no Jardim Hanna do Bairro Bonsucesso. Possui em escavação realizada, foi encontrada uma peça de frentes de lavra, canais, áreas de lavagem e pilhas de casca- cerâmica que pode ser associada às culturas indígenas lho, predominantemente em sedimentos conglomeráticos ou negras escravizadas (Juliani et al., 1995). (Figuras de leques aluvionares proximais e, secundariamente, 15e, 15f, 15g, 15h, 15i, 15j). em sedimentos argilosos, localmente com presença de Nas proximidades há presença de restos de um mon- incipientes crostas limoníticas, com espessuras variando jolo de ferro mais moderno com parte da sua estrutura de um a dois centímetros, da Formação Resende (e.g. construída em pedra e parte em tijolo. Provavelmente Riccomini, 1989). No conglomerado há abundância deve ter substituído uma estrutura similar mais antiga. de clastos e seixos de quartzo de veio, distribuídos em Sua função era triturar essencialmente veios de qurtzo matriz arenoso-argilosa. As frentes de lavra possuem para extração de ouro. alturas de até 1,5 m e comprimento de até 5,70 m. Neste geossítio a presença de ouro denota, também, processos GEOSSÍTIO N° 11: MIRANTE DO NhANGUÇU de retrabalhamento do ouro presente na sequência meta- vulcanossedimentar. (Figuras 15a, 15b, 15c, 15d) Latitude: 23°21’13,564”S Longitude: 46°23’57,135”W Altitude: 991 m ÁREA NhANGUÇU Este mirante está formado, essencialmente, por xistos GEOSSÍTIO N° 10: ESTRUTURAS ARQUEOLÓGICAS ferro-manganesíferos com presença de pequenas lentes de DAS NASCENTES DO RIBEIRÃO DAS LAvRAS xistos calciossilicáticos, metabasaltos, metatufos e már- mores, aos quais se sobrepõem andalusita-clorita xistos. Latitude: 23°20’50,826”S Longitude: 46°24’45,454”W Constitui um divisor de águas das bacias hidrográficas Altitude: 823 m Área: 138,15 ha dos rios Paraíba do Sul e Tietê. A sua vista panorâmica permite visualizar desde as regiões serranas até a planície Corresponde à mais extensa área com presença de aluvionar do rio Tietê, passando pelas colinas terciárias estruturas arqueológicas revestidas ou não com pedra. da Bacia de São Paulo. Podem ser apreciadas as serras do Há estruturas em diferentes tipos de material, incluindo Itaberaba, Pirucaia, Bananal e, mais ao longe, a do Itapeti, aluviões, solos coluvionares, saprólito e rocha fresca. localizada no Município de Mogi das Cruzes, assim como Estão presentes estruturas de dobras fechadas em rochas os rios que compõem as cabeceiras do rio Paraíba do Sul, vulcanoclásticas básicas associadas a pequenos corpos de incluindo o rio Jaguari e seus afluentes, e o rio Baquirivu metandesitos a metariodacitos, metatufos intermediários Guaçú e seus respectivos afluentes, pertencentes, estes a ácidos e abundância de veios de quartzo mineralizados, últimos, à bacia hidrográfica do rio Tietê. associados a zonas de falha (Figuras 16a, 16b). O conjunto Um dos seus atrativos é a presença das grandes lajes de estruturas e feições geológicas associadas fornece infor- métricas de xistos in situ métricas que localmente se mações sobre os métodos da lavra de ouro no período projetam para fora do morro, conferindo ao mesmo um colonial (Figura 2). aspecto diferenciado, quando comparado com os demais Na parte mais a montante, predominam canais mirantes da região. Antigamente se fazia exploração do revestidos e pequenas lagoas que sugerem ser peque- xisto que, pela sua granulometria muito fina, se asse- nas barragens para distribuição de água para cotas melhava a uma ardósia. Atualmente é um lugar muito topográficas mais baixas. Houve desmonte em grande visitado pelos moradores do bairro Água Azul, existindo escala do saprólito e solo associado para ser lavrado. Na várias trilhas de acesso. (Figuras16c, 16d). 568 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Figura 15 - Aspectos do Geossítio 09 mostrando frente de lavra em conglomerados e argilitos da Formação Resende da Bacia de São Paulo (e.g. Riccomini, 1989) (A, B); restos de canal revestido (C); amontoado de cascalho (D); aspectos do Geossítio 10 mostrando vala recente feita para prospecção geoquímica (E); canais não revestidos (F, G); canal revestido (H); muro de pedra associado a canal maior (I); canais revestidos na parte a montante deste geossítio por onde atualmente corre o Ribeirão das Lavras (H, J). 