GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE PROGRAMA GEOLOGIA DO BRASIL LEVANTAMENTO DA GEODIVERSIDADE PROGRAMA GEOLOGIA DO BRASIL LEVANTAMENTO DA GEODIVERSIDADE Geodiversidade do Estado do Acre é um produto concebido para oferecer aos diversos segmentos da sociedade acriana uma tradução do atual conhecimento geocientífico da região, com vistas ao planejamento, aplicação, gestão e uso adequado do território. Destina-se a um público-alvo variado, SEDE desde empresas de mineração, passando pela SGAN – Quadra 603 • Conj. J • Parte A – 1º andarBrasília – DF • 70830-030 comunidade acadêmica, gestores públicos estaduais Fone: 61 3326-9500 • 61 3322-4305 Fax: 61 3225-3985 e municipais, sociedade civil e ONGs. Escritório Rio de Janeiro – ERJ Av. Pasteur, 404 – Urca Dotado de uma linguagem voltada para múltiplos Rio de Janeiro – RJ • 22290-255 Fone: 21 2295-5337 • 21 2295-5382 usuários, o mapa compartimenta o território acriano Fax: 21 2542-3647 em unidades geológico-ambientais, destacando suas Presidência limitações e potencialidades frente a agricultura, Fone: 21 2295-5337 • 61 3322-5838 Fax: 21 2542-3647 • 61 3225-3985 obras civis, utilização dos recursos hídricos, fontes poluidoras, potencial mineral e geoturístico. Diretoria de Hidrologia e Gestão TerritorialFone: 61 3223-1059 • 21 2295-8248 Fax: 61 3323-6600 • 21 2295-5804 Nesse sentido, com foco em fatores estratégicos Departamento de Gestão Territorial para a região, são destacadas Áreas de Relevante Fone: 21 2295-6147 • Fax: 21 2295-8094 Interesse Mineral (ARIM), Potenciais Hidrogeológico Diretoria de Relações Institucionais e Desenvolvimento e Geoturístico, Riscos Geológicos aos Futuros Fone: 21 2295-5837 • 61 3223-1166/1059 Empreendimentos, dentre outros temas do meio Fax: 21 2295-5947 • 61 3323-6600 físico, representando rico acervo de dados e Superintendência Regional de Manaus Avenida André Araújo, 2160 - Aleixo informações atualizadas e constituindo valioso Manaus - AM - Brasil • 69.060-001 subsídio para a tomada de decisão sobre o uso Fone: PABX 92 2126-0300 • Fax: 92 2126-0319 racional e sustentável do território nacional. Assessoria de Comunicação Fone: 61 3321-2949 • 61 3321-2949 asscomdf@cprm.gov.br Divisão de Marketing e Divulgação Fone: 31 3878-0372 • Fax: 31 3878-0382 marketing@cprm.gov.br Ouvidoria Geodiversidade é o estudo do meio físico constituído por ambientes Fone: 21 2295-4697 • Fax: 21 2295-0495 diversos e rochas variadas que, submetidos a fenômenos naturais ouvidoria@cprm.gov.br e processos geológicos, dão origem às paisagens, ao relevo, outras Serviço de Atendimento ao Usuário – SEUS rochas e minerais, águas, fósseis, solos, clima e outros depósitos Fone: 21 2295-5997 • Fax: 21 2295-5897 superficiais que propiciam o desenvolvimento da vida na Terra, tendo seus@cprm.gov.br como valores intrínsecos a cultura, o estético, o econômico, o científico, o educativo e o turístico, parâmetros necessários à preservação www.cprm.gov.br responsável e ao desenvolvimento sustentável. 2015 2015 2015 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE PROGRAMA GEOLOGIA DO BRASIL LEvAntAMEntO DA GEODIvERSIDADE CASA CIvIL DA PRESIDÊnCIA DA REPÚBLICA Ministro-Chefe Aloizio Mercadante MInIStÉRIO DE MInAS E EnERGIA SECREtARIA DE GEOLOGIA, MInERAÇÃO E tRAnSFORMAÇÃO MInERAL MInIStRO DE EStADO Carlos Eduardo de Souza Braga SECREtáRIO ExECutIvO Márcio Pereira Zimmermann SECREtáRIO DE GEOLOGIA, MInERAÇÃO E tRAnSFORMAÇÃO MInERAL Carlos Nogueira da Costa Júnior CPRM – SERvIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL COnSELHO DE ADMInIStRAÇÃO Presidente Carlos Nogueira da Costa Júnior vice-Presidente Manoel Barretto da Rocha Neto Conselheiros Jarbas Raimundo de Aldano Matos Ladice Pontes Peixoto Demetrius Ferreira e Curz Janaina Gomes Pires da Silva DIREtORIA ExECutIvA Diretor-Presidente Manoel Barretto da Rocha Neto Diretor de Hidrologia e Gestão territorial Thales de Queiroz Sampaio Diretor de Geologia e Recursos Minerais Roberto Ventura Santos Diretor de Relações Institucionais e Desenvolvimento Antônio Carlos Bacelar Nunes Diretor de Administração e Finanças Eduardo Santa Helena da Silva SuPERIntEnDÊnCIA REGIOnAL DE MAnAuS Superintendente Marco Antônio Oliveira Residência de Porto velho Edgar Romero Helena de Figueiredo Iza Coordenador Executivo Ruy Benedito Calliari Bahia Assistente de Produção de Hidrologia e Gestão territorial Francisco de Assis dos Reis Barbosa MInIStÉRIO DE MInAS E EnERGIA SECREtARIA DE GEOLOGIA, MInERAÇÃO E tRAnSFORMAÇÃO MInERAL CPRM - SERvIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE PROGRAMA GEOLOGIA DO BRASIL LEvAntAMEntO DA GEODIvERSIDADE ORGANIZAÇÃO Amilcar Adamy Porto Velho, Brasil 2015 CRÉDItOS tÉCnICOS Ernesto Costa Von Sperling de Lima Aldenir Justino de Oliveira José Marcio Henriques Soares Washington José Ferreira Santos Agradecimentos LEvAntAMEntO DA GEODIvERSIDADE Chá Com Nozes Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) – Unidade de Cruzeiro do Sul DO EStADO DO ACRE Departamento de Apoio técnico (DEPAt) Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Universidade Federal do Acre (LPP/UFAC) Divisão de Editoração Geral (DIEDIG) Departamento Nacional de Infraestrutura de COORDEnAÇÃO nACIOnAL (projeto de editoração/diagramação) Transportes (DNIT/AC) Departamento de Gestão territorial Valter de Alvarenga Barradas Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre Andréia Amado Continentino (SEMA/AC) Cassio Roberto da Silva Agmar Alves Lopes Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (FUNTAC) Unidade Central de Geoprocessamento do Estado do COORDEnAÇÃO tEMátICA (editoração) Acre (UCGEO/AC) Departamento Estadual de Estradas de Rodagem Geodiversidade José Luiz CoelhoPedro da Silva (DER/AC) Antonio Theodorovicz Secretaria Estadual de Esporte, Turismo e Lazer (supervisão de editoração) (SETEL/AC) Geomorfologia Andréia Amado Continentino Departamento Estadual de Pavimentação e Marcelo Eduardo Dantas Saneamento (DEPASA/AC) Superintendência Regional de Manaus Defesa Civil do Estado do Acre Solos (SuREG-MA) Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Gestão Edgar Shinzato Urbana de Rio Branco Gerência de Relações Institucionais Cenários Prefeitura Municipal de Assis Brasile Desenvolvimento (GERIDE) Prefeitura Municipal de Brasileia Valter José Marques (projeto de multimídia) Prefeitura Municipal de Capixaba Coordenação de Geoprocessamento Maria Tereza da Costa Dias Prefeitura Municipal de Cruzeiro do Sul e da Base de Dados de Geodiversidade Prefeitura Municipal de Epitaciolândia(adequação da montagem no ArcExibe Drª Denise Schaan (UFPA/CNPq) Maria Angélica Barreto Ramos para multimídia) Drº Jonas Pereira de Souza Filho (UFAC) Maria Adelaide Mansini Maia Drº Wenceslau Geraldes Teixeira (EMBRAPA) Execução técnica Amilcar Adamy Edgar Shinzato Ivan Bispo de Oliveira Filho Luiz Gilberto Dall`Igna Marcelo Eduardo Dantas Organização do Livro Geodiversidade do Estado do Acre Amilcar Adamy Sistema de Informação Geográfica e Leiaute do Mapa FOTOS DA CAPA: Amilcar Adamy Antonio do Nascimento Silva Júnior 1. Atrativo geoturístico: Cachoeira Formosa, instalada em metassedimentos paleozoicos Marcos Luiz do Espirito Santo Quadros (Mâncio Lima, AC). Apoio Banco de Dados e 2. Aspecto geomorfológico: Planície de inundação do rio Tarauacá (Tarauacá, AC). Desenvolvimento da Base Geodiversidade 3. Solo: Vertissolo (Manoel Urbano, AC). 4. Aspecto geotécnico: Morros alçados devido à Falha de Batã, com encostas instáveis Divisão de Geoprocessamento (DIGEOP) (Tarauacá, AC). João Henrique Gonçalves Leonardo Brandão Araújo Elias Bernard da Silva do Espírito Santo Gabriela Figueiredo de Castro Simão Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) (Elaboração do ArcExibe) CPRM – Serviço Geológico do Brasil Maria Angélica Barreto Ramos DIDOTE – Processamento Técnico Aldeneidiane Santana dos Santos (estagiária) Colaboração Alceu Ranzi Adamy, Amílcar. Francisco Ricardo Negri Mario Sergio dos Santos Geodiversidade do estado do Acre / Organização Amílcar Adamy. – Porto Velho: Regina Célia Gimenez Armesto CPRM, 2015. Terezinha de Jesus Foro Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Acre 321 p. ; il., color.; 30 cm + 1 DVD-ROM (SEMA/AC) Programa Geologia do Brasil. Levantamento da Geodiversidade. Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT/AC) ISBN 978-85-7499-156-6 Revisão Linguística Sueli Cardoso de Araújo 1. Geodiversidade – Brasil – Acre. 2. Meio Ambiente – Brasil – Acre. Projeto Gráfico/Editoração/Multimídia 3. Planejamento Territorial – Brasil – Acre. 4. Geologia Ambiental – Brasil – Acre. I. Título. Departamento de Relações Institucionais (DERID) CDD 551.098114 Divisão de Marketing e Divulgação (DIMARK) (padrão capa/embalagem) Este produto pode ser encontrado em www.cprm.gov.br e seus@cprm.gov.br Sustentabilidade é um conceito hodiernamente consagrado, intrinsecamente ligado ao desenvolvimento e à sobrevivência das sociedades. Compreender a sua complexidade e a dinâmica do meio ambiente, rompendo com o processo de desenvolvimento a qualquer custo e adotando o desenvolvimento sustentável, é tarefa do cidadão, do Estado e do setor produtivo. Para o alcance dessa meta, inevitavelmente, necessita-se dispor de estudos sobre o papel dos recursos naturais e a forma economicamente racional de usá-los, renováveis ou não. Nesse sentido, a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais – o Serviço Geológico do Brasil –, em estreita parceria com a Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, vem conduzindo o levantamento sobre a geodiversidade dos estados brasileiros, com informações sobre o meio físico concebidas de forma integrada, objetivando as mais diversificadas aplicações nos campos de mineração, agricultura, turismo, recursos hídricos, engenharia, planejamento e gestão territorial. A elaboração deste produto, cujo objetivo é subsidiar o planejamento e a gestão do território brasileiro em bases sustentáveis, representa uma contribuição do conhecimento geológico para além de sua conhecida dimensão econômica, estendendo o seu campo de aplicação às áreas social e ambiental. É na continuidade desse esforço que se insere o Levantamento da Geodiversidade do Estado do Acre, em uma clara demonstração de que a CPRM/SGB exerce papel relevante na construção de respostas capazes de criar um quadro de ação que visa a diminuir as pressões sobre o ambiente e os recursos naturais sem penalizar o desenvolvimento econômico. THALES DE QUEIROZ SAMPAIO Diretor de Hidrologia e Gestão Territorial CPRM/SGB - Serviço Geológico do Brasil APRESENTAÇÃO 1. IntRODuÇÃO .................................................................................... 09 Pedro Augusto dos Santos Pfaltzgraff, Amílcar Adamy 2. COntExtO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE .................................... 15 Ruy Benedito Calliari Bahia 3. ORIGEM DAS PAISAGEnS .................................................................. 41 Marcelo Eduardo Dantas, Edgar Shinzato, Amilcar Adamy, Ivan Bispo de Oliveira Filho 4. PRInCIPAIS CLASSES DE SOLOS ........................................................ 57 Edgar Shinzato, Wenceslau Geraldes Teixeira, Marcelo Eduardo Dantas 5. áREAS DE RELEvAntE IntERESSE MInERAL E REStRIÇÕES ÀS AtIvIDADES DE MInERAÇÃO ........................................................... 73 Luiz Gilberto Dall’Igna, Roberto Matias da Silva 6. RECuRSOS MInERAIS ........................................................................ 85 Luiz Gilberto Dall’Igna, Roberto Matias da Silva 7. ASPECtOS HIDROGEOLÓGICOS E GEStÃO DAS áGuAS .................. 105 Cláudio César de Aguiar Cajazeiras, Antonio da Costa Pereira, Marcos Nóbrega II, Amilcar Adamy 8. RECuRSOS HÍDRICOS SuPERFICIAIS ............................................... 117 Francisco de Assis dos Reis Barbosa, Catharina Ramos dos Prazeres Campos 9. RISCOS GEOLÓGICOS ...................................................................... 131 Ivan Bispo de Oliveira Filho, Amilcar Adamy 10. A PALEOntOLOGIA nO EStADO DO ACRE .................................... 145 Jonas Pereira de Souza Filho, Edson Guilherme 11. POtEnCIAL GEOtuRÍStICO ........................................................... 159 Amilcar Adamy 12. OS SÍtIOS ARQuEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQuEOtuRISMO .................................................................. 187 Denise Pahl Schaan, Antônia Damasceno Barbosa 13. FEIÇÕES GEOMORFOLÓGICAS E SOLOS nOS LOCAIS EM QuE FORAM COnStRuÍDOS OS GEOGLIFOS nO EStADO DO ACRE ............ 201 Wenceslau Geraldes Teixeira, Denise Pahl Schaan, Edgar Shinzato, Antônia Damasceno Barbosa, Lilian Rebellato, William Woods 14. MEtODOLOGIA, EStRutuRAÇÃO DA BASE DE DADOS E ORGAnIZAÇÃO EM SIStEMA DE InFORMAÇÃO GEOGRáFICA ............ 217 Maria Angélica Barreto Ramos, Marcelo Eduardo Dantas, Antonio Theodorovicz, Valter José Marques, Vitório Orlandi Filho, Maria Adelaide Mansini Maia, Pedro Augusto dos Santos Pfaltzgraff 15. GEODIvERSIDADE: ADEQuABILIDADES/POtEnCIALIDADES E LIMItAÇÕES FREntE AO uSO E À OCuPAÇÃO .................................... 231 Amilcar Adamy APÊnDICES I. unIDADES GEOLÓGICO-AMBIEntAIS DO tERRItÓRIO BRASILEIRO II. BIBLIOtECA DE RELEvO DO tERRItÓRIO BRASILEIRO nOtA SOBRE OS AutORES SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO Pedro Augusto dos Santos Pfaltzgraff (pedro.augusto@cprm.gov.br) Amilcar Adamy (amilcar.adamy@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Geodiversidade ....................................................................................................11 Aplicações ............................................................................................................12 Referências ...........................................................................................................14 INTRODUÇÃO GEODIVERSIDADE Galopim de Carvalho (2007), discorrendo sobre a importância da geodiversidade, em seu artigo “Natureza: A Terra se comporta como um sistema vivo, cujos me- Biodiversidade e Geodiversidade” afirma: canismos lhe permitem acolher e sustentar uma imensidade Biodiversidade é uma forma de dizer, numa só pala- de seres vivos em sua superfície. Essa “vida” se expressa vra, diversidade biológica, ou seja, o conjunto dos seres tanto pelo movimento do planeta no entorno do Sol e de vivos. É, para muitos, a parte mais visível da natureza, seu eixo de rotação como no movimento das correntes mas não é, seguramente, a mais importante. Outra parte, de convecção abaixo da crosta terrestre. Em decorrência, com idêntica importância, é a geodiversidade, sendo esta registram-se inúmeros processos, tais como a deriva dos entendida como o conjunto das rochas, dos minerais e das continentes, os vulcanismos e terremotos, ventos e diversos suas expressões no subsolo e nas paisagens. No meu tempo outros agentes climáticos que atuam na modelagem das de escola ainda se aprendia que a natureza abarcava três paisagens. reinos: o reino animal, o reino vegetal e o reino mineral. Embora seja o sustentáculo para o desenvolvimento A biodiversidade abrange os dois primeiros e a geodiver- da vida na superfície terrestre, o substrato tem recebido sidade, o terceiro. menos atenção e estudo do que os seres que se assentam Geodiversidade, para Brilha, Pereira e Pereira (2008), sobre ele. A corroborar tal afirmação, há o fato de que E a variedade de ambientes geológicos, fenômenos são mais antigos e conhecidos o termo e o conceito de e processos activos que dão origem a paisagens, rochas, biodiversidade do que os referentes a geodiversidade. minerais, fósseis, solos e outros depósitos superficiais que Sobre essa questão, Brilha (2005, p. 17) declara que: são o suporte para a vida na Terra. Ao contrário de termo biodiversidade, o conceito No Brasil, os conceitos de geodiversidade se desenvol- análogo relativo à diversidade geológica não tem con- veram praticamente de forma simultânea ao pensamento quistado o mesmo grau de reconhecimento junto à internacional, entretanto, com foco direcionado para o sociedade. A utilização do termo geodiversidade é rela- planejamento territorial, embora os estudos voltados para tivamente recente; de acordo com Gray (2004), o termo geoconservação não sejam desconsiderados (SILVA et al., surgiu por ocasião da Conferência de Malvern sobre 2008a). Conservação Geológica e Paisagística realizada em 1993 Na opinião de Veiga (2002), “a geodiversidade expres- no Reino Unido. sa as particularidades do meio físico, abrangendo rochas, Inicialmente, o termo ‘geodiversidade’ era aplicado na relevo, clima, solos e águas, subterrâneas e superficiais”. gestão de áreas de proteção ambiental em contraponto a A CPRM (2006) define geodiversidade como: “biodiversidade”, devido à necessidade de um vocábulo O estudo da natureza abiótica (meio físico) constituída que englobasse os elementos não bióticos do meio natural por uma variedade de ambientes, composição, fenômenos e (SERRANO CAÑADAS; RUIZ FLAÑO, 2007). Entretanto, tal processos geológicos que dão origem às paisagens, rochas, expressão havia sido empregada, na década de 1940, pelo minerais, águas, fósseis, solos, clima e outros depósitos geógrafo argentino Federico Alberto Daus, para diferenciar superficiais que propiciam o desenvolvimento da vida na áreas da superfície terrestre, com conotação de Geografia Terra, tendo como valores intrínsecos a cultura, o estético, Cultural (ROJAS apud SERRANO CAÑADAS; RUIZ FLAÑO, o econômico, o científico, o educativo e o turístico. 2007). Já autores como Xavier da Silva e Carvalho Filho (apud Em 1997, Eberhard (apud SILVA et al., 2008a, p. 12) SILVA et al., 2008a, p. 12) apresentam conceituações dife- definiu geodiversidade como “a diversidade natural entre rentes da maioria dos autores nacionais e internacionais, aspectos geológicos, do relevo e dos solos”. definindo geodiversidade a partir da “variabilidade das carac- O primeiro livro dedicado exclusivamente à temática terísticas ambientais de uma determinada área geográfica”. da geodiversidade foi lançado em 2004. Trata-se da obra Embora os conceitos de geodiversidade sejam menos de Murray Gray (professor do Departamento de Geografia conhecidos do grande público do que os de biodiversidade, da Universidade de Londres) intitulada “Geodiversity: Va- esta é dependente daquela, conforme afirmam Silva et al. luying and Conserving Abiotic Nature”. Sua definição de (2008a, p. 12) (Figura 1.1): geodiversidade é bastante similar à de Eberhard. A biodiversidade está assentada sobre a geodiversi- Objetivando uma conceituação para o termo, Owen, dade e, por conseguinte, é dependente direta desta, pois Price e Reid (2005) afirmam: as rochas, quando intemperizadas, juntamente com o Geodiversidade é a variação natural (diversidade) da relevo e o clima, contribuem para a formação dos solos, geologia (rochas minerais, fósseis, estruturas), geomor- disponibilizando, assim, nutrientes e micronutrientes, os fologia (formas e processos) e solos. Essa variedade de quais são absorvidos pelas plantas, sustentando e desen- ambientes geológicos, fenômenos e processos faz com que volvendo a vida no planeta Terra. Em síntese, pode-se essas rochas, minerais, fósseis e solos sejam o substrato considerar que o conceito de geodiversidade abrange a para a vida na Terra. Isso inclui suas relações, propriedades, porção abiótica do geossistema (o qual é constituído pelo interpretações e sistemas que se inter-relacionam com a tripé que envolve a análise integrada de fatores abióticos, paisagem, as pessoas e culturas. bióticos e antrópicos). 11 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE O conhecimento da geodiversidade da região im- plicaria saber a constituição de suas rochas. Nesse caso específico, o substrato rochoso, formado por cobertura sedimentar inconsolidada, mostraria aptidões para apro- veitamento do solo laterítico concrecionário desenvolvido sobre esses sedimentos para implantação e manutenção de uma rede viária não pavimentada ou mesmo para obras urbanas. Da mesma forma, o relevo colinoso, de solos medianamente desenvolvidos e com argilas expansivas, de baixa permeabilidade hídrica (Figura 1.3), permitiria a introdução de culturas agrícolas mecanizadas (como a soja), favorecendo o crescimento econômico da região. Entre- tanto, o aproveitamento de terrenos com solo expansivo, seja para atividades agropecuárias, seja para implantação de obras civis (estradas, pontes, prédios etc.), requer me- didas preventivas quanto à expansibilidade desses solos e à escassez de recursos hídricos na estação seca (Figura 1.4). Figura 1.1 - Relação de interdependência entre os meios físico, biótico e a sociedade. APLICAÇÕES O conhecimento da geodiversidade nos leva a iden- tificar, de maneira segura, as aptidões e restrições ao uso e à ocupação do meio físico de uma área, bem como os impactos advindos de seu uso inadequado. Ampliam-se, também, as possibilidades de melhor conhecer os recursos minerais, os riscos geológicos e as paisagens naturais ine- rentes a determinada região composta por tipos específicos de rochas, relevo, solos e clima. Dessa forma, obtém-se um diagnóstico do meio físico e de sua capacidade de suporte para subsidiar atividades produtivas sustentáveis (Figura 1.2). Exemplos práticos da importância do conhecimento da geodiversidade de uma região para subsidiar o aprovei- tamento e a gestão do meio físico são ilustrados a seguir. Figura 1.3 - Vertissolo expansivo (rodovia BR-364; proximidades Como promover o aproveitamento econômico de uma da ponte sobre o rio Tarauacá; Tarauacá).Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. região constituída por coberturas cenozoicas, de relevo aplai- nado, clima tropical úmido e recursos hídricos abundantes na estação chuvosa e intermitentes no período da seca? Figura 1.4 - Adição de cimento a solo expansivo (rodovia BR-364, Figura 1.2 - Principais aplicações da geodiversidade. próximo a Manoel Urbano). Fonte: SILVA et al. (2008b, p. 182). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. 12 INTRODUÇÃO Tomemos como exemplo uma área plana (a planície de inundação de um rio), cujo terreno seja constituído por areias e argilas, com presença de turfas e argilas moles. Nessa situação, a expressiva variação sazonal do nível das drenagens, com inundações periódicas, além de sedimen- tos suscetíveis ao desbarrancamento, torna determinadas áreas inadequadas à ocupação urbana ou industrial. Por outro lado, esses mesmos solos, tornados mais férteis de- vido à matéria orgânica depositada anualmente, favorecem a agricultura de ciclo curto (Figura 1.5.). Têm-se, ainda, os exemplos clássicos das várzeas e planícies de inundação, onde se instalaram vilas ribeirinhas, bem como bairros em aglomerados urbanos de maior porte, como Rio Branco e Cruzeiro do Sul (Figura 1.6), ou que estejam submetidos a forte e vigorosa erosão fluvial, Figura 1.7 - Vista aérea da cidade de Brasileia, alagada devido à os quais podem, periodicamente, ser inundados durante enchente do rio Acre. Fotografia: Sérgio Valle/Defesa Civil Estadual, 2012. a época de cheia dos rios em cujas margens se situam (Figura 1.7). Por outro lado, um grave problema que se instala por áreas áridas e semiáridas do planeta é a desertificação, para o qual contribui fortemente o uso inadequado do solo. O conhecimento das características dos materiais geológicos formadores do substrato de uma região pode auxiliar na indicação das aptidões e restrições de uso desses materiais e apontar alguma forma de prevenção, ou, pelo menos, de mitigação da instalação dos processos que levam à desertificação. No Acre, os processos de arenização possuem uma distribuição espacial bastante restrita, limitando-se aos sedimentos arenosos da Formação Içá, no extremo oeste do estado, e a pequenas voçorocas em sedimentos mais arenosos da Formação Solimões, no município de Xapuri. São derivados de maior suscetibilidade à ação erosiva a que são submetidas determinadas unidades geológicas, que carreiam volumes significativos de sedimentos predominan- Figura 1.5 - Área de cultivo na planície de inundação temente arenosos, gerando ravinas e voçorocas capazes de do rio Tarauacá (Tarauacá). atingir vias de acesso, plantações etc. (Figura 1.8). Figura 1.8 - Fenômeno de arenização em sedimentos arenosos, suscetíveis a processos erosivos, da Formação Içá Figura 1.6 - Plantio em planície de inundação do rio Juruá (rodovia AC-407; Rodrigues Alves). (Cruzeiro do Sul). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 13 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Importantes projetos nacionais na área de infra- GRAY, M. Geodiversity: valuying and conserving abiotic estrutura já se utilizam do conhecimento sobre a ge- nature. New York: John Wiley & Sons, 2004. odiversidade da área proposta para sua implantação. Como exemplo, o levantamento ao longo do trajeto OWEN, D.; PRICE, W.; REID, C. Gloucestershire planejado para as ferrovias Transnordestina, Este-Oeste cotswolds: geodiversity audit & local geodiversity action e Norte-Sul, em que as informações sobre a geodiver- plan. Gloucester: Gloucestershire Geoconservation Trust, sidade local se mostram importantes para escolha não 2005. só dos métodos construtivos do empreendimento como também para aproveitamento econômico das regiões SERRANO CAÑADAS, E.; RUIZ FLAÑO, P. Geodiversidad: em seu entorno. concepto, evaluación y aplicación territorial: el caso de Convém ressaltar que o conhecimento da geodiver- Tiermes-Caracena (Soria). Boletín de la Asociación de sidade implica ter consciência do meio físico no tocante Geógrafos Españoles, La Rioja, n. 45, p. 79-98, 2007. às suas limitações e potencialidades, o que proporciona a planejadores e administradores uma melhor visão do tipo SILVA, C.R. da; MARQUES, V.J.; DANTAS, M.E.; SHINZATO, de aproveitamento e de uso mais adequado para determi- E. Aplicações múltiplas do conhecimento da geodiversidade. nada área ou região. In: SILVA, C.R. da (Ed.). Geodiversidade do Brasil: conhecer o passado, para entender o presente e prever o REFERênCIAS futuro. Rio de Janeiro: CPRM, 2008. 264 p. il. p. 181-202. BRILHA, J.; Pereira, D.; Pereira, P. Geodiversidade: SILVA, C.R.; RAMOS, M.A.B.; PEDREIRA, A.J.; valores e usos. Braga: Universidade do Minho, 2008. DANTAS, M.E. Começo de tudo. In: SILVA, C.R. (Ed.). Geodiversidade do Brasil: conhecer o passado, para BRILHA, J.B.R. Patrimônio geológico e entender o presente e prever o futuro. Rio de Janeiro: geoconservação: a conservação da natureza na sua CPRM, 2008. p. 11-20. vertente geológica. São Paulo: Palimage, 2005, VEIGA, T. A geodiversidade do cerrado. Brasília, CPRM. Mapa geodiversidade do Brasil. Brasília, DF: DF: Pequi – Pesquisa e Conservação do Cerrado, 2002. CPRM, 2006. Legenda expandida. Escala 1:2.500.000. Disponível em: . Acesso em: 25 jan. 2010. GALOPIM DE CARVALHO, A.M. natureza: biodiversidade e geodiversidade. 11 maio 2007. XAVIER DA SILVA, J.; CARVALHO FILHO, L.M. Índice Disponível em: . Acesso exemplo do geoprocessamento aplicado à geografia em: 25 jan. 2010. física. Revista de Geografia, Recife, v. 1, p. 57-64, 2001. 14 2 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Ruy Benedito Calliari Bahia (ruy.bahia@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Introdução ............................................................................................................17 Área de Estudo .....................................................................................................17 Compartimentação Tectônica ...............................................................................18 Principais Trabalhos Utilizados Na Integração .......................................................19 Litoestratigrafia .....................................................................................................20 Formação Formosa ............................................................................................20 Formação Apuí ..................................................................................................21 Formação Cruzeiro do Sul ..................................................................................21 Formação Rio do Moura ....................................................................................21 Formação Juruá-Mirim .......................................................................................21 Sienito República .............................................................................................. 22 Grupo Jaquirana ............................................................................................... 22 Formação Moa ............................................................................................... 23 Formação Rio Azul ..........................................................................................25 Formação Divisor ............................................................................................26 Formação Ramon ............................................................................................27 Formação Solimões ............................................................................................27 Formação Içá .....................................................................................................29 Coberturas Detrito-Lateríticas .......................................................................... 30 Leques Aluviais (Terraços Superiores) ................................................................31 Terraços Aluviais ................................................................................................32 Terraços pleistocênicos ...................................................................................32 Terraços holocênicos ...................................................................................... 33 Depósitos Coluvionares .................................................................................... 33 Depósitos Aluvionares ...................................................................................... 33 Evolução Geológica .............................................................................................. 36 Referências ........................................................................................................... 36 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE INTRODUÇÃO A Bacia do Acre está localizada no extremo oeste do Brasil, abrangendo parte dos estados do Acre e Amazonas, O desenvolvimento de uma região depende da dispo- entre as coordenadas geográficas 72030’ e 74000’ de nibilidade de matéria-prima básica, principalmente aquela longitude W; 6000’ e 9000 de latitude S. Seus limites, a relacionada à indústria, energia, agricultura e construção oeste e sudoeste, correspondem à serra do Divisor; a leste civil, para assegurar de forma sustentável os processos e a nordeste, o Arco de Iquitos representa o seu limite com produtivos e o bem-estar da população. a Bacia do Solimões. É considerada, por Milani e Thomaz A principal fonte de areia, cascalho, carvão e minerais não Filho (2000), uma bacia de antepaís retroarco, posicionada metálicos empregados na agricultura, bem como de rochas no limite oeste do Cráton Amazônico, junto à faixa andina. ornamentais, é a bacia sedimentar. Entretanto, a descoberta Ela corresponde a uma depressão alongada na direção de jazidas dessas matérias-primas, no extremo oeste da Ama- norte-sul, com área de 300.000 km2 (Figura 2.1). zônia Ocidental, não está sendo contemplada em proporção A análise comparativa das seções sísmicas possibilitou que atenda à crescente demanda por esses produtos no Brasil. a identificação de sete unidades sísmicas (OLIVEIRA, 1994), A necessidade de prover o desenvolvimento sustentá- que correspondem a grandes sequências deposicionais, com vel de uma região tão vasta e importante como a Amazônia, características físicas distintas e evolução tectonossedimen- mais especificamente sua porção oeste, onde está inserida tar peculiar, separadas por discordâncias que servem como a Bacia do Acre, justifica a retomada do mapeamento ge- refletores para as ondas sísmicas. Entretanto, de acordo com ológico nessa bacia, com o objetivo de descortinar novos Feijó e Souza (1994), a bacia está preenchida por rochas depósitos de minerais que atendam às demandas da cons- sedimentares neopaleozoicas, mesozoicas e cenozoicas. trução civil e da produção agrícola. Esse cenário é motivo Dentre as bacias sedimentares fanerozoicas do Brasil, para que se busque, continuadamente, ampliar as suas a Bacia do Acre é a única classificada como de antepaís reservas, em um contexto geológico altamente favorável (MILANI; THOMAZ, 2000), na qual foram depositadas, em à descoberta de jazidas desses bens minerais. uma flexura atribuída à atividade orogênica na cordilheira Nesse contexto, a CPRM/SGB vem, há mais de 40 dos Andes, quatro sequências de segunda ordem – Permo- anos, trabalhando em levantamentos geológicos nas bacias carbonífera, Jurássica, Cretácea e Terciária –, separadas por sedimentares da Região Amazônica, pesquisando carvão, grandes discordâncias regionais (Figura 2.2). turfa, aluviões, carbonatos e fosfatos. Nas décadas de 1970 A Sequência Permocarbonífera abrange as rochas e 1980, mediante convênios com o Departamento Nacional sedimentares representativas da fase sinéclise da bacia, de Produção Mineral (DNPM), foram realizadas várias pesqui- formadas a partir de sedimentos depositados em ambien- sas prospectivas para levantar o potencial de combustíveis tes continental (leque aluvial) e marinho nerítico durante a sólidos da região. Entretanto, tais estudos não contemplavam fase transgressiva de um ciclo transgressivo-regressivo. Está os bens minerais citados. limitada, no topo, por discordância relacionada à Orogenia Por motivos diversos, não houve oportunidade de Tardi-Herciniana. desenvolver todas as atividades necessárias ou previstas. Contudo, os resultados, apesar de insufi- cientes (dada a escala de trabalho), permitiram a indicação de estudos detalhados em áreas mais restritas do território amazônico. ÁREA DE ESTUDO As bacias sedimentares fane- rozoicas no Brasil foram formadas após a acresção do supercontinente Gondwana, a partir do Cambriano Superior, durante três estágios de evolução cratônica (BRITO NEVES, 2002) – transição, estabilização e ativação –, relacionados, respecti- vamente, ao encerramento do Ciclo Brasiliano, à consolidação da Plata- forma Sul-Americana e à dispersão do Gondwana (ALMEIDA; BRITO; AMARO, 2000). Figura 2.1 - Contexto geológico da bacia do Acre. Fonte: MILANI; THOMAZ, 2000. 17 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE A Sequência Jurássica reúne as rochas sedimentares Por sua vez, a Sequência Terciária é constituída, finas, geradas de sedimentos continentais depositados em essencialmente, de sedimentos pelíticos, depositados sistemas fluviolacustres e planície de sabkha durante a fase em ambiente continental por sistemas lacustre e fluvial regressiva, marcada por uma discordância regional provo- meandrante de baixa energia, formados pelo represa- cada pelo soerguimento relacionado ao Diastrofismo Juruá. mento de canais entrelaçados de alta energia. Devido A Sequência Cretácea é constituída por rochas for- ao soerguimento da cordilheira dos Andes, a orientação madas a partir de sedimentos depositados em sistemas das paleocorrentes, que era de leste para oeste, passou fluvial e deltaico de uma bacia tipo foreland, representan- a ser de oeste para leste. do a fase de evolução da bacia com influência direta da Orogenia Andina. COMPARTIMENTAÇÃO TECTÔNICA A Bacia do Acre assenta-se em rochas do Cráton Amazônico, mais precisamente sobre a Faixa Móvel Sunsás, tendo como limite ocidental o Arco de Iquitos, que a separa da Faixa Móvel Rondônia-Juruena (SANTOS et al, 2000). Seu posicionamento ao longo da cordilheira dos Andes faz com que seja uma das poucas bacias fa- nerozoicas, tipo antepaís, a apresentar um ambiente compressional bem característico, resultado dos eventos Juruá e Andino. Arana et al. (1990a) compartimenta- ram a Bacia do Acre em três grandes pro- víncias estruturais – Calha Central, Calha de Jaquirana e Plataforma Cruzeiro do Sul – e três altos estruturais: Alto de Jaquirana, Alto de Paraguá e Alto do Divisor (Figura 2.3). O principal produto dos eventos com- pressionais relacionados à elevação da cordilheira andina é a serra do Divisor, que corresponde a uma sequência de anticlinais e sinclinais, dentre os quais se destacam: Calha Central, Plataforma Cruzeiro do Sul, Alto de Paraguá, Alto de Jaquirana e Calha de Jaquira- na (OLIVEIRA, 1994). Esse conjunto de serras e depressões coincide com uma anomalia Bouguer, alongada na direção norte-sul, de- corrente do soerguimento do embasamento nessa região (Figura 2.4). A Calha de Jaquirana separa a Província Noroeste das províncias Leste e Sudeste de Duarte (2011). Estruturas de natureza compressiva correspondem aos principais lineamentos da bacia, como as falhas de Batã, Oeste de Batã e Javari, que acompanham todo o flan- co leste dos anticlinais com direção norte- -sul e alguns milhares de metros de rejeito. Em subsuperfície, foi possível caracterizar a Falha de Batã como uma megaestrutura reativada desde o Mesozoico, sendo a última reativação correspondente à fase Quéchua da Orogenia Andina. Seus reflexos em superfície são reconhecidos por quebra Figura 2.2 - Carta estratigráfica da bacia do Acre. de relevo e variação litológica da Formação Fonte: FEIJÓ; SOUZA, 1994. Solimões (Figura 2.5). 18 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Figura 2.4 - Anomalia Bouguer evidenciando o soerguimento do embasamento cristalino na região da serra do Divisor. Fonte: DUARTE, 2011. Caputo, Juca e Brazil (1979) procederam à primeira análise estrutural das falhas transcorrentes geradas pelos esforços compressionais andinos que originaram a serra do Divisor Figura 2.3 - Compartimentação tectônica da bacia do Acre. e enfocaram as unidades ordovicianas e silurianas tanto da Fonte: ARANA et al., 1990a. Bacia do Acre como das bacias do Solimões, da Bolívia e do Peru. Miura (1971, 1972), comparando as co- lunas estratigráficas das bacias do Acre, Peru e Equador, apresenta o mapa de isópacas da Bacia do Acre, concluindo que as camadas ad- quiriam mais espessura e granulometria mais fina em direção à cordilheira andina; considerou como áreas-fonte o Cráton Amazônico e o Arco de Iquitos, já elevado durante o Cretáceo, fato constatado pela passagem das fácies sedimen- tares de continentais fluviais para transicionais e marinhas em direção à cordilheira. Figura 2.5 - Seção geológica esquemática da bacia do Acre. Arana (1990 a, b, c) separa a Bacia do Fonte: FEIJÓ; SOUZA, 1994.. Acre em três grandes províncias estruturais – Calha Central, Calha de Jaquirana, Plataforma PRINCIPAIS TRABALHOS UTILIZADOS Cruzeiro do Sul – e define os três principais altos estrutu- NA INTEGRAÇÃO rais: Alto de Jaquirana, Alto de Paraguá e Alto do Divisor. Reconhece, ainda, na bacia, quatro eventos tectônicos: o A história do conhecimento geológico da Bacia do primeiro, distensional, ocorrido no Paleozoico; o segundo Acre está diretamente relacionada à pesquisa para hidrocar- seria compressional, equivalente à Tectônica Juruá, ocorrida bonetos, iniciada na década de 1930 com os trabalhos de durante o Jurássico nas bacias do Solimões e Amazonas; o investigação sistematizada executados pelo Departamento terceiro, ainda no Jurássico, porém de natureza distensional; Nacional de Produção Mineral (DNPM). o quarto evento seria relacionado ao regime compressional Posteriormente, os trabalhos de Moura e Wanderley atuante na cordilheira andina durante o Mioceno. (1938), Oppenheim (1938) e Wanderley (1938) introduziram Oliveira (1994) executa a mais completa análise estru- as primeiras unidades geológicas e A ordenação estrati- tural e tectonossedimentar da Bacia do Acre, utilizando-se gráfica da bacia, sempre na tentativa de correlação com a de seções sísmicas, mapas gravimétricos e magnetométri- Bacia do Ucayali, no Peru, onde já se conhecia a ocorrência cos, perfis compostos dos poços exploratórios, imagens de hidrocarbonetos. de satélite e mapa geológico, obtendo como produto a Seguiram-se outros trabalhos de pesquisa, destacan- definição de sete unidades sísmicas, o reconhecimento de do-se os de Mason e Caputo (1964), Caputo (1973, 1974) e estruturas relacionadas a dois eventos distensivos e três Caputo, Juca e Brazil (1979), que apresentam os primeiros compressivos e o estabelecimento das sequências Permo- dados gravimétricos e sísmicos sobre a bacia. carbonífera, Jurotriássica e Cretáceo-Terciária. 