569 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Figura 16 - Aspectos do Geossítio 10 mostrando rochas metavulcanoclásticas básicas (marrom claro) com interca- lações de camadas centimétricas de metapelito grafitoso (cinza), ambas intemperizadas e dobradas (A) associadas a metavulcanoclásticas intermediárias (parte esbranquiçada) (B); aspectos do Geossítio 11 mostrando o mirante do Nhanguçu (flecha branca) visto desde a Serra do Itaberaba (C) e lajes de andalusita-clorita xistos neste mirante (D); aspectos gerais da Serra do Itaberaba onde fica o Geossítio 12 (E); rochas metavulcanoclásticas intermediárias alteradas hidrotermalmente (F), mostrando a gradação entre rochas incipientemente alteradas (1), da zona de transição onde predomina hornblenda sobre cummingtonita e onde foram preservados restos do protolito (2) e da zona de transição onde predomina cummingtonita sobre hornblenda (3), moderadamente alterada sem granada (4SG) e com granada (4CG) e intensamente alteradas (5) (Pérez-Aguilar et al., 2007); rocha com cummingtonita + antofilita + granada + cordierita (G). 570 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I ÁREA SERRA DO ITABERABA ao produto metamórfico de extensas zonas de alteração clorítica, semelhantes àquelas associadas às minerali- No idioma Tupi-Guarani Itaberaba significa pedra zações de metais de base do tipo Kuroko (e.g. Franklin, que brilha, o que pode ser atribuído ao brilho emitido por 1993), possuindo formas de cones invertidos na Formação porções do corpo granítico quando cobertas por camadas Morro da Pedra Preta, quando reconstituída a estratigra- finas de água refletida pela luz do sol. fia, (Pérez-Aguilar, 1996, 2001; Pérez-Aguilar et al., 2000, 2005, 2007b). GEOSSÍTIO NO 12: MIRANTE SERRA DO ITABERABA Trata-se de rochas exóticas uma vez que o seu quimismo não corresponde àquele que se pode espe- Latitude: 23°17’45,464”S Longitude: 46°17’45,464”W rar, seja de rochas ígneas ou sedimentares. A sua Altitude: 1422 m mineralogia metamórfica reflete processos de altera- ção hidrotermal-metassomáticos que transformaram Este mirante é sustentado por granitóides encaixados protolitos ígneos e vulcanoclásticos, básicos e inter- em rochas metassedimentares e metavulcânicas do Grupo mediários, devido à circulação de fluidos hidrotermais Serra do Itaberaba, fazendo parte de um pequeno batólito associados à colocação de pequenos corpos ígneos com mais de 15 km de comprimento e mais de 6 km na sua com composições variando de andesitos a riodacitos porção mais larga (Juliani, 1993). Aflora como lajes, escar- (Pérez-Aguilar et al., 2005). pas e matacões, possuindo significativos remanescentes Neste geossítio estão presentes blocos e matacões in de Mata Atlântica. Predominam rochas de cor cinza clara situ destas rochas, podendo-se observar em um deles a ou escura, de granulação grossa, porfiríticas, formadas gradação de andesitos passando, progressivamente, para essencialmente por megacristais de feldspato potássico e rochas incipientemente alteradas da zona de transição de plagioclásio distribuídos em uma matriz formada por (onde coexistem dois ou mais tipos de anfibólios meta- quartzo, biotita e anfibólio. Predominam granodioritos e mórficos), menos intensamente alteradas (com e sem granitos 3a e 3b (Juliani, 1993). Uma vista geral da Serra granada) e intensamente alteradas. Destaca-se nestas do Itaberaba pode ser apreciada na Figura 16e. últimas a presença de arranjos radiados de cumming- Este mirante se destaca por ser a feição geomorfoló- tonita/antofilita e porfiroblastos de granada e cordierita gica que possui 1422 m, a maior altura de Guarulhos e da com tamanhos variando de milimétricos a centimétricos região metropolitana de São Paulo. Limita, ao norte, com (Figuras 16f, 16g). Estas rochas podem ser usadas como o Município de Nazaré