19 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Feijó e Souza (1994) apresentam a Carta Estratigráfica Formação Formosa da Bacia do Acre, procedendo a um resumo de todas as unidades litoestratigráficas da bacia, reunidas nas sequências Em 1938, durante o reconhecimento geológico para Permocarbonífera, Jurássica, Cretácea e Terciária. petróleo na região noroeste do Acre, Moura e Wanderley descreveram litologias aflorantes no igarapé Capanaua, LITOESTRATIGRAFIA posicionando-as no Carbonífero, devido à presença do fóssil braquiópode Productus cora. Mais tarde, Leite (1958) A Carta Estratigráfica da Bacia do Acre (FEIJÓ; SOUZA, estabeleceu a designação Formação Formosa para essas 1994) mostra quatro sequências deposicionais de segunda litologias, constituídas por quartzitos cinza-escuros muito ordem, representadas por rochas com idades que variam do duros, altamente metamorfizados, e camadas de chert Neocarbonífero ao Terciário (vide figura 2.2). cinza-claro a branco (Figura 2.7). A Sequência Permocarbonífera, constituída pelas Nessa região, exposições de rochas ácidas foram formações Apuí, Cruzeiro do Sul e Rio do Moura, marca associadas por Caputo (1973) à Formação Formosa, posi- o estágio inicial de deformação da bacia, correspondendo ção contrária à assumida por Barros et al. (1977), que as à primeira fase de um ciclo transgressivo-regressivo, com consideram intrusivas nessa unidade. Para esses autores, sedimentação em sistemas de leques aluviais, costeiro e essa formação é constituída por quartzitos, metassiltitos, marinho raso, encerrada com a Orogenia Tardi-Herciniana. arenitos quartzíticos e camadas de chert originadas por A Sequência Jurássica é composta, unicamente, pela metamorfismo de contato na fácies albita-epídoto-hornfels Formação Juruá-Mirim, representando uma sedimentação (WINKLER, 1967). em ambiente continental referente à fase regressiva do A identificação do fóssil Productus cora em seixos referido ciclo, estendendo-se até a ocorrência do Diastro- encontrados na referida drenagem permitiu a correlação fismo Juruá, que provocou o soerguimento tanto da Bacia temporal com unidades litoestratigráficas de idade car- do Solimões como da Bacia do Acre. bonífera definidas na região andina. Entretanto, Caputo A Sequência Cretácea, composta pelo Grupo Jaquira- (1973) aponta uma idade pré-cambriana por estar intru- na, foi depositada sob atu- ação da Orogenia Andina, em ambiente continental com influência marinha. Por último, a Sequên- cia Terciária, representada pela Formação Solimões e depositada em ambiente essencialmente continen- tal durante os estágios tardios de elevação da cordilheira dos Andes. Alguns pesquisadores relatam ainda a presen- ça de sedimentos paleo- zoicos, metamorfizados, denominados Formação Formosa, ainda não corre- lacionados a outras unida- des paleozoicas descritas neste trabalho. O Mapa Geológico do Estado do Acre revela predomínio dos sedimen- tos da Formação Solimões, bem como a existência de unidades litoestratigráfi- cas de ocorrência restrita, sem maior representação espacial (Formação For- mosa e Sienito República) (Figura 2.6). Figura 2.6 - Mapa geológico do estado do Acre. Fonte: SILVA et al., 2003. 20 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Formação Cruzeiro do Sul Essa unidade foi proposta por Silva (1993) para desig- nar os sedimentos carbonáticos e evaporíticos dispostos em camadas de calcarenitos bioclásticos intercaladas a leitos de anidrita branca, folhelho calcífero e calcilutito cinza-claro (FEIJÓ; SOUZA, 1994), que ocorrem nos arredores da cidade de Cruzeiro do Sul, no estado do Acre. O ambiente deposicional interpretado corresponde ao marinho raso, em plataforma carbonática de alta e baixa energia. A seção-tipo adotada é o intervalo de 3.713 a 3.992 m do poço 1-RM-1-AC. Seu contato inferior com a Formação Apuí é concordante, marcado pelo aumento nos valores de eletrorresistividade. O posicionamento no Eopermiano deve-se a estudos em palinomorfos, sendo correlacionada à Formação Pedra de Fogo da Bacia do Figura 2.7 - Exposição de quartzitos (cachoeira do igarapé Capanaua/Anil). Parnaíba. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011 Formação Rio do Moura dida por rochas ácidas, representando uma emersão do Escudo Brasileiro. Estudos posteriores mantêm a idade car- O termo Rio do Moura tinha sido utilizado informal- bonífera para essa formação, não se observando aparente mente por Moura e Wanderley (1938), quando Silva (1993) correlação com as outras unidades permocarboníferas da oficializou a denominação Formação Rio do Moura para Bacia do Acre (formações Apuí, Cruzeiro do Sul e Rio do designar uma seção não aflorante, composta por intercala- Moura) não metamorfizadas. ções de arenitos e pelitos, que marca o final da Sequência A distribuição espacial dessa unidade está restrita Permocarbonífera. ao extremo noroeste do estado, junto à bacia do igarapé O arenito é fino, cinza, com estratificações cruzadas, Capanaua, registrando-se uma extensa exposição rochosa enquanto os pelitos são cinza-claros e/ou cinza-escuros, de 1.300 m no leito dessa drenagem, bastante fraturada laminados e calcíferos, depositados em ambiente marinho e deformada, frequentemente preenchida por diques de nerítico, em estágio transgressivo, cuja seção-tipo é o in- rochas ácidas e quartzo queratófiro. As direções estruturais tervalo de 3.417 a 3.713 m do poço 1-RM-1-AC. mais comuns são N30ºE, N55ºE, N-S e N20ºW. O contato inferior é concordante com os carbonatos Essa drenagem é conhecida pela comunidade local e evaporitos da Formação Cruzeiro do Sul e marcado por como igarapé Anil, enquanto o igarapé Capanaua corres- baixos valores nas curvas de raios gama e eletrorresistivi- ponde a uma drenagem próxima. dade. A idade neopermiana é baseada em poucas análises palinológicas, sendo possível sua correlação com a Forma- Formação Apuí ção Motuca da Bacia do Parnaíba. A designação Formação Apuí foi proposta por Feijó Formação Juruá-Mirim e Souza (1994) em substituição ao termo Formação Rio Branco estabelecido por Silva (1993). Essa unidade compõe O termo Formação Juruá-Mirím, formalizado por Feijó a base, não aflorante, da Sequência Permocarbonífera, e Souza (1994), fora usado informalmente por Miura (1972) composta de conglomerado, arenito conglomerático, e Petri e Fúlfaro (1983) para denominar o siltito castanho e diamictito e folhelho preto que ocorrem no rio Apuí, tendo avermelhado, intercalado com camadas de anidrita branca, como seção-tipo o intervalo de 3.992 a 4.226 m do poço halita e arenito fino, que ocorre no rio Juruá-Mirím. 1-RM-1-AC. O conglomerado é castanho, sustentado por O ambiente deposicional interpretado é flúviola- matriz arenoargilosa, na qual são encontrados seixos e grâ- custre, com influência marinha e formação de planícies nulos de quartzo, feldspato e granito, sendo interpretado de sabkha. O contato inferior com a Formação Rio do como depositado no sistema de leques aluviais durante a Moura corresponde a uma discordância regional, gerada fase inicial de formação da bacia. durante o soerguimento da bacia, devido ao Diastrofis- Essa formação repousa em discordância sobre as mo Juruá. rochas do embasamento cristalino (vide figura 2.5). A Não existem determinações bioestratigráficas e seu idade neocarbonífera é inferida a partir das unidades posicionamento no Jurássico é inferido. Adotou-se como sobrepostas, sendo correlacionada às formações Juruá, seção-tipo para essa unidade o intervalo de 2.525 a 3.417 da Bacia do Solimões, e Monte Alegre, da Bacia do m do poço 1-RM-1-AC. A formação é correlacionável ao Amazonas. Grupo Mearim da Bacia do Parnaíba. 21 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Sienito República O afloramento do Sienito República situa-se no ex- tremo noroeste do Brasil, a 900 km de Rio Branco, capital do Acre, no Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD), município de Mâncio Lima, fronteira com o Peru. A prin- cipal via de acesso a partir da cidade de Mâncio Lima é fluvial, pelo rio Moa. No período de estiagem, a travessia é realizada por pequenos barcos, com motor rabeta, em um percurso de 105 km, com, no mínimo, 12 horas de viagem até a base de fiscalização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) situada na entrada do PNSD. Daí até o afloramento do Sienito República o trajeto é realizado a pé, por mais 15 km, em uma trilha, em floresta fechada. Outra exposição importante dessa unidade foi iden- tificada no alto igarapé Capanaua/Anil, intrudindo os metassedimentos da Formação Formosa, junto à cachoeira Figura 2.8 - Matacões dispersos de sienito encobertos pela homônima, inserida na serra do Divisor. vegetação tropical (bacia do igarapé Anil, afluente esquerdo Essa denominação foi adotada por Barros et al. (1977) do rio Moa).Fotografia: Gil Barreto, 2011. para um conjunto de rochas intrusivas que ocorre nos iga- rapés Capanaua, Índio, Coronel e República. Essas intrusões são constituídas de quartzo-sienito e quartzo-traquito. O primeiro apresenta estrutura isotrópica, granulação média e cor avermelhada, tendo feldspato alcalino como mineral essencial, além de biotita, quartzo e pirita. Ao micros- cópio, a textura é granular hipidiomórfica, formada por cristais euedrais e subeudrais de ortoclásio pertítico, com alguma alteração para sericita e argilominerais. Outros minerais presentes são quartzo, biotita e carbonatos. Os quartzo-traquitos, de cor rosa, estão geralmente alterados, observando-se, ainda, fenocristais euedrais de feldspato alcalino imersos em matriz fina, constituída, essencialmen- te, de quartzo. Ao microscópio, apresentam típica textura traquítica, formada por prismas de ortoclásio pertítico encoberto por película de argilominerais. Outros minerais presentes são quartzo, minerais opacos, apatita e zircão, dispostos nos interstícios dos prismas de ortoclásio (Figuras 2.8 e 2.9). Figura 2.9 - Fragmento rochoso do sienito República Há três datações isotópicas no Sienito República; duas (serra do Divisor). são Rb/Sr, muito imprecisas; a terceira, K/Ar, mais precisa, Fotografia: Gil Barreto, 2011. indica idade de 238 Ma, correspondendo ao Triássico mé- dio. As datações utilizadas no Projeto RADAMBRASIL são Grupo Jaquirana de Tassinari e Teixeira (1976), obtidas por Rb/Sr em rocha total para um quartzo-sienito e um quartzo-traquito com A Sequência Cretácea é conhecida desde os primeiros idades de 210 ± 96 Ma e 162 ± 51 Ma, respectivamente trabalhos de pesquisa na Bacia do Acre, devido ao fato (Quadro 2.1). de todas as suas unidades componentes aflorarem na Tassinari e Teixeira (1976) indicam que o elevado serra do Divisor. Tais unidades, denominadas por Silva erro analítico apresentado nas rochas é causado por dois (1993) como Grupo Jaquirana, são constituídas pelas fatores: elevado teor de estrôncio em relação a rubídio, formações Moa, Rio Azul, Divisor e Ramon, com contatos acarretando baixa relação Rb/Sr, e a razão inicial Sr87/ concordantes e interdigitadas entre si. Correspondem a Sr86 assumida para essas rochas, pois amostras com baixa uma sequência depositada em ambiente fluviodeltaico, relação Rb/Sr possuem suas idades fortemente influencia- limitada na base pela Orogenia Tardi-Herciniana e, no das por essa razão inicial. Concluíram, assim, que esses topo, pelo Diastrofismo Juruá. O perfil típico para todo corpos se associam a uma intrusão situada no intervalo o grupo é o intervalo de 1.815 a 2.525 m do poço 1-RM- 300-100 Ma. 1-AC (Figura 2.10). 22 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Quadro 2.1 - Dados analíticos Rb/Sr e K/Ar de rochas intrusivas alcalinas, relativas ao sienito República. Nº Campo Folha Litologia Rb (ppm) Sr (ppm) Rb87/Sr86 Sr87/Sr86 Idade (Ma) CAP/09/A1 SB.18-Z-C Quartzo-Sienito 132,3 204,0 1,878 0,7158 210 ± 96 CAP/08/A1 SB.18-Z-C Quartzo-Traquito 124,3 98,6 3,652 0,7187 162 ± 51 Nota: (Sr87/Sr86) = 0,710; Rb87/Sr86 = 2,59; valores normalizados para Sr87/Sr86 = 0,1194; Rb = 1,47 x 10-11 anos-1. Nº Campo Folha Nº Laboratório Mineral Idade (Ma) CAP/09/A1 SB.18-Z-C 3414 RT 238 ± 3 Nota: Total = 0,530 x 10-9 anos-1; k = 0,585 x 10-10 anos-1; k40 = 1,19 x 10-2 % do k total. Fonte: Elaborado por Ruy Benedito Calliari Bahia, 2014. Figura 2.10 - Coluna estratigráfica do grupo Jaquirana.Fonte: SILVA, 1993. Formação Moa cação cruzada sigmoidal (Sl) e arenito maciço (Sm). A fácies de arenito com estratificação cruzada planar (Sp) (Figura 2.11) A Formação Moa, definida por Oppenheim (1937), está associada ao arenito com estratificação plano-paralela ocorre no flanco leste da serra do Moa, nas serras Jaqui- (Sh), ocorrendo, ainda, a fácies (Sp), constituída por arenito de rana e Juruá-Mirím, componentes da serra do Divisor. O coloração cinza e granulometria grossa, com grãos angulosos contato inferior da Formação Moa é não conforme com o e malselecionados. Exibe estratificação cruzada planar, com Sienito República e com o embasamento cristalino. A au- sets de até 50 cm de espessura. Suas superfícies limitantes sência de macrofósseis dificulta uma datação mais precisa são aproximadamente horizontais e planas, sem feições de dessa unidade. Entretanto, estudos em palinomorfos lhe escavação. Essa litofácies se forma pela migração de dunas 2D. atribuem idade mesocretácea, podendo ser correlacionada A areia é transportada por tração e suspensão intermitente ao às formações Codó e Grajaú, das bacias do Parnaíba e São longo do flanco a montante da forma do leito e depositada Luís, respectivamente (FEIJÓ; SOUZA, 1994). por processo gravitacional (avalanching) sobre os foresets. A unidade é formada por seção de arenitos com estra- O arenito maciço (Sm) é uma rocha de cor amarelo- tificação cruzada, de cor amarela a creme, granulometria claro, granulometria média, com grãos bem selecionados e variando de silte a areia. São observados, nas partes mais arredondados (Figura 2.12), ocorrendo em camadas tabulares inferiores, sem estratificação, níveis conglomeráticos de que atingem até 60 cm de espessura. Embora Miall (1996) grânulos de quartzo (4 a 6 mm), subarredondados, de colo- interprete a textura maciça em arenitos fluviais como produto ração amarela. Intercaladas nesses arenitos observaram-se, de fluxos gravitacionais ou modificações pós-deposicionais, principalmente nas partes médias, finas camadas de argila acredita-se que a formação do arenito em questão possa ser amarelada, além de siltito com estratificação plano-paralela, mais bem atribuída à deposição rápida a partir de suspensão cinza-esverdeado, cuja espessura varia de 8 a 10 cm. durante os períodos de cheias (COLLINS, 1996). Com base, principalmente, na análise de litossomas e A fácies de arenito com estratificação cruzada sig- estruturas sedimentares, foram definidas três litofácies: arenito moidal (Sl) ocorre em forma de camadas com espessura com estratificação cruzada planar (Sp); arenito com estratifi- de 4 m. O arenito é róseo, fino a médio, com grãos bem 23 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 2.11 - Arenito com estratificação cruzada planar da formação Moa (próximo à base do ICMBio; curso médio do rio Moa). Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. Figura 2.12 - Afloramento de arenito maciço da formação Moa (próximo à base do ICMBio; curso médio do rio Moa). Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. selecionados e arredondados (Figura 2.13). A estratificação e das formas de leito, em direção ao topo da sequência cruzada é assintótica, referente às superfícies limitantes (finingup-ward), fato observado na sequência sedimentar superiores e inferiores dos sets. Essa fácies é relacionada da Formação Moa. a uma deposição sob condições críticas de passagem Outra forma de reconhecimento dos depósitos fluviais para o regime de fluxo superior na presença de concen- dessa era é o estudo detalhado dos indicadores de paleo- trações elevadas de grãos em suspensão, o que reduz o correntes, geralmente unimodal nesse tipo de ambiente. A desenvolvimento da turbulência de fluxo e o poder erosivo petrografia e a geometria dos corpos podem também ajudar de redemoinhos de separação. Assim, pode ocorrer tra- na interpretação do sistema fluvial. Na Formação Moa, os peamento de areia sobre cristas arredondadas de dunas, sedimentos são mais imaturos; o quartzo-arenito, considerado gerando estratificação cruzada sigmoidal de baixo ângulo o arenito mais puro, é encontrado apenas nos clastos dos (MIALL, 1996). conglomerados, possivelmente gerados a partir do retraba- A interpretação dos ambientes de sedimentação dos lhamento de alguma sedimentação plataformal marinha mais depósitos de areias fluviais ocorrida no antigo rio Moa antiga, onde é comum a deposição desse tipo de sedimento. durante o Paleozoico é caracterizada pela abundância de es- Os canais com alta sinuosidade (meandrante) têm tratificações cruzadas planar e tangencial, com frequência sido reconhecidos com muita frequência no Paleozoico, menor de acamamento plano-paralelo. Essas estruturas são caracterizados pela presença de finingup-ward e paleo- de tamanho maior do que as estruturas similares formadas correntes indicando fluxo em várias direções. Em alguns em ambiente marinho. Uma das tendências dos depósitos pontos de ocorrência da Formação Moa, observa-se que do sistema fluvial é a diminuição no tamanho dos grãos entre os sets de estratificação dos arenitos ocorrem finas 24 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Figura 2.13 - Arenito com estratificação cruzada sigmoidal da formação Moa, aflorante na cachoeira do Amor (serra do Divisor). Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. camadas de argila, de coloração cinza-claro, possivelmente O arenito apresenta cores amarela, creme e vermelha, depositadas em planície de inundação do rio meandrante. granulometria fina, maciço e com estratificação cruzada. O O estilo do sistema fluvial que depositou os sedimentos folhelho é cinza e castanho, laminado, com disseminação de constituintes da Formação Moa mostra que há nítida matéria orgânica e pirita. Seu contato inferior é concordante ciclicidade de elementos. Observa-se granodecrescência com a Formação Moa, observado em afloramentos ao lon- ascendente em todo o pacote sedimentar, caracterizada go do rio Moa, onde ocorrem os arenitos dessa formação, por lentes de conglomerado maciço, na base, intercaladas sobrepostos por pelitos da Formação Rio Azul. Seu posicio- no pacote arenoso. Superfícies limitantes de quarta ordem namento no Neocretáceo é baseado em sua superposição separam os sets de arenito com estratificações cruzadas. na Formação Moa e correlações com outras unidades, provavelmente sincrônicas de bacias do Peru e Equador. Formação Rio Azul Com base, principalmente, na análise de litossomas e es- truturas sedimentares, foram definidas duas litofácies, as quais Essa formação, descrita por Oppenheim (1937) e abrangem ortoconglomerado maciço ou com estratificação definida por Moura e Wanderley (1938), é constituída por incipiente (Gm) e arenito com estratificação horizontal (Sh). folhelho e arenito fino, aflorantes ao longo dos rios Moa O conglomerado maciço ou com estratificação incipien- e Azul, no flanco oeste da serra do Moa. te (Gm) representa a fácies menos expressiva da unidade, Morfologicamente, caracteriza-se por um terreno ocorrendo em forma de lentes associadas aos arenitos com mais arrasado do que o das outras formações do Grupo estratificação plano-paralela, onde atinge aproximadamente Jaquirana. A unidade é composta por uma sequência de 20 cm de espessura e 15 m de extensão aflorante. O conglo- arenito de cor creme, com granulometria variando de silte merado é petromítico, de coloração amarelada, contendo a areia, por vezes depositado em bancos compactos e pouca matriz arenosa. Os clastos são de quartzo-arenito e outras vezes apresentando estratificação cruzada. Predo- quartzo, com tamanhos variando de 1 até 5 cm de compri- minam intercalações de folhelhos sílticos cinza-escuros de mento; apresentam-se, geralmente, bem arredondados e dimensões decimétricas. moderada a pobremente selecionados (Figura 2.14). 25 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 2.14 - Conglomerado da formação Rio Azul (curso médio Figura 2.15 - Arenito com estratificação plano-paralela da do rio Moa; serra do Divisor). formação Rio Azul (curso médio do rio Moa; serra do Divisor). Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. A presença de clastos arredondados e comumente Essa fácies se forma em regime de fluxo superior na imbricados indica deposição a partir de correntes trativas. transição de fluxo subcrítico para supercrítico. Possíveis A estratificação plano-paralela dos corpos conglomeráticos velocidades seriam em torno de 1 m/s, a uma profundidade é relacionada a transporte rápido de clastos sob condições da água de 25 a 50 cm. Os seixos foram, provavelmente, de alta descarga (cheias) e alta carga sedimentar. Segundo depositados a partir de tapetes de tração de areia, nos quais Hein e Walker (1977), os lençóis conglomeráticos que se se movimentaram por rolamento (MIALL, 1996). desenvolvem sob essas condições estendem-se mais rapi- damente a jusante do que crescem verticalmente. Dessa Formação Divisor maneira, forma-se um lençol de baixo relevo, paralelo ao fluxo e acamamento horizontal (barra longitudinal). Segun- Essa unidade foi definida por Moura e Wanderley do Miall (1996), lençóis conglomeráticos que se acumulam (1938) como constituída de arenito fino a médio, às vezes em águas mais profundas tendem a desenvolver foresets conglomerático, de cores branca e vermelha, maciço ou de formas de leito transversais. com estratificação cruzada. Esse arenito ocorre ao longo A fácies arenito com estratificação horizontal (Sh) é do rio Moa, nas proximidades da cachoeira Pedernal. constituída, essencialmente, de arenito amarelado, fino Morfologicamente, apresenta feições tipo cuestas, a médio, com grãos bem selecionados e arredondados com grandes escarpas, em função do tectonismo rela- (Figura 2.15). cionado à Orogenia Andina. Seu contato inferior com a A geometria dos corpos é em forma de camadas tabu- Formação Rio Azul é concordante e seu posicionamento lares, com espessura de até 80 cm; internamente, exibem estratigráfico também no Neocretáceo deve-se a correla- estratificação plano-paralela, com linhas de seixos nos planos ções com outras unidades das bacias do Peru e Equador. de estratificação. Os seixos são bem arredondados, com di- A Formação Moa foi formada em ambiente fluvial, com âmetro máximo de 5 cm, sendo compostos, essencialmente, depósitos de canal, barras em pontal e planície de inun- por arenito fino cimentado que difere do arenito hospedeiro. dação (Figuras 2.16 e 2.17). 26 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE A formação encontra-se dobrada e falhada como resultado da fase Quéchua da Orogenia Andina. Estudos em palinomorfos lhe atribuem idade neocretácea, entretanto, Barros et al. (1977) lhe conferem idade terciária. Pode ser correlacionada à Formação Itapecuru da Bacia do Parnaíba. Formação Solimões Rego (1930) foi quem primeiro utilizou o termo Série Solimões, posteriormente revalida- do por Caputo, Rodrigues e Vasconcelos (1971) como Formação Solimões. Essa unidade representa um pacote de sedimentos clásticos, essencialmente pelíticos, que, na Bacia do Acre, é composto de sedi- mentos argilossiltosos e arenosos, contendo Figura 2.16 - Camada delgada argilosa, associada à planície de inundação camadas de concha e de linhito, intercalações (curso médio do rio Moa, próximo à foz do rio Ramon; serra do Divisor). de turfa e conglomerado, bem como concre- Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. ções carbonáticas, gipsíferas e ferruginosas. É muito rica em fósseis vegetais (troncos, folhas e carófitas) e animais (ostracodes, escamas, dentes e ossos) (CAPUTO; RODRIGUES; VAS- CONCELOS, 1971). Estratificações plano-paralelas, cruzadas planares e acanaladas, de pequeno a grande porte são comuns nessa unidade, que está em discordância angular sobre a Formação Ramon. A idade da Formação Solimões se estende desde o Mioceno até o Plioceno, atestada pelas associações esporopolínicas estudadas por Cruz (1984). É plausível sua correlação com o Grupo Barreiras, presente em quase toda a costa leste do Brasil. O seu ambiente de sedimentação é continental, em sistemas fluvial meandrante e lacustre, com depósitos em barras em pontal, barras de canal e pla- nície de inundação, formados sob influência da Orogenia Andina e pela oscilação gláci- Figura 2.17 - Depósitos de planície de inundação da formação Divisor (curso eustática do nível do mar (Figura 2.18). Nos médio do rio Moa, próximo à foz do rio Ramon; serra do Divisor). períodos interglaciais ocorre elevação do mar, Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. reduzindo o gradiente e o poder erosivo dos rios, fatores que favoreceram a deposição dos Formação Ramon sedimentos finos da Formação Solimões. No clima seco desses períodos, formaram-se os grandes platôs lateríticos, Essa unidade foi proposta por Bouman (1959) com o desaparecimento de grandes florestas e de parte da para designar uma sequência de red-bed constituída de vida animal. folhelho, siltito e calcarenito, relacionada aos eventos Latrubesse et al. (2010), ao desenvolverem novos estu- compressionais andinos que ocorrem no igarapé Ramon, dos sobre essa formação, baseados no conteúdo fossilífero afluente do rio Moa. (vertebrados e palinomorfos) e em análises de fácies dos O arenito é médio, vermelho-tijolo, argiloso, con- barrancos dos rios, cortes de estradas e três trincheiras, tendo intercalações de siltito e folhelho cinza-escuro. afirmaram que os níveis mais superiores dessa unidade Repousa em discordância angular de baixo ângulo sobre é de idade do Mioceno Superior, tendo sido depositados as rochas da Formação Divisor, o que é bem nítido na em ambiente continental dentro de uma bacia subsidente. cachoeira Pedernal. O ambiente de deposição foi dominado por rios avulsivos 27 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 2.18 - Vários tipos de ocorrências dos sedimentos da formação Solimões ao longo da rodovia BR-364 (municípios de Cruzeiro do Sul e Rio Branco). Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. 28 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE associados a sistemas de megaleques e, ainda, rios avulsivos em bacias de inundação (pântanos, lagos, deltas internos e splays). Esses autores indicam uma espessura superior a 1.000 m ao longo da região fronteiriça entre os estados do Acre e Amazonas. Concreções carbonáticas dispersas em sedimentos pelíticos da Formação Solimões são descritas praticamente em todas as exposições dessa unidade. Entretanto, alguns afloramentos merecem destaque pelo predomínio de sedimentos de natureza carbonática, dispostos de forma contínua e sub-horizontalizada, exibindo, ainda, concreções volumosas que ressaltam nos taludes fluviais (Figura 2.19). Em Marechal Thaumaturgo, poços tubulares profundos atingiram o lençol freático com águas salobras, revelando a presença de níveis carbonáticos em subsuperfície. Figura 2.20 - Sedimentos arenosos capeando pelitos da formação Solimões (rodovia BR-407, próximo à Comunidade São Pedro; Rodrigues Alves). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.19 - Exposição de sedimentos carbonáticos intercalados em argilitos da formação Solimões (rio Juruá, próximo a Porto Walter). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.21 - Sedimentos arenosos inconsolidados capeando Segundo Caputo (1984), a Formação Solimões corres- pelitos da formação Solimões; relevo colinoso (área periférica de Cruzeiro do Sul).Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. ponde a uma sedimentação molássica distal, sendo apenas a porção superior da formação depositada em ambientes fluvial e lacustre. Sua seção-tipo é ao longo do alto curso do rio Solimões (SANTOS, 1974), ocorrendo também ao longo dos rios Javari, Purus e Acre. Seu perfil-tipo adotado é o in- tervalo de 5 a 765 m do poço 2-RJ-1-AM (EIRAS et al., 1994). Formação Içá Na região de Cruzeiro do Sul, estendendo-se até as proximidades da cidade de Porto Walter, registram-se várias exposições de sedimentos arenosos recobrindo os sedi- mentos argilosos da Formação Solimões, aparentemente por meio de discordância paralela. São constituídos por arenitos amarelo-avermelhados, róseos e esbranquiçados, de granulometria fina, por vezes de feição conglomerática, bastante friáveis, podendo contemplar intercalações menos espessas, lenticulares, de siltitos e argilitos (Figuras 2.20 a Figura 2.22 - Espessa camada arenosa, com intercalações delgadas de pelitos da formação Solimões; solo arenoso, tipo 2.22); em geral, são maciços, ocorrendo ainda estratifica- Espodossolos Marechal Thaumaturgo). ção cruzada, sobretudo em sua porção inferior. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 29 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE O ambiente de deposição dessa unidade é tipicamen- Coberturas Detrito-Lateríticas te continental, de maior energia, associado a correntes fluviais, fluviolacustre e em leques aluviais, exibindo ca- Constituem crostas lateríticas ferruginosas, sem ráter oxidante, responsável pela decomposição de toda perfis completos, e depósitos argiloarenosos e/ou síltico- a matéria orgânica contida nos sedimentos; são mais -arenosos, ricos em concreções ferruginosas, resultantes porosos e de baixo conteúdo de matéria orgânica. Dife- de seu desmantelamento (Figuras 2.24 e 2.25). Em áreas rem claramente da sedimentação Solimões, depositada em que o perfil laterítico está representado pela parte em ambiente redutor, de granulometria mais fina, argi- superior, predomina horizonte concrecionário, com algu- losa, com baixa porosidade e alto conteúdo de matéria mas protocolunas (Figura 2.26), enquanto nas encostas orgânica. aflora a parte intermediária dos perfis, caracterizada pelo Esses sedimentos foram correlacionados, preliminar- horizonte argiloso/mosqueado, parcialmente coberto por mente, à Formação Içá, designação proposta por Maia et colúvio/aluviões arenoargilosos, ricos em detritos lateríticos al. (1977), quando descreveram sedimentos arenosos no e fragmentos de quartzo. rio Içá, afluente esquerdo do alto Solimões, que recobrem As crostas ferruginosas também podem estar presen- parte das bacias do alto Solimões e do Acre. Cavalcante tes em unidades litoestratigráficas mais antigas, como os (2010) propôs uma nova designação – Formação Cruzeiro sedimentos Solimões, formando camadas sub-horizontais do Sul –, adotada em trabalhos desenvolvidos pelo estado de espessuras decimétricas, estendendo-se por dezenas de do Acre. Entretanto, tal denominação fora utilizada por metros (Figura 2.27). Feijó e Souza (1994) para descrever sedimentos paleozoi- A área de distribuição dessas coberturas restringe-se cos da Bacia do Acre, devendo, assim, ser abandonada. A à parte leste do estado, em terrenos de relevo aplainado, espessura estimada é de 100 m, obtida em furo da Petróleo com vales pouco profundos. São superfícies relativamente Brasileiro S/A (PETROBRAS), localizado no alto rio Juruá estáveis, onde os processos erosivos são pouco atuantes. (MAIA et al., 1977). O desenvolvimento limitado dos lateritos no Acre pro- Uma ampla exposição de sedimentos arenosos vavelmente está associado à presença de extensos corpos inconsolidados foi identificada em uma frente de lavra aquosos no Paleógeno Superior, favorecendo a deposição artesanal – Areal do Alvir –, sendo considerada como dos sedimentos Solimões, como também restringindo a derivada da intemperização de depósitos da Formação formação dos perfis lateríticos, tão comuns na Amazônia Içá, caracterizando-se localmente uma feição denominada e atribuídos ao Paleógeno/Quaternário, como ocorre no orstein, oriunda do enriquecimento em matéria orgânica vizinho estado de Rondônia. desses sedimentos arenosos (Figura 2.23). Cavalcante (2006) atribui idade pleistocênica a essas co- O caráter oxidante dessa unidade não favorece a pre- berturas, alóctones ou autóctones, embora inexistam dados servação de conteúdo fóssil, dificultando a determinação confiáveis que possam corroborar tal indicação. Figueiredo et da idade de deposição. Entretanto, como ocorre acima al. (1974) também sugerem idade pleistocênica para os de- da parte superior da Formação Solimões, é considerada pósitos lateríticos da região do Vale do Guaporé (Rondônia). pleistocênica. Como produto da pedogeneização dessas coberturas, desenvolvem-se Latossolos Amarelo-Avermelhados, ocupados parcialmente por culturas extensivistas (milho) (Figura 2.28). Figura 2.23 - Desenvolvimento de orstein na formação Içá Figura 2.24 - Exposição de coberturas lateríticas desmanteladas (Areal do Alvir, Cruzeiro do Sul). (rodovia BR-364, distante 24 km de Rio Branco, sentido Porto Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Velho). Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. 30 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Figura 2.27 - Nível ferruginoso dobrado (cavidade), intercalado em sedimentos argilosos da formação Solimões Figura 2.25 - Exposição de sedimentos arenosos Solimões, com (rodovia BR-317, Brasileia). desenvolvimento posterior de camadas de canga ferruginosa Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. intercaladas; na parte superior do afloramento, observa-se desmantelamento da canga ferruginosa (rodovia BR-317, entre Xapuri e Brasileia). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.28 - Pllantio de milho em Latossolo (rodovia BR-364, sentido Porto Velho). Fotografia: Amilcar Adamy 2011. Leques Aluviais (Terraços Superiores) Os Leques Aluviais estão sobrepostos à Formação Solimões, formando os terraços superiores identificados em imagens de satélite. São constituídos, principalmente, de sedimentos pelíticos, que, muitas vezes, contêm seixos de argilito, perfeitamente preservados na massa síltica maciça, sendo classificados como paraconglomerados. Os seixos de argilito são angulosos, com 3 cm de diâmetro máximo, e refletem pouco transporte em ambiente com pouca água de baixa energia. Esses sedimentos foram depositados após a formação do grande lago gerado pelo soerguimento da cordilheira andina que represou o rio Sanozama, possibilitando a deposição de grande quantidade de sedimentos pelíticos em imensa área, os quais foram denominados Formação Solimões. Com a inversão do fluxo da bacia hidrográfica, Figura 2.26 - Horizonte concrecionário e protocolunas de perfil laterítico incompleto (rodovia BR-364, a 24 km de Rio Branco, grandes leques aluviais foram formados devido à proximi- sentido Porto Velho). dade da cordilheira e à intensa tectônica em uma bacia Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. sedimentar recém-formada (Figura 2.29). 31 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 2.29 - Afloramento de leque aluvial da bacia do Acre (rodovia BR-407, sentido Cruzeiro do Sul (AC)-Guajará (AM)). Fotografia: Ruy Benedito Calliari Bahia, 2012. Terraços Aluviais Os Terraços Aluviais constituem superfícies sub -horizontais, compostas por sedimentos clásticos malsele- cionados, de granulometria fina (argila, silte e areia), even- tualmente material arenoso médio a grosso, e ainda níveis de turfa, situados nos flancos dos atuais fundos de vale. São superfícies bem drenadas, de relevo plano a levemente ondulado, representado por paleoplanícies de inundação e canais fluviais semelhantes aos atuais, estabelecidos em nível mais elevado do que o das várzeas atuais e acima do nível médio das cheias sazonais. Estruturas primárias, próprias e ambiente fluvial, como estratificação cruzada e plano-paralela, são observados com bastante frequência. Os primeiros trabalhos no estado do Acre individualiza- ram apenas um nível de terraço, sem estabelecer a respectiva idade de deposição (BARROS et al., 1977; BRASIL, 1976), sendo considerados como depósitos aluviais mais antigos, Figura 2.30 - Terraços pleistocênicos do rio Juruá (proximidades indiferenciados e inconsolidados, de pequena espessura, de Rodrigues Alves). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. recobrindo superfícies morfológicas e terraços erosionais. Trabalhos mais recentes (CAVALCANTE, 2010, entre outros) individualizam duas gerações distintas de terraços: pleistocênicos e holocênicos. Terraços pleistocênicos São terraços mais antigos e mais altos, de distribuição descontínua, constituídos por argilas, siltes e areias, às vezes maciços, de colorações variegadas, predominando as avermelhadas (Figuras 2.30 e 2.31). Localmente, foram registradas intercalações lenticu- lares de argilitos e conglomerados. Trata-se de planícies de inundação pretéritas, representadas, atualmente, por superfícies aplainadas e, possivelmente, escalonadas. Dife- rem dos terraços holocênicos pela cota maior e dissecação por drenagens de primeira e segunda ordem, e, ainda, por raros meandros colmatados, mais frequentes nos terraços Figura 2.31 - Extensos terraços pleistocênicos no rio Purus holocênicos. Foram identificados pela margem direita dos (a montante de Santa Rosa do Purus). rios Purus e Juruá e outros afluentes menores. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 32 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE Terraços holocênicos Distribuem-se no sopé das vertentes íngremes das regiões da serra do Divisor, preferencialmente em sua borda São terraços mais baixos e mais recentes, evidencia- leste (Figura 2.34), estando encobertos pela floresta tropical. dos por cascalhos lenticulares de fundo de canal, areias Depósitos coluvionares de encosta são caracterizados quartzosas inconsolidadas de barra em pontal e siltes e no relevo colinoso e dissecado da mancha urbana de Rio argilas de transbordamentos (Figuras 2.32 e 2.33). Ocorrem, Branco, derivando-se dos sedimentos argilosos da Forma- preferencialmente, nas margens dos rios Juruá, Gregório, ção Solimões. O caráter expansivo intrínseco dessas argilas Tarauacá e Envira. torna comuns os processos de rastejamento das encostas, provocando superfícies de ruptura no solo que danificam estruturas civis implantadas nesses terrenos (Figura 2.35). Figura 2.32 - Terraço holocênico no médio rio Moa (a montante de Mâncio Alves). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.34 - Borda leste da serra do Divisor, com flancos recobertos por depósitos coluvionares (alto rio Moa). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.33 - Terraço aluvial do rio Tarauacá, submetido ao fenômeno das “terras caídas” (proximidades da cidade de Tarauacá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.35 - Depósitos coluvionares argilosos, derivados dos Depósitos Coluvionares sedimentos Solimões, submetidos a rupturas devido a argilas expansivas (área urbana de Rio Branco, próximo ao rio Acre). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Constituem superfícies deposicionais de forte incli- nação, representadas por depósitos inconsolidados de Depósitos Aluvionares encosta, de matriz arenoargilosa a argiloarenosa, ricos em blocos e matacões de arenitos, muito malselecionados, em Unidade litoestratigráfica compreendida por sedi- interdigitação com depósitos suavemente inclinados das mentos inconsolidados de depósitos interdigitados entre rampas de alúvio-colúvio. dois ambientes distintos, representados pelo canal do 33 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE rio e pela planície de inundação, constituindo depósitos a subangulosos de material sedimentar, principalmente recentes e atuais. Distribuem-se ao longo dos rios Juruá, siltitos, caracterizados por um envoltório ferruginoso, ricos Purus, Tarauacá, Iaco, Moa, Gregório, Envira, Liberdade, em restos fósseis pleistocênicos retrabalhados, exibindo dentre outros. espessura reduzida (Figura 2.38). Os depósitos do canal principal estão presentes no Em planícies de inundação, os sedimentos são acu- fundo do rio, em praias (barras em pontal) (Figuras 2.36 e mulados por episódios de transbordamentos durante as 2.37) e partes convexas de meandros, estando compostos cheias, constituídos por areias síltico-argilosas de diques por areias de granulometria fina a grossa e conglomerados, marginais e areias finas a muito finas, siltes e argilas de com pequenas concentrações de minerais opacos (BRASIL, espraiamento, geralmente depositados em sequência gra- 1976). No leito dos rios Juruá e Purus ocorrem depósitos dacional. Concentrações de restos vegetais em processo de conglomeráticos, formados por seixos subarredondados carbonização, ossos e madeiras retrabalhadas são comuns Figura 2.36 - Barra em pontal arenosa em margem convexa do Figura 2.37 - Barras arenosas em margens convexas do rio Acre rio Juruá (próximo a Cruzeiro do Sul). (entorno de Assis Brasil). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 2.38 - Praia de cascalho composto por siltitos ferrificados (rio Juruá, entre as cidades de Porto Walter e Marechal Thaumaturgo). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 34 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE de serem encontradas associadas aos depósitos de planícies perismo atuante sobre os sedimentos Solimões, portadores de inundação, embora possam ser identificados também de argilas expansivas. Com a sazonalidade climática típica nos sedimentos de canal (Figura 2.39). da Amazônia, essas argilas expansivas são retrabalhadas, O caráter inconsolidado desses sedimentos favorece propiciando o desenvolvimento de superfícies de ruptura a atuação de processos erosivos fluviais e pluviais, com e a formação de degraus nos barrancos, semelhante aos o desmantelamento dos taludes fluviais, arrastando processos de rastejamento constatados em outras regiões consigo solo e vegetação e gerando as conhecidas do estado (Figura 2.41). “terras caídas”, de alta incidência nos rios amazônicos As planícies de inundação são superfícies sub-horizon- (Figura 2.40). tais, de gradientes extremamente suaves e convergentes Os taludes fluviais observados no Acre são constituídos em direção aos cursos d’água principais. São terrenos parcialmente por sedimentos argilosos, oriundos do intem- imperfeitamente drenados, sazonalmente inundáveis. Figura 2.39 - Bancos arenosos do rio Juruá, com camadas de Figura 2.40 - Sedimentos aluvionares do rio Tarauacá, afetados matéria orgânica (área urbana de Marechal Thaumaturgo). pelo fenômeno de “terras caídas” (próximo à cidade de Jordão). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Figura 2.41 - Depósitos aluvionares do rio Acre, submetidos a processos de rastejamento (Brasileia). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 35 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE EVOLUÇÃO GEOLÓGICA REFERÊNCIAS A Bacia do Acre apresenta um registro sedimentar com ALMEIDA, M.E.; BRITO, M.F.L.; AMARO, C.A. (Org.). rochas formadas desde o Devoniano até o recente. O pacote Projeto Especial Província Mineral do Tapajós: paleozoico, com espessura de 1.500 m, está sotoposto pela geologia e recursos minerais da folha Vila Mamãe Anã sequência de 4.000 m de espessura mesozoica e mais 2.200 (SB.21-V-D); estados do Amazonas e Pará; escala 1:250.000. m da sequência pelítica do Cenozoico (CUNHA, 2007). Rio de Janeiro: CPRM, 2000. Programa Levantamentos A evolução geológica da Bacia do Acre, assim como as Geológicos Básicos do Brasil. Nota Explicativa. demais bacias fanerozoicas da Amazônia e oriente peruano, está diretamente ligada às orogenias Herciniana e Andina. ARANA, J. et al. Bacia do Acre: arcabouço estrutural Segundo Barros e Carneiro (1991), sete sequências sísmico. Manaus: PETROBRAS, 1990a. (Relatório deposicionais foram formadas, separadas por discordâncias interno). regionais relacionadas aos diversos eventos tectônicos dessas orogenias. As três primeiras sequências (Ordoviciana, Devonia- ARANA, J. et al. Bacia do Acre: prospectos exploratórios. na e Permocarbonífera) foram formadas sob influência direta Manaus: PETROBRAS, 1990b. (Relatório interno). da Orogenia Herciniana; as demais (Jurássica, Cretácea e Ter- ciária) foram depositadas sob influência da Orogenia Andina. ARANA, J. et al. Bacia do Acre: reavaliação e perspectivas. A sedimentação na Bacia do Acre começa no Eopaleo- Manaus: PETROBRAS, 1990c. 47 p. (Relatório interno). zoico, com a implantação de um sistema de riftes continen- tais de direção aproximada norte-sul denominado Evento BARROS, A.M.; ALVES, E.D. de O.; ARAÚJO, J.F.V.; LIMA, Distensional 1 (ED1) por Oliveira (1994). Tal evento provocou M.I.C. de; FERNANDES, C.A.C. Geologia. In: BRASIL. a formação de duas sub-bacias, denominadas pelo autor su- Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto pracitado como Hemigraben do Rio Curaçá e Hemigraben do RADAMBRASIL. Folha SB/SC. 18 Javari/Contamana: Rio Azul. Essas sub-bacias estão separadas pela Falha de Batã, geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso apresentando evoluções distintas, com preenchimento de potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, 1977. p. 17- sedimentos terrígenos continentais e possíveis incursões ma- 101. 420 p. (Levantamento de Recursos Naturais, 13). rinhas. Durante a Orogenia Eo-Herciniana, esses sedimentos foram deformados e soerguidos, formando os altos estruturais BARROS, M.C.; CARNEIRO, E.P. Assessment of oil que controlaram a deposição das sequências posteriores. prospects, southern part of block 8. Maranon Após um período de quietude da orogenia, começa basin, Peru. Rio de Janeiro: BRASPETRO, 1991. a fase de sinéclise da bacia, com a deposição da Sequência (Relatório interno). Permocarbonífera em ambiente marinho raso aprofundado para oeste. Um novo pulso tectônico afeta a bacia, relacionado BOUMAN, Q.C. Semi-detailed geologic à Orogenia Tardi-Herciniana, provocando o soerguimento reconnaissance of central portion of the serra do e a erosão de parte da Sequência Permocarbonífera e ge- Moa anticline, northwestern território do Acre. rando uma superfície erosiva peneplanizada, sobre a qual Belém: PETROBRAS, 1959. (Relatório interno). foi depositada, em ambiente essencialmente continental, a Sequência Jurássica, representada pelos red-beds da Forma- BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. ção Juruá-Mirim. O início da subducção da Placa de Nazca Projeto RADAMBRASIL. Folha SC.19 Rio Branco: sob a Plataforma Sul-Americana, além do Diastrofismo Juruá, geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso provocou a erosão e a deformação de grande porção dessa potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, 1976. 464 p. sequência, sendo preservada apenas uma pequena porção (Levantamento de Recursos Naturais, 12). na Calha Central, entre as falhas de Batã e Oeste de Batã. Preenchendo a depressão flexural, formada em BRITO NEVES, B.B. Main stages of the development consequência da Orogenia Andina, foram depositados os of the sedimentary basins of South America and their sedimentos continentais da Sequência Cretácea, represen- relationship with the tectonics of supercontinents. tados pelo Grupo Jaquirana, que marca o início da fase da Gondwana Research, v. 5, p. 175-196, 2002. bacia tipo foreland, sob influência direta da cordilheira dos Andes. O soerguimento da cordilheira inverteu toda a rede CAPUTO, M.V. Interpretação ambiental do sistema de drenagem, com a consequente redução na energia de cretáceo nas bacias do Acre, Ucayali e Pastaza. transporte, o que possibilitou a deposição dos sedimen- Belém: PETROBRAS-RENOR, 1974. (Relatório técnico tos essencialmente pelíticos que constituem a Sequência interno, 680-A). Terciária, representados pela Formação Solimões. Essa influência continua até os dias atuais, com tendência de CAPUTO, M.V. Relatório preliminar de exploração soerguimento de toda a bacia e continuidade de erosão e da bacia do Acre. Belém: PETROBRAS, 1973. (Relatório peneplanização da cobertura sedimentar da Bacia do Acre. técnico interno, 665-A). 36 CONTEXTO GEOLÓGICO DA BACIA DO ACRE CAPUTO, M.V. Stratigraphy, tectonics, LEITE, D.C. Detailed geologic investigations of paleoclimatology and paleogeography of northwestern território do Acre (serra do Moa, Jaquirana, northern basins of Brazil. 1984. 586 p. Tese headwaters of rio Javari). Belém: PETROBRAS, 1958. (Doutorado em Geologia) – University of California, (Relatório técnico interno, 281-A). Santa Barbara, USA, 1984. MAIA, R.G.N.; GODOY, H. de O.; YAMAGUTI, H.S.; CAPUTO, M.V.; JUCA, G.A.C.; BRAZIL, I.R. Bacia do MOURA, P.A.; COSTA, F.S.F. da; HOLANDA, M.A.; Acre: possibilidades de petróleo na seção pré-cretácea. COSTA, J.A. Projeto carvão no alto Solimões: relatório Belém: PETROBRAS, 1979. final. Manaus: CPRM; DNPM, 1977. v. 1. 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New York: Springer-Verlag, 1967. 38 3 ORIGEM DAS PAISAGENS Marcelo Eduardo Dantas (marcelo.dantas@cprm.gov.br) Edgar Shinzato (edgar.shinzato@cprm.gov.br) Amilcar Adamy (amilcar.adamy@cprm.gov.br) Ivan Bispo de Oliveira Filho (ivan.bispo@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Introdução ............................................................................................................41 Gênese das Paisagens Geomorfológicas ...............................................................41 Domínios Geomorfológicos ................................................................................. 43 Planície Amazônica .......................................................................................... 44 Serra do Divisor ............................................................................................... 46 Depressão de Cruzeiro do Sul ...........................................................................47 Domínio Colinosoda Amazônia Ocidental ....................................................... 48 Tabuleiros da Amazônia Centro-Ocidental....................................................... 50 Referências ........................................................................................................... 53 ORIGEM DAS PAISAGENS INTRODUÇÃO A consolidação definitiva do orógeno andino na borda ocidental da Placa Sul-Americana promoveu o bloqueio da A geografia física do estado do Acre caracteriza-se por rede de drenagem amazônica para oeste, no Pacífico, e, um vasto domínio de terrenos de cotas modestas, quase durante o Mioceno Inferior a Médio, originou uma imensa que inteiramente sustentados por rochas sedimentares área inundável, constituída por formações lacustres e zonas pouco litificadas de idade neógena, pertencentes à bacia pantanosas, denominada Sistema Pebas (HOORN, 1993; HO- sedimentar do Solimões (Figura 3.1). O Acre está inteira- ORN et al., 2010). Essas vastas wetlands seriam mais antigas mente inserido no domínio morfoclimático Terras Baixas do que as registradas nos sedimentos do topo da Formação Equatoriais da Amazônia, segundo Ab’Saber (1967, 2003), Solimões, no Acre, e teriam abrangido partes da Amazônia submetido a um regime climático quente e úmido a supe- colombiana, equatoriana e peruana, incluindo uma porção rúmido, sob intensa atuação de intemperismo químico e do oeste do atual estado do Amazonas. Esporádicas incur- lixiviação dos solos, que propicia a formação de paisagens, sões marinhas provenientes do norte da atual bacia do Ore- em geral, monótonas, recobertas em sua totalidade pela noco teriam sido registradas nesses sedimentos (icnofósseis vegetação florestal. e moluscos marinhos e vegetação de mangue) (HOORN et al., 2010). Todavia, tais incursões não foram registradas nos sedimentos do topo da Formação Solimões no Acre. De acordo com Strecker et al. (2009) e Poulsen, Ehlers e Insel (2010), o soerguimento da cordilheira dos Andes, desde o Paleógeno e, principalmente, ao longo do Mioceno e Plioceno, acarretou profundas transformações climatoló- gicas e hidroerosivas por toda a Amazônia Ocidental. Desse modo, a partir do estágio em que a cadeia montanhosa é elevada acima de 2.000 a 3.000 m de altitude, ocorre um incremento significativo das precipitações orográficas no flanco oriental dos Andes e, consequentemente, na erosão acelerada das íngremes vertentes e no aporte de sedimen- tos para as bacias sedimentares em retroarco. Assim, os pulsos de soerguimento tectônico mais acentuado dos Andes Centrais correspondem a períodos de intensa pluviosidade e atuação de processos erosivo- deposicionais na Amazônia Ocidental, como registrado no Figura 3.1 - Afloramento de argilito verde esmectítico de fácies lacustre da formação Solimões; desenvolvimento de Luvissolos Mioceno Superior na Bacia do Acre (HOORN et al., 2010; Crômicos e Vertissolos sobre material parental rico em argilas POULSEN; EHLERS; INSEL, 2010). expansivas (rodovia BR-364, entre Feijó e Manoel Urbano). Nesse contexto, formou-se na Amazônia Ocidental Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. uma imensa bacia sedimentar (Bacia do Solimões) entulha- da por sedimentos provenientes da erosão da cordilheira GÊNESE DAS PAISAGENS dos Andes, gerando espessa sedimentação fluviolacustre GEOMORFOLÓGICAS a fluvial (Formação Solimões), cujos depocentros podem atingir mais de 800 m de profundidade (MAIA et al., 1977). A plena compreensão da evolução geomorfológica do Com base na análise de afloramentos em barrancas de estado do Acre decorre de uma análise histórica de processos rios e cortes de estrada por todo o estado do Acre, Latru- geológicos e geomorfológicos durante o Cenozoico, associa- besse et al. (1997, 2007, 2010) propuseram um modelo dos à Orogenia Andina e, consequentemente, à subsidência paleogeográfico do sudoeste da Amazônia a partir do tectônica de uma vasta área de retroarco na Amazônia estudo do pacote sedimentar do topo da Bacia Solimões. Ocidental, incluindo a totalidade do território do Acre. Nesse Registros paleontológicos e palinológicos possibilitaram a contexto, o processo de soerguimento da cadeia andina, que esses autores datarem a deposição do pacote superior da atingiu seu ápice no Mioceno-Plioceno (JORDAN et al., 1983), Formação Solimões durante o Mioceno Superior (entre 10 e gerou drásticas transformações no quadro paleogeográfico 6 milhões de anos atrás). O cenário paleoambiental associa- da Amazônia Ocidental durante esse período. do à sedimentação da Formação Solimões é reconstituído O paleossistema fluvial da bacia hidrográfica do Ama- como uma extensa área inundável similar à atual região zonas, durante o Paleógeno, fluía para o oeste em direção do Pantanal mato-grossense. Constitui-se por vastas zonas ao oceano Pacífico. Devido à colisão da Placa Sul-Americana pantanosas, banhados e lagos rasos em constante processo e da Placa de Nazca e a ascensão dos Andes, essa passagem de assoreamento e colmatagem por rios avulsivos de me- para oeste é bloqueada durante o Oligoceno e o protorrio galeques aluviais que adentram as formações lacustres em Amazonas inflete para norte, desaguando na bacia do rio formas deltaicas, sendo toda essa sedimentação oriunda Orenoco junto ao mar do Caribe (HOORN et al., 1995, 2010). da dissecação do flanco oriental do moderno orógeno 41 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE representado pela cordilheira dos Andes (HOORN et al., contudo, parecem ser mais expressivas no Acre, devido aos 2010; LATRUBESSE et al., 2007, 2010). reflexos de uma tectônica subandina (MARQUES et al., 2001) A análise palinológica de sedimentos em barrancas (Figuras 3.2a e b). A resultante morfológica consiste em uma do rio Acre revela um paleoclima tropical semiúmido com paisagem geomorfológica de colinas dissecadas. cobertura vegetal similar ao atual Cerrado durante o Mio- Nos fundos de vales, os atuais terraços fluviais dos rios ceno Superior. Um notável registro paleontológico desse Purus e Juruá, posicionados entre 8 e 15 m acima do leito período diz respeito à existência de imensos ancestrais de do canal, consistem, predominantemente, de sedimentos crocodilos (Purussaurus), que chegavam a medir 12 a 15 m de comprimento (LATRUBESSE et al., 2010; RANCY, 2000). Segundo diversos autores (GREGORY-WODZICKI, 2000; JORDAN et al., 1983), o segmento oriental dos Andes Centrais sofreu expressivo soerguimento ao longo de todo o Mioceno (entre 23 e 6 milhões de anos atrás), sendo que esse uplift tornou-se mais acentuado durante o Mioceno Superior (entre 9 e 6 milhões de anos atrás), o que coincide com o período deposicional do topo da bacia sedimentar do Solimões. Na transição entre o Mioceno e o Plioceno (entre 6 e 5 milhões de anos atrás), ocorreu uma significativa mudança no modelo tectônico da Orogenia Andina, decorrente da redução do ângulo de subducção da Placa de Nazca sob a Placa Sul-Americana (JORDAN et al., 1983). Em consequência, foi soerguida, a leste da cordilheira principal, uma cadeia su- bandina que formou cuestas e hogbacks das serras do Divisor, Moa e Contamana e o conjunto de serras que individualizou o corredor Ucayali. Nesse sentido, os rios Juruá e Purus deixaram de ser andinos, com alta carga de sedimentos, e passaram a serpentear as terras baixas amazônicas em padrão meândrico de alta sinuosidade e baixa carga de sedimentos. Estudos conduzidos em sedimentos na foz do rio Ama- zonas (FIGUEIREDO et al., 2009) indicam uma baixa taxa de sedimentação durante o Mioceno Superior, o que corrobora o modelo paleogeográfico elaborado por Latrubesse et al. (2007, 2010), que sugerem que a Formação Solimões foi gerada a partir do entulhamento de uma vasta bacia continental subsidente implantada no interior da Ama- zônia Ocidental e alimentada por um colossal influxo de sedimentos provenientes da denudação da cadeia andina em período de rápido soerguimento tectônico. Todavia, após seis milhões de anos, no limite Mioceno- Figura 3.2 - Falhamentos normais (a) e inversos (b) expostos em Plioceno, Figueiredo et al. (2009) registram um incremento taludes de corte de estrada que truncam ou basculam o pacote considerável da taxa de sedimentação no cone amazônico. Tal sedimentar da formação Solimões, constituído por intercalações fato coincide com o término da deposição da Bacia Solimões de argilitos maciços, arenitos finos, siltitos e margas (rodovia BR-364, entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá). no final do Mioceno. Assim, a mudança no regime tectônico Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. relacionado ao processo de soerguimento do orógeno andino ocorrido no início do Plioceno acarretou uma drástica arenosos a conglomeráticos, depositados no último evento reorganização do sistema de drenagem amazônico, cuja glacial pleistocênico (Wisconsin Stage), mais precisamente principal mudança consiste na captura da rede de canais da entre 25.000 e 65.000 anos atrás (Middle Pleniglacial) (LA- Amazônia Ocidental para o oceano Atlântico (LATRUBESSE TRUBESSE, 2000; LATRUBESSE; RANCY, 1998), em clima et al., 2010). mais frio e seco, revestidos por vegetação de cerrado. Com o fecho deposicional da Bacia do Solimões no início Do ponto de vista climático, pode-se determinar do Plioceno, decorrente da implantação das elevações suban- no estado do Acre o predomínio de um clima equatorial dinas e do corredor Ucayali, essa vasta superfície deposicional continental úmido condicionado pela atuação dominante foi ligeiramente soerguida por processos epirogenéticos e, da Massa Equatorial Continental (mEc) conjugada com o posteriormente, francamente entalhada pela atual rede de deslocamento sazonal da Zona de Convergência Intertropical canais. Atividades neotectônicas no Quaternário (COSTA et (ZCIT). Assim, o máximo de pluviosidade na região ocorre al., 1996, 2001) são documentadas em toda a Amazônia, durante as estações de verão e outono, principalmente entre 42 ORIGEM DAS PAISAGENS outubro e abril (MENDONÇA; DANNI- OLIVEIRA, 2007; NIMER, 1989). Esse padrão climático caracteriza-se por expressiva pluviosidade média anual (entre 1.600 e 2.400 mm), temperaturas elevadas em grande parte do ano (23 a 27oC) e curta estação seca, com precipitação inferior a 100 mm, de dois a três meses, entre junho e agosto. Entretanto, destaca-se um aumento gradual das precipitações de sudeste e leste em direção ao oeste do estado. Tal fato pode ser decorrente de sutil e progressiva influência da precipitação oro- gráfica gerada pelos contrafortes orientais dos Andes. Com base nos dados de pre- cipitação sistematizados por CPRM (2011), as localidades de Capixaba, Brasileia e Assis Brasil registram pre- Figura 3.3 - Mapa de domínios geomorfológicos do estado do Acre. cipitação média anual relativamente Fonte: Elaborado por Marcelo E. Dantas, 2013. modesta, entre 1.600 e 1.700 mm; Rio Branco e Sena Madureira registram precipitações entre morfológicos supramencionados e representados no Mapa 1.800 e 1.915 mm anuais; as cidades de Feijó, Tarauacá e Cru- de Padrões de Relevo do Estado do Acre (Anexo II – Biblioteca zeiro do Sul, por sua vez, registram precipitações anuais mais de Relevo do Território Brasileiro), que serviu de subsídio para expressivas, entre 1.900 e 2.200 mm. Uma estação situada elaboração do Mapa Geodiversidade do Estado do Acre. no sopé da serra do Divisor, extremo oeste do Acre, registra A individualização dos diversos compartimentos de 2.413 mm anuais, um padrão climático equatorial superúmido, relevo foi obtida com base em análises e interpretação de similar ao verificado no noroeste da Amazônia. imagens SRTM (Shuttle Radar Topography Mission), com Ressalta-se, ainda, o registro episódico de temperaturas resolução espacial de 90 m, e imagens GeoCover, sendo mínimas absolutas que atingem, frequentemente, menos de as unidades de relevo agrupadas de acordo com a carac- 10oC no auge do inverno, associadas ao fenômeno da friagem, terização da textura e rugosidade das imagens. A escala cuja ocorrência está vinculada à passagem de massas polares de trabalho adotada foi a de 1:1.000.000. de grande potência provenientes do extremo sul do continente sul-americano. Quadro 3.1 - Declividade e amplitude topográfica das formas de relevo identificadas no estado do Acre. DOMÍNIOS GEOMORFOLÓGICOS Declividade Amplitude A partir de breve avaliação sobre a origem Tipo de Relevo (graus) Topográfica (metros) e a evolução das paisagens do território acrea- Planícies Fluviais ou Fluviolacustres (R1a) 0 a 3 zero no, é possível promover uma análise dos com- partimentos geomorfológicos existentes. Com Terraços Fluviais (R1b1) 0 a 3 2 a 20 base na análise dos produtos de sensoriamento Vertentes Recobertas por 5 a 45 Variável remoto disponíveis, perfis de campo e estudos Depósitos de Encosta (R1c1) geomorfológicos regionais anteriores (IBGE, Baixos Platôs (R2b1) 0 a 5 0 a 20 1995, 2005d; ROSS, 1985, 1996), o estado do Planaltos (R2b3) 0 a 5 20 a 50 Acre foi compartimentado em cinco domínios Chapadas e Platôs (R2c) 0 a 5 0 a 20 geomorfológicos: Planície Amazônica; Serra do Domínio de Colinas Amplas e Suaves (R4a1) 3 a 10 20 a 50 Divisor; Depressão de Cruzeiro do Sul; Domínio Domínio de Colinas Dissecadas Colinoso da Amazônia Ocidental; Tabuleiros da 5 a 20 30 a 80 e Morros Baixos (R4a2) Amazônia Centro-Ocidental (Figura 3.3). Domínio de Morros e de Serras Baixas (R4b) 15 a 35 80 a 200 São apresentados, também, os diversos padrões de relevo do estado (Quadro 3.1), os Degraus Estruturais e Rebordos Erosivos (R4e) 10 a 45 50 a 200 quais estão inseridos nos cinco domínios geo- Fonte: Elaborado por Marcelo E. Dantas, 2013. 43 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Planície Amazônica suir pH elevado e sua alcalinidade é atribuída ao material parental. Apresentam, também, pequena sedimentação Seguindo denominação proposta no Mapa Geomorfo- aluvial decorrente de moderado aporte de sedimentos lógico do Brasil (IBGE, 1995), esse domínio é exclusivamente em suspensão. representado por planícies de inundação e terraços fluviais Existe, portanto, amplo domínio de solos hidromórfi- de relevo plano (R1a, R1b1), por vezes, alcançando quilô- cos, maldrenados e de boa fertilidade natural nas planícies metros de largura ao longo dos principais canais-troncos de inundação. Predominam Gleissolos Háplicos eutróficos das bacias hidrográficas dos rios Purus e Juruá. Essas for- Ta e, subordinadamente, Neossolos Flúvicos eutróficos, mas de relevo apresentam, portanto, amplo destaque ao ambos resultantes do retrabalhamento dos sedimentos longo dos fundos de vales dos rios Acre, Espalha, Xapuri, da Formação Solimões, com abundância de argila com Andirá, Antimari, Iaco, Macauá, Caeté e Chandless – todos alta atividade (Figura 3.5). Nos terraços fluviais, os solos pertencentes à bacia hidrográfica do rio Purus –, e ao longo são mais bem drenados e mais lixiviados, com predomí- dos fundos de vales dos rios Jurupari, Envira, Tarauacá, nio de Plintossolos Argilúvicos distróficos ou eutróficos Muru, Acurauá, Gregório, Liberdade, Moa, Azul, do Moura, e Argissolos Vermelho-Amarelos plínticos e alumínicos Juruá-Mirim, Tejo e Amônia (estes pertencentes à bacia (IBGE, 2005a). hidrográfica do rio Juruá). Apenas o rio Abunã, que perfaz A origem do estado do Acre advém do processo de a fronteira oriental entre Brasil e Bolívia no estado do Acre, povoamento da Amazônia durante o ciclo da borracha em deságua no rio Madeira. fins do século XIX, decorrente dos eixos de penetração re- As planícies e os terraços fluviais consistem nas presentados, principalmente, pelos rios Acre, Purus e Juruá. únicas zonas deposicionais ativas no Acre (Figura 3.4). A Essa frente de povoamento invadiu a Bolívia e promoveu maior parte do estado consiste de terras baixas, porém um dos mais ruidosos conflitos diplomáticos da história bem drenadas, caracterizadas como uma vasta depres- brasileira, que culminou com uma guerra entre seringalistas são (Depressão Amazônica, segundo Ross, 1985), sendo e o exército boliviano e resolvido com a incorporação do constituída por tabuleiros e colinas dissecadas resultantes Acre ao território brasileiro em 1904, mediante o pagamen- do processo de entalhamento pliopleistocênico da Bacia to de indenização à Bolívia e a construção da Estrada de do Solimões. Ferro Madeira-Mamoré entre Guajará-Mirim e Porto Velho As planícies aluviais, caracterizadas por vegetação de (Rondônia), com o objetivo precípuo de escoar a produção igapó e matas de várzea adaptadas a ambientes inundá- de borracha boliviana para o oceano Atlântico. veis, são constituídas por depósitos atuais ou subatuais. Ironicamente, ocorre uma situação similar nos dias Os terraços fluviais são correlatos ao Pleistoceno Superior atuais, guardadas as devidas proporções. Em Brasileia, o e as planícies de inundação, ao Holoceno. Os fundos de rio Acre perfaz a fronteira entre Brasil e Bolívia. Na periferia vales dos rios Juruá e Purus, assim como de seus mais da cidade, uma ponta de meandro é ocupada por centenas importantes afluentes (Tarauacá, Envira, Iaco e Acre), de famílias acreanas, calcadas em uma horticultura de apresentam uma rede de drenagem de padrão meândrico subsistência em solos aluviais de boa fertilidade natural. de alta sinuosidade e planícies constituídas por rios de Todavia, a contínua erosão das margens côncavas do rio águas claras. Os processos de avulsão são frequentes nas Acre tende a promover o rompimento da ponta de meandro planícies de inundação, com ocorrência disseminada de (cut-off meandering) (Figura 3.6), isolando essa população lagos de meandros abandonados. Esses rios tendem a pos- no lado boliviano da fronteira (Figuras 3.7 e 3.8). Tal evento Figura 3.5 - Baixos terraços fluviais do rio Tarauacá desmatados para introdução de atividades agropastoris; barrancas ativas Figura 3.4 - Planície de inundação do rio Moa, com mata aluvial exibem Neossolos Flúvicos eutróficos de boa fertilidade natural preservada (rodovia AC-405, entre Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima). (imediações da cidade de Tarauacá). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. 44 ORIGEM DAS PAISAGENS de avulsão do rio Acre poderá demorar de alguns anos a poucas décadas, dependendo do número de cheias de grande magnitude e com alto potencial erosivo, mas é um processo inexorável, produto da dinâmica fluvial desse rio. Desenha-se, assim, em futuro próximo, uma nova contenda diplomática entre Brasil e Bolívia. O histórico povoamento das várzeas segue o ritmo sazonal das cheias e vazantes dos rios com amplitudes consideráveis, por vezes, superiores a 15 m. A adaptação do homem a esse ambiente fluvial implicou uma forma peculiar de ocupação agrícola e urbana e na navegação fluvial, bem como no enfrentamento a eventos críticos, como cheias excepcionais e erosão fluvial, com ocorrência Figura 3.6 - Figura esquemática do processo de avulsão em canal do fenômeno das “terras caídas” (solapamento da base dos meândrico. Fonte: . taludes por erosão fluvial) (Figuras 3.9a e b). A ocupação urbana é impraticável nas planícies, des- tinadas à agricultura de várzea (Figura 3.10), mas possível nos terraços adjacentes, que consistem em superfícies acima do nível da cota das cheias periódicas. Acima das barrancas dos rios e a salvo das cheias, um grande número de cidades pontilha ao longo dos principais rios do estado do Acre. Esporadicamente, movimentos de massa (rastejos e escorregamentos rotacionais) ocorrem no relevo colinoso Figura 3.7 - Margem côncava do rio Acre em franco processo de erosão via desbarrancamento de suas margens; à esquerda, na margem convexa, desenvolvimento de construtiva barra arenosa em pontal no território boliviano (cercanias da cidade de Brasileia). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2012. Figura 3.8 - Vista aérea da planície aluvial do rio Acre, com desenvolvimento de padrão de canal meândrico de alta sinuosidade.Fonte: Google Earth, 2012. Nota: A norte da calha do rio está implantado o sítio urbano de Brasileia, em território brasileiro; a sul, assenta-se o sítio urbano de Cobija, em território boliviano; ressalta-se, no canto superior Figura 3.9 - Baixos terraços fluviais às margens do rio Acre (a, b), da imagem, notável estrangulamento de ponta de meandro do rio localizados em áreas de risco de inundação e desbarrancamento Acre, muito suscetível a processo de avulsão e formação de lago (fenômenos das “terras caídas”) (sítio urbano de Brasileia). de meandro abandonado. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2012. 45 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE adjacente aos fundos de vales. Tais fenômenos, de alcance -Plioceno (JORDAN et al., 1983; LATRUBESSE; RANCY, dramático na capital (Rio Branco), são acarretados pelo 2000). Essa movimentação de blocos, promovida por falhas processo de expansão e contração dos solos com argilas de de empurrão de direção aproximada N-S, com escarpa de atividade alta da Formação Solimões, que desestabilizam falha voltada para leste e o reverso basculado mergulhando os regolitos e induz o seu deslocamento encosta abaixo para oeste, exumou rochas sedimentares cretácicas mais em direção à calha dos rios. Durante a enchente de março antigas representadas pelas formações Divisor, Rio Azul, de 2012, tais fenômenos causaram a destruição de casas e Moa e Ramon. estradas ribeirinhas, além da inundação de todos os bairros Desse modo, morfologicamente, esses terrenos são implantados sobre a planície e baixos terraços aluviais em caracterizados por um conjunto de superfícies planálticas Brasileia e Epitaciolândia. adernadas para oeste (R2b3), frequentemente dissecadas em relevo de morros (R4b), apresentando encostas íngremes voltadas para leste (R4e), com geração de espraiadas rampas coluvionares (R1c) no sopé de seu front escarpado (Figura 3.11). Figura 3.10 - Agricultura de várzea (milho e mandioca) e pecuária na planície de inundação do rio Juruá; observam-se casas de camponeses apoiadas em palafitas em áreas sujeitas a inundações sazonais (cercanias da cidade de Cruzeiro do Sul). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. Cidades implantadas às margens de rios acreanos, como Plácido de Castro (Abunã), Porto Acre, Rio Branco, Epitacio- lândia, Brasileia, Assis Brasil (Acre), Sena Madureira (Iaco), Manoel Urbano, Santa Rosa do Purus (Purus), Feijó (Envira), Tarauacá, Jordão (Tarauacá), Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves, Porto Walter, Marechal Thaumaturgo (Juruá) e Mâncio Lima (Moa) foram antigos seringais ou núcleos de povoamento que Figura 3.11 - Domínio geomorfológico serra do Divisor. se estabeleceram e se desenvolveram a partir da navegação Fonte: Elaborado por Marcelo E. Dantas, 2014. fluvial, da agricultura de várzea nas planícies fluviais e da Nota: O conjunto de alinhamentos serranos está demarcado ocupação de barrancas mais elevadas em terraços, tabuleiros em azul-turquesa (R4b); em vermelho, destacam-se as rampas coluvionares (R1c) no sopé do front de cuestas ou hogbacks; em e colinas. Apenas recentemente a maioria dessas cidades foi verde-claro, ressalta-se o relevo colinoso circunjacente (R4a2). interligada por rodovia asfaltada (BR-364). O conjunto de alinhamentos serranos que constitui a serra Serra do Divisor do Divisor apresenta altitudes mais expressivas, cujas cristas alcançam cotas entre 350 e 500 m e picos que atingem entre A serra do Divisor consiste em um conjunto de 600 até 750 m de altitude. Consistem em superfícies culmi- elevações que demarcam a fronteira mais ocidental do nantes de toda a Amazônia Sul-Ocidental brasileira, somente território brasileiro com o Peru, representado por serras suplantadas pela Chapada dos Pacaás Novos em Rondônia. Os com as seguintes denominações locais: Jaquirana, Moa, terrenos colinosos circunjacentes, por sua vez, estão embutidos Contamana, Juruá-Mirim e Rio Branco (FRANCO; PRATES, em cotas modestas, entre 220 e 280 m de altitude. 1977). No Mapa Geomorfológico do Estado do Acre (ACRE, Entretanto, esse domínio não se constitui, efetivamen- 2005) atribui-se a esse domínio, muito apropriadamente, te, no divisor de águas entre as bacias dos rios Juruá e Ucaya- a nomenclatura de planaltos residuais. li, devido ao fato de que alguns afluentes do rio Juruá, dentre Esse conjunto serrano consiste de cuestas e hogbacks os quais os rios Moa e Azul, escavam gargantas epigênicas originados por tectônica compressiva associada ao soer- que truncam e atravessam o front soerguido do conjunto guimento de uma cadeia subandina no intervalo Mioceno- de relevos monoclinais que constituem a serra do Divisor. 46 ORIGEM DAS PAISAGENS Esses relevos serranos estão sustentados por uma neógenos da Formação Solimões. Quando os sedimentos sequência sedimentar de idade cretácica representada da Formação Solimões afloram, o relevo tende a adquirir por arenitos finos com intercalação de camadas de folhe- aspecto colinoso, com domínio de formas arredondadas lhos, siltitos e calcários das formações Divisor e Rio Azul; (Figura 3.12), devido à menor porosidade dessas rochas em conglomerados e arenitos conglomeráticos da Formação relação às areias da Formação Içá. Moa; argilitos, siltitos e camadas de calcário da Formação Nessa região encontra-se a ponta de lança da ocu- Ramon. Registram-se, ainda, esparsos afloramentos de pação humana nesse trecho da Amazônia Ocidental, quartzo-sienito de idade neoproterozoica em meio às correspondendo ao “ponto final” da Rodovia BR-364, no rochas sedimentares na serra do Divisor (IBGE, 2005c). oeste do Acre, cujo asfaltamento foi finalizado em 2010 Esse domínio situa-se em terrenos de floresta nativa e (Figura 3.13). praticamente inacessíveis (exceto pela navegação ao longo dos rios principais) do Parque Nacional da Serra do Divisor (PNSD). Nessa região, desenvolve-se Floresta Ombrófila Densa Submontana (IBGE, 2005b) sobre solos bem drenados, lixi- viados e pouco profundos, predominando Argissolos Ama- relos alumínicos, com ocorrência subordinada de Neossolos Quartzarênicos órticos (IBGE, 2005a). Sobre as superfícies rampeadas coluvionares no sopé de cuestas e hogbacks predominam Argissolos Amarelos distróficos. Nos terrenos a oeste dos alinhamentos serranos, por sua vez, predominam Luvissolos Crômicos órticos desenvolvidos, preferencialmente, sobre rochas sedimentares da Formação Ramon. Depressão de Cruzeiro do Sul Figura 3.12 - Relevo de colinas dissecadas em área de expansão urbana de comunidades de baixa renda da cidade de Cruzeiro do A Depressão de Cruzeiro do Sul, denominada “Super- Sul, conflagrando uma zona de risco geológico a escorregamentos fície Tabular de Cruzeiro do Sul” no Mapa Geomorfológico rasos sobre sedimentos pelíticos da formação Solimões. do Estado do Acre (IBGE, 2005d), situa-se em segmento do Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. médio curso da bacia hidrográfica do rio Juruá, na porção oeste do estado do Acre, prolongando-se a norte, junto à divisa com o estado do Amazonas. Esse domínio é carac- terizado por um conjunto de tabuleiros (R2a1) e colinas dissecadas (R4a2), de baixa amplitude de relevo (entre 20 e 50 m), embutido, regionalmente, em cotas muito baixas – entre 180 e 230 m de altitude. No oeste do Acre, registra-se notável controle neotec- tônico sobre a rede de canais e os fundos de vales encaixa- dos e preenchidos por uma espraiada sedimentação aluvial pleistocênica e holocênica (terraços e várzeas modernas) (R1a e R1b1). Nesse regime tectônico compressivo, os rios Moa e Ipixuna estão condicionados por falhas transcorren- tes de direções E-W e SE-NW, enquanto o vale principal do rio Juruá está, em parte, delimitado por falha inversa de Figura 3.13 - Relevo de colinas fortemente dissecadas em zona de direção SW-NE (LATRUBESSE; RANCY, 2000). frente pioneira de desmatamento (extração de madeira) (vicinal de terra no município de Rodrigues Alves). Nesse sentido, os relevos tabulares de expressiva Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. região nas imediações da cidade de Cruzeiro do Sul, com predomínio de sedimentos arenosos mais recentes, po- Portanto, esse domínio situa-se em uma franja dem estar associados à ocorrência de blocos subsidentes pioneira, articulada em torno da cidade de Cruzeiro do Sul, (geração da Depressão de Cruzeiro do Sul), relacionados que se constitui em polo regional e importante produtor de à tectônica subandina que soergueu a serra do Divisor. farinha de mandioca. A floresta nativa encontra-se ainda Essa sedimentação, predominantemente arenosa, que quase que integralmente preservada, com predomínio prevalece na maior parte das superfícies tabulares, é asso- de Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas e Floresta ciada aos arenitos fluviais permeáveis de idade pleistocênica Aluvial. Sobre parte dos tabuleiros arenosos desenvolve- da Formação Içá. Essa cobertura arenosa é registrada por se Mata de Campinarana (IBGE, 2005b). Dispostos sobre vastas regiões da Amazônia Ocidental (MAIA et al., 1977). os terrenos colinosos, mais dissecados, predominam Abaixo dessa cobertura jazem os argilitos, siltitos e arenitos Argissolos Vermelhos-Amarelos distróficos ou alumínicos, 47 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE enquanto sobre as superfícies tabulares, capeados pelos arenitos da Formação Içá, ocorrem Latossolos Amarelos distróficos, Argissolos Amarelos distróficos e Espodossolos Ferri-Humilúvicos (Figura 3.14) (IBGE, 2005a). Figura 3.15 - Espesso talude da formação Solimões, exposto durante a construção de empreendimento imobiliário (sítio urbano de Rio Branco). , Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. Nota: Na base, observa-se argila de atividade alta, verde e esmectítica, de péssima qualidade para a construção civil, Figura 3.14 - Extração de areia para construção civil a partir do por ser expansiva; no topo, argila de atividade horizonte eluvial de espesso Espodossolo desenvolvido sobre baixa vermelha e mosqueada. superfície tabular, embasado por arenitos pouco consolidados da formação Içá (vicinal de terra no município de Mâncio Lima). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. superficial comandados por uma rede de canais de alta densidade de drenagem e padrão subdendrítico a treliça. Domínio Colinoso da Amazônia Ocidental Tal peculiaridade decorre de duas razões distintas: – O embasamento geológico compreende, basica- O Domínio Colinoso da Amazônia Ocidental (outrora mente, argilitos maciços com alta atividade (expansivos) denominado “Depressão Rio Acre-Rio Javari”, por Melo, e siltitos pouco permeáveis, gerando solos com mode- Pitthan e Almeida, 1976) consiste em uma extensão a rada a alta suscetibilidade à erosão (Figura 3.16). Tais sudoeste de um vasto domínio geomorfológico já descrito litologias geram solos com estrutura colunar ou maciça no estado do Amazonas (DANTAS; MAIA, 2010; OLIVEIRA; (principalmente Luvissolos Crômicos e Vertissolos), o PITTHAN; GARCIA, 1977) e está embasado, exclusivamente, que dificulta, sobremaneira, processos de percolação e por argilitos maciços, siltitos, arenitos finos e esparsas lentes infiltração de água no solo. Mesmo assim, deve-se advo- de calcretes e gipsita do topo da Bacia do Solimões, de gar que a atuação mais efetiva de processos de incisão idade miocênica (Figura 3.15). Representa o mais extenso linear promovidos por escoamento superficial deve ter domínio mapeado no estado do Acre e abrange uma vasta vigorado durante períodos paleoclimáticos mais secos área entre as fraldas da serra do Divisor, a oeste, e os vales e com vegetação mais rarefeita (cerrados) ao longo do dos rios Iaco, Xapuri e Alto Acre, a leste, prolongando-se, Pleistoceno, amplamente documentados na Amazônia a sul, para além da fronteira com o Peru. No contexto re- Ocidental (AB´SABER, 1993; ABSY; VAN DER HAMMEN, gional, esse domínio colinoso integra um conjunto de terras 1976; LATRUBESSE, 2000; VAN DER HAMMEN, 1991; VAN baixas da Depressão Amazônica (ROSS, 1996) dispostas em DER HAMMEN; ABSY, 1994, dentre outros). A vegetação cotas que variam entre 200 e 350 m. florestal, com o seu sistema de intercepção das precipi- Essa vasta área foi subdividida em diversas unidades tações, espessa serapilheira e densa malha radicular, não geomorfológicas, segundo estudos efetuados pelo Projeto favorece a ocorrência de run-off, mesmo sobre solos de SIPAM (IBGE, 2005d) e Cavalcante (2005a, b). Tais unidades baixa permeabilidade. mapeadas são: Depressão Marginal à Serra do Divisor; – O notável papel desempenhado pela neotectônica Depressão do Juruá-Iaco; Depressão de Tarauacá-Itaquaí; subandina durante o Plioceno e o Pleistoceno, no soer- Depressão do Iaco-Acre. Entretanto, a despeito da pequena guimento e abatimento de blocos ao longo do pacote variabilidade litológica e morfológica apresentada entre sedimentar da Bacia do Solimões, fato comprovado tanto as distintas sub-bacias de drenagem, decidiu-se, neste pela fotoanálise de degraus erosivos/patamares estruturais estudo, analisar essa vasta região em sua integridade, e inflexões da rede de drenagem como por registros de como um grande domínio com características geológico campo de expressivos planos de falha em corte de estrada -geomorfológicas muito similares. na Rodovia BR-364 (MARQUES et al., 2001), destaca essa Esse domínio é, morfologicamente, caracterizado intensa atuação de processos neotectônicos no território por formas de relevo que exprimem alta dissecação dos do Acre, devido à proximidade com as bacias de retroarco terrenos, com franca atuação de processos de escoamento andinas. 48 ORIGEM DAS PAISAGENS Figura 3.16 - Relevo de colinas e morros baixos dissecados, recentemente desmatados, onde processos erosivos e movimentos de massa ocorrem de forma generalizada (rodovia BR-364, entre Figura 3.18 - Relevo mais imponente de morros dissecados, cujos Cruzeiro do Sul e Tarauacá).Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. desnivelamentos locais atingem 80 m de amplitude; ocorrência de erosão laminar e sulcos sobre encostas longas e declivosas convertidas em pastagens (rodovia BR-364, Esse domínio geomorfológico apresenta certa variabilida- próximo à cidade de Tarauacá). de interna, registrando colinas baixas e dissecadas, de pouca Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. amplitude de relevo (entre 20 e 50 m) (Figura 3.17), a colinas e morros dissecados, com amplitudes de relevo mais expressivas dissecação da antiga superfície sedimentar, representada (entre 50 e 80 m) (R4a2) (Figura 3.18), de acordo com a variação pelo evento deposicional que gerou a Formação Solimões, faciológica da Formação Solimões e a atuação diferencial de apresentando, frequentemente, alinhamentos de cristas eventos neotectônicos ao longo de toda a região. Os argilitos amorreadas com direções preferenciais NNW-SSE e ENE- e siltitos da Formação Solimões, sobre essas formas de relevo, WSW, com nítido controle estrutural. geram solos de baixa permeabilidade e com alta atividade de Esses terrenos colinosos caracterizam-se por um argila, que são expansivos e representam desafio geotécnico à relevo movimentado, embasado por rochas sedimentares implantação de obras civis, tais como estradas, pontes, dutos pouco litificadas da Formação Solimões. São revestidos e/ou prédios. Os relevos mais acentuados se encontram no pela Mata de Terra Firme (Floresta Ombrófila Aberta ou interflúvio entre os rios Gregório e Tarauacá. Densa, segundo IBGE, 2005b) com desenvolvimento de O relevo colinoso encontra-se entalhado por uma rede solos pouco profundos a profundos, baixa permeabilida- de drenagem de alta densidade, com sentido preferencial de e boa fertilidade natural e, por vezes, com drenagem para norte ou nordeste. Desse modo, reflete franca imperfeita, predominando Luvissolos Crômicos órticos e Argissolos Vermelho-Amarelos alumínicos plínticos e, subordinadamente, Cambissolos Háplicos eutróficos, Vertis- solos Háplicos carbonáticos (Figuras 3.19a e b) e Argissolos Vermelhos alumínicos (IBGE, 2005a). Os terrenos representados pelas colinas dissecadas da Amazônia Ocidental apresentam sua cobertura florestal, em grande parte, preservada. Todavia, essa região é atravessada de leste para oeste pela recém-asfaltada Rodovia BR-364 que, com suas arrojadas pontes estaiadas, constitui podero- so vetor de desenvolvimento regional, pois interliga cidades que ficavam praticamente isoladas durante o período das chuvas em uma região de difícil acesso, que se limitava ao transporte aéreo (em precárias pistas de pouso) ou ao longo e penoso transporte fluvial nos rios meândricos. É preciso nortear e planejar o desenvolvimento econômico deflagra- do pelo asfaltamento da rodovia, para que não resulte em desmatamento indiscriminado em larga escala, processos Figura 3.17 - Relevo de colinas baixas e francamente dissecadas erosivos generalizados, entulhamento dos fundos de vales sobre argilitos e siltitos da formação Solimões (rodovia BR-364, entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá). e assoreamento da rede de canais (Figuras 3.20a e b), como Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. ocorrido em vastas áreas do vizinho estado de Rondônia. 49 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 3.19 - (a) Desenvolvimento de Vertissolos sobre argilitos maciços, esmectíticos e esverdeados de ambiente redutor, rico em bases (Ca, Na, K, Mg) e argilominerais 2:1 (fácies lacustre da formação Solimões); (b) Destaca-se, no perfil de solo, a ocorrência de fendas (gretas de contração) em solo seco e o desenvolvimento de estruturas maciças e colunares de grandes dimensões, o que confere baixíssima permeabilidade ao solo. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. Figura 3.20 - Área de desmatamento recente em terrenos movimentados de colinas e morros dissecados (a), que podem apresentar fundos de vales alveolares (b) (rodovia BR-364, entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. Localizam-se, nesse domínio, os municípios de Porto fológico do Estado do Acre (IBGE, 2005d) subdivide-se Walter, Marechal Thaumaturgo, Tarauacá, Jordão, Feijó, esse domínio em Depressão do Rio Branco e Depressão Manoel Urbano, Santa Rosa do Purus, Sena Madureira e do Endimari-Abunã. Assis Brasil. Esse domínio é representado por extensos tabuleiros de muito baixa amplitude de relevo (R2a1) (invariavelmente Tabuleiros da Amazônia Centro-Ocidental inferiores a 30 m) (Figura 3.21), esculpidos por uma rede de drenagem predominantemente dendrítica a subden- Os Tabuleiros da Amazônia Centro-Ocidental (ou- drítica e com moderada densidade de drenagem. O relevo trora denominados “Planalto Rebaixado da Amazônia resultante consiste de colinas amplas e suaves (R4a1), com Ocidental” por Mauro, Nunes e Franco, 1978) abrangem baixas amplitudes de relevo, variando entre 20 e 50 m a porção oriental do estado do Acre, a leste de Sena (Figura 3.22). Destaca-se, na paisagem regional, um agru- Madureira e do vale do rio Iaco. Consistem em uma pamento de baixas superfícies cimeiras representadas por extensão a sul de vasto domínio geomorfológico já baixos platôs (R2b1) (Figura 3.23), cujos topos planos são descrito no estado do Amazonas (DANTAS; MAIA, 2010; sustentados por crostas detrítico-lateríticas (Figura 3.24). OLIVEIRA; PITTHAN; GARCIA, 1977), embasados por Essa morfologia decorre de um longo processo de elabo- rochas sedimentares da Formação Solimões, estando, ração de espessos perfis intempéricos lateríticos com de- ocasionalmente, capeados por coberturas neógenas mais senvolvimento de horizontes ferruginosos concrecionários recentes e perfis detrito-lateríticos. No Mapa Geomor- e horizontes aluminosos em diversas áreas dos tabuleiros 50 ORIGEM DAS PAISAGENS e das superfícies aplainadas em toda a Amazônia (COSTA, Amazônica, embutidas em cotas modestas que variam en- 1991; HORBE et al., 1997). tre 150 e 250 m. Os topos dos baixos platôs, por sua vez, No contexto regional, o domínio das superfícies estão levemente alçados em relação à superfície regional tabulares é muito similar ao domínio colinoso adjacente, de colinas amplas e atingem cotas entre 200 e 300 m de pertencendo também à zona de terras baixas da Depressão altitude (Figura 3.25). Figura 3.21 - Superfícies tabulares incipientemente dissecadas, embasadas por rochas sedimentares da formação Solimões; Figura 3.23 - Topos planos dos baixos platôs convertidos em domínio de Argissolos Vermelhos petroplínticos e Plintossolos extensas pastagens; domínio de Latossolos Vermelhos e Vermelho- Pétricos (rodovia BR-364, entre Porto Velho e Rio Branco, Amarelos petroplínticos (rodovia AC-040, entre Senador Guiomard próximo ao entroncamento para a cidade de Acrelândia). e Plácido de Castro). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2012. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2012. Figura 3.22 - Relevo de colinas amplas e moderadamente dissecadas por rede de drenagem de média densidade, embasadas Figura 3.24 - Rebordo erosivo de baixo platô laterítico que se por rochas sedimentares da formação Solimões; domínio de sobressai cerca de 30 m acima do relevo colinoso circunjacente; Argissolos Vermelhos e Vermelho-Amarelos (rodovia BR-317 superfície tabular mantida por crosta ferruginosa laterítica (plintita), ou estrada do Pacífico, entre Rio Branco e Brasileia, muito endurecida (rodovia AC-040, entre Senador Guiomard e próximo ao entroncamento para o município de Xapuri). Plácido de Castro). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2012. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2012. Figura 3.25 - Modelo esquemático da configuração geoecológica do leste do Acre. Fonte: Elaborado por Marcelo E. Dantas, Jennifer Fortes Cavalcante Renk e Edgar Shinzato, 2014. 51 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE As superfícies mais elevadas são representadas pelos baixos platôs lateríticos (R2b1), que atestam uma antiga superfície de aplainamento pliopleistocênica sustentada por crostas e coberturas detrito-lateríticas. Desenvolvem-se solos profundos, bem drenados e lixiviados (Latossolos e Argisso- los). Esses baixos platôs são bruscamente delimitados por rebordos erosivos (R4e) de 30 a 50 m de desnivelamento. Com a denudação, o recuo erosivo e a remoção do pacote sedimentar dos baixos platôs lateríticos, são exumados os argilitos esmectíticos, siltitos e arenitos finos das fácies lacus- tre ou fluviodeltaica da Formação Solimões. Essas litologias são esculpidas em relevo de colinas amplas (R4a1), com o desenvolvimento de solos pouco profundos e boa fertilidade Figura 3.27 - Desenvolvimento de solos mais profundos, natural (Luvissolos e Vertissolos). oxidados (vermelhos) e intemperizados sobre colinas tabulares Nota-se, claramente, que, em direção a leste, ocorre embasadas pela formação Solimões no leste do estado do Acre. gradativa redução da pluviosidade e da intensidade dos (rodovia BR-364, entre Sena Madureira e Rio Branco). eventos neotectônicos. Do mesmo modo e de forma quase Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. que imperceptível, ocorre redução das cotas altimétricas Salienta-se, contudo, a ocorrência de expressivas man- desde a base da serra do Divisor até a calha do rio Abunã. chas de solos de boa fertilidade natural (Luvissolos Háplicos Todavia, devido às características litológicas das distintas órticos e Argissolos Vermelhos eutróficos), derivados das fácies sedimentares da Formação Solimões, esse domínio fácies sedimentares ricas em argilas de alta atividade da geomorfológico também apresenta moderada a alta susce- Formação Solimões. Os Luvissolos e Vertissolos predomi- tibilidade à erosão, com ocorrência de movimentos de massa nantes no domínio colinoso do centro-oeste do estado são de grandes proporções, induzidos ou não (Figura 3.26). substituídos por Argissolos Vermelho-Amarelos distróficos Os terrenos representados pelos Tabuleiros da Amazô- e aluminosos ao longo da Rodovia BR-364, no trecho com- nia Centro-Ocidental, originalmente ocupados por Floresta preendido entre Sena Madureira e Rio Branco. Ombrófila Densa ou Aberta de Terras Baixas (IBGE, 2005b) Ressalta-se, ainda, sobre os baixos platôs, o desen- estão, em expressivas áreas, desflorestados devido à expan- volvimento de solos espessos, pobres e bem drenados são da fronteira agropecuária no leste do estado do Acre. (Latossolos Vermelhos e Vermelho-Amarelos distróficos) Sobre esses terrenos desenvolvem-se solos profundos (IBGE, 2005a),que representam os solos mais evoluídos do e de baixa permeabilidade, mais intemperizados e, por estado. O perfil de solo consiste em um solo homogêneo, vezes, com drenagem imperfeita, predominando Argisso- com estrutura granular e horizonte concrecionário em sub- los Vermelho-Amarelos alumínicos plínticos e Argissolos superfície (Latossolo Vermelho petroplíntico) (Figura 3.28). Vermelho-Amarelos distróficos (Figura 3.27). Subordina- Dentre os principais núcleos urbanos que se localizam nesse damente ocorrem Argissolos Amarelos alumínicos plínticos domínio, destacam-se a capital (Rio Branco) e os municípios e Argissolos Vermelhos distróficos. de Bujari, Porto Acre, Acrelândia, Plácido de Castro, Senador Guiomard, Capixaba, Epitaciolândia e Brasileia. Figura 3.28 - Desenvolvimento de solos profundos, oxidados Figura 3.26 - Movimento de massa de grandes dimensões, (vermelhos) e muito intemperizados sobre os baixos platôs laterí- repleto de trincas e fendas de rastejo; erosão superficial como ticos no leste do estado do Acre (rodovia BR-317, entre Senador processo secundário (rodovia AC-475, entre Plácido de Castro e Guiomard e Capixaba). Acrelândia). Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. 52 ORIGEM DAS PAISAGENS REFERÊNCIAS DANTAS, M.E.; MAIA, M.A.M. Análise de domínios geomorfológicos: um instrumento para elaboração AB’SABER, A.N. As bases do conhecimento sobre os do mapa geodiversidade do estado do Amazonas. In: paleoclimas modernos da Amazônia. Ciência Hoje, v. CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, 45., 2010, 16, n. 93, p. 1-3, ago. 1993. Belém. Resumos... Belém: SBG/Núcleo Norte, 2010. AB’SABER, A.N. 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(MELO; AMARAL, 2000); Acrelândia (SILVA et al., 2002), O Projeto Radar da Amazônia (RADAMBRASIL) rea- Rio Branco (RODRIGUES et al., 2001, 2003a), Senador lizou um levantamento em nível exploratório de solos do Guiomard (RODRIGUES et al., 2003b), Plácido de Castro estado, baseado em mosaicos de imagens de radar na (RODRIGUES et al., 2003c) (Figura 4.3). escala 1:250.000, descrição de perfis, coleta e análises de Partes dos municípios de Assis Brasil, Brasileia e amostras de solo, cujos resultados foram publicados em Epitaciolândia também foram mapeadas no projeto de relatórios e mapas na escala 1:1.000.000 (BRASIL, 1976, zoneamento das fronteiras Brasil-Peru (CPRM, 1998) em 1977) (Figuras 4.1 e 4.2). levantamento de reconhecimento, cujo mapa foi publicado As equipes de levantamento de solos da Empresa em escala 1:100.000 (Figura 4.4). Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e as O Serviço de Proteção da Amazônia (SIPAM), em par- contratadas pelo Instituto Nacional de Colonização e ceria com o IBGE, organizou uma base de dados digital com Reforma Agrária (INCRA) procederam a levantamento, informações espacializadas dos solos da Amazônia Legal mapeamento e compilação das informações existentes compatível com a escala 1.250.000, utilizando, principal- em diferentes escalas, principalmente nas décadas de mente, os dados coletados pelo Projeto RADAMBRASIL 1970 e 1980 (BRASIL, 1979; INCRA, 1978; OLIVEIRA; (BRASIL, 1976, 1977). O Mapa Exploratório de Solos (Figura ALVARENGA, 1985). 4.5), que apresenta as principais classes de solos do esta- O Projeto de Proteção do Meio Ambiente e das Co- do do Acre, foi subsidiado, em sua elaboração pelo IBGE munidades Indígenas (PMACI), coordenado pelo Instituto (2005), por essa base de dados. Figura 4.1 - Figura ilustrativa da Folha SC.19 Rio Branco: mapa exploratório de solos. O mapa em tamanho original pode ser obtido em: BRASIL, 1976. 57 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Já o Mapa Pedológico (Figura 4.6) foi elaborado pelo Pro- estimativas levou-se em conta apenas a classe de solo jeto Zoneamento Ecológico-Econômico do Acre (ACRE, 2006). dominante das unidades de mapeamento (Quadro 4.1). Devido à escala cartográfica (1:250.000), as unidades Dentre as classes de solo dominantes no Acre, os de solo mapeadas foram constituídas na legenda, em sua Argissolos compreendem praticamente 40% da área do quase totalidade, em associações de solos. No cálculo das estado. Os Cambissolos são a segunda classe de solo Figura 4.2 - Figura ilustrativa das Folhas SB/SC.18 Javari/Contamana: mapa exploratório de solos. O mapa em tamanho original pode ser obtido em: BRASIL, 1977. 58 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS Figura 4.3 - Figura ilustrativa do Mapa de solos do município de Plácido de Castro (Acre). O mapa em tamanho original pode ser obtido em: RODRIGUES et al., 2003c. Figura 4.4 - Figura ilustrativa do Mapa de solos da área de fronteira Brasil-Peru. O mapa em tamanho original pode ser obtido em: CPRM, 1998. 59 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 4.5 - Figura ilustrativa do Mapa exploratório de solos do estado do Acre. O mapa em tamanho original pode ser obtido em: IBGE, 2005. Figura 4.6 -Figura ilustrativa do Mapa pedológico do estado do Acre. O mapa em tamanho original pode ser obtido em: IBGE, 2006. 60 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS mais frequente, cobrindo uma área de mais de 30% do CARACTERÍSTICAS DAS PRINCIPAIS CLASSES estado. São seguidos por Luvissolos, que ocupam cerca DE SOLOS qUE OCORREM NO ESTADO de 15%, e Gleissolos, que abrangem uma área de 6%. DO ACRE Os Latossolos, que dominam grandes áreas na Amazô- nia, no Acre representam cerca de 3% da área, similar Os dados de campo coletados pelo projeto, aos quais à ocupada pelos Vertissolos, enquanto os Plintossolos foram agregadas informações disponibilizadas por traba- ocupam cerca de 2%. Dentre os Neossolos, predominam lhos anteriores, tornaram possível a identificação das prin- os Flúvicos, que ocupam cerca de 1% da área do estado. cipais classes de solo do estado do Acre, descritas a seguir. Em menor extensão ocorrem Espodossolos e Neossolos Quartzarênicos. Argissolos No atlas de solos da América do Sul (GARDI et al., 2014), verifica-se a continuidade das manchas de solos nas Essa classe compreende solos minerais, não hidromór- divisas do Acre com estados vizinhos e países limítrofes – ficos, que apresentam horizonte B textural (Bt) com perfis Peru e Bolívia (Figura 4.7). Algumas descontinuidades das bem desenvolvidos, profundos a medianamente profundos unidades entre os países são provavelmente artificiais, (Figura 4.8). Trata-se de um horizonte mineral subsuperficial causadas por compatibilização de diferentes legendas e com textura francoarenosa ou mais fina, onde houve incre- classificações. mento de argila. Em geral, apresentam elevado gradiente textural ou pouca expressão do gradiente, quadro 4.1 - Área aproximada ocupada pelas classes de desde que o horizonte B seja bem estruturado solos dominantes no estado do Acre e seu percentual em relação à área e manifeste forte cerosidade na superfície de total do estado. seus agregados estruturais. Distinguem-se dos Latossolos pelo aumento acentuado dos teores Classes de Solos Área (km2) Área (%) de argila entre os horizontes superficiais (A) e subsuperficiais (Bt) (EMBRAPA, 2013). Argissolos 6.275.532 38.32 Os Argissolos predominam nos dois ex- Cambissolos 5.168.451 31.56 tremos do estado, sendo menos frequentes na área central. Apresentam caráter predominante Luvissolos 2.390.496 14.60 distrófico (baixa fertilidade) na parte ocidental Gleissolos 978.561 5.98 Latossolos 515.489 3.15 Vertissolos 498.064 3.04 Plintossolos 361.142 2.21 Neossolos 189.154 1.16 Total 16.376.890 100 Fonte: ACRE, 2006; AMARAL et al., 2013. Figura 4.8 - Perfil típico Figura 4.7 - Parte do mapa de solos da América do Sul, destacando o estado de Argissolo Vermelho-Amarelo (Acre). do Acre e países fronteiriços. Fonte: GARDI et al., 2014. Fotografia: Edgar Shinzato, 2012. 61 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE e caráter alítico ou alumínico na parte oriental. Devido à ocorrência de textura mais arenosa no horizonte superfi- cial e, muitas vezes, uma drenagem restrita no horizonte subsuperficial, os Argissolos são suscetíveis a processos de erosão hídrica, principalmente quando ocorrem em relevo ondulado ou forte ondulado. Muitos Argissolos da região do Baixo Acre apresen- tam horizonte ou caráter plíntico em estado avançado de destruição das petroplintitas, que, muitas vezes, são residuais, sendo essa expressão um relicto de um período mais úmido no passado. Os Argissolos das regiões dos rios Juruá e Tarauacá- -Envira também apresentam elevada capacidade de troca de cátions (CTC) e, muitas vezes, elevados teores de cálcio e magnésio associados a elevados teores de alumínio trocável. A ocorrência de Argissolos, Luvissolos e Cambissolos com te- ores muito elevados de alumínio (MARTINS, 1993; VOLKOFF; MELFI; CERRI, 1989) é frequente em solos cujo material de origem são sedimentos da Formação Solimões tanto no Acre quanto no Amazonas (COELHO et al., 2005; MACEDO et al., 2008; MARQUES et al., 2002). Tais teores, aparentemente, não são tóxicos para a maioria das plantas (GAMA; KIEHL, 1999). A presença de minerais de argila (montmorilonita, Figura 4.9 - Perfil típico de um Cambissolo (Acre).Fotografia: Wenceslau Teixeira, 2009. ilita, vermiculita e esmectita) com alumínio interestratificado (MÖLLER; KITAGAWA, 1982; VOLKOFF; MELFI; CERRI, 1989) extraível pelo extrator (KCl 1N) utilizado nas análises químicas São solos rasos e imperfeitamente drenados, em sua para determinação do alumínio trocável em solos (BERNINI maioria, muito férteis, desenvolvidos dos sedimentos da et al., 2013; MARQUES et al., 2002) é uma das explicações Formação Solimões e caraterizados por elevados teores para esses teores. Contudo, tais teores, na solução do solo, de areia fina e silte, predominando nas classes texturais podem não ocorrer na natureza, sendo um artefato criado francossiltosa e arenosa. Em geral, os perfis de Cambissolos pela metodologia analítica utilizada. A sua fitoxicidade pode descritos no Acre são eutróficos e álicos, alguns com eleva- também ser reduzida pelos elevados teores de cálcio e mag- dos teores de fosforo em subsuperfície (ANJOS et al., 2013). nésio nesses solos (GAMA; KIEHL, 1999), sendo também Esses solos apresentam mineralogia distinta, com provável que parte do alumínio em solução seja consumida argilas de atividade alta (Ta), principalmente os minerais para a neoformação de caulinita (MARTINS, 1993). As estima- tipos 2:1 e 2:2 (esmectita, ilita, entre outros) e ausência tivas das recomendações de correção da acidez nesses solos de gibsita e reduzidos teores de óxidos de ferro (BERNINI devem ser feitas utilizando o critério de elevação da saturação et al., 2013; MARTINS, 1993; MÖLLER; KITAGAWA, 1982). por base e não os teores de alumínio trocável (WADT, 2002). Quando secos, apresentam consistência dura ou extrema- A generalização da aptidão agrícola dos Argissolos mente dura, alguns com fendas (caráter vértico); quando é difícil, devido à variabilidade de profundidade efetiva, úmidos e molhados, são muito plásticos e pegajosos, o gradiente textural, fertilidade e limitações de drenagem, que dificulta seu uso e manejo. A presença de argilas de associados a sua ocorrência em diversas fases de relevo. atividade alta (Ta) condiciona uma drenagem restrita; por Contudo, aqueles que ocorrem em relevo plano e suave outro lado, quando as argilas são de atividade baixa (Tb), ondulado, sem limitações de caráter físico, com correção a drenagem varia de moderada a bem drenada (AMARAL de acidez e bom manejo de fertilizantes apresentam boas et al,, 2013; BARDALES, 2005; BRASIL, 1977). condições ao uso agrícola intensivo. A vegetação original Quanto ao potencial agrícola e utilização, apesar predominante sobre esses solos é Floresta Ombrófila Densa de férteis, quando ocorrem em relevo ondulado ou forte e Floresta Ombrófila Aberta com Palmeiras (ACRE, 2006). ondulado apresentam elevada suscetibilidade à erosão e a deslizamentos (Figura 4.10). Cambissolos As ocorrências na região oeste do estado, quando apresentam reduzida profundidade efetiva e restrições de Essa classe compreende solos minerais não hidro- drenagem interna do solo, também apresentam limitações mórficos, com estágio intermediário de formação, se a diversos cultivos sensíveis à hipóxia (AMARAL et al., 2013). comparados a Argissolos ou Latossolos, predominando A vegetação original predominante nesses solos é no centro e no oeste do estado e na região dos rios Purus Floresta Ombrófila de Terras Baixas com Bambus e Palmeiras e Tarauacá-Envira (Figura 4.9). (ACRE, 2006). 62 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS Em estudo realizado por Pereira (2006), com coleta de amostras de solos em áreas de cultivo do abacaxi gi- gante de Tarauacá, estes foram caracterizados como de textura síltico-argilosa, com predomínio de esmectita na fração argila e elevados teores de fontes de minerais de potássio, cálcio, magnésio, fósforo e manganês O autor concluiu que os solos em que os abacaxis eram cultivados tinham fertilidade superior à dos demais solos, embora todos apresentassem elevada fertilidade. Isso evidencia um conhecimento etnopedológico pelos agricultores locais, que, empiricamente, selecionam os melhores solos para seus cultivos específicos. Luvissolos A classe de Luvissolos compreende solos minerais, não hidromórficos, com horizonte B textural (Bt), argila de atividade alta (Ta) e saturação por bases acima de 50%. A transição entre os horizontes A e Bt é clara ou abrupta (EMBRAPA, 2013) (Figura 4.12). No âmbito do estado do Acre, os Luvissolos predo- minam em grandes áreas na região de Tarauacá-Envira, estando presentes também nas proximidades de Porto Acre, Rio Branco, na região do baixo Acre. Ocorrem associados a Cambissolos em áreas de relevo Figura 4.10 - Registro de deslizamentos de solo, fenômeno movimentado e a Gleissolos em fundos de vales – todos so- relativamente comum em solos do Acre, nas partes com relevo inclinado (rodovia BR-364). Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. Os Solos e os Abacaxis Gigantes de Tarauacá Na região de Tarauacá ocorre uma variedade de abacaxi (Ananas comosus) conhecida como “Gigante de Tarauacá” (Figura 4.11), que chega a pesar 15 kg (um aba- caxi das variedades comerciais pesa de 2 a 3 kg). Há muito questionamento sobre a razão desse crescimento, que, se- gundo a população local, só ocorre em determinados solos. Figura 4.11 - Abacaxis gigantes de Tarauacá, desenvolvidos em solos férteis da região de Tucunaré-Envira (Acre). Figura 4.12 - Perfil típico de um Luvissolo (Acre). Fotografia: Amauri Siviero, 2012. Fotografia: José Francisco Lumbreras, 2011. 63 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE los férteis. Em sua maioria, são pouco profundos, localiza- dos em relevo movimentado (Figura 4.13), com presença de argilas ativas e drenagem deficiente (AMARAL et al., 2013). Sua aptidão agrícola, apesar da elevada fertilidade, é limitada por elevada suscetibilidade à erosão, ao fendi- lhamento, devido à presença de argilas expansivas e, para algumas culturas, pela má drenagem (AMARAL et al., 2006). A vegetação original predominante nesses solos é Floresta Ombrófila de Terras Baixas com Bambus e Palmeiras (ACRE, 2006). Figura 4.14 - Perfil típico de um Gleissolo (Acre). Fotografia: Gilvan Martins, 2008. No estado do Acre, a maioria dos Gleissolos apre- senta elevada fertilidade natural (AMARAL et al., 2013). A natureza do material de origem, a posição na paisagem (pequena diferença de cota em relação ao nível das águas Figura 4.13 - Relevo de colinas e morros baixos dissecados; processos erosivos e movimentos de massa ocorrem de forma no período seco), as condições restritas de drenagem e as generalizada, indicando moderada a alta suscetibilidade à erosão inundações periódicas a que estão sujeitos resultam em de Luvissolos e Argissolos (rodovia BR-364, entre Cruzeiro do Sul reduzida taxa de intemperismo, razão pela qual são os solos e Tarauacá). Fotografia: Macedo E. Dantas, 2011. mais novos da paisagem. Apresentam pouca estruturação e teores elevados de silte e areia fina. Na maior parte das Gleissolos ocorrências, não apresentam processos de erosão intensos, especialmente devido ao relevo plano a suave ondulado Compreendem solos hidromórficos, constituídos onde se desenvolvem e à pequena diferença de cotas entre por material mineral; apresentam horizonte glei (Figura o nível do solo e o das águas. 4.14). Trata-se de um horizonte mineral subsuperficial Uma limitação à sua mecanização é a presença de ou eventualmente superficial, caracterizado por cores argila de atividade alta, que confere a esses solos elevada neutras ou mosqueadas que refletem a prevalência de plasticidade e pegajosidade. Entretanto, sua maior limita- processos de redução, com ou sem segregação de ferro, ção ao uso agrícola associa-se a má drenagem e risco de em decorrência de saturação por água durante algum alagamento em determinadas épocas do ano. período ou o ano todo. São solos mal ou muito maldre- Ocorrem associados a Neossolos Flúvicos e são uti- nados em condições naturais, tendo cores acinzentadas lizados na chamada “agricultura de vazante”. São solos e teores variáveis de carbono orgânico (EMBRAPA, 2013). formados sob vegetação hidrófila ou higrófila herbácea, Em sua maioria, os gleissolos identificados no estado do arbustiva ou arbórea, formações vegetais que foram clas- Acre estão localizados às margens de rios e igarapés, sificadas no Acre como Floresta Ombrófila Aberta Aluvial tendo se desenvolvido a partir de sedimentos colúvio- com Palmeiras, Floresta Ombrófila Densa Aluvial Dossel -aluviais quaternários. Uniforme, Formações Pioneiras com Influência Fluvial, sen- A maioria das ocorrências desses solos no estado do do também o ambiente onde ocorrem os buritizais, áreas Acre apresenta encharcamento durante longos períodos do endêmicas do buritizeiro (Mauritia flexuosa) (ACRE, 2006). ano, resultando em condições anaeróbicas e consequente redução do íon férrico para o íon ferroso no processo Latossolos denominado gleização, que se caracteriza pela presença de cores acinzentadas ou azuladas, devido à solubilização A classe dos Latossolos compreende solos minerais do ferro, que se transloca e reprecipita, formando um não hidromórficos, caracterizados, normalmente, por mosqueado de cores. uma sequência de horizontes A, Bw (latossólico) e C, 64 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS com pouca diferenciação entre os horizontes; em geral, Nas regiões do baixo Acre, em condições naturais de apresentam transição plana e difusa entre os horizontes boa drenagem e bem estruturados, são pouco suscetíveis (EMBRAPA, 2013). a processos de erosão hídrica, estando, atualmente, ocu- O horizonte B latossólico constitui um horizonte mi- pados por pastagens de braquiária (Brachiaria spp) em sua neral bastante intemperizado, evidenciado por completa maioria (Figura 4.16). ou quase completa ausência (>4%) de minerais primários A vegetação original predominante sobre esses solos facilmente intemperizáveis. Exibe estrutura forte muito era constituída por Floresta Ombrófila Densa com Palmeiras pequena ou pequena granular, ou em blocos subangulares; e Floresta Ombrófila Aberta Aluvial com Palmeiras (ACRE, Apresenta textura francoarenosa ou mais fina e reduzidos 2006); entretanto, na região do baixo Acre, os Latossolos teores de silte (Figura 4.15). se encontram, em sua maioria, antropizados (Figura 4.17), com poucas áreas mantendo ainda a vegetação original. Figura 4.16 - Áreas de Latossolos e Argissolos com predomínio de pastagens (geoglifo Jacó Sá, proximidades da cidade de Rio Branco). Fotografia: Sérgio Vale, 2010. Figura 4.15 - Perfil típico de um Latosso (Acre) Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. Os Latossolos ocorrem na região do baixo Acre, principalmente nos municípios de Acrelândia, Plácido de Castro e Senador Guiomard, estando presentes também em Cruzeiro de Sul e Mâncio Lima, na região ocidental do estado. São profundos (BRASIL, 1976; RODRIGUES, 2003a, b), constituídos, predominantemente, pela fração argila (cauliníticos), sendo classificados, em sua maioria, como argilosos ou muito argilosos. Nos horizontes sub- superficiais, as argilas se encontram quase que em sua Figura 4.17 - Áreas antropizadas no estado do Acre (dados acumulados até 2012). totalidade floculadas. Fonte: Disponível em: . Os Latossolos são encontrados, predominantemente, Nota: A cor amarela indica áreas desmatadas. em relevo plano ou suave ondulado, embora tenham sido observados em áreas de relevo movimentado, com boa a excelente drenagem, mesmo quando apresentam textura Plintossolos muito argilosa. Caracterizam-se por baixa fertilidade natural, com te- Os Plintossolos são solos minerais formados em am- ores muito reduzidos de bases trocáveis e fósforo e elevada bientes de reduzida drenagem, apresentando horizonte saturação por alumínio; têm, contudo grande potencial plíntico, petroplíntico ou litoplíntico (EMBRAPA, 2013). de uso para agricultura intensiva e pecuária, face às boas O horizonte plíntico constitui um horizonte mineral propriedades físicas e quando associados a relevo plano e de espessura igual ou maior que 15 cm, caracterizado pela suave ondulado, o que facilita o manejo da fertilidade e a presença de plintita em quantidade igual ou superior a sua mecanização. 