Paulista. Há abundantes trilhas em guias na exploração de depósitos de metais de base do Mata Atlântica, estruturas arqueológicas, biodiversidade tipo Kuroko em seqüências vulcanossedimentares meta- e o Lago do Franco. Com um perímetro de aproximada- morfisadas em grau médio. mente 2 quilômetros, este lago foi construído para servir de área de captação de água para a fabricação de bebidas SÍTIO N° 14: ESTRUTURAS ARQUEOLÓGICAS pela Companhia de Bebidas das Américas (AMBEV). Um DO RIBEIRÃO TOMÉ GONÇALvES dos grandes atrativos do local é a vista panorâmica que inclui a represa de Atibainha, as serranias da divisa de Latitude: 23°19’50,158”S Longitude: 46°26’00,648”W São Paulo e Minas Gerais, as cidades de Guarulhos e São Altitude: 1057 m e 920 m Paulo e as cabeceiras do rio Paraíba do Sul. Foi lavrado um pacote composto essencialmente GEOSSÍTIO NO 13: ROChAS COM por metapelitos grafitosos e metatufos, e subordinada- CUMMINGTONITA/ANTOFILITA mente, por metabásicas, rochas calciossilicáticas e veios de quartzo cisalhados com Sm N77 oW/32NE, posterior- Latitude: 23°18’16,164”S Longitude: 46°22’26,607”W mente cortadas por planos de falhas tardios N60oE. Foi Altitude: 766 m lavrado ouro no solo, elúvio, e saprólito, assim como em grandes proporções de rocha fresca. Neste local a Rochas formadas essencialmente por cummingtonita/ lavra de rocha fresca deve ter-se justificado devido ao antofilita ± cordierita ± granada ± quartzo correspondem local estar nas proximidades de um centro exalativo 571 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP vulcânico e que seria responsável pela presença de ouro (Código Florestal), passando para domínio do município primário, seixos e blocos de turmalinitos pretos in situ. como área verde conforme previsto na Lei Federal 6.766 Posteriormente, o ouro primário foi retrabalhado devido de 19 de dezembro de 1979 de parcelamento do solo (Lei a processos deformacionais/metamórficos, tendo sido Lehmann). A área verde possui 44.000 m2 de Mata Atlân- concentrado abundantemente na interseção de planos tica em processo de regeneração. de falhas sobrepostos e em veios de quartzo associados Segundo Noronha (1960), no Bairro das Lavras, (Figura 17). Após a lavra de ouro em dois planos de havia uma área não lavrada de uns 8 ou 10 alqueires, falhas mais tardios, associado à presença de canais com em cuja colina, ao centro, ficava um grande edifício de até mais de 4 m e frentes de lavra de até pelo menos 20 taipa, constituindo o muro de taipa vestígio deste antigo m de altura, seguiu-se a construção de dois dutos para Casarão do Bairro das Lavras. Uns 300 m abaixo do condução de água para níveis topográficos mais baixos, casarão sede ficava uma construção menor, possivel- possuindo, respectivamente, 96 e 86m (Figura 17). Estes mente uma senzala. Numa das encostas ficava o pomar dutos foram construídos com lajes de até 1,80m x 0,70m do qual ainda subsistem jabuticabeiras centenárias, x 0,40m de comprimento, essencialmente de rocha sendo que o casarão e o pomar eram circundados por calciossilicática milonitizada. A geometria de ambos os um alto muro de taipa. Neste local também foi encon- dutos é semelhante, possuindo duas estruturas laterais trado um conjunto de pilão de ferro para trituração de de apoio cobertas por uma tampa, medindo a maior das quartzo de veio, semelhante ao descrito na região por extremidades 4,50m de largura x 1,20 de altura. Onde Knecht (1950), e cadinho de ferro usado no processo o chão não foi assoreado observa-se que foi também de fundição de ouro. revestido com a mesma rocha. (Figuras 17a, 17b, 17c, 17d, 17e, 17f, 17g, 17h) Sítio N° 3: igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos SÍTIOS hISTÓRICO-CULTURAIS SELECIONADOS Os sítios 3 e 4 não estão inclusos na área delimitada para o geoparque, mas foram aqui incluídos devido à sua Sítio N° 1: Casa da Candinha importância histórico-cultural. A Casa da Candinha e arredores faziam parte da antiga O sitio 3 corresponde à Paróquia da Freguesia de fazenda Bananal, tendo como antigos proprietários Cân- Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, criada em dida Rodrigues Barbosa, que deu nome ao sítio, e Olegário 1685, incluindo as capelas de Nossa Senhora do Rosário Rodrigues Barbosa. Está situada no Bairro do Bananal, Mãe dos Homens Pretos e São Benedito, Nossa Senhora possuindo 117.000 m2 que abrigam um casarão construído do Bom Sucesso e São Benedito dos Homens Pretos. em taipa de pilão, provavelmente do século XIX, que pode Esta igreja e capelas associadas estavam localizadas na ter possuído, nos seus porões, uma senzala. Tem treze Estrada Geral e em ramais que interligavam as lavras cômodos, um deles abrigando um oratório com objetos de ouro. A Paróquia localizava-se no espaço da aldeia religiosos feitos em barro (Guarulhos (SP)/Prefeitura, de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos, hoje 2008a), sendo uma das poucas construções remanescentes conhecida como Praça Teresa Cristina do centro da do período escravagista na região metropolitana de São cidade de Guarulhos. Foi construída em taipa de pilão, Paulo, preservando a sua originalidade (Omar, 2008). tendo sofrido várias reformas incluindo ampliação e Servirá como ponto de apoio para a visitação da porção troca do material original por paredes de tijolo, predo- superior da Serra do Bananal, através de trilhas, onde minando o estilo arquitetônico colonial-barroco. Na afloram formações ferríferas do tipo Algoma contidas no época da colônia havia uma separação de espaços des- Parque Estadual de Itaberaba, além de permitir a visuali- tinados para os cultos religiosos católicos dos homens zação dos diferentes padrões geomorfológicos associados bons da terra e dos índios e negros escravizados. Eram a esta serra. considerados homens bons da terra os católicos donos de grandes fazendas com alto poder aquisitivo. Devido Sítio N° 2: Parede de taipa de Pilão a isto, esta igreja era somente freqüentada pelos homens Está localizado na Reserva Legal do Loteamento Maria brancos, tendo também sido utilizada como cemitério Clara, segundo estabelecido pela Lei Federal 4771/65 (Porta, 2005). 572 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Figura 17 - Aspectos do Geossítio 14 mostrando dutos para condução de água feitos com lajes e fragmentos de rocha cálcio-silicática, mostrando entrada e saída de duto maior (A, C) e seus respectivos interiores (B, D), assim como detalhe de chão também forrado em lajes (D) e aspecto de sua estrutura externa (E); entrada de duto menor (F); turmalinito associado a veio de quartzo (G); pacote de metapelito grafitoso, metatufo, metachert e veios de quartzo cisalhados (H). 573 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Sítio N° 4: Capela de Nossa Senhora do Rosário Mãe dos depositados nas imediações da Paróquia e capela Homens Pretos e São Benedito associada. Estes ritos religiosos são realizados desde Foi construída em taipa de pilão, estando localizada 1741, tendo sido incorporadas diversas manifestações inicialmente em frente à igreja de Nossa Senhora da populares, incluindo folias de reis, congadas, moçam- Conceição dos Guarulhos, sendo freqüentada somente biques, violeiros e cantadores (Omar, 2008). Estas cele- pelos escravos negros e utilizada como cemitério. Por brações surgiram entre índios e negros escravizados, volta de 1930 esta igreja foi demolida e reconstruída em constituindo expressões do catolicismo popular que só outro local, atual Praça do Rosário, distante aproxima- recentemente foram incorporadas, oficialmente, pelo damente 150 m da antiga igreja, mantendo, entretanto, calendário católico. (Pinheiro, 2004). o mesmo nome. Em 1950, quando da reforma da Praça Conselheiro Crispiniano, atual calçadão da rua Dom Sítio N° 6: Capela do Nosso Senhor do Bom Jesus da Pedro II, foram encontradas ossadas humanas do antigo Capelinha cemitério associado a esta capela, as quais foram iden- Está localizada no quilômetro 36 da estrada tificadas como sendo daomeanos, conhecidos no Brasil Guarulhos-Nazaré Paulista, conhecida como antiga por gegês, integrantes da cultura