15% por volume de solo. A plintita se refere a um corpo 65 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE distinto de material rico em óxidos de ferro ou de ferro realizaram um zoneamento de risco dessa anomalia de e alumínio, com a propriedade de endurecer irreversivel- causa desconhecida (Figura 4.19), devendo ser evitadas mente (petroplintita) sob o efeito de ciclos alternados de as áreas com problemas de drenagem, assim como os umedecimento e secagem. terrenos com Plintossolos Háplicos que ocorrem pró- A característica mais marcante dessa classe é a pre- ximos às áreas de drenagem e/ou Plintossolos Pétricos sença de manchas (mosqueados) de cores contrastantes com restrição de drenagem ou ainda solos com caráter (tons de amarelo e vermelho) com a matriz, geralmente, petroplíntico (Figura 4.19). esbranquiçada (Figura 4.18). Quando apresentam con- Em solos dessa classe, em épocas de intensa pre- creções endurecidas (petroplintitas), são denominados cipitação, pode ocorrer acúmulo de água e redução de Plintossolos petroplínticos. oxigênio, como também redução de ferro para formas Os Plintossolos, frequentemente, são encontrados em mais solúveis e tóxicas, que pode ser a causa da morte áreas deprimidas, planícies aluvionares e terços inferiores do braquiarão (Brachiaria brizantha), à semelhança do de encosta, situações que implicam reduzida drenagem. hipotetizado para a anomalia denominada Amareleci- No estado do Acre predominam Plintossolos distróficos mento Fatal (AF) do dendezeiro (Elaeis guineensis) no ou álicos. Na divisa dos municípios de Rio Branco e Sena Pará, cujo agente causal também é desconhecido (TEI- Madureira, próximo ao igarapé Jaguarão, foi identificada XEIRA et al., 2010). uma área com predomínio desses solos (ACRE, 2006), Os Plintossolos também são aproveitados como área- observando-se, ainda, outras ocorrências localizadas na fonte do material laterítico conhecido localmente como região do baixo Acre, próximo ao curso dos rios. piçarra. Foram registrados afloramentos que ocorrem Em geral, são imperfeitamente drenados, à exceção da superfície até 4 m de profundidade, com níveis de 1 daqueles que se apresentam com horizonte petroplíntico, m de possança (GUERRA, 1955; IBGE, 1990), utilizados que, em sua maioria, são moderadamente ou mal drena- na pavimentação de estradas e em fundações de obras dos. Os Plintossolos Pétricos, geralmente, são encontrados civis. A vegetação original nos Plintossolos é Floresta em relevo suave ondulado e ondulado. Por outro lado, os Ombrófila de Terras Baixas com Bambus e Palmeiras Plintossolos Háplicos, apesar de ocorrerem em relevo plano (ACRE, 2006). e suave ondulado, propícios à mecanização, apresentam limitações devido à reduzida drenagem e baixa fertilidade (AMARAL et al., 2013). Na Amazônia e, particularmente, no estado do Acre, ocorre a mortalidade de pastagens da espécie Brachiaria brizantha, que parece estar associada a áre- as de má drenagem. Valentim, Amaral e Melo (2000) Figura 4.18 - Perfil típico de um Plintossolo (Acre). Figura 4.19- Detalhe de um horizonte petroplíntico em perfil de Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. Latossolo (Acre). Fotografia: Edgar Shinzato, 2012. 66 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS Neossolos Flúvicos Essa classe de solo compreende solos minerais pouco desenvolvidos, com pequena expressão dos processos pe- dogenéticos em consequência de características do próprio material de origem, desde maior resistência ao intemperis- mo à composição química com materiais mais resistentes. Sua posição na paisagem e o relevo geralmente aplainado contribuem para redução dos processos de intemperismo (EMBRAPA, 2013). Os Neossolos Flúvicos (Figura 4.20) estão associados, principalmente, ao dique aluvial (Figura 4.21), às partes mais elevadas do interior da várzea e às áreas planas próximas aos rios denominadas praias. Os Gleissolos que, geralmente, ocorrem associados, desenvolvem-se na parte mais interior e mais rebaixada da várzea. Figura 4.21 - Baixos terraços fluviais do rio Tarauacá desmatados para introdução de atividades agropastoris; barrancas ativas que exibem Neossolos Flúvicos eutróficos (proximidades da cidade de Tarauacá). Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. Figura 4.22 - Área de formação de praias no rio Juruá. Fonte: Google Earth, 2014. Os principais cultivos são hortaliças, feijão-caupi – também denominado feijão de praia (Vigna unguiculata) –, milho (Sitophilus zeamais) e melancia (Citrullus lanatus). A potencialidade agrícola é aumentada em função de sua posição geográfica próxima aos rios, o que, teoricamente, facilita o escoamento por via fluvial. Entretanto, essas áreas Figura 4.20 - Perfil típico de um Neossolo Flúvico (Acre). apresentam sérias restrições para culturas perenes e silvicultura, Fotografia: Wenceslau Teixeira, 2008. devido a permanecerem alagadas durante parte do ano. Nas Na classe de Neossolos Flúvicos estão incluídos os solos áreas de ocorrência de Neossolos Flúvicos e Gleissolos, ocorre, que foram anteriormente classificados, principalmente, como frequentemente, o desbarrancamento das margens no leito Solos Aluviais (BRASIL, 1976, 1977). Os Neossolos Flúvicos do do rio, fenômeno conhecido localmente como “terras caídas”. estado do Acre ocorrem, principalmente, às margens de rios Trata-se de solos formados sob vegetação hidrófila ou como Purus e Juruá, bem como às margens de lagos associados higrófila herbácea, arbustiva ou arbórea. No Acre, essas for- aos maiores rios acreanos. Os solos que apresentam caráter mações vegetais foram classificadas como Floresta Ombrófila eutrófico estão associados ao processo de colmatagem de Aberta Aluvial com Palmeiras, Floresta Ombrófila Densa sedimentos ricos, principalmente do rio Juruá, onde a quanti- Aluvial Dossel Uniforme, Formações Pioneiras com Influência dade de sedimentos é grande e há teores elevados de bases, Fluvial, sendo também o ambiente onde ocorre vegetação de em geral, cálcio e potássio, cujas fontes são minerais de argila, gramíneas típicas das áreas baixas das várzeas (ACRE, 2006). esmectita, ilita e feldspatos potássicos (MARTINS et al., 2009). Em sua maioria, os Neossolos Flúvicos, assim como os Gleisso- Neossolos quartzarênicos los, são férteis e desempenham importante papel na produção agrícola familiar da região. São intensamente utilizados pelos Trata-se de solos minerais, hidromórficos ou não, agricultores ribeirinhos durante o período de vazante, quando geralmente profundos, essencialmente arenosos, pouco se formam as praias (Figura 4.22). desenvolvidos a partir de sedimentos arenoquartzosos 67 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE ou de arenitos, caracterizados por completa ausência de horizonte B diagnóstico. A fração areia representa pelos menos 70% do total de sólidos minerais do solo (EMBRAPA, 2013). A coloração é bastante variável, podendo apresentar tonalidades acinzentadas, amareladas ou avermelhadas, em função de óxidos de ferro. São, normalmente, bem a excessivamente drenados e sua capacidade de retenção de água é muito reduzida. A fertilidade natural é muito baixa, com carência ge- neralizada de nutrientes. Considerando tais características, esses solos apresentam restrições para uso e necessitam de grande aporte de corretivos e fertilizantes para se tornarem produtivos, razão pela qual, geralmente, não apresentam viabilidade econômica. Espodossolos Os Espodossolos são predominantemente arenosos, com acúmulo de matéria orgânica e compostos de ferro e/ou alumínio em profundidade, denominados horizon- te diagnóstico subsuperficial B espódico (Bh). Trata-se de um horizonte mineral subsuperficial que apresenta acumulação iluvial de matéria orgânica e compostos de Figura 4.23 - Perfil típico de Espodossolo humilúvico (Acre). alumínio, com presença ou não de ferro iluvial. Em geral, Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. a estrutura do horizonte B espódico é maciça e pode se apresentar sob forma consolidada e de consistência Esses solos, muitas vezes, são objeto de extração de areia extremamente dura, sendo denominado, nesse caso, (Figura 4.24), de ampla utilização na construção civil; en- orstein. Ao horizonte A, de cor cinza-escuro ou preta, tretanto, pela fragilidade desse ambiente, sua exploração segue-se um horizonte E esbranquiçado, que, por sua vez, deve ser criteriosa, para haver chance de recomposição é normalmente seguido por um horizonte de coloração da vegetação. preto-amarronzada (Bh) ou preto-amarelada (Bsh) (EMBRAPA, 2013). No Acre, geralmente são profundos, com acentuado contraste de cor entre os horizon- tes, sendo, por isso, facilmente distinguíveis no campo (Figura 4.23. Em algumas ocorrências, devido à limitada drenagem do horizonte espódico, há encharcamento temporário nos períodos de maiores precipitações (AMARAL et al., 2013). Paradoxalmente, esses solos, por sua textura arenosa e estrutura em grãos soltos, apresentam reduzida capacidade de armazenamento de água; a vegetação, nesses locais, sofre períodos de estresse por deficiên- cia hídrica durante a estiagem. Nesse ambiente predominam as formações vegetais conheci- das como Campinaranas e Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas (ACRE, 2006). Esses solos apresentam sérias restrições ao uso agrícola, condicionado por textura are- nosa, fertilidade natural muito baixa, reduzida capacidade de reter água e nutrientes. No caso Figura 4.24 - Extração de areia para construção civil a partir do horizonte eluvial do horizonte espódico cimentado (orstein), de um espesso Espodossolo há restrições pelo excesso de água devido à (vicinal de terra no município de Mâncio Lima). drenagem deficiente do horizonte espódico. Fotografia: Marcelo E. Dantas, 2011. 68 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS Vertissolos e amarronzadas. Apesar de boa fertilidade, têm limita- ções de uso pela movimentação, devido à expansão e Os Vertissolos (Figura 4.25) são solos minerais que contração, pela presença de fendas e consistência muito apresentam horizonte vértico (Bv), caracterizado pela pre- dura nos períodos secos. A baixa permeabilidade os torna sença de superfícies de fricção (slickensides) e compressão suscetíveis ao processo erosivo (AMARAL et al., 2013, (Figura 4.26). Trata-se de um horizonte mineral subsuperfi- BARDALES, 2005). cial, que, devido a processos de expansão e contração das argilas, apresenta superfícies de fricção; devem apresentar um teor de argila maior que 300 g kg-1. Quando secos, esses solos apresentam grandes fendas (>1 cm de largura) (EMBRAPA, 2013) (Figura 4.27). No Acre, as ocorrências mostram uma textura predominante muito argilosa, com cores acinzentadas Figura 4.27 - Detalhes das fendas típicas de um Vertissolo (rodovia BR-364, Acre). Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. Florestas Abertas com Bambus – Figura 4.25 - Perfil de um Vertissolo (rodovia BR-3264, Acre). Os Tabocais do Acre Fotografia: Edgar Shinzato, 2011. Os Vertissolos estão concentrados no extremo oeste do estado do Acre, entre a região da serra do Divisor e as cabeceiras dos rios Purus e Juruá, onde estão co- bertos por vegetação endêmica denominada Floresta Ombrófila Aberta com Bambus (Guadua spp.), chamadas de tabocais no Brasil e “pacales” no Peru (SILVEIRA; SALIMON, 2013). As florestas de bambu têm ampla distribuição no Acre (Figura 4.28), aparentando ser uma formação tipicamente associada a solos férteis com caráter vértico. Os tabocais apresentam um ciclo de vida de 27 a 28 anos, quando florescem e morrem. Quando da morte dos tabocais, es- sas áreas, que já são naturalmente de difícil acesso, ficam intransitáveis e com grande inflamabilidade, obrigando, Figura 4.26 - Detalhe de uma superfície de compressão e fricção muitas vezes, os habitantes da região a mudar seus cami- (slickensides). Fotografia: Maurício Coelho, 2011. nhos (CARVALHO et al,, 2013). 69 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE ANJOS, L.H.C. dos et al. Caracterização morfológica, química, física e classificação dos solos estudados na IX Reunião Brasileira de Classificação e Correlação de Solos. In: ANJOS, L.H.C. dos; SILVA, L.M. da; WADT, P.G.S.; LUMBRERAS, J.F.; PEREIRA, M.G. (Ed.). Guia de Campo da IX Reunião Brasileira de Classificação e Correlação de Solos. Brasília, DF: EMBRAPA, 2013. p. 147-193. BARDALES, N.G. Gênese, morfologia e classificação de solos do baixo vale do rio Iaco, Acre, Brasil. 2005. 132 p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2005. BERNINI, T.A.; PEREIRA, M.G.; ANJOS, L.H.C. dos; PEREZ, D.V.; FONTANA, A.; CALDERANO, S.B.; WADT, P.G.S. Quantification of aluminium Figura 4.28 - Distribuição das florestas de bambu no estado do Acre. in soil of the Solimões formation, Acre state, Fonte: CARVALHO et al., 2013. Brazil. Revista Brasileira de Ciência do Nota: As áreas reticuladas se referem a Florestas Ombrófilas Abertas com Solo, Viçosa, v. 37, n. 6, p. 1587-1598, 2013. Bambu; observar a coincidência dessas áreas com aquelas cobertas por Vertissolos, Cambissolos e Luvissolos contempladas na figura 4.6. BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folha REFERÊNCIAS SC.19 Rio Branco: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, ACRE. Governo do Estado do Acre. Zoneamento 1976. 458 p. (Levantamento de Recursos Naturais, 12). ecológico-econômico do estado do Acre, fase II (escala 1:250.000): documento síntese. Rio Branco: BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. SEMA, 2006. 356 p. Projeto RADAMBRASIL Folhas SB/SC.18 Javari/ Contamana: geologia, geomorfologia, pedologia, AMARAL, E.F. do et al. Ocorrência e distribuição das vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: principais classes de solos do estado do Acre. In: ANJOS, DNPM, 1977. 413 p. (Levantamento de Recursos L.H.C. dos et al. Guia de campo da IX Reunião Naturais, 13). 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Levantamento Plos One, v. 8, n. 1, jan. 2013. de reconhecimento dos solos e avaliação da aptidão agrícola das terras do projeto de COELHO, M.R.; FIDALGO, E.C.C.; ARAUJO, F.O.; SANTOS, assentamento Favo de Mel, Sena Madureira – AC. H.G.; SANTOS, M.L.M.; PEREZ, D.V.; MOREIRA, F.M.S. Rio Branco: EMBRAPA, 1998. 98 p. (Documentos, 36). Levantamento pedológico de uma área-piloto relacionada ao projeto BIOSBRASIL (Conservation ANDRADE, C.M.D.; VALENTIM, J.F. Síndrome da morte and Sustainable Management of Below-Ground do capim-brizantão no Acre: características, causas e Biodiversity: phase I), município de Benjamin Constant soluções tecnológicas. Rio Branco: EMBRAPA/CPAF-AC, (AM). Rio de Janeiro: EMBRAPA, 2005. 95 p. (Boletim de 2007. 41 p. Pesquisa e Desenvolvimento, 68). 70 PRINCIPAIS CLASSES DE SOLOS CPRM. Projeto mapas de vulnerabilidade natural MACEDO, R.S. et al. Caracterização química e física da da região fronteiriça Brasil-Peru, municípios de camada superficial do solo em clareiras com diferentes Assis Brasil e Brasileia, AC. Belém: SUDAM/OEA, idades de revegetação na província petrolífera de Urucu, 1998. 108 p. Coari – AM. In: REUNIÃO BRASILEIRA DE MANEJO E CONSERVAÇÃO DO SOLO E DA ÁGUA, 17., 2008, Rio de EMBRAPA. Sistema brasileiro de classificação de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: SBCS/EMBRAPA, 2008. solos. 3 ed. Brasília, DF: 2013. 353 p. (Documentos, 101). FALESI, I.C. Levantamento pedológico do Seringal MARQUES, J.J.G.S.M.; TEIXEIRA, W.G.; SCHULZE, Água Boa: relatório anual 1972/1973. Rio Branco: D.G.; CURI, N. Mineralogy of soils with unusually high IPEAN, 1973a. p. 65-103. exchangeable Al from the western Amazon region. Clay Mineralogy, v. 37, n. 4, p. 651-661, 2002. FALESI, I.C. Levantamento pedológico do Seringal Montevidéu, Acre: relatório anual 1972/1973. Rio MARTINS, J.S. 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Levantamento de CRUZ GAISTARDO, C.; ENCINA ROJAS, A.; JONES, A.; reconhecimento de baixa intensidade dos solos KRASILNIKOV, P.; MENDONÇA SANTOS BREFIN, M.L.; da reserva extrativista do alto Juruá, Marechal MONTANARELLA, L.; MUÑIZ UGARTE, O.; SCHAD, P.; Thaumaturgo, Acre. Rio Branco: EMBRAPA, 2000. 77 p. VARA RODRÍGUEZ, M.I.; VARGAS, R. (Ed.). Atlas de suelos de América Latina y el Caribe. Luxembourg: MÖLLER, M.R.F.; KITAGAWA, Y. Mineralogia de Oficina de Publicaciones de la Unión Europea, 2014. argilas em cambissolos do sudoeste da Amazônia 176 p. brasileira. Belém: EMBRAPA, 1982. 19 p. GUERRA, A.T. Ocorrência de lateritos na bacia do alto OLIVEIRA, V.H.; ALVARENGA, M.I.N. Principais solos do Purus. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, Acre. Rio Branco: EMBRAPA, 1985. 40 p. v. 17, n. 1, p. 107-114, jan./mar. 1955. PEREIRA, P.F. Os solos-sedimentos da região central IBGE. Diagnóstico geoambiental e do estado do Acre (Feijó-Tarauacá), sua aptidão ao socioeconômico: área de influência da BR-364, cultivo de abacaxi e a relação com os sedimentos trecho Porto Velho/Rio Branco. Rio de Janeiro: IBGE, fluviais atuais. 2006. 201 p. Dissertação (Mestrado em 1990. 132 p. Geoquímica e Petrologia) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2006. IBGE. Diagnóstico geoambiental e socioeconômico: área de influência da BR-364, trecho Rio Branco/Cruzeiro RODRIGUES, T.E.; GAMA, J.R.N.F.; SILVA, J.M.L. do Sul. Rio de Janeiro: IBGE, 1994. 144 p. da; CARDOSO JUNIOR, E.Q. Caracterização e classificação dos solos do polo Acre 1: área de Rio IBGE. Mapa exploratório de solos do estado Branco, estado do Acre. Belém: EMBRAPA, 2003a. 64 p. do Acre. Rio de Janeiro: Coordenação de Recursos (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 153). Naturais e Estudos Ambientais, 2005. Escala 1:1.000.000. RODRIGUES, T.E.; GAMA, J.R.N.F.; SILVA, J.M.L. da; VALENTE, M.A.; SANTOS, E. da S.; ROLIM, P.A.M. INCRA. Projeto Pedro Peixoto: levantamento de Caracterização e classificação de solos do reconhecimento detalhado de solos e classificação da município de Senador Guiomard, estado do Acre. aptidão agrícola dos solos. Rio Branco: INCRA, 1978. Belém: EMBRAPA, 2003b. 67 p. (Embrapa Amazônia 358 p. Oriental. Documentos, 166). 71 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE RODRIGUES, T.E.; GAMA, J.R.N.F.; SILVA, J.M.L. da; de Classificação e Correlação de Solos. Rio Branco: VALENTE, M.A.; SANTOS, E. da S.; ROLIM, P.A.M. EMBRAPA, 2013. p. 81-96. Caracterização e classificação dos solos do município de Plácido de Castro, estado do Acre. TEIXEIRA, W.G. et al. Características físicas do solo Belém: EMBRAPA, 2003c. 50 p. (Embrapa Amazônia adequadas para implantação e manutenção da cultura Oriental. Documentos, 160). de palma de óleo na Amazônia. In: RAMALHO FILHO, A. et al. (Ed.). Zoneamento agroecológico, produção RODRIGUES, T.E.; SILVA, J.M.L.; CORDEIRO, D.G.; e manejo para a cultura da palma de óleo na GOMES, T.C.; CARDOSO JÚNIOR, E.Q.C. Caracterização Amazônia. Rio de Janeiro: EMBRAPA, 2010. p. 137-144. e classificação dos solos do campo experimental da Embrapa Acre, Rio Branco, estado do Acre. Belém: VALENTIM, J.F.; AMARAL, E.F. do; MELO, A.W.F. de. 2001. (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 122). Zoneamento de risco edáfico atual e potencial de morte de pastagens de Brachiaria brizantha no SILVA, J.M.L.D.; RODRIGUES, T.E.; VALENTE, M.A.; FILHA, Acre. Rio Branco: EMBRAPA, 2000. 28 p. C.L.C. Avaliação da aptidão agrícola das terras do município de Acrelândia, estado do Acre. Belém: VOLKOFF, B.; MELFI, A.J.; CERRI, C.C. Solos podzólicos e Embrapa Amazônia Oriental, 2002. (Embrapa Amazônia cambissolos eutróficos do alto rio Purus (estado do Acre). Oriental. Documentos, 146). Revista Brasileira de Ciência do Solo, Campinas, v. 13, n. 3, p. 363-372, 1989. SILVEIRA, M.; SALIMON, C.I. Aspectos gerais da cobertura vegetal do estado do Acre. In: ANJOS, L.H.C. WADT, P.G.S. Manejo de solos ácidos do estado do dos et al. Guia de campo da IX Reunião Brasileira Acre. Rio Branco: EMBRAPA, 2002. 28 p. (Documentos, 79). 72 5 ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL E RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DE MINERAÇÃO Luiz Gilberto Dall’Igna (luiz.dalligna@cprm.gov.br)1 Roberto Matias da Silva (roberto.matias@uol.com.br)2 1CPRM – Serviço Geológico do Brasil 2FUNTAC – Fundação de Tecnologia do Estado do acre SUMÁRIO Introdução ............................................................................................................75 Metodologia .........................................................................................................75 Áreas de Relevante Interesse Mineral (ARIMs) ......................................................75 Áreas com Restrição à Mineração ....................................................................... 77 Áreas de Conflitos ................................................................................................79 Área de Proteção Ambiental Lago do Amapá .................................................. 82 Área de Relevante Interesse Ecológico Japiim Pentecostes .............................. 83 Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade e Floresta Estadual Sustentável Rio Liberdade ................................................. 83 Referências ........................................................................................................... 84 ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL E RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DE MINERAÇÃO INTRODUÇÃO condicionantes, tais como unidades geológicas, títulos minerários emitidos pelo DNPM e sua importância econô- A civilização humana depende diretamente dos bens mica regional e local. minerais para melhoria da qualidade de vida e desen- No que se refere à classificação de importância das volvimento econômico de uma região. Nesse aspecto, o áreas com potencial mineral, foram consideradas as se- estado do Acre detém vocação natural para a mineração guintes informações: de substâncias minerais de ambiente sedimentar. – Status dos registros dos bens minerais (não determi- Para caracterização das áreas com vocação natural nada, jazida, mina e não explotado) e o grau de importância ou potencial mineral a serem utilizadas no planejamento das ocorrências minerais (depósitos, indícios e ocorrências). de políticas públicas estaduais e/ou nacionais, foram Foram priorizados os locais com minas e jazidas, principal- delimitadas as Áreas de Relevante Interesse Mineral mente as que foram cadastradas como depósito. (ARIM), definidas por Matos, Mello e Gonçalves (2009, – Títulos minerários discriminados em relação à fase p. 15) como: do processo (pedido de pesquisa, concessão de lavra, Área que, pela presença comprovada de depósitos ou licenciamento, registro de extração e requerimento de jazidas minerais, ou pelo alto potencial geológico reconhe- lavra), sendo priorizados os locais com concessão de lavra, cido para esses bens, tem como vocação natural o apro- licenciamento, requerimento de lavra e registro de extração. veitamento de recursos minerais. Por serem relativamente – Dados quantitativos e qualitativos dos recursos mi- raras, localizadas, econômicas ou potencialmente valiosas, nerais (inferidos, indicados e medidos) e reservas minerais as matérias-primas minerais que nela ocorrem ou venham (indicadas e medidas) obtidos no Anuário Mineral Brasileiro a ser descobertas constituem-se em vetores de desenvol- 2010 (DNPM, 2010). vimento local, regional e nacional. Pode conter ou estar – Após a definição das áreas, procedeu-se à classifi- contida em uma ou mais províncias minerais e abranger cação em termos de relevância de seus recursos minerais, diversos distritos minerais e aglomerados produtivos locais dividindo-as em duas categorias, adaptadas da proposta de base mineral. do Ministério de Minas e Energia (BRASIL, 2008): A delimitação das ARIMs permite que os órgãos de – Áreas com aproveitamento mineral comprovado governo planejem suas ações voltadas ao desenvolvimento e/ou indicativas de aproveitamento mineral: Representam sustentável e, consequentemente, sem prejuízos ao setor áreas produtivas, com jazidas minerais em explotação ou mineral, viabilizando o aproveitamento econômico dos prontas para explotação. Nessa categoria se incluem as recursos minerais e o constante fornecimento de matéria- áreas que, por seu conteúdo mineral (mina, jazida) e títulos prima mineral. minerários com autorização de pesquisa e concessão de Para o estado do Acre foram propostas ARIMs lavra, são indicativas de possível existência de depósitos abrangendo quatro classes utilitárias: minerais em uso na minerais. construção civil, insumos agrícolas, água potável/mineral – Áreas com potencial para aproveitamento mineral e minerais industriais não metálicos. (vocação geológica): Representam áreas que, por sua voca- ção geológica e conteúdo mineral (indícios e ocorrências), METODOLOGIA podem conter depósitos minerais. Foram considerados, também, pedidos e autorizações de pesquisa concedidas Para determinar as ARIMs do estado do Acre, além pelo DNPM. dos levantamentos geológicos e de recursos minerais executados por diversos projetos da CPRM/SGB ao longo ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL das últimas décadas, incluindo consulta ao seu sistema (ARIMS) de bancos de dados geológicos (GEOBANK) e ao Sistema de Informações Geográficas da Mineração (SIGMINE), do No estado do Acre, foram selecionadas 12 Áreas de Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Relevante Interesse Mineral (ARIMs), em função do apro- foram utilizadas diversas fontes de informações, tais veitamento econômico da substância mineral e de sua como: importância, tanto como fonte de insumos no contexto – Áreas de Relevante Interesse Mineral (MATOS; regional como por seu valor econômico regional e/ou MELLO; GONÇALVES, 2009). nacional (Quadro 5.1). – Projeto Ordenamento Territorial Geomineiro (BRA- No Quadro 5.2 estão relacionadas as 12 áreas sele- SIL, 2008). cionadas, com indicação de classe utilitária, substância(s) – Projeto RADAMBRASIL: Folhas SB/SC.18 Javari/ e tipologia. Contamana (BARROS et al., 1977); Folha SC.19 Rio Branco As ARIMs são representadas por uma área para água (SILVA et al., 1976). potável/mineral, uma para insumos agrícolas, uma para Para delimitação das ARIMs, partiu-se das ocorrências minerais industriais não metálicos e nove áreas de minerais minerais cadastradas para o Projeto Geodiversidade do para uso na construção civil (uso direto na construção civil Estado do Acre, as quais foram confrontadas com outros e na indústria cerâmica) (Figura 5.1). 75 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 5.1 - Áreas de relevante interesse mineral selecionadas no estado do Acre. Área Aproveitamento Econômico da Substância Mineral 1 Jazidas de argila e areia na região de Cruzeiro do Sul 2 Ocorrência de fontes de água potável ou mineral na região de Rio Branco e Senador Guiomard 3 Jazidas de areia e argila na região de Manoel Urbano 4 Jazidas de areia no rio Acre 5 Jazidas de argila na região de Rio Branco 6 Jazidas de areia na região de Feijó 7 Jazidas de areia na região de Sena Madureira 8 Ocorrências de calcário na região de Jordão 9 Jazidas de argila na região de Feijó 10 Jazidas de areia e argila na região de Tarauacá 11 Ocorrências de gipsita na região de Xapuri 12 Jazidas de argila na região de Sena Madureira Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Quadro 5.2 - Classes utilitárias das áreas de relevante interesse mineral selecionadas no estado do Acre. Classe Utilitária Substância Área Tipologia Água potável/mineral Água mineral Região de Rio Branco Insumos agrícolas Calcário Jordão Minerais em uso na construção civil Argila Feijó Minerais em uso na construção civil Areia e argila Tarauacá Minerais industriais não metálicos Gipsita Xapuri Minerais em uso na construção civil Argila Rio Branco Depósitos relacionados Minerais em uso na construção civil Areia Rio Acre a rochas sedimentares/sedimentos Minerais em uso na construção civil Argila e areia Cruzeiro do Sul Minerais em uso na construção civil Areia e argila Manoel Urbano Minerais em uso na construção civil Areia Feijó Minerais em uso na construção civil Areia Sena Madureira Minerais em uso na construção civil Argila Sena Madureira Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Figura 5.1 - Áreas de relevante interesse mineral no estado do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 76 ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL E RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DE MINERAÇÃO ÁREAS COM RESTRIÇÃO À MINERAÇÃO A diversidade de categorias de unidades de conser- vação com estabelecimento de diversos tipos de manejo O estado do Acre abriga, em aproximadamente permite reduzir os riscos de perda de espécies e de di- 46% de seu território, unidades de conservação (UC) de versidade genética da região com um desenvolvimento proteção integral, de uso sustentável e terras indígenas, sustentável. totalizando mais de cinco milhões de hectares (ACRE, De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de 2006). Conservação (SNUC) (Lei nº 9.985/2000), as unidades de As unidades de conservação federais são as Flores- conservação são divididas em dois grupos, definindo a tas Nacionais (FLONA), os Parques Nacionais (PARNA), intervenção por atividades de exploração de seus recursos as Reservas Extrativistas (RESEX) e as Áreas de Relevante naturais: Interesse Ecológico (ARIE). Já as unidades de conservação – Unidades de Proteção Integral: Têm por objetivo estaduais são os Parques Estaduais (PAREst), as Florestas preservar a natureza, sendo admitido, apenas, o uso Estaduais (FES), as Áreas de Proteção Ambiental (APA) e indireto de seus recursos naturais, à exceção dos casos as Áreas de Relevante Interesse Ambiental (ARIA). previstos em lei. Nessa categoria foram criados, no Acre, a Estação Ecológica, o Parque Nacional e o Parque Estadual. Quadro 5.3 - Unidades de conservação de proteção integral no estado do Acre. O uso indireto é aquele que não permite consumo, coleta, dano Nome da Unidade Esfera Ato Legal ou distribuição dos recursos Parque Nacional naturais. Federal Decreto n° 97.839, de 19.06.1989 da Serra do Divisor – Unidades de Uso Susten- Estação Ecológica Rio Acre Federal Decreto n° 86.061, de 04.06.1981 tável: Têm por objetivo compati- bilizar a conservação da natureza Parque Estadual Chandless Estadual Decreto n° 10.670, de 02.09.2004 com o uso sustentável de parcela Fonte:Elaborado pelos autores, 2013. de seus recursos naturais. No Acre, estão constituídas por: Área de Proteção Ambiental, Flo- Quadro 5.4 - Unidades de conservação de uso sustentável no estado do Acre. resta Nacional, Reserva Extrativis- ta e Área de Relevante Interesse Nome da Unidade Esfera Ato Legal Ecológico. O uso direto é aquele RESEX Chico Mendes Federal Decreto n° 99.144, de 13.03.1990 que compreende a coleta e uso, comercial ou não, dos recursos RESEX Riozinho da Liberdade Federal Decreto S/N, de 18.02.2005 naturais. RESEX Cazumba-Iracema Federal Decreto S/N, de 19.10.2002 As unidades de conser- vação mais restritivas, repre- FLONA de São Francisco Federal Decreto S/N, de 07.08.2001 sentadas pelas unidades de FLONA de Macauã Federal Decreto n° 96.189, de 21.06.1988 proteção integral (Quadro 5.3), RESEX Alto Tarauacá Federal Decreto S/N, de 08.11.2000 ocupam 1.563.769 ha, totali- zando 9,25% do estado do Acre RESEX Alto Juruá Federal Decreto n° 98.863, de 24.01.1990 (ACRE, 2011). FLONA de Santa Rosa do Purus Federal Decreto S/N, de 07.08.2001 Por sua vez, as unidades de conservação de uso sustentável ARIE Seringal Nova Esperança Federal Decreto S/N, de 20.08.1999 ocupam cerca de 3.544.067 ha FES Rio Liberdade Estadual Decreto n° 9.716, de 09.03.2004 (Quadro 5.4), ou seja, 21,58% do FES Mogno Estadual Decreto n° 9.717, de 09.03.2004 estado (ACRE, 2011). Nesse contexto, as Terras FES Rio Gregório Estadual Decreto n° 9.718, de 09.03.2004 Indígenas (TI), no Acre, totalizam APA Lago do Amapá Estadual Decreto n° 13.531, de 26.12.2005 2.390.112 ha (Quadro 5.5) ou 14,55% do espaço físico do esta- APA Igarapé São Francisco Estadual Decreto n° 12.310, de 14.07.2005 do (ACRE, 2011). APA Irineu Serra Estadual Decreto n° 500, de 07.06.2005 O comprometimento do ARIE Japiim Pentecoste Estadual Decreto n° 4.365, de 06.07.2009 espaço físico do estado pelas Áreas Naturais Protegidas do Acre FES do Antimary Estadual Decreto n° 046, de 07.02.1997 (ACRE, 2011) é apresentado no Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Quadro 5.6. 77 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 5.5 - Terras indígenas no estado do Acre. Nome da Terra Indígena Área (ha) Grupos População (hab.) Alto Rio Purus 263.129,8062 Kaxinawá, Kulina 1.508 Arara do Igarapé Humaitá 87.571,6965 Arara 170 Igarapé do Caucho 12.317,8938 Kaxinawá 320 Katukina/Kaxinawá 23.474,0358 Katukina, Kaxinawá 460 Mamoadate 313.646,8663 Jaminawa, Machineri 455 Rio Gregório 92.859,7490 Katukina, Yawanawá 430 Kulina do Rio Envira 84.364,6082 Kaxinawá, Kulina 210 Kaxinawá da Praia do Carapanã 60.698,7189 Kaxinawá 195 Poyanawa 24.499,0885 Poyanawa 350 Nukini 27.263,5212 Nukuini 425 Jaminawa Arara do Rio Bagé 28.926,1102 Arara, Jaminawa 165 Kaxinawá do Rio Humaitá 127.383,5568 Kaxinawá 255 Campinas/Katukina 32.623,6443 Katukina 175 Kaxinawá Colínia Vinte e Sete 105,1664 Kaxinawá 95 Jaminawa do Igarapé Preto 25.651,6167 Jaminawa 160 Kampa do Igarapé Primavera 21.987,2303 Kampa 19 Kaxinawá do Rio Jordão 87.293,7981 Kaxinawá 1.250 Kampa do Rio Amonea 87.205,4000 Kampa 410 Kaxinawá do Baixo Rio Jordão 8.726.4952 Kaxinawá 30 Kaxinawá Nova Olinda 27.533.3987 Kaxinawá 30 Kulina Igarapé do Pau 45.590,9370 Kulina 48 Kaxinawá Ashaninka do Rio Breu 31.277,8622 Kampa, Kaxinawá 210 Jaminaua/Envira 80.618,1798 Kulina 92 Kampa e Isolados do Rio Envira 232.795,0378 Kampa 230 Alto Tarauacá 142.619,1069 Isolados 600 Cabeceira do Rio Acre 78.512,5834 Jaminawa 161 Riozinho do Alto Envira 260.970,0000 Isolados 105 Arara do Rio Amônia 20.764,0000 Arara 278 Kaxinawá Seringal Independência 11.584,1270 Kaxinawá 40 Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Quadro 5.6 - Áreas naturais protegidas do Acre. Categoria Área (ha) Percentual Ocupado no Estado (%) Unidades de Conservação de Proteção Integral 1.563.836 9,52 Unidades de Conservação de Uso Sustentável 3.544.067 21,58 Terras Indígenas 2.390.112 14,55 Área Total do Estado 16.422.136 100,00 Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 78 ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL E RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DE MINERAÇÃO O estado do Acre criou o Sistema Estadual de Áreas sustentável. As unidades de conservação classificadas como Naturais Protegidas (SEANP), por meio da Lei nº 1.426/2001, de proteção integral têm total restrição à exploração de com os seguintes objetivos: recursos naturais e as unidades de conservação de uso I - manter amostras ecologicamente representativas sustentável são possíveis à explotação de recursos minerais, e viáveis dos ecossistemas naturais do estado e da biodi- condicionadas a restrições significativas em relação às áreas versidade que contêm; fora de unidades de conservação. II - proteger as paisagens naturais e pouco alteradas de notável beleza cênica; ÁREAS DE CONFLITO III - preservar o funcionamento dos processos eco- lógicos naturais, garantindo a manutenção dos serviços Os conflitos existentes entre a atividade de mine- ambientais referentes ao ciclo hidrológico, fixação de ração e as unidades de conservação no estado do Acre carbono, conservação do solo, preservação de habitat da são entre mineração e unidade de conservação de uso fauna silvestre e outros; sustentável (Figura 5.2). Ressalta-se que não foram iden- IV - promover o aproveitamento dos recursos naturais tificados conflitos entre mineração e terras indígenas no renováveis e o ecoturismo nas unidades de conservação de estado do Acre. uso sustentável; Para análise dos conflitos, foram consideradas somen- V - contribuir para a pesquisa científica, assim como te as áreas com concessões de lavra, licenciamento, auto- para a educação, cultura, esporte e recreação do cidadão; rização de pesquisa e requerimento de lavra (Quadro 5.7). VI - coordenar o funcionamento das unidades de Ou seja, exclusivamente os processos DNPM que receberam conservação e estabelecer diretrizes para o monitoramento autorização para pesquisa mineral ou lavra. da utilização do recurso natural nestas áreas. Os conflitos entre unidades de conservação de uso Cabe destacar que o grau de restrição à explotação sustentável e atividades de mineração foram identificados dos recursos minerais (recursos naturais) em uma unidade na APA Lago do Amapá e na ARIE Japiim Pentecostes. Já de conservação varia de acordo com o tipo de unidade, na RESEX Riozinho da Liberdade e na FES Rio Liberdade o ou seja, unidade de proteção integral ou unidade de uso conflito é com um título minerário. Figura 5.2 - Áreas de conflito entre mineração e unidades de conservação. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 79 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 5.7 - Processos DNPM. Processo Fase Substância Uso 886282/2008 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886002/2007 Licenciamento Areia Construção civil 886240/2002 Licenciamento Areia Construção civil 886237/2004 Licenciamento Areia Construção civil 886038/2007 Licenciamento Areia Construção civil 886264/2006 Licenciamento Areia Construção civil 886031/2010 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886311/2004 Licenciamento Argila Industrial 886183/2006 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886086/2002 Licenciamento Areia Construção civil 886044/2004 Concessão de lavra Água mineral Engarrafamento 886105/2008 Licenciamento Laterita Construção civil 886280/2001 Licenciamento Areia Construção civil 886606/2008 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886652/2008 Licenciamento Areia Construção civil 886100/2003 Licenciamento Areia Construção civil 886069/2009 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886094/2010 Autorização de pesquisa Laterita Construção civil 886368/2008 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886222/2009 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886140/2010 Licenciamento Areia Construção civil 886123/2010 Licenciamento Areia Construção civil 886056/2010 Licenciamento Areia Construção civil 886160/2007 Requerimento de lavra Areia Construção civil 886044/2006 Requerimento de lavra Areia Construção civil 886053/2008 Requerimento de lavra Areia Construção civil 886547/2008 Requerimento de lavra Areia Construção civil 886038/2010 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 880954/1985 Concessão de lavra Água mineral Não informado 886041/2005 Concessão de lavra Água mineral Engarrafamento 880002/1992 Concessão de lavra Água mineral Não informado 886139/2003 Licenciamento Areia Construção civil 886076/2010 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886163/2000 Concessão de lavra Água mineral Engarrafamento 886424/2009 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886423/2009 Autorização de pesquisa Água mineral Engarrafamento 886271/2009 Autorização de pesquisa Água mineral Engarrafamento 886573/2008 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886282/2001 Autorização de pesquisa Água mineral Industrial 886210/2001 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886018/2001 Autorização de pesquisa Laterita Não informado 886425/2010 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886187/2010 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886404/2009 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886019/2001 Autorização de pesquisa Laterita Não informado 886095/2010 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 880324/2010 Licenciamento Areia Construção civil 886186/2010 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886594/2008 Autorização de pesquisa areia Construção civil 886320/2009 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 80 ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL E RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DE MINERAÇÃO Quadro 5.7 - Processos DNPM. (continuação) Processo Fase Substância Uso 886321/2009 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886127/2011 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886224/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886402/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886359/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886405/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886211/2003 Licenciamento Areia Construção civil 886610/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886603/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886609/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886606/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886608/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886182/2006 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886108/2012 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886316/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886011/2012 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886300/2010 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886145/2012 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886107/2012 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886406/2011 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886032/2006 Autorização de pesquisa Água mineral Engarrafamento 886607/1995 Autorização de pesquisa Água mineral Não informado 886330/2004 Autorização de pesquisa Areia Industrial 886382/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886444/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886152/2007 Autorização de pesquisa Água mineral Engarrafamento 886265/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886031/2006 Licenciamento Argila Construção civil 886026/2008 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886189/2008 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886537/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886553/2007 Autorização de pesquisa Água mineral Engarrafamento 886570/2007 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886511/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886560/2004 Autorização de pesquisa Água mineral Industrial 886503/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886153/2007 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886367/2005 Licenciamento Areia Construção civil 886531/2008 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886532/2008 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886650/2008 Autorização de pesquisa Cascalho Construção civil 886067/2009 Autorização de pesquisa Argila Cerâmica vermelha 886167/2009 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886405/2009 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886589/2008 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886425/2009 Autorização de pesquisa Cascalho Construção civil 886289/2004 Licenciamento Areia Construção civil 886068/2009 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886009/1999 Autorização de pesquisa Água mineral Não informado 886173/2006 Licenciamento Areia Construção civil 81 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 5.7 - Processos DNPM. (continuação) Processo Fase Substância Uso 886288/2004 Licenciamento Areia Construção civil 886043/2007 Licenciamento Areia Construção civil 886288/2007 Licenciamento Areia Construção civil 886310/2004 Licenciamento Argila Industrial 886373/2006 Licenciamento Areia Construção civil 886248/2006 Licenciamento Areia Construção civil 886263/2006 Licenciamento Areia Construção civil 886284/2008 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886039/2010 Autorização de pesquisa Areia Construção civil 886338/2007 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha 886250/2006 Licenciamento Argila Industrial 886283/2008 Licenciamento Argila Cerâmica vermelha Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Área de Proteção Ambiental Lago do Amapá As áreas de estocagem de areia, localmente deno- minadas ‘canchas’, estão dispostas estrategicamente nas A Área de Proteção Ambiental (APA) Lago do Amapá margens, dentro dos limites da APA do rio Acre, para re- foi criada pelo Decreto nº 13.531, de 26.12.2005, com ceber o material bombeado pela draga e, por gravidade, uma área na ordem de 5.200 ha. É administrada pela Se- a água bombeada do rio, que, juntamente com a polpa, é cretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA), monitorada devolvida integralmente para o rio (Figura 5.5). e fiscalizada pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (IMAC), em articulação com os demais órgãos públicos federais, estaduais e municipais, especialmente a Secre- taria de Estado de Floresta (SEF) e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMEIA) (ACRE, 2010). Localiza-se à margem direita do rio Acre, aproximadamente a 12 km do centro da cidade de Rio Branco, na altura do Km 08 da Estrada do Amapá (Figura 5.3). A APA Lago do Amapá é cortada pelo rio Acre, onde se desenvolvem as atividades de mineração de areia que abastece a construção civil de Rio Branco. O método de lavra utilizado é o de dragagem em leito do rio (Figura 5.4). Figura 5.4 - Draga de areia no rio Acre na APA Lago do Amapá. Fotografia: Luiz Gilberto Dall’Igna, 2012. Figura 5.3 - APA Lago do Amapá. Figura 5.5 - Área de estocagem de areia (cancha) na APA do rio Acre. Fonte: Elaborada pelos autores, 2013. Fotografia: Luiz Gilberto Dall’Igna, 2012. 82 ÁREAS DE RELEVANTE INTERESSE MINERAL E RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DE MINERAÇÃO Atualmente, constatam-se 16 processos DNPM em Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade e conflito com essa APA, sendo dois licenciamentos, dois Floresta Estadual Sustentável Rio Liberdade requerimentos de lavra e 12 autorizações de pesquisa, todos direcionados para areia. Presentemente, 12 dragas A Reserva Extrativista (RESEX) é uma área utilizada se encontram em atividade no rio Acre dentro da APA por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência Lago do Amapá; entretanto, todas estão devidamente baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agri- licenciadas e fiscalizadas pelo IMAC. cultura de subsistência e na criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios de Área de Relevante Interesse Ecológico vida e a cultura dessas populações e assegurar o uso susten- Japiim Pentecostes tável dos recursos naturais da unidade. É de domínio público, com uso concedido às populações extrativistas tradicionais, A Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) é, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites em geral, de pequena extensão, com pouca ou nenhuma devem ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei. ocupação humana, com características naturais extraordi- A RESEX Riozinho da Liberdade foi criada pelo Decreto nárias ou que abriga exemplares raros da biota regional, s/n em 17.02.2005, com 325.603 ha, nos municípios de Cru- e tem como objetivo manter os ecossistemas naturais de zeiro do Sul, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter e Tarauacá, importância regional ou local e regular o uso admissível estando localizada às margens da Rodovia BR-364 e seguindo dessas áreas, de modo a compatibilizá-lo com os objetivos a bacia do rio Liberdade até suas cabeceiras. Riozinho da Liber- de conservação da natureza, sendo constituída por terras dade foi a região de maior produção de borracha natural no públicas ou privadas. começo do século XX (até 1912, durante o boom da borracha). A Área de Relevante Interesse Ecológico Japiim Pen- As Florestas Estaduais Sustentáveis (FES) são seme- tecostes foi criada pelo Decreto nº 4.365, de 06.07.2009, lhantes às Florestas Nacionais, sendo criadas pelos estados. abrangendo uma área de 25.000 ha nos municípios de Contemplam áreas com cobertura florestal de espécies Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul. A primeira fase do Zonea- predominantemente nativas e têm como objetivo básico mento Ecológico-Econômico do Acre (ACRE, 2006) indicou o uso múltiplo sustentável dos recursos florestais e a pes- essa ARIE como de criação prioritária. quisa científica, com ênfase em métodos para exploração Foram identificados dois conflitos com essa ARIE: sustentável de florestas nativas. Processo DNPM nº 886173/2006, com área de 12,6 ha A FES Rio Liberdade foi criada em 09.03.2004, com em fase de licenciamento autorizado em 23.03.2008 para uma área de 450.000 ha no município de Tarauacá. lavra de areia, com vigência até 21.06.2016, e o Processo O Processo DNPM nº 886.289/2004, em fase de licen- DNPM nº 886367/2005, com área de 29,43 ha em fase ciamento para lavra de areia, contempla uma área de 50 de licenciamento autorizado em 10.05.2006 para lavra de ha, estando conflitante com a RESEX Riozinho da Liberdade areia, com vigência até 03.08.025 (Figura 5.6). e com a FES Rio Liberdade (Figura 5.7). Figura 5.6 - Áreas de conflito entre ARIE Japiim Pentecostes Figura 5.7 - Área de conflito entre processo DNPM e a RESEX e processos DNPM. Riozinho da Liberdade e a FES Rio Liberdade. Fonte: Elaborado por Luiz Gilberto Dall’Igna, 2013. Fonte: Elaborado por Luiz Gilberto Dall’Igna, 2013. 83 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE REFERÊNCIAS DNPM, 1977. p. 17-103. 420 p. (Levantamento de Recursos Naturais, 13). ACRE. Governo do Estado do Acre. Zoneamento ecológico-econômico do estado do Acre, fase II BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Projeto de (escala 1:250.000): documento síntese. Rio Branco: ordenamento territorial geomineiro: resultados. SEMA, 2006. 356 p. Brasília, DF: MME, 2008. ACRE. Secretaria de Estado de Planejamento e DNPM. Diretoria de Desenvolvimento e Economia Desenvolvimento Econômico Sustentável. Acre em Mineral. Anuário mineral brasileiro 2010. Brasília, DF: números 2011. Rio Branco: SEPLANDS, 2011. 195 p. DNPM, 2010. Disponível em: . ACRE. Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Plano de gestão área de proteção ambiental lago do MATOS, G.M.M. de; MELLO, I.S. de C.; GONÇALVES, J.H. Amapá: fase I – documento síntese do planejamento. (Coord.). Áreas de relevante interesse mineral no Rio Branco: SEMA, 2010. 125 p. Brasil (ARIM). Belo Horizonte: CPRM, 2009. 70 p. BARROS, A.M.; ALVES, E.D. de O.; ARAÚJO, J.F.V.; SILVA, L.L. da et al. Geologia. In: BRASIL. Departamento LIMA, M.I.C. de; FERNANDES, C.A.C. Geologia. In: Nacional de Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. Folha SC.19 Rio Branco: geologia, geomorfologia, Projeto RADAMBRASIL. Folhas SB/SC. 18 Javari/ pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Contamana: geologia, geomorfologia, pedologia, Janeiro: DNPM, 1976. 458 p. p. 17-116. (Levantamento vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: de Recursos Naturais, 12). 84 6 RECURSOS MINERAIS Luiz Gilberto Dall’Igna (luiz.dalligna@cprm.gov.br)1 Roberto Matias da Silva (roberto.matias@uol.com.br)2 1CPRM – Serviço Geológico do Brasil 2FUNTAC – Fundação de Tecnologia do Estado do Acre SUMÁRIO Introdução ........................................................................................................... 87 Direitos Minerários ............................................................................................... 87 Concessão de Lavra ......................................................................................... 87 Licenciamento .................................................................................................. 87 Requerimento de Licenciamento .................................................................... 87 Requerimento de Lavra .................................................................................... 88 Requerimento de Pesquisa ............................................................................... 88 Autorização de Pesquisa .................................................................................. 89 Substâncias Minerais ....................................................................................... 90 Materiais de Uso na Construção Civil ............................................................... 94 Substâncias Não Metálicas .............................................................................100 Gás Natural .....................................................................................................103 Referências ..........................................................................................................104 RECURSOS MINERAIS INTRODUÇÃO Concessão de Lavra É inquestionável a importância dos bens minerais As concessões de lavra totalizam cinco para a para a civilização humana, bem como a crescente de- substância água mineral, localizadas em Cruzeiro do Sul pendência a esses bens para melhoria da qualidade de (1), Senador Guiomard (2), Rio Branco (1) e Brasileia (1) vida e desenvolvimento econômico de uma região. Nesse (Quadro 6.2). contexto, o estado do Acre tem sua atividade de mine- ração voltada para materiais de uso na construção civil Quadro 6.2 - Processos DNPM em fase de concessão de lavra. e água mineral. Segundo a FUNTAC (1997), a partir do fim da década Processo DNPM Município de 1940 as ruas de Rio Branco passaram a ser pavimen- tadas com tijolo cerâmico e, até hoje, esse material é 886.041/2005 Cruzeiro do Sul amplamente utilizado em todas as cidades do estado. A corroborar o acerto de tal empreendimento, encontra-se 880.954/1985 Senador Guiomard em execução o Programa de Pavimentação de Ruas do 886.163/2000 Senador Guiomard Governo do Estado do Acre, denominado Ruas do Povo, cujo objetivo é pavimentar algo em torno de 3.200 ruas 880.002/1992 Rio Branco com tijolo maciço. Ressalta-se, ainda, a utilização de gipsita relatada 886.044/2004 Brasileia por Silva et al. (1976), quando a Organização Técnica de Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Pesquisas de Minérios do Estado do Acre S.A. fabricou giz para uso escolar. Licenciamento DIREITOS MINERÁRIOS Os processos DNPM na fase de licenciamento são No Sistema de Informações Geográficas da Minera- representados por areia, argila e laterita, distribuídos em ção (SIGMINE), do Departamento Nacional de Produção 12 municípios do estado. Dentre estes, Cruzeiro do Sul se Mineral (DNPM), constavam cadastrados 208 processos destaca com 16 processos (Figura 6.1; Quadro 6.3). em 10.07.2012, dos quais foram excluídos 15 processos por estarem inativos. Requerimento de Licenciamento Dos 193 processos considerados ativos, o maior número de processos (66) estava em fase de autorização Essa fase processual contava com 20 processos ativos de pesquisa, enquanto a menor quantidade (quatro) cor- em 10.07.2012 (Quadro 6.4). As substâncias são represen- respondia à fase de requerimento de lavra (Quadro 6.1). tadas unicamente por areia e argila, abrangendo 11 muni- cípios. Nesse contexto, destaca-se a participação expressiva de Cruzeiro do Sul e Senador Guiomard na totalidade dos Quadro 6.1 - Quantitativo e fases dos processos DNPM. processos (Figura 6.2). Fase Quantidade Autorização de pesquisa 66 Concessão de lavra 05 Licenciamento 39 Requerimento de lavra 04 Requerimento de licenciamento 20 Requerimento de pesquisa 37 Disponibilidade 20 Total 193 Figura 6.1 - Quantitativo de processos em fase de licenciamento por Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. substância e município. Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 87 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 6.3 - Relação de processos DNPM em fase de Quadro 6.4 - Quantitativo de requerimentos de licenciamento por licenciamento. município e substância. Processo DNPM Município Substância Município Areia Argila Total 886139/2003 Xapuri Areia Tarauacá 2 0 2 880324/2010 Mâncio Lima Areia Cruzeiro do Sul 3 0 3 886300/2010 Mâncio Lima Argila Sena Madureira 1 0 1 886222/2009 Brasileia Argila Assis Brasil 1 0 1 886043/2007 Brasileia Areia Brasileia 0 2 2 886288/2004 Tarauacá Areia Senador Guiomard 0 3 3 886373/2006 Tarauacá Areia Rio Branco 1 1 2 886652/2008 Tarauacá Areia Porto Acre 1 0 1 886211/2003 Cruzeiro do Sul Areia Manoel Urbano 1 1 2 886367/2005 Cruzeiro do Sul Areia Feijó 1 1 2 886289/2004 Cruzeiro do Sul Areia Mâncio Lima 1 0 1 886173/2006 Cruzeiro do Sul Areia Total 12 8 20 886310/2004 Cruzeiro do Sul Argila Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 886248/2006 Cruzeiro do Sul Areia 886284/2008 Cruzeiro do Sul Argila 886283/2008 Cruzeiro do Sul Argila 886289/2004 Cruzeiro do Sul Areia 886282/2008 Cruzeiro do Sul Argila 886002/2007 Cruzeiro do Sul Areia 886240/2002 Cruzeiro do Sul Areia 886038/2007 Cruzeiro do Sul Areia 886311/2004 Cruzeiro do Sul Argila 886086/2002 Cruzeiro do Sul Areia 886100/2002 Cruzeiro do Sul Areia 886606/2008 Cruzeiro do Sul Argila Figura 6.2 - Quantitativo de processos em fase de requerimento de licenciamento por substância e município. 886031/2006 Sena Madureira Argila 886237/2004 Epitaciolândia Areia Por outro lado, o Quadro 6.5 consolida o número do 886105/2008 Senador Guiomard Laterita processo junto ao DNPM, o município em que se encontra 886123/2010 Senador Guiomard Areia e a substância mineral requerida. 886264/2006 Plácido de Castro Areia 886263/2006 Plácido de Castro Areia Requerimento de Lavra 886338/2007 Acrelândia Argila Os processos DNPM em fase de requerimento de lavra se 886183/2006 Acrelândia Argila concentram, em sua totalidade, no município de Rio Branco e 886280/2001 Rio Branco Areia são, unicamente, para areia (Quadro 6.6). Os requerimentos de 886056/2010 Rio Branco Areia lavra estão situados no rio Acre, sendo que dois deles foram excluídos, por se situarem na APA Lago do Amapá. 886288/2007 Feijó Areia 886250/2006 Feijó Argila Requerimento de Pesquisa 886069/2009 Feijó Argila 886368/2008 Feijó Argila Os requerimentos de pesquisa mineral correspondem aos municípios de Acrelândia, Cruzeiro do Sul, Feijó, Mâncio 886140/2010 Feijó Areia Lima, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rio Branco, Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Senador Guiomard e Xapuri (Figura 6.3). 88 RECURSOS MINERAIS No que se refere à quantificação de requerimentos Quadro 6.6 - Processos DNPM em fase de requerimento de lavra. de pesquisa mineral por município e substância mineral, ressaltam-se os requerimentos para minério de alumínio Processo DNPM Município Substância nos municípios de Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, bem como os requerimentos para água mineral em Rio 886160/2007 Rio Branco Areia Branco (Quadro 6.7). 886044/2006 Rio Branco Areia Quadro 6.5 - Relação de processos DNPM em fase de 886053/2008 Rio Branco Areia requerimento de licenciamento. 886547/2008 Rio Branco Areia Processo DNPM Município Substância Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 886651/2008 Tarauacá Areia 886124/2010 Tarauacá Areia 886003/2012 Cruzeiro do Sul Areia 886264/2007 Cruzeiro do Sul Areia 886070/2009 Cruzeiro do Sul Areia 886091/2011 Sena Madureira Areia 886080/2012 Assis Brasil Areia 886306/2010 Brasileia Argila 886095/2010 Brasiléia Argila 886003/2011 Senador Guiomard Argila 886039/2012 Senador Guiomard Argila 886191/2008 Senador Guiomard Argila Figura 6.3 - Quantitativo de processos em fase de requerimento de 886164/2010 Rio Branco Areia pesquisa por município. Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 886435/2010 Rio Branco Argila 886213/2011 Porto Acre Areia Autorização de Pesquisa 886166/2012 Manoel Urbano Argila O município de Rio Branco lidera amplamente em 886182/2009 Manoel Urbano Areia quantidade de autorizações de pesquisa, com 42 processos, 886158/2012 Feijó Argila sendo 29 para areia, sete para argila, quatro para água 886560/2007 Feijó Areia mineral e dois para cascalho. Quanto às substâncias, o predomínio no estado do Acre corresponde ao bem mineral 886234/2011 Mâncio Lima Areia areia (Quadro 6.8). Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Quadro 6.7 - Quantitativo de requerimentos de pesquisa por municípios e substância. Município Argila Água Mineral Alumínio Areia Diamante Cassiterita Prata Total Cruzeiro do Sul 1 1 2 Porto Walter 11 11 Marechal Thaumaturgo 6 6 Sena Madureira 1 1 Senador Guiomard 3 1 4 Acrelândia 1 1 Rio Branco 5 2 7 Feijó 1 1 2 Mâncio Lima 2 2 Xapuri 1 1 Total 1 10 17 3 2 2 2 37 Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 89 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 6.8 - Quantitativo de autorização de pesquisa por município e substância. Município Argila Água Mineral Areia Diamante Laterita Cassiterita Cascalho Total Cruzeiro do Sul 4 4 Capixaba 1 1 Porto Acre 1 1 Sena Madureira 1 1 4 6 Senador Guiomard 3 3 6 Manoel Urbano 3 3 Rio Branco 7 4 29 2 42 Feijó 1 1 Mâncio Lima 1 1 Total 8 9 37 5 3 2 1 65 Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. SUBSTÂNCIAS MINERAIS No decorrer das atividades do Projeto Geodiversidade do Estado do Acre, foram cadastrados 179 pontos de recur- No estado do Acre predominam as substâncias sos minerais, a partir de trabalhos de campo e de processos minerais relacionadas ao uso na construção civil, prin- DNPM (Quadro 6.9). Destaca-se que nos municípios de cipalmente areia e argila. Além destes, a água mineral Bujari, Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues também possui importante participação na produção Alves e Santa Rosa do Purus não foram cadastrados re- mineral do estado. cursos minerais. Quadro 6.9 - Registro de ocorrências minerais no estado do Acre. Ponto Latitude Longitude Datum Substância Status Município 1 -10.950000 -70.333333 SAD69 Ouro Ocorrência Assis Brasil 2 -7.640222 -72.673722 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 3 -8.149047 -70.369079 SAD69 Areia Depósito Feijó 4 -8.834559 -69.252609 SAD69 Areia Depósito Manoel Urbano 5 -8.139794 -70.774160 SAD69 Areia Depósito Tarauacá 6 -7.571780 -72.784146 SAD69 Areia Depósito Cruzeiro do Sul 7 -8.182935 -70.782220 SAD69 Areia Depósito Tarauacá 8 -11.010020 -68.738194 SAD69 Areia Depósito Epitaciolândia 9 -10.094467 -67.679650 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 10 -7.577535 -72.803013 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 11 -9.191966 -71.950895 SAD69 Caulim Ocorrência Jordão 12 -9.869500 -67.782778 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 13 -10.948011 -69.274529 SAD69 Areia Ocorrência Brasileia 14 -10.101265 -67.604294 SAD69 Laterita Ocorrência Senador Guiomard 15 -10.008593 -67.833219 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 16 -10.012961 -67.876449 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 17 -10.096745 -67.604294 SAD69 Laterita Ocorrência Senador Guiomard 18 -7.489061 -72.905019 SAD69 Areia Mina Mâncio Lima 19 -10.330522 -67.178454 SAD69 Areia Mina Plâcido de Castro 20 -10.003610 -67.876412 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 21 -10.640694 -68.588611 SAD69 Gipsita Ocorrência Xapuri 90 RECURSOS MINERAIS Quadro 6.9 - Registro de ocorrências minerais no estado do Acre (continuação) Ponto Latitude Lngitude Datum Substância Status Município 22 -10.056423 -67.859921 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 23 -9.868017 -67.836570 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 24 -10.098483 -67.819179 SAD69 Areia Ocorrência Senador Guiomard 25 -10.041054 -67.866484 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 26 -7.514593 -72.803283 SAD69 Areia Ocorrência Cruzeiro do Sul 27 -10.089409 -67.832052 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 28 -7.572846 -72.766954 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 29 -7.499091 -72.841613 SAD69 Areia Ocorrência Cruzeiro do Sul 30 -7.616527 -72.945275 SAD69 Areia Ocorrência Mâncio Lima 31 -10.091583 -67.821347 SAD69 Areia Ocorrência Senador Guiomard 32 -9.186101 -71.956719 SAD69 Calcário Ocorrência Jordão 33 -7.504032 -72.818699 SAD69 Areia Ocorrência Cruzeiro do Sul 34 -10.071419 -67.840242 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 35 -9.088468 -68.658480 SAD69 Areia Ocorrência Sena Madureira 36 -10.095558 -67.826656 SAD69 Areia Ocorrência Senador Guiomard 37 -9.940486 -67.717257 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 38 -7.600031 -72.916967 SAD69 Argila Mina Mâncio Lima 39 -9.990643 -67.813304 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 40 -10.083164 -67.835001 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 41 -10.366400 -67.863817 SAD69 Areia Mina Capixaba 42 -7.636082 -72.673975 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 43 -9.986141 -67.818443 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 44 -10.022968 -67.853538 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 45 -9.966536 -67.739404 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 46 -9.077276 -68.678492 SAD69 Argila Mina Sena Madureira 47 -8.894177 -69.278951 SAD69 Areia Ocorrência Manoel Urbano 48 -8.826392 -69.250225 SAD69 Areia Ocorrência Manoel Urbano 49 -8.886278 -69.273621 SAD69 Areia Ocorrência Manoel Urbano 50 -10.661955 -68.493538 SAD69 Argila Mina Xapuri 51 -9.986448 -67.873964 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 52 -10.081157 -67.059646 SAD69 Argila Mina Acrelândia 53 -10.087273 -67.836233 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 54 -10.057999 -67.855722 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 55 -7.615793 -72.734796 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 56 -10.051698 -67.862503 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 57 -10.078178 -67.719476 SAD69 Cascalho Ocorrência Rio Branco 58 -9.977242 -67.906258 SAD69 Argila Ocorrência Rio Branco 59 -10.073238 -67.847102 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 60 -11.018344 -68.745760 SAD69 Areia Mina Epitaciolândia 61 -9.091430 -68.648147 SAD69 Areia Ocorrência Sena Madureira 62 -10.098580 -67.684212 SAD69 Cascalho Ocorrência Rio Branco 63 -7.624737 -72.649640 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 64 -7.803156 -72.022822 SAD69 Areia Mina Tarauacá 65 -9.970498 -67.757468 SAD69 Areia Ocorrência Rio Branco 66 -7.601709 -72.820200 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 67 -7.957916 -71.485232 SAD69 Areia Mina Tarauacá 68 -11.011533 -68.749222 SAD69 Areia Mina Brasileia 91 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 6.9 - Registro de ocorrências minerais no estado do Acre (continuação) Ponto Latitude Longitude Datum Substância Status Município 69 -8.132564 -70.347970 SAD69 Areia Mina Feijó 70 -11.016955 -68.741316 SAD69 Areia Mina Epitaciolândia 71 -8.155665 -70.788609 SAD69 Areia Mina Tarauacá 72 -7.587800 -72.810813 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 73 -10.337129 -67.178098 SAD69 Areia Mina Plâcido de Castro 74 -10.637611 -68.609861 SAD69 Gipsita Ocorrência Xapuri 75 -11.029733 -68.739649 SAD69 Areia Mina Epitaciolândia 76 -9.078500 -68.681250 SAD69 Laterita Mina Sena Madureira 77 -10.987233 -68.761594 SAD69 Laterita Mina Brasiléia 78 -10.971955 -68.757705 SAD69 Laterita Mina Brasileia 79 -7.435167 -72.968917 SAD69 Areia Depósito Mâncio Lima 80 -8.142139 -70.778167 SAD69 Argila Mina Tarauacá 81 -9.961122 -67.730234 SAD69 Areia Mina Rio Branco 82 -9.950567 -67.681845 SAD69 Areia Mina Rio Branco 83 -9.963289 -67.782373 SAD69 Areia Mina Rio Branco 84 -10.047511 -67.865484 SAD69 Areia Mina Rio Branco 85 -9.998845 -67.819900 SAD69 Areia Mina Rio Branco 86 -7.634750 -72.685361 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 87 -8.191389 -70.336500 SAD69 Argila Mina Feijó 88 -10.000900 -67.822678 SAD69 Areia Mina Rio Branco 89 -10.003428 -67.826484 SAD69 Areia Mina Rio Branco 90 -10.005872 -67.830873 SAD69 Areia Mina Rio Branco 91 -9.097861 -68.64475 SAD69 Areia Mina Sena Madureira 92 -10.007456 -67.837567 SAD69 Gipsita Ocorrência Rio Branco 93 -7.491333 -72.907000 SAD69 Areia Mina Mâncio Lima 94 -10.007567 -67.839623 SAD69 Areia Mina Rio Branco 95 -10.019067 -67.852178 SAD69 Areia Mina Rio Branco 96 -10.021845 -67.854956 SAD69 Areia Mina Rio Branco 97 -7.636056 -72.687639 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 98 -10.032900 -67.868428 SAD69 Areia Mina Rio Branco 99 -10.044122 -67.873845 SAD69 Areia Mina Rio Branco 100 -8.202139 -70.341944 SAD69 Argila Mina Feijó 101 -10.043400 -67.863595 SAD69 Areia Mina Rio Branco 102 -7.572222 -72.803472 SAD69 Areia Mina paralisada Cruzeiro do Sul 103 -10.044928 -67.864150 SAD69 Areia Mina Rio Branco 104 -10.047567 -67.864484 SAD69 Areia Mina Rio Branco 105 -10.018595 -67.861734 SAD69 Areia Mina Rio Branco 106 -7.494250 -72.878222 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 107 -7.635583 -72.686889 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 108 -10.054567 -67.859428 SAD69 Areia Mina Rio Branco 109 -10.066233 -67.850289 SAD69 Areia Mina Rio Branco 110 -10.076706 -67.834123 SAD69 Areia Mina Rio Branco 111 -10.077733 -67.850873 SAD69 Gipsita Ocorrência Rio Branco 112 -9.063250 -68.676111 SAD69 Argila Mina Sena Madureira 113 -9.077278 -68.653194 SAD69 Areia Mina Sena Madureira 114 -10.106956 -67.624095 SAD69 Argila Mina Senador Guiomard 115 -9.944734 -67.869650 SAD69 Argila Mina Rio Branco 92 RECURSOS MINERAIS Quadro 6.9 - Registro de ocorrências minerais no estado do Acre (continuação) Ponto Latitude Longitude Datum Substância Status Município 116 -9.941400 -67.873262 SAD69 Argila Mina Rio Branco 117 -8.176833 -70.389111 SAD69 Areia Mina Feijó 118 -9.941123 -67.881317 SAD69 Argila Mina Rio Branco 119 -10.663900 -68.512150 SAD69 Areia Mina Xapuri 120 -7.495861 -72.857111 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 121 -8.160583 -70.780528 SAD69 Argila Mina Tarauacá 122 -8.160306 -70.782889 SAD69 Areia Mina Tarauacá 123 -9.061500 -68.671889 SAD69 Argila Mina Sena Madureira 124 -9.084778 -68.674528 SAD69 Argila Mina Sena Madureira 125 -9.243417 -68.512500 SAD69 Argila Ocorrência Sena Madureira 126 -9.101167 -68.645222 SAD69 Areia Mina Sena Madureira 127 -9.076083 -68.682778 SAD69 Argila Mina paralisada Sena Madureira 128 -7.641667 -72.683694 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 129 -7.633414 -72.687248 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 130 -7.566490 -72.787743 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 131 -10.065857 -67.063154 SAD69 Argila Mina Acrelândia 132 -8.199920 -70.348115 SAD69 Argila Mina Feijó 133 -10.111294 -67.617182 SAD69 Laterita Mina Senador Guiomard 134 -8.133455 -70.768856 SAD69 Areia Mina Tarauacá 135 -8.209076 -70.349376 SAD69 Argila Mina Feijó 136 -10.110966 -67.656393 SAD69 Laterita Ocorrência Senador Guiomard 137 -7.636306 -72.682528 SAD69 Argila Mina Cruzeiro do Sul 138 -8.181346 -70.361176 SAD69 Argila Mina Feijó 139 -10.986643 -68.752218 SAD69 Argila Mina Brasileia 140 -8.178441 -70.388631 SAD69 Areia Mina Feijó 141 -10.109830 -67.641565 SAD69 Areia Mina Senador Guiomard 142 -9.961643 -67.766839 SAD69 Areia Depósito Rio Branco 143 -7.573474 -72.788624 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 144 -10.096166 -67.613741 SAD69 Argila Depósito Senador Guiomard 145 -9.602835 -67.536761 SAD69 Areia Depósito Porto Acre 146 -10.967074 -68.758294 SAD69 Argila Depósito Brasileia 147 -9.879410 -67.800627 SAD69 Argila Depósito Rio Branco 148 -7.578528 -72.795667 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 149 -9.080217 -68.661008 SAD69 Areia Depósito Sena Madureira 150 -10.941067 -69.565393 SAD69 Areia Depósito Assis Brasil 151 -7.435480 -72.971000 SAD69 Areia Depósito Mâncio Lima 152 -7.494655 -72.879146 SAD69 Areia Depósito Cruzeiro do Sul 153 -8.188515 -70.335301 SAD69 Argila Depósito Feijó 154 -11.015733 -68.740297 SAD69 Areia Mina Epitaciolândia 155 -10.082087 -67.569337 SAD69 Argila Depósito Senador Guiomard 156 -8.843038 -69.270199 SAD69 Argila Depósito Manoel Urbano 157 -7.580110 -72.792769 SAD69 Areia Depósito Cruzeiro do Sul 158 -8.135528 -70.76825 SAD69 Areia Mina Tarauacá 159 -8.155639 -70.932056 SAD69 Areia Mina Tarauacá 160 -7.572250 -72.786333 SAD69 Areia Mina Cruzeiro do Sul 161 -7.610472 -72.898333 SAD69 Areia Mina Mâncio Lima 162 -7.650667 -72.830611 SAD69 Areia Mina Mâncio Lima 93 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 6.9 - Registro de ocorrências minerais no estado do Acre (continuação) Ponto Latitude Longitude Datum Substância Status Município 163 -8.118306 -71.023000 SAD69 Areia Ocorrência Tarauacá 164 -8.094194 -71.071111 SAD69 Areia Ocorrência Tarauacá 165 -10.220734 -67.690811 SAD69 Água Mineral Ocorrência Senador Guiomard 166 -10.126008 -67.796802 SAD69 Água Mineral Ocorrência Senador Guiomard 167 -10.098489 -67.678776 SAD69 Água Mineral Ocorrência Rio Branco 168 -9.122544 -68.604083 SAD69 Água Mineral Ocorrência Sena Madureira 169 -9.920837 -67.813462 SAD69 Água Mineral Ocorrência Rio branco 170 -10.057572 -67.766221 SAD69 Água Mineral Ocorrência Rio Branco 171 -10.070242 -67.582873 SAD69 Água Mineral Ocorrência Senador Guiomard 172 -9.733247 -67.685689 SAD69 Água Mineral Ocorrência Porto Acre 173 -10.093293 -67.693339 SAD69 Água Mineral Ocorrência Rio Branco 174 -10.004178 -67.810484 SAD69 Água Mineral Mina Rio Branco 175 -10.140289 -67.724928 SAD69 Água Mineral Mina Senador Guiomard 176 -10.165567 -67.726873 SAD69 Água Mineral Mina Senador Guiomard 177 -7.591103 -72.691519 SAD69 Água Mineral Mina Cruzeiro do Sul 178 -10.951045 -68.948732 SAD69 Água Mineral Mina Brasileia 179 -10.134848 -67.740178 SAD69 Água Mineral Mina Senador Guiomard Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall Ìgna, 2013. Materiais de Uso na Construção Civil Areia Dentre os materiais de uso na construção civil, pre- A explotação de areia em canais fluviais é efetuada dominam areia e argila como os produtos minerais mais pelo processo de dragagem (Figura 6.6), utilizando uma explotados no território acreano (Figuras 6.4 e 6.5). balsa com dimensões aproximadas de 6 x 4 m, com um Figura 6.4 - Localização dos registros de areia no estado do Acre. 94 RECURSOS MINERAIS Figura 6.5 - Localização dos registros de argila no estado do Acre. Fonte: Elaboradfo por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Figura 6.7 - Local de estocagem de areia. Figura 6.6 - Draga de areia. Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. motor de 6 cilindros a diesel, acoplado a uma bomba de Quadro 6.10 - Composição mineralógica da areia do rio Acre. sucção com diâmetro de abertura de 6”: a capacidade nominal de produção é estimada em 20 m3/h. Composição Porcentagem (%) No rio Acre, uma das principais frentes de explotação, a dragagem é realizada somente no período de seca (maio a Quartzo (SiO ) 90 novembro). O material é dragado do leito do rio e bombeado 2 para a margem, onde é feita a estocagem da matéria-prima Feldspato 0,5 explorada em bacias moldadas com dimensões preestabele- cidas, cuja utilização dar-se-á em função do volume lavrado Ilmenita (FeTiO2) 0,3 (Figura 6.7). São utilizados equipamentos (trator e/ou pá Outros minerais 0,2 carregadeira) para que se proceda a todas as correções nos locais de exploração e armazenamento da areia. Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 95 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE A composição mineralógica da areia explotada no rio ambiental para empreendimentos de explotação de areia Acre está exposta no Quadro 6.10, enquanto suas caracte- em leitos de rios (Quadro 6.12). rísticas físicas são visualizadas no Quadro 6.11. Um caso particular é detectado na região de Cruzeiro do O Instituto de Meio Ambiente do Acre (IMAC), por Sul, onde a explotação de areia é desenvolvida em sequeiros, com intermédio da Divisão de Recursos Hídricos, emite a licença utilização de máquinas (Figura 6.8), ou manualmente (Figura 6.9). Quadro 6.11 - Caracterização física da areia do rio Acre. Abertura das Peneiras (mm) Peso Retido (g) Porcentagem (%) Porcentagem Retida e Acumulada (%) 4,8 - - - 2,4 - - - 1,2 - - - 0,6 3,71 0,371 0,371 0,3 124,08 12,408 12,779 0,15 712,65 71,265 84,044 Fundo 159,56 15,956 100 Total 1000 100 - Diâmetro máximo (mm) 0,6 Módulo de finura 0,97 Densidade aparente (kg/dm³) 1,282 Densidade real (kg/dm³) 2,631 Teor de material pulverulento (%) 6,20 Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Quadro 6.12 - Relação dos empreendimentos licenciados ou em processo de licenciamento ambiental no IMAC. Número Processo Razão Social Município Licença Ambiental 01 LO 68/2010 Amâncio Lopes & Cia Ltda. – AREIACRE – I Rio Branco L0 nº 287/2010 02 LO 175/2010 Amâncio Lopes & Cia Ltda. – AREIACRE – II Rio Branco LO nº 354/2010 03 LO 131/2012 Nogueira & Queiroz Ltda. – Transnogueira Com. e Serviço Ltda. Rio Branco LO nº 422/2012 04 LO 195/2011 Funpal Construções Ltda. – DRAGA AQUIRI Rio Branco LO nº 422/2012 05 LO 98/2011 F.J. Pereira – ME Rio Branco LO nº 324/2011 06 LO 138/2011 S.R. dos Santos Sólon – Draga Santa Fé Rio Branco LO nº 301/2011 07 LO 182/2011 Oliveira & Nery – Areial Draga Três Irmãos Rio Branco LO nº 394/2011 08 LO 180/2012 Areial Rio Branco Ltda. Rio Branco LO nº 576/2007 09 LO 22/2011 Irmãos Quintela Ind. Com. e Serviço de Terraplanagem Ltda. Rio Branco LO nº 249/2011 10 LO 220/2011 Conquista Representação e Administração Ltda. Rio Branco LO nº 440/2011 11 LO 77/2011 Areial Amapá Ltda. Rio Branco LO nº 296/2011 12 LO 26/2011 Raimundo Nonato Q. Rodrigues – ME Rio Branco LO nº 248/2011 13 LO 43/2012 Zortton Construções e Com. Ltda. Rio Branco Pedido de renovação 14 LO 124/2012 Xapuri Ind. e Com. de Borracha Ltda. Rio Branco LO nº 361/2012 15 LO-103/2011 Diniz & Toschi Ltda. Rio Branco LO nº 264/2011 16 LO-75/2011 J.A.R. da Silva Rio Branco LO nº 344/2011 17 LO-199/2009 Benfica Comércio e Distribuição de Areia Ltda. – Areial Vitória. Rio Branco LO nº 329/2009 18 LO-47/2011 M & Z Indústria e Comércio Ltda. – Draga São Miguel Rio Branco LO nº 171/2011 19 LO-52/2011 Conquista Representação e Administração Ltda. Rio Branco LO nº 305/2011 96 RECURSOS MINERAIS Quadro 6.12 - Relação dos empreendimentos licenciados ou em processo de licenciamento ambiental no IMAC. (continuação) Número Processo Razão Social Município Licença Ambiental 24 LO-140/2011 Sem Informação Rio Branco LO nº 395/2011 21 LI-1/2012 Diniz e Toschi Ltda. Rio Branco LI nº 37/2012 Renovação da LO nº 22 LO-51/2012 Draga Santo Antonio Rio Branco 505/2009 23 LO-538/2009 Areial Plácido de Castro Ltda. Rio Branco LO nº 194/2010 24 LO-140/2011 Sem Informação Rio Branco LO nº 395/2011 25 LIO-17/2011 Correia e Gomes Ltda. Porto Acre LIO nº 92/2012 26 LO-158/2011 Draga São Sebastião Xapuri LO nº 341/2011 27 LO-169/2011 J.M.M. de Lima Epitaciolândia LO nº 339/2011 28 LO-121/2011 J.C.M. Cordeiro Epitaciolândia LO nº 304/2011 29 LO-244/2010 J. Batista da Silva – ME (Draga Piseiro II) Brasileia LO nº 279/2011 30 LO-164/2011 J. Batista da Silva – ME (Draga Piseiro I) Brasileia LO nº 340/2011 31 LO-493/2009 Areial Abunã Ltda. Plácido de Castro LO nº 171/2010 32 LO-494/2009 Areial Santa Luzia Plácido de Castro LO nº 141/2010 33 LO-162/2010 Areial Amapá Ltda. Manoel Urbano LO nº 146/2011 34 LO-202/2010 Draga Jat Ltda. Manoel Urbano LO nº 348/2010 35 LO-255/2010 Areial Draga Três Irmãos Manoel Urbano LO nº 358/2010 36 LO-52/2010 M.E.F. de Souza – ME Sena Madureira LO nº 485/2011 37 LIO-10/2010 Antonio A.S. Filho – ME Sena Madureira LIO nº 377/2010 38 LIO-10/2011 Comercial e Indústria Ronsy Ltda. Sena Madureira LIO nº 414/2011 39 LO-110/2011 Rebouças & Marques – Draga Construmarq Feijó LO nº 371/2011 40 LO-262/2010 Econstran Empresa de Const. e Transportes Ltda. Feijó LO nº 290/2010 Renovação da LO nº 41 LO-61//2012 J.C.A. Const. e Representações Ltda. Feijó 409/2009 42 LO-185/2012 Diniz e Toschi Ltda. Rio Branco LO nº 513/2012 43 LIO-1/2013 Humberto Wanderley Dias Senador Guiomard LIO nº 88/2013 44 LP-2/2013 Fernando de Araújo Lopes Senador Guiomard LP nº 91/2013 45 LP-99/2012 Zortton Com. e Serv. Imp. e Exp. Ltda. Rio Branco LP nº 97/2013 Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Figura 6.8 - Extração mecanizada de areia na região de Cruzeiro Figura 6.9 - Extração manual de areia na região de Cruzeiro do do Sul. Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. Sul. Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. 97 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Argila a) Característica dos corpos de prova secos a 110°C: A argila é produzida em grande parte nos municí- Umidade de prensagem: 8,1% pios do estado do Acre, visando à fabricação de tijolos. Retenção linear de secagem 0,5% A indústria cerâmico-oleira ganhou grande impulso com Tensão de ruptura à flexão 18 kgf/cm² o Programa de Pavimentação de Ruas do Governo do Cor: Marrom-claro Estado do Acre, denominado Ruas do Povo, que prevê a pavimentação de 3.197 ruas em todo o estado utilizando b) Característicos cerâmicos dos corpos de prova após tijolos cerâmicos maciços (FUNTAC, 1999a). a queima (Quadro 6.13): Segundo a FUNTAC (1997), é restrita a utilização de Essa amostra foi analisada pelo Instituto de Pesquisas tijolos cerâmicos maciços na pavimentação de vias urbanas Tecnológicas (IPT), recebendo o certificado nº 480.333. em âmbito mundial, observando-se seu uso em algumas lo- O uso provável desse material poderia ser em cerâmica calidades da Índia, Holanda, Inglaterra, Alemanha, Estados vermelha na fabricação de tijolo maciço. Unidos e Colômbia. No Brasil, limita-se a alguns municípios II) Amostra LL-11 (Folha SC.19 Rio Branco), localizada da Amazônia, notadamente no Acre. a 5 km de Sena Madureira, na Rodovia BR-236, trecho Rio Os primeiros registros de utilização de tijolo cerâmico Branco-Sena Madureira, apresenta os seguintes resultados maciço para pavimentação das ruas da cidade de Rio Bran- tecnológicos (SILVA et al., 1976): co remontam à década de 1940. A inexistência de rochas na 1) Limite de plasticidade segundo o método MB-31 da região, aliada à disponibilidade de material para produção ABNT: 26,3%. de tijolo cerâmico, contribuiu de forma decisiva para tal 2) Ensaios cerâmicos realizados com corpos de prova de utilização. O tijolo cerâmico maciço foi usado, pela primeira 6,0 cm x 2,0 cm x 0,5 cm, moldados por prensagem, vez, em um trecho experimental na pista de pouso e deco- sob pressão de 200 kgf/cm2, com argila moída: lagem do Aeroporto Salgado Filho (1948). Com o sucesso a) Característica dos corpos de prova secos a 110°C: da empreitada, em meados de 1949 um trecho de 3 km entre a Avenida Getúlio Vargas e o referido aeroporto foi revestido com esse mateiral (FUNTAC, 1997). Atualmente, Umidade de prensagem: 15,2% não apenas Rio Branco como diversos municípios acreanos Retenção linear de secagem: 2,6% utilizam tijolos na pavimentação urbana (FUNTAC, 1999b). Tensão de ruptura à flexão 13 kgf/cm² Segundo a FUNTAC (1997, p. 57), Cor: Creme A utilização de pavimento cerâmico em Rio Branco desempenha importante papel, não só na economia do mu- b) Característicos cerâmicos dos corpos de prova após nicípio, bem como na área social, pois além de evitar a evasão a queima (Quadro 6.14): de divisas para fora do Estado, gera mais emprego absorvendo Essa amostra foi analisada pelo Instituto de Pesquisas um grande contingente de mão de obra, na sua quase totali- Tecnológicas (IPT), recebendo o certificado nº 483.002. dade de trabalhadores sem qualificação profissional. O uso provável desse material poderia ser em cerâmica Outros usos de materiais cerâmicos são apontados vermelha na fabricação de tijolo maciço. pela FUNTAC, tais como o caco quebrado de tijolos para III) Amostra LL-2 (Folha SC.19 Rio Branco), localizada a concreto de enchimentos; a mistura com solos para melho- 40 km de Rio Branco na Rodovia BR-236, trecho Rio Branco- ria de suporte de camada de vias e rodovias e a denominada -Sena Madureira; exibe os seguintes resultados tecnológicos “pedra de barro”. (SILVA et al., 1976): De acordo com Lima et al. (s/d, p. 12), “Nos ensaios 1) Limite de plasticidade segundo o método MB-31 da físicos realizados no Laboratório de Concreto da FUNTAC ABNT: 29,5%. a amostra da Pedra de Barro apresentou valores aceitáveis 2) Ensaios cerâmicos realizados com corpos de prova de dentro dos limites das Normas”. 6,0 cm x 2,0 cm x 0,5 cm, moldados por prensagem, A importância da indústria cerâmico-oleira para o sob pressão de 200 kgf/cm2, com argila moída: Acre foi observada pelo Projeto RADAMBRASIL (BARROS a) Característica dos corpos de prova secos a 110°C: et al., 1977), que procedeu às seguintes análises de argilas: I. Amostra JU-AM-40 (Folhas SB/SC.18 Javari/Con- Umidade de prensagem: 11,0% tamana), coletada na localidade São Salvador (Colônia), Retenção linear de secagem: 1,3% apresentando os seguintes resultados tecnológicos: 1) Limite de plasticidade segundo o método MB-31 da Tensão de ruptura à flexão: 5.1 kgf/cm² ABNT: 24,6%. Cor: Creme 2) Ensaios cerâmicos realizados com corpos de prova de 0,0 cm x 2,0 cm x 0,5 cm, moldados por prensagem, b) Característicos cerâmicos dos corpos de prova após sob pressão de 200 kgf/cm2, com argila moída: a queima (Quadro 6.15); 98 RECURSOS MINERAIS Essa amostra foi analisada pelo Instituto de Pesquisas terísticas e qualidades, avaliar o potencial e o mercado Tecnológicas (IPT), recebendo o certificado nº 483.002. consumidor. O uso provável desse material poderia ser em cerâmica vermelha na fabricação de tijolo maciço. Cascalho e laterita Mais recentemente, a FUNTAC elaborou análises físicas de 24 amostras de argila coletadas no município de Rio O cascalho e a laterita foram cadastrados em nove lo- Branco, cujos resultados estão expostos no Quadro 6.16. calidades, distribuídas da seguinte forma: quatro pontos em Testes realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnoló- Senador Guiomard, dois pontos em Rio Branco, dois pontos gicas (IPT) indicam boa qualidade das argilas da Formação em Brasileia e um ponto em Sena Madureira, geralmente Solimões (ACRE, 2010). constituindo materiais utilizados em aterros (Figura 6.10). Ressalta-se a importante participação do segmento cerâmico-oleiro como fornecedor de insumos para a indús- Água Mineral tria da construção civil. Por outro lado, o setor da constru- ção civil, impulsionado pelos programas de governo para A produção de água mineral contempla apenas cinco a habitação popular, gera grandes demandas de produtos áreas em todo o estado, assim distribuídas: uma fonte derivados do segmento cerâmico-oleiro. localizada no município de Rio Branco, duas fontes em Recomenda-se um estudo mais detalhado dos ma- Senador Guiomard, uma em Brasileia e uma em Cruzeiro teriais de uso na construção civil para definir suas carac- do Sul (Figura 6.11). Quadro 6.13 - Resultados analíticos da amostra JU-AM-40. Temperatura de Queima Perda ao Retração Tensão de Porosidade Massa Especí- Ruptura à Absorção de Aparente fica Aparente Cor após (°C) Fogo (%) Linear (%) Fexão (kgf/cm2) Água (%) (%) (g/cm3) a Queima 950 4,8 0,4 46 15,6 29,2 1,88 Vermelho Vermelho- 1250 5,2 4,8 166 8,0 17,1 2,15 escuro Não Não Não Não Não Não 1450* Marrom determinado determinado determinado determinado determinado determinado (*) Os corpos de prova fundiram. Quadro 6.14 - Resultados analíticos da amostra LL-11. Temperatura Perda ao Fogo Retração Tensão de Absorção de Porosidade Massa Especí-de Queima Cor após (°C) (%) Linear (%) Ruptura à fica Aparente Fexão (kgf/cm2) Água (%) Aparente (%) (g/cm3) a Queima 950 5,8 3,5 135 7,2 16,3 2,28 Vermelho Não Não Não Não Não Não 1250* Marrom determinado determinado determinado determinado determinado determinado Não Não Não Não Não Não Marrom- 1450** determinado determinado determinado determinado eterminado determinado Escuro (*) Os corpos de prova superqueimaram; (**) Os corpos de prova fundiram. Quadro 6.15 - Resultados analíticos da amostra LL-2 Temperatura Tensão de Massa specífi- de Queima Perda ao Fogo Retração Line- Absorção de Porosidade Cor após (°C) (%) ar (%) Ruptura à Fexão (kgf/cm2) Água (%) Aparente (%) ca Aparente (g/cm3) a Queima 950 56,2,8 3,4 109 7,2 11,8 2,02 Vermelho Não Não Não Não Não Não 1250* Marrom determinado determinado Determinado determinado determinado determinado Não Não Não Não Não Não Marrom- 1450** determinado determinado determinado determinado determinado determinado Escuro (*) Os corpos de prova superqueimaram; (**) Os corpos de prova fundiram. 99 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 6.16 - Características das argilas do município de Rio Branco (Acre). Localização da Jazida Limite de Granulometria (%) que Passa na PeneiraAmostra Descrição Visual (Estrada) Liquidez 1/2” 3/8” Nº 4 Nº 10 Nº 40 Nº 100 Nº 200 1 Argila vermelha Calafate, Km 8 24,30 - 100 99,9 98,2 97,1 92,3 81,6 2 Argila vermelha Calafate, Km 8 29,30 100 99,8 98,4 94,2 92,3 88,4 83,9 3 Argila vermelha Calafate, Km 8 30,00 - 100 99,9 99,5 98,7 95,4 91,8 4 Argila vermelha BR-364, Km 9 28,40 - 100 99,6 96,2 95,5 94,6 92,1 5 Argila vermelha Calafate, Km 8 28,60 99,8 99,8 99,4 98 97,4 94,7 88,3 6 Argila vermelha Calafate, Km 8 27,90 - 100 99,8 98,2 97,5 96,9 94,7 7 Argila vermelha Calafate, Km 8 32,70 - 100 99,7 98,3 97,8 96,1 90,1 8 Argila vermelha Calafate, Km 8 29,30 - 100 99,9 97,7 96,8 95,6 89,4 9 Argila vermelha - 32,00 100 99,9 98,7 94,8 92,3 90,4 88,8 10 Argila vermelha BR-364, Km 4 24,80 - 100 99,4 97,1 96,1 94,7 86,3 11 Argila vermelha Rua Rio de Janeiro 23,60 - - - - - - - 12 Argila vermelha BR-364, Km 7 33,60 - 100 99,9 99,4 99,1 98,9 97,1 13 Argila vermelha Jarbas Passarinho 29,00 - 100 99,5 98,1 95,5 99,8 86,3 14 Argila vermelha Bairro da Conquista 22,40 - - 100 99,9 99,9 99,4 89,2 15 Argila vermelha Amapá, Km 1 25,50 - - 100 99 96,6 92,1 79,7 16 Argila vermelha Conjunto A. Sena 33,80 100 99,9 99,3 94,5 93,1 92,6 91,6 17 Argila vermelha Jarbas Passarinho, Km 5 29,60 100 99,8 99,5 98,4 97,5 95,7 93,6 18 Argila vermelha J. Távola, Km 8 30,80 - - - - - - - 19 Argila vermelha Juarez Távola 18,80 - - - - - - - 20 Argila vermelha Calafate, Km 1 29,70 100 99,9 99,5 97,5 96,9 94,7 88,4 21 Argila vermelha Calafate, Km 5 29,80 - - - - - - - 22 Argila vermelha Calafate, Km 8 22,90 100 99,6 98,1 95,8 95,1 86,1 73,8 23 Argila vermelha Calafate, Km 8 31,30 - 100 98,8 95,1 94,1 92,4 90,6 24 Argila vermelha Calafate, Km 8 29,30 - 100 99,9 97,7 96,8 95,8 89,4 Quadro 6.13 - Caaracterísticas das argilas do município de Rio Branco (Acre). Em Cruzeiro do Sul é produzida a Água Cristal (Fonte Na cidade de Rio Branco, encontra-se em plena atividade Serra do Divisor), classificada como água potável de mesa, produtiva a empresa Fonte Monte Líbano, responsável pelo en- segundo composição química e características físico- vasamento da Água Mineral Natural Monte Mário, classificada -químicas (Quadro 6.17). como Água Mineral Hipotermal na Fonte, segundo compo- O município de Senador Guiomard registra duas fontes sição química e características físico-químicas (Quadro 6.20). em produção: Verona e Belém I. A Fonte Verona engar- rafa a Água Mineral Natural Verágua, classificada como Substâncias Não Metálicas Água Mineral Hipotermal na Fonte, de acordo com a sua composição química e suas características físico-químicas As substâncias não metálicas cadastradas no estado (Quadro 6.18). do Acre estão caracterizadas por cinco ocorrências: quatro A Fonte Belém I engarrafa a Água Mineral Natural de gipsita e uma de calcário. Ribeirágua, classificada como Água Mineral Fluoretada e Hipotermal na Fonte, de acordo com sua composição Gipsita química e características físico-químicas (Quadro 6.19). As duas empresas produtoras em Senador Guiomard Segundo Silva et al. (1976), em meados da década de (Fonte Verona e Fonte Belém I) produzem as próprias em- 1960 a organização Técnica de Pesquisa de Minérios do Estado balagens de armazenamento (Figura 6.12). do Acre S.A. fabricou giz escolar a partir da gipsita proveniente 100 RECURSOS MINERAIS Figura 6.10 - Espacialização dos registros de cascalho e laterita no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Figura 6.11 - Mapa indicativo dos registros de água mineral no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 101 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE dos municípios de Rio Branco e Xapuri. Essa substância era Quadro 6.19 - Análise da Água Mineral Natural Ribeirágua. explorada de forma irregular, sem autorização do DNPM. Suas principais ocorrências estavam localizadas no rio Xapuri, junto Composição Química (mg/l) aos seringais Nova Empresa (Poção) e Flor do Ouro. Posteriormente, a equipe do Projeto RADAMBRASIL Nitrato 5,62 constatou várias ocorrências de gipsita sob a forma de Sódio 1,246 Potássio 0,541 vênulas, cujas espessuras giram em torno de 5 cm. Na Cloreto 0,49 Rodovia BR-364 (antiga BR-236), no trecho compreendido Cálcio 0,705 entre Sena Madureira e Manoel Urbano, a 2 km do rio Sulfato 0,04 Caeté, foram encontrados veios de gipsita com cerca de 6 Bário 0,062 cm de espessura (SILVA et al., 1976). Magnésio 0,561 De acordo com Acre (2010, p. 29): Estrôncio 0,002 A gipsita do Acre é do tipo selenita e ocorre pre- Fluoreto 0,01 dominantemente nos rios Purus, Chandless e Iaco, nas Bicarbonato 2,73 imediações de Sena Madureira e Manoel Urbano, além Características Físico-Químicas de ocorrências menores nas proximidades de Marechal pH a 25°C 4,42 Thaumaturgo. Nas descrições são destacadas as pequenas Temperatura da água na fonte 26° C espessuras de suas exposições e inibidas iniciativas explo- Condutividade elétrica a 25°C 24,4 uS/cm ratórias [...]. Resíduo de evaporação a 180°C calculado 20,02 mg Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Quadro 6.17 - Análise da Água Cristal. Composição Química (mg/l) Bicarbonato 18,30 Potássio 4,25 Cálcio 2,91 Nitrato 1,70 Sódio 0,82 Magnésio 0,55 Sulfato 0,20 Cloreto 0,14 Bário 0,077 Fluoreto 0,02 Figura 6.12 - Produção de garrafas para água mineral Características Físico-Químicas Fonte Verona. Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2011. pH a 25°C 5,62 Temperatura da água na fonte 25,6° C Quadro 6.20 - Análise da água mineral natural Monte Mário. Condutividade elétrica a 25°C 7,7 uS/cm Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Composição Química (mg/l) Bário 0,034 Quadro 6.18 - Análise da Água Mineral Natural Verágua. Cálcio 0,943 Estrôncio 0,010 Composição Química (mg/l) Magnésio 0,860 Potássio 1,788 Sulfato de Cálcio 1,36 Sódio 2,349 Sulfato de Bário 0,08 Sulfato 0,29 Sulfato de Magnésio 0,30 Bicarbonato 9,03 Bicarbonato de Potássio 0,51 Nitrato 4,18 Bicarbonato de Magnésio 2,05 Cloreto 2,36 Bicarbonato de Sódio 0,21 Brometo 0,02 Cloreto de Sódio 1,91 Características Físico-Químicas Características Físico-Químicas pH a 25°C 4,6 pH a 25°C 5,19 Temperatura da água na fonte 28° C Temperatura da água na fonte 27,3° C Condutividade elétrica a 25°C 2,5 uS/cm Condutividade elétrica a 25°C 34 uS/cm Resíduo de evaporação a 180°C calculado 18 mg Resíduo de evaporação a 180°C calculado 37,95 mg Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. Fonte: Elaborado por Luiz G. Dall’Igna, 2013. 102 RECURSOS MINERAIS Recentemente, durante os trabalhos de campo execu- tados pela equipe do Projeto Geodiversidade do Estado do Acre, foram constatados pequenos veios de gipsita nos rios Xapuri (Figura 6.13) e Acre (Figura 6.14). Informações de cam- po relatam a ocorrência de um material semelhante a giz nas imediações da cidade de Jordão, que poderia estar associado à gipsita; contudo, não foi possível uma visita in loco. Calcário Durante os trabalhos de campo do Projeto Geodiver- sidade do Estado do Acre, foi identificada uma ocorrência restrita de calcário, próxima à cidade de Jordão, no alto rio Tarauacá. Em breve visita ao local, constataram-se algumas lentes de calcário dispostas em encosta de pequena eleva- ção, de espessura decimétrica, intercaladas em sedimentos argilosos sub-horizontalizados da Formação Solimões (Fi- gura 6.15). Uma análise química foi efetuada em amostra coletada no local, comprovando alto teor de cálcio. Figura 6.15 - Exposição de lentes de calcário (Jordão). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Gás Natural O Acre foi alvo, recentemente, de uma pesquisa exe- Figura 6.13 - Vênula de gipsita no rio Xapuri. cutada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2011. Biocombustíveis (ANP) em uma área correspondente a 47% do espaço geográfico estadual, abrangendo os municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves e Porto Walter (CHAMBRIARD, 2009). Foram executados levanta- mentos aerogeofísicos (gravimétrico e magnetométrico) em 24.000 km lineares, levantamento geoquímico com coleta de 2.000 amostras e sísmica 2D em 1.017 km (Figura 6.16). De acordo com o Plano Plurianual 2007-2014 da ANP, está previsto um investimento de R$137 milhões para as bacias do Acre e Madre de Deus. Os resultados dos aerolevantamentos revelaram que a porção oeste do estado do Acre possui quatro setores de interesse para continuidade dos estudos prospectivos (Figura 6.17). Por sua vez, os resultados do levantamento geoquímico demonstraram a presença de anomalias para hidrocarbonetos gasosos. Está prevista a participação da área da bacia do Acre Figura 6.14 - Vênula de gipsita no rio Acre. na 12ª Rodada de Licitações Gás Natural Onshore da ANP Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2011. (Figura 6.18). 103 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE REFERÊNCIAS BARROS, A.M.; ALVES, E.D. de O.; ARAÚJO, J.F.V.; LIMA, M.I.C. de; FERNANDES, C.A.C. Geologia. In: BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folha SB/SC. 18 Javari/ Contamana: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, 1977. p. 17-101. 420 p. (Levantamento de Recursos Naturais, 13). CAVALCANTE, L.M. Geologia do estado do Acre. In: ACRE. Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Recursos naturais: fase II: geologia, geomorfologia e solos do Acre. Rio Branco: SEMA, 2010. p. 10-29. Escala Figura 6.16 - Mapa de localização dos trabalhos executados pela 1:250.000. (Coleção temática do ZEE Acre, 2). ANP. Fonte: CHAMBRIARD, 2009. CHAMBRIARD, M. Os estudos de geologia e geofísica da ANP no Acre. Rio Branco: ANP, 2009. 33 p. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2013. FUNTAC. Cartilha para produção de tijolo solo- cimento. Rio Branco: Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, 1999b. 49 p. FUNTAC. Indústria do barro: panorama do setor cerâmico do Acre. Rio Branco: Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, 1999a. 22 p. il. FUNTAC. Projeto habitação popular – alternativas para a Amazônia: pavimentação cerâmica. Rio Branco: Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, Figura 6.17 - Localização dos setores de interesse para estudos prospectivos da ANP. Fonte: CHAMBRIARD, 2009. 1997. 59 p. il. LIMA, J.S.P. de et al. Projeto Pedra de Barro: análise de viabilidade técnica e econômica: versão preliminar. Rio Branco: Fundação de Tecnologia do Estado do Acre, s.d. il. PETERSOHN, E. Os estudos geológicos da ANP e a seleção de áreas exploratórias para as rodadas de licitações. Rio de Janeiro: ANP, 2013. 49 p. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2013. SILVA, L.L. da et al. Geologia. In: BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folha SC.19 Rio Branco: geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Rio de Figura 6.18 - Localização das áreas da 12ª Rodada de Licitações Janeiro: DNPM, 1976. p. 17-116. (Levantamento de Gás Natural Onshore da ANP. Fonte: PETERSOHN, 2013. Recursos Naturais, 12). 104 7 ASPECTOS HIDROGEOLÓGICOS E GESTÃO DAS ÁGUAS Cláudio César de Aguiar Cajazeiras (claudio.cajazeiras@cprm.gov.br) Luiz Antonio da Costa Pereira (luiz.antonio@cprm.gov.br) Marcos Nóbrega II (marcos.nobrega@cprm.gov.br) Amilcar Adamy (amilcar.adamy@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Introdução .........................................................................................................107 Hidrogeologia .....................................................................................................107 Sistemas Aquíferos ..............................................................................................107 Sistema Aquífero Cristalino .................................................................................108 Sistema Aquífero Divisor (SAD) ...........................................................................108 Sistema Aquífero Solimões (SAS) ........................................................................109 Sistema Aquífero Içá ...........................................................................................110 Sistema Aquífero Rio Branco (SARB) ................................................................... 113 Sistema Aquífero Aluvionar ................................................................................ 114 Gestão das Águas Subterrâneas .......................................................................... 115 Considerações Finais ........................................................................................... 115 Referências .........................................................................................................116 ASPECTOS HIDROGEOLÓGICOS E GESTÃO DAS ÁGUAS INTRODUÇÃO (poços tubulares, amazonas e artesianos e fontes naturais). Essas águas detêm importância estratégica, pois, O conhecimento hidrogeológico do estado do Acre, normalmente, apresentam: elevado padrão de qualidade até há pouco tempo, era bastante restrito, pois a pouca físico-química e bacteriológica. Além disso, não são afe- literatura específica existente permitia, apenas, uma com- tadas por períodos de estiagem prolongada e evaporação preensão pontual sobre o assunto. e a sua obra de captação (poço) pode ser locada próxima Entretanto, paulatinamente, contribuições impor- ao local da demanda, com custos e prazos geralmente tantes vêm sendo incorporadas ao acervo preexistente, inferiores aos das obras de captação de água superficial. aumentando o nível de informação sobre a capacidade É importante, para a recarga dos aquíferos, o cuidado hidrogeológica do substrato geológico. com o manejo das bacias hidrográficas, de sua vegetação Dentre esses estudos, ressaltam-se os trabalhos de e de seus solos. Melo Júnior e Marmos (2007), Melo Júnior et al. (2010), A vegetação, por meio das raízes de suas árvores, ab- CPRM (2007), Pereira e Cajazeiras (2012) e Acre (2012). sorve água, mantendo as bacias hidrográficas. No entanto, o desmatamento e o pastoreio excessivo podem provocar HIDROGEOLOGIA a compactação do solo, tornando-o “seco”. O solo compactado impede a infiltração e, consequen- As águas subterrâneas são parte integrante do ciclo temente, faz com que o aquífero deixe de receber a recarga/ hidrológico, perfazendo algo em torno de 98% das águas alimentação (contribuição da água potável proveniente doces e líquidas do planeta. São responsáveis, ainda, pela das chuvas), gerando o escoamento superficial dessa água alimentação e regularização (perenização) de rios, córregos, para os rios. Ou seja, ao invés de formar reservas de águas lagos etc., possibilitando que estes continuem fluindo em subterrâneas, essa água é “desperdiçada” e acumulada épocas de estiagem/seca. nos oceanos. As águas subterrâneas ficam armazenadas em um “re- Todavia, deve-se atentar para o fato de que, muitas servatório de água” denominado aquífero, sendo estocado vezes, o próprio substrato geológico torna-se fator inibidor (recarga natural) pelas chuvas através da infiltração (pro- da recarga, a exemplo dos solos argilosos da Formação cesso de penetração da água na superfície do terreno sob Solimões, presentes em boa parte do estado do Acre. ação da gravidade). O aquífero é constituído por formações geológicas (rochas e/ou sedimentos) capazes de armazenar/ SISTEMAS AQUÍFEROS reter (porosidade) e transmitir (permeabilidade) água em quantidade economicamente aproveitável. A captação A Base Simplificada dos Sistemas Hidrogeológi- dessas águas se dá por meio de fontes de abastecimento cos do Acre (Figura 7.1), elaborada a partir do mapa Figura 7.1 - Base simplificada dos sistemas hidrogeológicos do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 107 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE geológico, mostra a distribuição espacial e as áreas de Sistema Aquífero Divisor (SAD) ocorrência dos diversos aquíferos no estado. Ocupando 87,2% da área estadual, destaca-se o Sistema Aquífero Constitui um aquífero transfronteiriço, ocorrendo no Solimões, seguido pelos sistemas aquíferos Aluvionar extremo oeste do Acre e adentrando na República Fede- (10%), Içá (2%) e Divisor (1%). Apesar de individuali- rativa do Peru. Aflora restritamente no Brasil (Figura 7.3), zados na área, os sistemas aquíferos Cristalino e Rio onde ocupa uma área de 1.505 km2 com formato alongado, Branco não têm dimensões gráficas, devido à escala de comprimento de 117 km e largura máxima de 25 km. Seu trabalho adotada. eixo estende-se na direção noroeste-sudeste, ao longo da O esquema de cores do mapa hidrogeológico obedece serra do Divisor. Apresenta as maiores altitudes do estado a padrões internacionais (STRUCKMEYER; MARGAT, 1995 do Acre, variando de 350 a 630 m. apud MACHADO, 2011). Por exemplo: aquíferos sedimen- tares são representados pela cor azul; aquíferos ígneos e metamórficos pouco produtivos, pela cor verde; aquitardos, cor marrom-claro; não aquíferos, cor marrom-escuro. Sistema Aquífero Cristalino O comportamento hidráulico das rochas fraturadas é diferente do comportamento dos aquíferos porosos, já que nestes a vazão tende a crescer proporcionalmente à espessura do aquífero. No Sistema Aquífero Cristalino a vazão é função unicamente das características de cada zona fraturada e o parâmetro “profundidade do poço” não exerce influência direta na produção dos poços. É funda- mental, no entanto, a identificação da entrada de água no poço, pois é ela que definirá a sua profundidade útil. O Sistema Aquífero Cristalino é constituído pelo Sie- nito República (quartzo-sienito e quartzo-traquito), que representa as rochas mais antigas do Acre, formadas entre 100 a 300 milhões de anos atrás (BARROS et al., 1977), localizadas no limite oeste do estado do Acre (Figura 7.2). Apresenta a menor distribuição dentre os sistemas estudados, ocupando apenas 10 km2 (0,05% da área do Figura 7.3 - Distribuição espacial do sistema aquífero Divisor no estado). Não existem informações de poços com produção estado do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. determinada que permitam melhor avaliação, por estar situado em região de difícil acesso. Trata-se de uma área cuja princi- pal via de acesso é o rio Moa, a partir da cidade de Mâncio Lima. No período de estiagem, a travessia de 105 km é realizada por pequenos barcos (rabe- tas), com duração aproximada de 12 horas de viagem até o acampamento do Instituto Chico Mendes de Con- servação da Biodiversidade (ICMbio). O Sistema Aquífero Divisor (SAD) é formado por sedimentos predomi- nantemente arenosos, depositados em ambiente continental e com alguma contribuição marinha, re- presentados pelo Grupo Acre e suas formações Moa, Rio Azul e Divisor (BARROS et al., 1977). Figura 7.2 - Distribuição espacial do Esse sistema aquífero possui alta sistema aquífero Cristalino no estado do Acre (à esquerda); vista em detalhe do favorabilidade para armazenamento sienito República (à direita) (Mâncio Lima). de água subterrânea por ser formado, Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. fundamentalmente, por arenitos. No 108 ASPECTOS HIDROGEOLÓGICOS E GESTÃO DAS ÁGUAS entanto, por estar situado na Unidade de Conservação de Sistema Aquífero Solimões (SAS) Proteção Integral Parque Nacional da Serra do Divisor, pou- co povoada, não há poços suficientes de onde se possam É o sistema de maior expressão territorial (145.150 extrair informações necessárias para sua avaliação. km2), correspondendo a 87,2% do total do estado do Acre Na área, há apenas um poço (SIAGAS nº 1100002342), (Figura 7.5). É constituído por argilitos e areias argilosas. denominado “Buraco da Central” (Figura 7.4), construído Essa situação confere, localmente, ao domínio do Sistema pela Petrobras durante os trabalhos de prospecção de Aquífero Solimões, características de um aquitardo, ou seja, petróleo na região serrana, com as seguintes caracterís- uma formação geológica que possui baixa permeabilidade ticas: poço jorrante, diâmetro da boca do poço 0,9 m, e transmite água lentamente, não tendo muita expressivi- com temperatura da água um pouco maior do que a do dade como aquífero. rio Moa (29,74ºC), pH 7,43; condutividade elétrica 249 O Sistema Aquífero Solimões caracteriza-se por ser μS/cm2 e TDS 114 mg/L. poroso, mas de baixa permeabilidade e transmissividade, portanto, de baixa potencialidade hidrogeológica. Por vezes, contém camadas pouco espessas de areia fina, com acumulação de água subterrânea; porém, sua recarga é dificultada pela espessa cobertura argilosa. O potencial hidrogeológico é fraco, caracterizado por vazões baixas (<5 m3/h), devido à sua constituição predo- minantemente argilosa. Na maioria das vezes, apresenta água de boa qualidade para consumo humano. Entretanto, em alguns locais, a água pode não ser potável, devido ao excesso de ferro e sais, necessitando, portanto, de trata- mento para seu aproveitamento. Em relação à profundidade, os principais poços situam-se entre 10 a 100 m, refletindo as tendências regionais. Profun- didades maiores do que 50 m correspondem às tentativas de obtenção de maiores vazões. Não se verifica uma estreita rela- ção entre profundidades maiores e vazões mais elevadas, pois, Figura 7.4 - Poço “Buraco da Central” (sistema aquífero Divisor; nas mesmas condições, um poço de 50 m pode apresentar, Mâncio Lima). Fotografia: Cláudio C. de A. Cajazeiras, 2012. com pequenas variações, a mesma vazão que outro de 100 m. Figura 7.5 - Distribuição espacial do sistema aquífero Solimões no estado do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 109 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE As vazões predominantes são geralmente abaixo de de se buscar o aproveitamento da água subterrânea que 2 m3/h, com máxima de 5 m3/h e capacidade específica poderia estar contida em seu subsolo. inferior a 1,0 [(m3/h)/m]. Com a inversão da drenagem ocorrida aproximada- Observações pontuais revelam que o pH das águas mente há 75 milhões de anos, em decorrência do soergui- captadas da Formação Solimões é algo em torno de 4,6 mento da cordilheira andina, o rio Amazonas, que drenava na cidade de Xapuri; por sua vez, a cidade de Tarauacá para oeste, foi gradativamente represado, originando um apresenta 22 poços perfurados, mas sem informações imenso lago que cobriu grande parte da atual Região confiáveis sobre perfil e vazão. Amazônica. A intensa ação erosiva nas rochas andinas foi Essa formação foi depositada, principalmente, em am- responsável pelo imenso volume de sedimentos carreados bientes de antigas planícies de inundação, lagos e pântanos; pelas drenagens e que foram se depositando no fundo por outro lado, a presença de camadas pouco espessas de desse lago, constituindo finas camadas de argilitos, car- areia fina ou areia siltosa revela o aporte eventual de um bonato de cálcio e areia. sistema fluvial transportando as frações finas para porções Por serem muito delgadas, essas camadas não favore- distais, mais profundas, enquanto as frações mais grosseiras cem a percolação e o aproveitamento da água acumulada (cascalho e areia grossa) tendem a permanecer nas bordas nos sedimentos arenosos que se intercalam com os depósitos dos corpos aquosos (ADAMY, 2012). argilosos, podendo alcançar espessuras superiores a 800 m. Caputo, Rodrigues e Vasconcelos (1971) estimam que a idade da Formação Solimões corresponda ao intervalo Sistema Aquífero Içá temporal Mioceno ao Pleistoceno, baseando-se em fósseis e linhitos. Por sua vez, Latrubesse et al. (2007), funda- Esse sistema aquífero localiza-se no vale do rio Juruá, mentados na paleofauna de vertebrados e na palinologia, região noroeste do estado do Acre, ocupando uma área de restringem-na unicamente ao Mioceno Superior, cessando aproximadamente 3.251 km2 e um polígono aproximado essa sedimentação no Plioceno. de 70 x 40 km (Figura 7.6), sendo responsável pelo abas- O difícil aproveitamento dos recursos hídricos da tecimento de parte da população das cidades de Cruzeiro Formação Solimões, devido à baixa permeabilidade e trans- do Sul, Mâncio Lima e Rodrigues Alves, no estado do Acre, missividade, é reconhecido por diversos pesquisadores. e Guajará, no vizinho estado do Amazonas. Tal dificuldade, todavia, está associada, intrinsecamente, O Sistema Aquífero Içá é constituído por sedimentos à forma de construção do subsolo pela mãe natureza nos heterogêneos, com intercalações de areia, silte e argila, últimos 100 milhões de anos. Essa unidade recobre aproxi- depositados por processos fluviolacustres. Caracteriza-se madamente 40% da Região Amazônica, daí a importância pela predominância de sedimentos arenosos com granulo- Figura 7.6 - Distribuição espacial do sistema aquífero Içá (à esquerda) e mapa de pontos de poços (à direita). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013 110 ASPECTOS HIDROGEOLÓGICOS E GESTÃO DAS ÁGUAS metria média a grossa e espessura média de 30 m na parte aparentemente, contínuas. Dessa forma, caracteriza-se por superior e 30 m na inferior. camadas de arenitos intercaladas em camadas de argilitos Apesar da presença de níveis argilosos, os sedimen- carbonáticos (Figura 7.8). tos desse aquífero, representados pela Formação Içá, Esse sistema é explotado como aquífero livre, ocorren- são bastante explorados como fornecedores de água do também em condição confinada por conter camadas subterrânea. Essa formação apresenta-se regionalmen- pelíticas (argilosas) de até 40 m. te como aquífero semiconfinado, em função dos níveis Devido à sua potencialidade hidrogeológica favorável, síltico-argilosos, mas pode, localmente, comportar-se foram perfurados numerosos poços tubulares, principal- como aquífero livre. mente nas sedes dos municípios de Guajará (AM), Mâncio O aproveitamento desse recurso hídrico subterrâneo Lima, Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul (AC), constituindo- vem sendo efetuado principalmente pelo Departamento -se de grande importância para o abastecimento dessas Estadual de Pavimentação e Saneamento (DEPASA), vincu- cidades. lado ao governo estadual. As águas subterrâneas são de boa qualidade em suas condições naturais, sem restrição ao uso humano. A química das águas do Sistema Aquífero Icá, identificado em Cruzeiro do Sul, representado por um poço da rede RIMAS (1100002660 – E.M.E.F. Darcy Bezerra), mostra valores relativamente altos de seus cátions principais: cálcio 33,66 mg/L, potássio 6,69 mg/L, sódio 4,70 mg/L e magnésio 4,53 mg/L. As águas apresentam pH alcalino variando de 8,2 a 9,2, com média de 8,87, e turbidez variando de 1,31 a 5,65, com média de 3,21. Esses dados foram observados a partir da análise de água de 14 poços do DEPASA. A partir da correlação e interpretação dos dados ob- tidos, foi elaborado o perfil esquemático A-A’ (Figura 7.7). De forma geral, são individualizados dois pacotes arenosos que ocorrem no meio do argilito calcítico predominante: um, na parte superior, nos primeiros 50 m; o segundo, no intervalo de 100 até 140 m (espessura média de 40 m). É Figura 7.8 - Arenito intemperizado da formação Içá (Guajará, importante mencionar que essas camadas arenosas são, AM). Fotografia: Cláudio C. de A. Cajazeiras, 2012. Figura 7.7 - Seção hidrogeológica esquemática (A-A’) do sistema aquífero Içá (Acre). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 111 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE O Sistema Aquífero Içá apresenta as maiores va- profundidade de perfuração varia de 72 a 180 m, com zões do estado do Acre, alcançando 66 m3/h (Teatro valores médios de 131,5 m. Não foi possível calcular a Municipal – poço nº 111650), com média de 36 m3/h. A transmissividade dos poços, devido à inexistência de capacidade específica é da ordem de 1,2 m3/h/m, com ensaios de bombeamento de pelo menos 12 horas na nível estático de 16,4 m e nível dinâmico de 53 m; a região (Figura 7.9). Figura 7.9 - Parâmetros hidrogeológicos: dados construtivos de poços no sistema aquífero Içá (Acre). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 112 ASPECTOS HIDROGEOLÓGICOS E GESTÃO DAS ÁGUAS Sistema Aquífero Rio Branco (SARB) Melo Júnior e Marmos (2007) definiram como Sistema Aquífero Rio Branco (SARB) uma área de 122,46 km2 na cida- de homônima, onde se localiza a planície de inundação do rio Acre (Figura 7.10). As vazões variam entre 3,33 a 10 m3/h. Esse sistema aquífero é representado por um pale- ocanal (depósitos arenosos de antigos sistemas fluviais), que tem como limite superior uma camada semipermeável, constituída por argila, argila siltosa e argila síltico-arenosa (Figura 7.11), o que lhe confere baixa capacidade de infil- tração direta da água precipitada na superfície, mas que não é totalmente impermeável. Melo Júnior e Marmos (2007) caracterizaram esse aquífero pela predominância de sedimentos arenosos de origem fluvial com granulometria variando de fina a média, onde ocorrem, algumas vezes, materiais siltosos, clastos Figura 7.11 - Identificação do sistema aquífero Rio Branco no milimétricos de laterita e grãos de argila rica em matéria anel viário da capital acreana, onde estão ilustradas as camadas orgânica com espessura variando de 1 a 8 m. aquíferas e aquifugas do sistema avaliado. No entanto, Melo Júnior, Rosa Filho e Kunzler (2010), Fonte: MELO JÚNIOR; MARMOS, 2007. utilizando método geofísico (sondagem elétrica vertical (SEV) e imageamento elétrico (IE)), mostraram que o hidráulicos do aquífero os seguintes valores: coeficiente SARB apresenta, em algumas localidades, camadas de de armazenamento variando de 1.05 x 10-4 a 2.89 x 10-4; areias saturadas de água que podem atingir até 45 m de transmissividade variando de 132 m2/dia a 0,264 m2/dia; profundidade, com média de 20 m (bairros do Amapá e condutividade hidráulica de 2,38 m/dia a 2,56 x 10-4 m/ Belo Jardim II, vila da Amizade, partes do conjunto Santo dia e capacidade específica 1,23 a 19,59, com média de Afonso e do ramal da Judia). 3 m3/h/m. Melo Júnior e Marmos (2007), após execução de qua- A partir da análise de poços em Rio Branco, Melo tro testes de bombeamento, obtiveram para os parâmetros Júnior e Marmos (2007) encontraram valores de nível es- tático variando de 2,21 a 4,07 m, o que, por si só, reflete alta vulnerabilidade ao meio em relação à poluição hídrica por atividades antrópicas de uso e ocupação do solo. O nível dinâmico desses poços variou entre 4,04 a 7,07 m. No geral, as profundidades dos poços situam-se abaixo de 10 m, função direta da espessura dos sedimentos. Os valores de vazão (3,33 m3/h a 10 m3/h) e capacidade específica (0,92 m3/h/m a 4,1 m3/h/m) obtidos nos testes podem ser considerados baixos. Isso se deve, principalmente, à baixa capacidade de bombas utilizadas e condições de constru- ção dos poços. A recarga é realizada pela infiltração direta das chu- vas, considerando-se que o aquífero é do tipo confinado drenante, com valor de infiltração de 587 mm/ano, com média de 48,92 mm/mês, o que representa 30,49% do valor total da precipitação média anual na cidade de Rio Branco. A reserva reguladora do SARB, segundo Melo Júnior, Rosa Filho e Kunzler (2010), é de 59.331.870 m3 anuais (5.9 x 107 m3/ano), suficiente para abastecer uma população de 812 mil pessoas, com 200 litros de água/habitante/dia, durante um ano hidrológico. A qualidade da água subterrânea é tão importante quanto o aspecto quantitativo. A disponibilidade dos recur- sos hídricos subterrâneos para determinados tipos de uso Figura 7.10 - Distribuição do sistema aquífero Rio Branco (SARB) no estado do Acre. Fonte: Modificado de MELO JUNIOR; depende fundamentalmente da qualidade físico-química MARMOS, 2007. e bacteriológica. 