sudanesa, exemplares estrada das Catas Velhas, a aproximadamente 2 km do dos mais altos africanos que o Brasil recebeu (Noronha, Geossítio das Nascentes do Ribeirão das Lavras, tendo 1960). sido construída em 1942 (Knecht, 1950; Elmir, 2008). A devoção do Senhor do Bom Jesus foi herdada da tradição Sítio N° 5: igreja de Nossa Senhora de Bonsucesso medieval portuguesa, encontrando no Brasil um terreno Está localizada na Praça Nossa Senhora de Bonsu- igualmente acolhedor, relembrando o Senhor das Dores, cesso, Bairro do Bonsucesso. A capela de Nossa Senhora cujos sofrimentos se manifestaram na sua condenação do Bonsucesso, atualmente Paróquia e Santuário, foi cons- e morte na cruz. Tanto os indígenas como os negros se truída em taipa de pilão no século XIX, em substituição à identificaram com a imagem do Cristo sofredor (Campo antiga capela da Fazenda do Bonsucesso, sendo freqüen- et al., no prelo). tada apenas pelos homens brancos. Nas proximidades foi construída a capela de São Benedito dos Homens Pretos Sítio N° 7: igreja do Senhor Bom Jesus da Cabeça e Santa Efigênia que era destinada ao culto religioso dos Está localizada no sopé do Geossítio Marundito do escravos. Pico Pelado, no bairro Cabuçu, onde foi edificada em A devoção de Nossa Senhora do Bonsucesso surge 1850 pelo negro Raimundo Fortes, mais conhecido por no contexto da exploração de ouro na época da colô- Mestre Raimundo. Existem diversas lendas em relação nia, sendo também invocada para interceder frente aos à origem da primeira cabeça do Bom Jesus, esculpida flagelos populares para propiciar “sucesso” nos pedidos em madeira, apontando uma delas que teria vindo da realizados e para proteção de bens terrenos (Macedo, cidade de Bom Jesus de Pirapora, aparecendo, miraculo- 2005). O início da ocupação da região do Bonsucesso samente, naquele bairro. Teria sido recolhida à Sacristia está ligado à descoberta de ouro no Ribeirão Maquirobu do Santuário, onde permaneceu até que a proprietária ou Maquirivu, atual Rio Baquirivu-Guaçu, feita por do Latifúndio Cabuçu, Dona Joaquina Fortes Rendon Geraldo Correia Sardinha, em 1612 (Benedito Prezia, de Toledo, conseguiu a sua posse para veneração em in Oliveira et al., 2010). oratório particular (Noronha, 1960). Atualmente, existe Atualmente, a Paróquia de Nossa Senhora do Bon- nesta capela somente uma imagem que é uma réplica da sucesso possui como tradição a realização do dia da cabeça original. carpição, realizada na primeira segunda feira do mês de agosto, e a festa de Nossa Senhora do Bonsucesso, MEDIDAS DE PROTEÇÃO realizada no último final de semana deste mesmo mês. O dia da carpição consiste em apanhar punhados de A área do Geoparque Ciclo do Ouro de Guarulhos, terra, considerada sagrada e curativa, que é colocada que possui 16.000,15 ha, está totalmente inserida den- em saquinhos ou lenços, considerados milagrosos, que tro da área abrangida pela RBCV – Reserva Biológica são amarrados ao corpo para, após procissão, serem do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo (Rodrigues 574 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I et al., 2006). Também está parcialmente inserida dentro 2009), sendo que a APA do Paraíba do Sul foi criada pelo das unidades de conservação dos parques estaduais da Decreto Federal nº 87.561 de 13 de setembro de 1982, Cantareira (da qual cobre 2.673,84 ha) e de Itaberaba com o objetivo de proteger as nascentes deste importante (do qual cobre 6.131,55 ha) e da área de preserva- rio, sendo considerada como de extrema importância ção ambiental (APA) Paraíba do Sul (do qual cobre biológica, englobando porções não contíguas nos estados 6.097,36 ha). Abriga, também, unidades de conser- de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O Parque vação de menor tamanho que correspondem à APA Estadual de Itaberaba se sobrepõe, parcialmente, a esta Cabuçu-Tanque Grande (3.220 ha), ao Parque Natural APA. Municipal da Cultura Negra Sítio Casa da Candinha O compromisso de preservação do setor serrano de (109,12 ha), à Floresta Estadual de Guarulhos (92,21 Guarulhos, por sua comunidade, se apóia na lei no 6.253 ha), à Estação Ecológica Municipal do Tanque Grande de 24 de maio de 2007, a qual dispõe sobre o uso e ocu- (70 ha), e à Reserva Biológica Burle Marx (19,60 ha) pação do solo no seu território, dando base legal para a (Figura 9). A associação com estas unidades de con- implantação do seu plano diretor, delimitando zonas de servação permitirá estabelecer a conectividade entre as preservação ambiental, zonas de proteção e desenvolvi- serras da Cantareira e Mantiqueira em ações voltadas mento sustentável e zona de projeto especial estratégico para a pesquisa científica, o geo/ecoturismo e projetos que abrange a APA Cabuçu-Tanque Grande. educacionais. Os mirantes da Pirucaia, Pico Pelado, Nhanguçu e A RBCV foi criada pela UNESCO em 9 de junho Serra do Itaberaba possuem proteção por estarem inse- de 1994 como sendo parte integrante da Reserva da ridos no terço superior de morros de acordo com a Lei Biosfera da Mata Atlântica, criada em 1991 e de abran- Federal 4.771/65 (Código Florestal). gência interestadual. As duas reservas da biosfera são Os geossítios Nascentes do Ribeirão das Lavras, consideradas interdependentes unindo-se por meio de Jardim Hanna, Seminário Imaculada Conceição e o sítio seus sistemas de gestão, porém mantendo identidades Parede de Taipa de Pilão encontram-se em remanescentes e focos de atuação próprios (Rodrigues et al., 2006). vegetais de Mata Atlântica, possuindo mais de 10.000 m2, É composta por diversas zonas núcleos, representadas considerados de preservação permanente pela lei muni- por várias unidades de conservação, uma reserva esta- cipal 4.566/94. dual e uma estação ecológica, e por zonas tampão que O decreto de criação do Geoparque Ciclo do Ouro visa circundam as anteriores, que correspondem a áreas preservar o patrimônio geológico para futuras gerações, de proteção de mananciais e a APAs. Os principais promovendo a conservação dos patrimônios levantados, objetivos da RBCV são a proteção e estabilização do assim como reconhecer e preservar os componentes cul- abastecimento de água, do clima e da qualidade do turais e históricos significativos na identidade e organi- ar, como também o estabelecimento de corredores zação local, promover a educação e o ensino sobre temas ecológicos para preservar a elevada biodiversidade relativos a paisagens geológicas e matérias ambientais da região. A RBCV é coordenada pelo Instituto Flo- provendo, meios de pesquisas para as geociências e asse- restal da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de gurando o desenvolvimento sustentável pelo turismo, em São Paulo (Rodrigues et al., 2006), cujo propósito harmonia com a RBCV. de desenvolvimento sustentável se harmoniza com o O envolvimento da municipalidade e da sociedade escopo do Geoparque. civil organizada de Guarulhos nas discussões de implan- O Parque Estadual da Cantareira foi criado pelo tação do Parque Estadual de Itaberaba e do Plano de Decreto Estadual nº 41.626 de 30 de janeiro de 1963, Manejo do Parque Estadual da Cantareira permitiram possuindo 7.900,00 ha, sendo que o de Itaberaba foi incorporar, dentro e na zona de amortecimento destes criado pelo Decreto Estadual 55.662 de 30 de março de dois parques, o Geossítio Nascentes do Ribeirão das 2010, possuindo 15.113,11 ha. O projeto de criação e Lavras, o Parque Natural Municipal da Cultura Negra implantação da APA Cabuçu-Tanque Grande foi esta- Sítio Casa da Candinha, a represa e aqueduto do Cabuçu belecida pela lei municipal nº 6.253 de 24 de maio de e a represa do Tanque Grande, permitindo a implanta- 2007, caracterizando, neste contexto, uma zona de amor- ção de ações de turismo e educação associados a estes tecimento do Parque Estadual da Cantareira (Andrade, componentes do Geoparque. 575 GEOPARQUE CICLO DO OURO, GUARULHOS - SP Recentemente foi criada a Estação Ecológica Muni- desapropriada pelo Decreto nº 26.009 de 29 de dezembro cipal do Tanque Grande (Decreto nº 28.273 de 25 de de 2008 do Município de Guarulhos, sendo que toda a novembro de 2010), com recursos provindos do Licencia- área onde afloram as estruturas arqueológicas foi, pos- mento Ambiental das Estações de Tratamento de Esgoto teriormente, englobada, dentro do recém-criado Parque e redes associadas, possuindo uma área de 70 ha inserida Estadual de Itaberaba. na área de proteção de mananciais do Tanque Grande, O Sítio da Candinha e as igrejas de Nossa Senhora de tendo como objetivo trabalhos de recomposição da Mata Bonsucesso e Bom Jesus da Cabeça foram tombadas pelo Atlântica, com a criação de viveiros de mudas nativas, Decreto no 21143 de 26/12/2000. conjugado à ações de educação ambiental. O programa Guarulhos Tem Biodiversidade, lançado A reserva Biológica Burle Marx e o Parque Muni- pela Secretaria do Meio Ambiente de Guarulhos no dia cipal do Cabuçu, este último próximo do Geossítio 04 de junho de 2007, permitiu valorizar o Corredor Can- Marundito do Pico Pelado, constituem áreas de apoio tareira-Mantiqueira, com a identificação de 501 espécies no processo de implantação do Geoparque. O Horto animais, sendo que 35 espécies encontram-se nas listas possui centro de educação ambiental para auxiliar nos oficiais de animais ameaçados de extinção, demonstrando trabalhos de conservação da área serrana e das trilhas a importância e alta prioridade deste corredor (Guarulhos em Mata Atlântica e cuidar dos viveiros e estufas de (SP)/Prefeitura, 2008b). mudas nativas voltados para ações de recuperação Ações de sistematização do conhecimento existente ambiental. Atualmente são desenvolvidos trabalhos quanto à história, características culturais e atributos de educação ambiental no local. As duas unidades de naturais de Guarulhos tem sido feitas através de publica- conservação servem de apoio ao Programa Capacitação ções que associam estes atributos à ações de divulgação, de Jovens promovido pela RBCV em conjunto com a turismo, conservação e educação (Oliveira et al., 2008; Prefeitura de Guarulhos. Oliveira et al., 2010; Omar, 2008). A Casa da Candinha foi tombada pelo Decreto nº Em 9 de dezembro de 2010, pelo Decreto nº 28300, 21.143 de 26 de dezembro de 2000, sendo que o Parque foi instituído pelo prefeito da cidade de Guarulhos Natural Municipal da Cultura Negra Sítio da Candinha um grupo de trabalho com o objetivo de promover a foi declarada área de utilidade pública para fins de cria- implantação e forma de gestão do Geoparque Ciclo do ção de parque para visitação pública e implantação do Ouro, Guarulhos, o qual contará com 37 representan- Centro de Educação e Cultura Negra pelo Decreto nº tes, incluindo representantes de diversas secretarias do 22.787 de 05 de agosto de 2004, dada a sua associação município, órgãos estaduais e federais com trabalhos com a exploração da mão de obra ligada à escravidão. associados à geoconservação e geoparques, do ensino O montante de R$ 4.586.656, 00, obtidos pela Prefeitura superior, da Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aero- de Guarulhos, em janeiro de 2010, provindos da Câmera portuária, dos proprietários onde incidem geossítios de Compensação Ambiental da Secretaria de Estado do geoparque, de entidades da sociedade civil e das de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, oriundos diversas religiões. do licenciamento ambiental do Aeroporto Internacio- O grande potencial turístico da Cidade de Guarulhos nal de São Paulo, será utilizado na ampliação da área origina-se do intenso fluxo de circulação das rodovias de desapropriação deste sítio, no desenvolvimento do Presidente Dutra e Ayrton Senna, em direção a Cidade seu plano de manejo e na implantação de unidade de do Rio de Janeiro, e da rodovia Fernão Dias, que acessa visitação. O sítio passará a abranger aproximadamente Belo Horizonte. Conjugado com o movimento do Aero- 100 ha, incorporando remanescente de Mata Atlântica porto Internacional de Cumbica, com grande entrada de e setor significativo da Serra do Bananal. A Prefeitura passageiros do exterior, permite visualizar um cenário também liberou R$146.663,72 para a construção de uma promissor de visitação ao Geoparque Ciclo do Ouro de cobertura provisória em telha e estrutura metálica, inde- Guarulhos. pendente da estrutura da Casa da Candinha, visando a O município de Guarulhos possui um Conselho preservação da casa (Guarulhos Web, 2009). Municipal de Turismo (COMTUR) que conta com os A porção à jusante do Geossítio das Nascentes do esforços do Guarulhos Convention e Visitors Bureau, Ribeirão das Lavras, possuindo 508.271,37 m2, já foi uma associação que representa o trade turístico local e 576 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I a cadeia produtiva do setor de turismo e eventos. Suas REFERÊNCIAS principais metas são consolidar o conceito de marketing de destino, captar eventos para o município e assegurar AB´SABER, Aziz Macib. Revisão dos conhecimentos sobre o a viabilidade financeira dos projetos desenvolvidos. horizonte sub-superficial de cascalhos inhumados do Brasil Neste conselho o Geoparque Ciclo do Ouro de Gua- Oriental. Boletim da Universidade do Paraná, Paraná, v. rulhos, foi incorporado como instrumento de gestão 2, p. 32, 1962. voltado à sustentabilidade ecoturística no Corredor _______. Os domínios dos “Mares de Morros” no Brasil. Cantareira-Mantiqueira. Geomorfologia – IGEOG/USP, São Paulo, v. 2, 1966. O potencial do Corredor Cantareira-Mantiqueira tem permitido desenvolver ações de cunho local como _______. Uma revisão do quaternário paulista: do presente a criação da ONG Cabuçu de Desenvolvimento Local. para o passado. Revista Brasileira de Geografia - IBGE, Rio de Janeiro, v. 31, n. 4, p. 1-51, 1971. 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Atualmente trabalha como professor na Univer- Desde 2004 é pesquisadora do Instituto Geoló- sidade Guarulhos. Entre 1992 e 2009 trabalhou gico do Estado de São Paulo, Secretaria do Meio na Prefeitura do Município de Guarulhos e em Ambiente do Estado de São Paulo. Áreas de 1910 trabalhou na Coordenadoria de Planeja- atuação: mapeamento geológico, petrologia mento Ambiental da Secretaria do Meio Ambien- metamórfica, sequências vulcano-sedimentares, te do Estado de São Paulo. Áreas de atuação: planejamento ambiental, interação fluido-rocha e isótopos estáveis. anaperez99@hotmail.com diagnóstico ambiental, manejo sustentável, bases geoambientais, Parque Estadual da Cantareira e Núcleo Cabuçu de Guarulhos. mmandrade@prof.ung.br Edson José de Barros - Mestre em Geologia e Meio Ambiente pela Universidade de São Paulo. Atu- almente é Diretor de Departamento da Secretaria Elton Soares de Oliveira - Graduando da Faculdade do Meio Ambiente da Prefeitura de Guarulhos. Integrada de Ciências Humanas, Saúde e Educa- Entre 1992 e 1996 trabalhou na EPT – Engenha- ção de Guarulhos. Atualmente é professor de ria e Pesquisas Tecnológicas S/A e entre 1996 e história na escola Centro de Convivência Edu- 2000 na Prefeitura de Santos e desde 2001 é cacional - Paulo Freire de Guarulhos. Em 2005 Professor das Faculdades de Guarulhos. Áreas de atuação: diagnós- foi Membro Fundador do movimento “Guaru- tico ambiental, manejo sustentável, bases geoambientais, Parque lhos tem História”. Áreas de atuação: história de Estadual da Cantareira e Núcleo Cabuçu de Guarulhos. Guarulhos, preservação do patrimônio histórico de Guarulhos. edsonbarros@guarulhos.sp.gov.br elton.elton@yahoo.com.br 582 GEOPARQUES DO BRASIL / PROPOSTAS · volume I Caetano Juliani - Doutor em Mineralogia e Petro- Antônio Manoel dos Santos Oliveira - Doutor em logia pela Universidade de São Paulo (USP). Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor associado do Instituto de Atualmente é professor titular da Universidade Geociências da USP. Áreas de atuação: petrologia, Guarulhos. Áreas de atuação: geologia de metalogênese e evolução crustal, alteração hidro- engenharia e geologia ambiental, especialmente termal, metamorfismo, geotermobarometria, em pesquisas sobre o Tecnógeno e processos Grupo Serra do Itaberaba e Tapajós. geológicos de superfície e uso do solo (erosão, cjulianif@gmail.com assoreamento, movimentos de massa, hidrologia). aloiveira@prof.ung.br