113 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE As águas subterrâneas do SARB são classificadas como O substrato é composto fundamentalmente pela For- sódicas ou bicarbonatadas sódicas, para aquelas amostras mação Solimões. sem indícios de contaminação, e águas bicarbonatadas, A definição de uma aluvião como fonte de abasteci- cloretadas ou cloretadas sódicas para o grupo de amos- mento passa por vários estágios, iniciando com a sua carac- tras que apresentaram contaminação por nitrato (MELO terização espacial bidimensional, por meio de cartografia JÚNIOR; ROSA FILHO; KUNZLER, 2010). baseada em produtos de sensores remotos. Em sequência, O pH é ácido (valor médio de 4,85, variando do míni- é necessária a caracterização geométrica tridimensional mo 4,00 e máximo 5,90), baixo teor de sais, com valor de (espessuras), litológica e hidrogeológica, obtida por meio condutividade médio de 38 μS/cm e variando entre 16 μS/ de furos de sondagens, perfuração de poços e testes de cm a 256 μS/cm; os resultados de amônia variaram entre bombeamento. Esses reservatórios podem ser captados, 0,01 a 0,1 mg/L (MORAES et al, 2007). em função de suas características hidrogeológicas, por Das amostras analisadas, 37,5% apresentam con- poços amazonas e tubulares, bem como pela construção taminação por nitrato, com teores acima de 10 mg/L, de barragens subterrâneas para aumentar a capacidade de considerado o limite máximo para água para consumo. Em armazenamento (CPRM, 2012). 75% das amostras, há indício de contaminação antrópica As aluviões se constituem, em geral, em boa alternati- (fossas), revelado por teores de nitrato acima de 3 mg/L va como manancial, principalmente em regiões de domínio (MELO JÚNIOR; ROSA FILHO; KUNZLER, 2010). de sedimentos da Formação Solimões. Normalmente, a po- rosidade é elevada, mas a pequena espessura (abaixo de 10 Sistema Aquífero Aluvionar m) torna esses sedimentos aquíferos pouco interessantes. O Sistema Aquífero Aluvionar é produto da periódica As principais aluviões ocorrem ao longo dos rios inundação de uma estreita faixa ao longo dos rios, que, por Acre, Iaco, Purus, Envira, Tarauacá, Gregório e Juruá, de sua vez, é influenciada pela deposição de material trazido direção sudoeste/nordeste predominante e se constituem pelas cheias junto à calha principal dos rios em sua planície em importante fonte alternativa de abastecimento de água de inundação. Esse material, composto por sedimentos de uso doméstico. Estão distribuídas por todo o estado, finos formados por areias, silte e argilas inconsolidadas, sendo detentoras da segunda maior extensão territorial muitas vezes de difícil distinção dos terraços fluviais mais (16.473 km2), correspondente a cerca de 10% da área total antigos, recobre os argilitos da Formação Solimões. (Figura 7.12). As vazões desses aquíferos variam de 1 a 10 m3/h, Os depósitos aluvionares são representados por podendo ser nulas na presença de pacote argiloso. Por sedimentos arenoargilosos recentes e antigos (paleo- exemplo, nas proximidades de Xapuri, dois poços foram canais) que ocorrem em margens e leito dos principais perfurados em 1969 pela Fundação Nacional da Saúde rios e riachos. A espessura é, em geral, inferior a 20 m. (FUNASA). Um dos poços, segundo o perfil litológico, foi Figura 7.12 - Distribuição do sistema aquífero Aluvionar no estado do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 114 ASPECTOS HIDROGEOLÓGICOS E GESTÃO DAS ÁGUAS desenvolvido até a profundidade de 46 m, apresentando-se informações imprescindível ao aproveitamento das águas totalmente argiloso, com tons da água gradando, do topo subterrâneas. Visando a atender à Moção nº 38 do CNRH, para a base, de claro a cinza e rosado. o IMAC deve enviar para a CPRM/SGB cópia do relatório de perfuração (litológico/construtivo e testes de bombea- GESTÃO DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS mento) de todos os poços perfurados no estado do Acre. Em 2009 foi implantada, nacionalmente, a Rede Na Região Amazônica, muitas vezes a água subter- Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas rânea é relegada a segundo plano, devido às altas taxas (RIMAS), objetivando o monitoramento permanente da de pluviosidade e ao grande volume de águas superficiais variação do nível estático e da qualidade química dos prin- representados por seus rios caudalosos e perenes. cipais aquíferos do Brasil. Esse monitoramento ampliará, Os fundamentos básicos das políticas hídricas re- em médio e longo prazo, o conhecimento dos aquíferos, metem aos princípios da Declaração de Dublin (Irlanda), com identificação dos impactos às águas subterrâneas em redigidos na Conferência Internacional de Água e Meio decorrência de explotação ou formas de uso e ocupação Ambiente, no período de 26 a 31 de janeiro de 1992, os dos terrenos, estimativa da disponibilidade do recurso quais provocaram mudança significativa na forma de gerir hídrico subterrâneo etc. Portanto, trará subsídios à gestão as águas e constituem as bases da “Gestão Integrada dos das águas subterrâneas e divulgação das informações para Recursos Hídricos” (GIRH) (VILLAR, 2012): a sociedade. - Princípio 1: A água doce é um recurso finito e vulne- A Resolução CNRH 107/2010 determina que o RIMAS rável, essencial para sustentar a vida, o desenvolvimento é uma ferramenta essencial para estabelecer a referência e o meio ambiente. da qualidade dessas águas, visando a viabilizá-las do ponto - Princípio 2: O aproveitamento e a gestão da água de vista de seu enquadramento em classes. devem inspirar-se em uma abordagem baseada na partici- Os projetos RIMAS e SIAGAS se coadunam com a pação dos usuários, dos gestores e dos responsáveis pelas missão institucional da CPRM/SGB: “Gerar e difundir o decisões em todos os níveis. conhecimento geológico e hidrológico básico necessário - Princípio 3: A mulher desempenha um papel fun- para o desenvolvimento sustentável do Brasil”. damental no abastecimento, na gestão e na proteção das Esses estudos permitem a atualização, o enriqueci- águas. mento e a disponibilização de mapas municipais de pontos - Princípio 4: A água tem um valor econômico em d’água, elaborados em ambiente de Sistema de Informação todos os seus usos competitivos e deve ser reconhecida Geográfica (SIG), constituindo-se em excelentes instrumen- como um bem econômico. tos de gestão a serem utilizados pelas prefeituras. As águas subterrâneas são de domínio do Estado; A água subterrânea desempenha importante papel portanto, todo aquele que tiver perfurado ou pretender no desenvolvimento socioeconômico do estado do Acre. perfurar poço tubular no estado do Acre está sujeito a Segundo dados do Atlas da Agência Nacional de Águas licenciamento e outorga a serem emitidos pelo Instituto (2010), aproximadamente 18% dos municípios acreanos de Meio Ambiente do Acre (IMAC). (Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Porto Acre e Porto Walter) A Política Estadual de Recursos Hídricos do Estado do utilizam exclusivamente água subterrânea para o abaste- Acre foi instituída pela Lei nº 1.500/2003, que estabelece o cimento público. Outras cidades, como Acrelândia e Ta- IMAC como o órgão institucional responsável pela outorga rauacá, suprem parcialmente suas necessidades utilizando das águas, bem como pelo Sistema de Informações sobre esse tipo de fonte. Recursos Hídricos no Acre (SIRENA). Para uma gestão mais participativa, todos deveriam A Moção nº 38, de 07.12.2006, do Conselho Nacio- ter amplo conhecimento da bacia hidrográfica em que nal de Recursos Hídricos (CNRH), recomenda a adoção do vivem, o nome do rio principal, o principal aquífero e se Sistema de Informação de Águas Subterrâneas (SIAGAS) perguntar – De onde vem a água que bebo? Para onde pelos órgãos institucionais e usuários de informações hi- vão meus esgotos? –, além de questões como: “Quais são drogeológicas. A Moção nº 56, de 16.12.2010, do CNRH, as principais fontes de poluição no local em que moro recomenda ações de combate à clandestinidade na cons- (cemitérios, indústrias, lixão etc.)?”. trução de poços e explotação das águas subterrâneas. A Resolução nº 15, de 11.01.2001, do CNRH, considera que CONSIDERAÇÕES FINAIS poços abandonados e desativados devem ser adequada- mente lacrados, a fim de que não se tornem possíveis fontes A distribuição dos recursos hídricos subterrâneos no de contaminação para o aquífero. estado do Acre está intimamente relacionada às ações O banco de dados do SIAGAS foi desenvolvido a partir geológicas que moldaram o estado. do ano de 1997, com o objetivo de armazenar dados físi- Na Formação Içá, constituída por sedimentos hetero- cos e hidrogeológicos de centenas de poços perfurados, gêneos com intercalações de areia, silte e argila, deposita- os quais foram coligidos, consistidos e gradativamente dos por processos fluviolacustres, encontra-se o aquífero incorporados ao SIAGAS, constituindo-se em fonte de mais produtivo e com recursos mais abundantes. 115 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Por sua vez, o Sistema Aquífero Solimões possui a CPRM. Mapa de domínios e subdomínios maior distribuição areal (87,2%), sendo constituído pela hidrogeológicos do Brasil. Rio de Janeiro: CPRM, formação homônima, composta, fundamentalmente, por 2007. Escala 1:2.500.000. Sistema de Informações sedimentos de composição argilosa e dispondo de baixo Geográficas (SIG). potencial hídrico, embora assinale algumas exceções, nor- malmente associadas à presença de paleocanais, a exemplo CPRM. Medidas para atenuar os efeitos da seca do Aquífero Rio Branco. no nordeste brasileiro: cadastro seletivo de fontes Os principais aquíferos explotados no Acre, seja para de abastecimento por águas subterrâneas. Brasília, DF: abastecimento público, seja para fins particulares, são re- CPRM, 2012. presentados por: Aquífero Cruzeiro do Sul, no entorno da cidade homônima, associado à Formação Içá, na porção LATRUBESSE, E.M.; SILVA, S.A.; COZZUOL, M.; ABSY, oeste do estado; Aquífero Rio Branco, que ocorre na região M.L. Late Miocene continental sedimentation in dominada pelo segundo distrito da capital acreana, na southwestern Amazon and its regional significance: forma de paleocanais sobrepostos à Formação Solimões; biotic and geological evidences. Journal of South Aquífero Aluvionar, relacionado às coberturas aluvionares American Earth Science, v. 23, p. 61-80, 2007. representadas por aluviões e paleoaluviões. Também podem ser citados o Sistema Aquífero Divi- MACHADO, J.L.F. Legenda hidrogeológica e unidades sor, constituído pelo Grupo Acre (formações Moa, Divisor hidroestratigráficas do mapa hidrogeológico de Santa e Rio Azul), representando um aquífero transfronteiriço Catarina. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE RECURSOS localizado na serra do Divisor, e o Sistema Aquífero Soli- HÍDRICOS, 19., 2011, Maceió. Anais... Maceió: ABRH, mões, que, apesar de amplamente distribuído no estado, 2011. apresenta baixa potencialidade hidrogeológica, devido à sua composição predominantemente argilosa. MELO JUNIOR, H.R.; MARMOS, J.L. Avaliação hidrogeológica do município de Rio Branco (AC). REFERêNCIAS Rio Branco: CPRM, 2007. 53 p. ACRE. Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Plano MELO JUNIOR, H.R.; ROSA FILHO, S.F.; KUNZLER, J.C.S. estadual de recursos hídricos do Acre – PERH. Rio Modelo de gestão do aquífero Rio Branco. Porto Branco: SEMA, 2012. 243 p. Velho: CPRM, 2010. 118 p. ADAMY, A. Visita técnica ao distrito de Nova MORAES, S.P. et al. Avaliação das potencialidades Califórnia: avaliação das alternativas de abastecimento hidrogeológicas e riscos de poluição hídrica no 2º de água para a escola estadual Bandeirantes. Porto distrito do município de Rio Branco-AC. In: SIMPÓSIO Velho: CPRM, 2012. DE RECURSOS HÍDRICOS DO CENTRO-OESTE, 1., 2007, Cuiabá. SIMPÓSIO DE RECURSOS HIDRICOS DO NORTE E AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Atlas Brasil: CENTRO-OESTE, 1, 2007, São Paulo. Anais... São Paulo: abastecimento urbano de água: resultados por estado. ABRH, 2007. Disponível em: . Acesso em: 12 jul. 2011. BARROS, A.M.; ALVES, E.D. de O.; ARAÚJO, J.F.V.; LIMA, M.I.C. de; FERNANDES, C.A.C. Geologia. In: BRASIL. PEREIRA, L.A. da C.; CAJAZEIRAS, C.C. de A. Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto Caracterização dos principais aquíferos da região RADAMBRASIL. Folhas SB/SC.18 Javari/Contamana: sudoeste da Amazônia ocidental. In: CONGRESSO geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso BRASILEIRO DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS, 17./ENCONTRO potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, 1977. p. 17- NACIONAL DE PERFURADORES DE POCOS, 18., 2012, 101. 420 p. (Levantamento de Recursos Naturais, 13). Bonito, MS. Anais... Bonito, MS: ABAS, 2012. CAPUTO, M.V.; RODRIGUES, R.; VASCONCELOS, STRUCKMEIER, W.F.; MARGAT, J. Hydrogeological D.N.N.de. Litoestratigrafia da bacia do Amazonas. maps: a guide and a standard legend. Hannover: Belém: PETROBRAS, 1971. (Relatório técnico interno, International Association of Hydrogeologists, 1995. 177 641-A). p. (International Contributions to Hydrogeology, 17). CPRM. Carta geológica do Brasil ao milionésimo. VILLAR, C.P. A busca pela governança dos aquíferos Sistema de Informações Geográficas (SIG). Brasília, DF: transfronteiriços e o caso do aquífero Guarani. CPRM, 2004. Escala 1:1.000.000. Programa Geologia do 2012. 261 f. Tese (Doutorado em Ciência Ambiental) – Brasil. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. 116 8 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS Francisco de Assis dos Reis Barbosa (francisco.reis@cprm.gov.br)1 Catharina Ramos dos Prazeres Campos (catarina.campos@cprm.gov.br)2 CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Introdução .......................................................................................................... 119 Principais Bacias Hidrográficas ............................................................................ 119 Rio Juruá ......................................................................................................... 119 Rios Tarauacá-Envira-Jurupari .........................................................................120 Rio Purus ........................................................................................................120 Rio Iaco ...........................................................................................................120 Rios Acre-Iquiri ...............................................................................................120 Rio Abunã .......................................................................................................121 Regime Hidrológico dos Principais Rios ...............................................................121 Regime Hifrológico Anual ...............................................................................121 Maiores Vazantes ............................................................................................122 Maiores Cheias................................................................................................123 Principais Usos dos Recursos Hídricos Superficiais ..............................................125 Abastecimento ................................................................................................125 Irrigação .........................................................................................................125 Navegação ......................................................................................................125 Sestor Industrial ..............................................................................................126 Rede de Monitoramento Hidrológico ..................................................................126 Rede Hidrometeorológica Nacional ................................................................126 Rede Nacional de Qualidade de Água .............................................................127 Sistema de Alerta Hidrológico na Bacia do Rio Acre .......................................128 Considerações Finais ...........................................................................................129 Referências ..........................................................................................................130 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS INTRODUÇÃO PRINCIPAIS BACIAS HIDROGRÁFICAS O estado do Acre, no contexto da Política Nacional A rede de drenagem no estado do Acre é constituída de Recursos Hídricos (PNRH), e seguindo as diretrizes es- por extensos rios de direção sudoeste-nordeste, perten- tratégicas do Plano Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), centes à rede hidrográfica do rio Amazonas. Esses rios elaborou o Plano Estadual de Recursos Hídricos (PLERH), apresentam paralelismo e mudanças de direção de curso, que, dentre outros aspectos, prioriza a preservação, a uma característica bastante comum, resultante de falhas qualidade e a quantidade dos recursos hídricos, de forma e fraturas geológicas. a garantir a sobrevivência das gerações futuras. Na parte oeste do estado, o curso d’água de maior Ressalta-se que o Plano Estadual de Recursos Hídricos relevância é o rio Juruá, que tem como principais afluentes (PLERH-AC) “é o primeiro de um estado situado integral- os rios Moa e Juruá-Mirim. Na parte central, destacam-se mente na Região Hidrográfica Amazônica, onde é colossal os rios Tarauacá, cujo principal afluente é o rio Muru, e a disponibilidade hídrica do país, mas que, nem por isso, Envira, Jurupari, Purus e seu tributário Iaco pela margem deixa de enfrentar desafios ousados como os decorrentes direita. Na parte leste, os rios Acre e Abunã completam a da expansão de atividades econômicas, do avanço da urba- rede de drenagem dos principais rios do estado (Figura 8.1). nização e dos riscos de desastres de origem hidroclimática, por exemplo. [...]” (ACRE, 2012, p. 33). Rio Juruá Entretanto, vários aspectos devem ser levados em consideração para fortalecimento e conscientização do uso Trata-se de um rio de planície, com todas as caracte- racional dos recursos hídricos. Dentre eles, destacam-se a rísticas de correntes de pequeno declive. Drena uma área modernização e a ampliação da Rede de Monitoramento de 25.000 km2 dentro do estado do Acre. Esse rio nasce no Hidrometeorológica dos Recursos Hídricos Superficiais, Peru com o nome de Paxiúba, a 453 m de altitude, unindo- como forma de se antever eventos hidrológicos críticos, e -se ao Salambô e formando o Juruá, que já tem esse nome a criação de uma rede específica para monitoramento da ao ingressar no Brasil. Ele drena a região noroeste do Acre qualidade da água, projeto em parceria entre o estado do ao entrar no Brasil, cruza as cidades de Marechal Thauma- Acre e a Agência Nacional de Águas (ANA). Adicionalmente, turgo, Porto Walter, Cruzeiro do Sul e ingressa no estado deve-se prover apoio à gestão municipal de bacias hidro- do Amazonas (Guajará), despejando suas águas no rio gráficas e à capacitação em recursos hídricos. Solimões. É de grande importância para a região, servindo Destaca-se, ainda, o projeto institucional da CPRM/ como hidrovia para diversas comunidades, pois as rodovias SGB – Informações de Alerta de enchentes e Inundações –, são raras, cobrindo apenas pequenos trechos, como, por que visa à instalação e operação de uma rede telemétrica exemplo, Cruzeiro do Sul até Guajará ou Rodrigues Alves na bacia hidrográfica do rio Acre, para subsidiar a gestão em sentido de Porto Walter, porém sem alcançá-la. das enchentes nessa bacia, utilizando um “sistema de Dentro de território acreano, compreende as áreas das alerta em tempo real”. bacias do rio Juruá e seus principais afluentes, Tarauacá Figura 8.1 - Mapa das sub-bacias hidrográficas do estado do Acre.Fonte: Elaborado por Francisco de A. dos Reis Barbosa, 2013. 119 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE e Envira, o que corresponde a uma área de 74.950 km2, dentro do território acreano cobre em torno de 43.897 km2, equivalendo a aproximadamente 49% do estado do Acre, representando 12% da área total da bacia (ACRE, 2012). 19,9% da área da Bacia do Solimões/Juruá/Japurá (em todo Quanto ao regime geral de pluviometria na bacia do o seu curso dentro da Amazônia Legal) e apenas 1,9% da rio Purus, o trimestre mais chuvoso compreende os meses Bacia Amazônica no território brasileiro (ACRE, 2012). Em de dezembro, janeiro e fevereiro, com média pluviométrica suas margens localizam-se municípios importantes como trimestral de 840 mm. O mês mais chuvoso é janeiro, com Eirunepé (AM) e Cruzeiro do Sul (AC), constituindo-se na valores médios de 300 mm. Já o período de maior estiagem única forma de interação dos municípios, como também compreende junho, julho e agosto, com precipitação média de via de abastecimento da produção de grãos a partir do no trimestre de apenas 100 mm, sendo o mês de julho o me- município de Caracaraí, no estado de Roraima. nos chuvoso, com valores próximos a 25 mm (CPRM, 2011). No que se refere ao regime geral de pluviometria, a maior precipitação na bacia do rio Juruá ocorre no trimes- Rio Iaco tre janeiro/fevereiro/março. Nesse período, a precipitação média varia de 600 a 900 mm, destacando-se o mês de O rio Iaco, afluente do Purus, é navegável até o mu- março como o mais chuvoso, com índices pluviométricos nicípio de Sena Madureira. Com profundidade média de mensais de até 350 mm em Porto Walter, por exemplo. Já 1,0 m no período das secas, tem como afluentes os rios o período mais seco corresponde a junho, julho e agosto, Caetés e Macauã, de grande importância no escoamento quando os índices variam de 170 a 295 mm. No mês de de castanha e borracha. No ano de 2012, os níveis do Iaco julho, considerado o de maior estiagem na região, os índices atingiram valores históricos máximos, causando transtornos atingem apenas 35 mm (CPRM, 2011). às populações residentes ao longo de seu curso. O seu regime de pluviometria é similar ao da bacia do Rios Tarauacá-Envira-Jurupari rio Purus. Os meses de janeiro, fevereiro e março constituem o trimestre mais chuvoso, com precipitações médias de 780 O rio Tarauacá, apesar de afluente do Juruá, está sendo mm. Já o período junho-julho-agosto é o mais seco, com caracterizado separadamente, dada a sua importância para índices de 115 mm. o estado do Acre. Ele nasce no município de Jordão, no Acre, corta os municípios de Tarauacá e Envira e deságua Rios Acre-Iquiri no rio Juruá, em frente à cidade de Eirunepé, no estado do Amazonas. O Tarauacá é navegável desde a sua foz até a O rio Acre tem sua nascente no Peru e deságua no foz do rio Jordão, atingindo profundidade mínima de 1,20 Brasil, desembocando no rio Purus (Amazonas). Embora m. O rio Envira, seu principal afluente, é navegável desde seja um dos afluentes do Purus, a bacia do rio Acre será sua foz até o município de Feijó. caracterizada de forma independente, por sua localização O regime de chuva na região corresponde ao mesmo e importância no estado do Acre e na Amazônia brasileira. período da bacia do rio Juruá, com os meses de janeiro, O alto curso desse rio atua como divisa internacio- fevereiro e março constituindo o trimestre mais chuvoso. No nal entre Brasil e Peru, estendendo-se até a localidade município de Tarauacá, o índice pluviométrico no trimestre de Seringal Paraguaçu, e desse ponto até a cidade de alcança 860 mm, sendo março o mês mais chuvoso. Quanto Brasileia, entre Brasil e Bolívia. A partir daí, adentra em ao período mais seco, corresponde a uma precipitação de território brasileiro, percorrendo mais de 1.190 km, desde 50 mm/mês em julho. suas nascentes até a desembocadura pela margem direita do rio Purus, junto à cidade de Boca do Acre. No Brasil, Rio Purus os principais municípios que o rio Acre banha são Assis Brasil, Brasileia, Xapuri, Rio Branco e Boca do Acre, esse A bacia do rio Purus representa uma importante último no estado do Amazonas. Por se tratar de um rio região na Amazônia Sul-Ocidental, com extensas áreas de cabeceira de drenagem, sua sazonalidade é bastante florestadas e nível de antropização relativamente baixo. marcante, observando-se episódios de cheia ou águas altas Tributário da margem direita do rio Solimões (nome dado (de janeiro a maio) e de seca ou águas baixas (de julho a ao rio Amazonas antes de seu encontro com o rio Negro), o dezembro) (NASCIMENTO, 2011). A navegabilidade do rio rio Purus nasce no Peru, a 500 m de altitude, e deságua no Acre, desde a sua foz no rio Purus até as cidades de Brasileia Solimões, próximo a Manaus, com extensão aproximada de (lado brasileiro) e Cojiba (lado boliviano), ocorre somente 3.218 km. A partir do estado do Acre, no qual representa a no período de águas altas. O trecho compreendido entre segunda maior área de drenagem, o curso do rio se torna Boca do Acre e Rio Branco é considerado continuação da intensamente curvilíneo, ocupando boa parte da planície hidrovia do rio Purus, provendo acesso à capital do estado. e deixando diversos meandros abandonados. As faixas que Nesse trecho, a navegação é adequada para embarcações margeiam o rio se alargam na direção da foz e comportam de porte mais elevado nos períodos de chuva, enquanto extensas áreas alagadas e de inundação (SOUSA JUNIOR et nas estiagens somente é possível o tráfego de embarcações al., 2006). Sua área de drenagem total é de 372.000 km2; de médio e pequeno porte. Por outro lado, no trecho entre 120 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS Rio Branco e Brasileia, com extensão aproximada de 630 sendo suas principais bacias as dos rios Juruá, Purus, Acre km, o rio é bastante sinuoso, de larguras inferiores a 100 m e Abunã. A análise em escala mensal dos dados de chuva, e profundidades mais reduzidas, permitindo a navegação vazão e cotas desses rios (pluviométrica e fluviométrica) comercial apenas nas épocas de cheia (PETCON, 2002). permite a avaliação e o estabelecimento de regimes e O período de maior precipitação na bacia do rio Acre tempo médio entre os meses mais chuvosos e aqueles ocorre, com maior frequência, nos meses de janeiro, feve- em que os rios se encontram no pico da cheia. Tal análise reiro e março, com média pluviométrica trimestral variando é especialmente importante na previsão de períodos de de 700 a 900 mm, sendo fevereiro o mês mais chuvoso. cheias e vazantes. Assim como nas demais bacias do estado, o período de Conclui-se, assim, que a precipitação média anual do maior estiagem ocorre no período junho/julho/agosto, estado do Acre é de 1.969,6 mm. O semestre seco com- com índices que chegam a 70 mm, sendo o mês de junho preende o período de maio a outubro, quando se registra o mais seco, com apenas 16 mm (CPRM, 2011). precipitação média de 490,2 mm, representando 25% das precipitações totais anuais. Em contrapartida, o semestre Rio Abunã chuvoso está compreendido entre novembro e abril, com precipitação média de 1.165,3 mm, concentrando 60% das O rio Abunã nasce na Bolívia, atravessando em seu precipitações totais anuais. trajeto os estados do Acre e Rondônia. Constitui uma bacia binacional, ocupando em território acreano uma Regime Hidrológico Anual área de 5.227 km2. Esse rio drena áreas dos municípios de Acrelândia, Senador Guiomard, Plácido de Castro, Capixa- Para conhecimento do regime hidrológico anual de ba, Epitaciolândia e Xapuri. Os municípios brasileiros que um estado, além do estudo das precipitações médias e compõem essa bacia tiveram, em 2006, alto percentual de acumuladas diárias, mensais e anuais, ou seja, da análise desmatamento, destacando-se Plácido de Castro (72%), pluviométrica, faz-se necessária, também, a análise fluvio- Senador Guiomard (71%) e Acrelândia (59%). As águas métrica dos principais rios da unidade federativa. desse manancial são utilizadas para consumo, recreação e Com esse fim, selecionou-se uma estação fluviomé- lazer, dentre outros (ACRE, 2006). trica representativa de cada uma das principais sub-bacias O regime de maior pluviometria na bacia do rio Abu- do estado do Acre: Cruzeiro do Sul (código: 12500000; rio nã compreende os meses de janeiro, fevereiro e março, Juruá); Tarauacá-Jusante (código: 12600001; rio Tarauacá); quando a precipitação média varia de 680 a 880 mm. Na Manoel Urbano (código: 13180000; rio Purus); Sena Ma- região próxima ao município de Plácido de Castro, os ín- dureira (código: 13310000; rio Iaco); Rio Branco (código: dices pluviométricos atingem cerca de 290 mm em março, 13600002; rio Acre); Plácido de Castro (código: 15324000; considerado o mês mais chuvoso. rio Abunã) (Quadro 8.1). A bacia do rio Abunã mantém o mesmo regime das As cotas históricas – níveis fluviométricos máximos e demais bacias do estado, sendo a estação seca compreen- mínimos observados ao longo da série histórica de dados dida entre os meses de junho, julho e agosto, com índices – das principais sub-bacias do estado do Acre são apre- que atingem 90 mm (CPRM, 2011). sentadas no Quadro 8.1. Já as vazões históricas, ou seja, as vazões (volume de REGIME HIDROLÓGICO DOS PRINCIPAIS RIOS água que atravessa uma seção de controle por unidade de tempo) máximas e mínimas observadas ao longo da série Os regimes hidrológicos nas bacias hidrográficas histórica de dados, das principais sub-bacias do estado do no estado do Acre possuem características semelhantes, Acre são apresentadas no Quadro 8.2. Quadro 8.1 - Cotas históricas (m) das principais sub-bacias do estado do Acre. Estação Máxima Histórica Mês/Ano de Mínima Mês/Ano de Código Nome (mm) Ocorrência Histórica (mm) Ocorrência Amplitude 12500000 Cruzeiro do Sul 14,12 Março/1995 1,06 Julho/2009 13,06 12600001 Tarauacá-Jusante 10,42 Janeiro/2012 0,41 Setembro/1984 10,01 13180000 Manoel Urbano 14,02 Abril/1986 3,03 Agosto/1998 10,99 13310000 Sena Madureira 17,95 Fevereiro/2012 1,85 Setembro/2010 16,10 13600002 Rio Branco 17,66 Março/1997 1,50 Abril/2011 16,16 15324000 Plácido de Castro 14,98 Abril/2009 1,80 Setembro/2005 13,18 Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 121 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Continuação Quadro 6.9 Quadro 8.2 - Vazões históricas (m³/s) das principais sub-bacias do estado do Acre. Estação) Máxima Histórica Mês/Ano de Mínima Mês/Ano de Código Nome (mm) Ocorrência Histórica (mm) Ocorrência Amplitude 12500000 Cruzeiro do Sul 3970,00 Março/1995 54,20 Julho/1995 3915,80 12600001 Tarauacá-Jusante 2975,00 Dezembro/2008 8,90 Setembro/1984 2966,10 13180000 Manoel Urbano 4851,00 Abril/2006 18,00 Outubro/1998 4833,00 13310000 Sena Madureira 2425,00 Março/2009 13,80 Setembro/2010 2411,60 13600002 Rio Branco 1944,00 Fevereiro/2006 8,49 Setembro/2005 1935,51 15324000 Plácido de Castro 380,00 Abril/1997 8,72 Setembro/2005 371,28 Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Maiores Vazantes Os estudos hidrológicos têm como função finalística o atendimento à comunidade, servindo de base para planejamento de projetos agrícolas, dimensionamento de obras hidráulicas, como galerias pluviais, delimitação de áreas sujeitas à erosão, planejamento operacional dos setores de transportes, defesa civil, turismo, dentre outros. Nos cotagramas das estações fluviométricas repre- sentativas das sub-bacias do estado do Acre encontra-se registrada a variação de cotas (níveis dos rios) ao longo do tempo nos anos mais secos e em 2012 (esse último somente nas estações em que os dados estavam atualizados). Na Estação Plácido de Castro (Figura 8.2), observa-se Figura 8.3: - Cotagrama da estação fluviométrica Rio Branco no rio Acre (2011 e 2012). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. o comportamento das cotas do rio Abunã no ano de 2005, o mais seco da série de dados históricos. A cota mínima histórica, nesse caso, é de 180 cm, ocorrida em setembro. Na Estação Sena Madureira (Figura 8.4), observa-se Não se fez o comparativo com o ano de 2012, por falta de o comportamento das cotas do rio Iaco nos anos de 2010 dados atualizados dessa estação. (ano mais seco) e 2012 (ano atual). A cota mínima histórica Na Estação Rio Branco (Figura 8.3), tem-se o compa- foi registrada em setembro de 2010, quando o rio atingiu rativo do comportamento dos níveis do rio Acre nos anos a cota mais baixa, 185 cm, bem inferior a 2012, em que a de 2011 (ano mais seco) e 2012 (atual). A cota mínima his- cota mínima foi de 268 cm no mesmo mês. tórica ocorreu em setembro de 2011, quando o rio atingiu Na Estação Tarauacá (Figura 8.5), verifica-se o compor- apenas 150 cm, um pouco abaixo de 2012, quando o nível tamento dos níveis do rio Tarauacá nos anos de 1984 (mais não foi inferior a 185 cm. seco) e 2012 (atual). A cota mínima histórica ocorreu em Figura 8.2 - Cotagrama da estação fluviométrica Plácido de Castro Figura 8.4 - Cotagrama da estação fluviométrica Sena Madureira no rio Abunã (2005). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. no rio Iaco (2010 e 2012). 122 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS 2009, foi suplantada pela cota de 17,95 m em fevereiro de 2012, com a diferença significativa de 2,44 m. Na Estação Manoel Urbano (Figura 8.9), mostra-se o comportamento das cotas do rio Purus no ano de 1986, quando o rio atingiu a sua cota máxima histórica de 14,02 m no mês de abril. Ressalva-se, porém, que ainda não foi possível a coleta dos dados de 2012, quando houve a maior cheia registrada nos rios acreanos. Na Estação Tarauacá (Figura 8.10), apresenta-se o com- parativo da variação dos níveis do rio Tarauacá nos anos de Figura 8.5 - Cotagrama da estação fluviométrica Tarauacá no rio Tarauacá (1984 e 2012). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. setembro de 1984, quando o rio atingiu o nível de 41 cm, muito abaixo do registrado no mesmo mês de 2012, quando o nível alcançou 279. Observa-se, ainda, a magnitude da cheia que ocorreu em 2012; mesmo se tratando do período de vazante, as cotas mínimas do rio Tarauacá ficaram, em média, 2,50 m acima do mesmo período no ano mais seco. Maiores Cheias Figura 8.6: Cotagrama da estação fluviométrica Plácido de Castro O ano de 2012 foi especialmente preocupante em no rio Abunã (2009). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. relação às cheias dos principais rios do estado do Acre. O pico de cheia registrado nas estações fluviométricas foi equivalente ou, muitas vezes, superior à maior cheia já ocorrida na série histórica de dados. Nos cotagramas das estações fluviométricas repre- sentativas das sub-bacias do estado do Acre informa-se a variação de cotas (níveis dos rios) ao longo do tempo nos anos mais cheios e em 2012 (esse último somente nas estações em que os dados estavam atualizados). Na Estação Plácido de Castro (Figura 8.6), observa-se o comportamento dos níveis do rio Abunã no ano de 2009, considerado o mais cheio até 2010, pois ainda não se proce- deu à coleta dos dados de 2011 e 2012. Porém, pelo com- portamento dos rios em 2012, acredita-se que a maior cheia Figura 8.7: Cotagrama da estação fluviométrica Rio Branco no rio deve ter ocorrido nesse ano. A cota máxima até então foi Acre (1997 e 2012). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. registrada em abril de 2009, quando o rio atingiu 14,98 m. Na Estação Rio Branco (Figura 8.7), apresenta-se um comparativo do comportamento dos níveis do rio Acre nos anos de 1997 e 2012. Os picos de cheia nesses dois anos foram muito próximos: 17,66 m em 1997 e 17,63 m em 2012. Isso demonstra que, em 2012, o rio Acre chegou perto da cota máxima histórica, nunca antes ocorrida, acarretando prejuízos à sociedade. Por essa razão, o Governo Federal, por intermédio da CPRM/SGB, desenvolve, desde maio de 2013, o Projeto Sistema de Alerta Hidrológico na Bacia do Rio Acre. Na Estação Sena Madureira (Figura 8.8) apresenta-se o comparativo do comportamento dos níveis do rio Iaco nos anos de 2009 e 2012, por meio do qual se demonstra que o ano de 2012 foi atípico em relação à cheia, já que a Figura 8.8: Cotagrama da estação fluviométrica Sena Madureira cota máxima histórica, que era de 15,51 m em março de no rio Iaco (2009 e 2012). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 123 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 8.9: Cotagrama da estação fluviométrica Manoel Urbano Figura 8.11 - Cotagrama da estação fluviométrica Cruzeiro do Sul no rio Purus (1986). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. no rio Juruá (1995 e 2012). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. anos de 1995 (mais cheio) e 2012 (atual). A cota máxima histórica foi atingida em março de 1995, quando o rio chegou ao nível de 14,12 m. Em 2012, diferentemente do registrado em outras estações fluviométricas, o nível do rio não superou a marca histórica, atingindo a cota de 13,53 m em fevereiro de 2012. No monitoramento hidrológico, além das análises de alturas pluviométricas e níveis fluviométricos, é impres- cindível a quantificação da vazão dos rios, medida em unidade de volume por unidade de tempo, usualmente em metros cúbicos por segundo (m3/s). Obtém-se essa vazão in loco, por meio de diversos métodos, desde a medição tradicional, com molinetes, até a medição acústica, com Figura 8.10 - Cotagrama da estação fluviométrica Tarauacá no rio equipamentos modernos que medem a vazão através Tarauacá (1984 e 2012). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. de ondas sonoras. Com as informações sobre a vazão em determinada seção de medição, torna-se possível a 1985 e 2012. É nítida a diferença de cotas entre esses dois construção da curva-chave do rio – um gráfico no qual se anos: 1,46 m entre os picos da cheia e 2,38 m entre os níveis relacionam as cotas com as vazões do rio, o que permite mínimos. Ressalta-se o decurso de 27 anos, durante os quais prever o comportamento do curso d’água. No estudo das a maior cheia jamais fora superada, reforçando a afirmativa vazões, verificam-se as vazões mínimas, máximas e médias de que o ano de 2012 foi um ano atipicamente caudaloso nos de curto e longo prazo. rios do estado do Acre. A cota máxima histórica, portanto, As vazões médias de longo período nas estações foi atingida em janeiro de 2012, com 10,42 m. fluviométricas selecionadas, variando o ano de análise de Na Estação Cruzeiro do Sul (Figura 8.11) apresenta- acordo com a disponibilidade de dados, são apresentadas -se o comparativo da variação dos níveis do rio Juruá nos no Quadro 8.3. Quadro 8.3 - Vazões médias de longo período em estações fluviométricas do Acre. Estação Rio Vazão Média de Longo 3 Ano Código Nome Período (m /s) 12500000 Cruzeiro do Sul Juruá 592 2010 12600001 Tarauacá-Jusante Tarauacá 598 2009 13180000 Manoel Urbano Purus 942 2007 13310000 Sena Madureira Iaco 339 2010 13600002 Rio Branco Acre 321 2010 15324000 Plácido de Castro Abunã 115 2010 Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 124 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS PRINCIPAIS USOS DOS RECURSOS HÍDRICOS Irrigação SUPERFICIAIS Segundo diagnóstico da Agência Nacional de Águas Em conformidade com a Política Nacional de Recursos (ANA), considerando o uso consuntivo de recursos hídri- Hídricos, a água é um bem de domínio público, limitado cos, a irrigação apresenta a maior vazão de retirada no e dotado de valor econômico. Além disso, é vulnerável e país, atingindo 54% do total, seguida pela demanda de essencial para a conservação da vida e do meio ambiente. abastecimento humano urbano com 22%. Estima-se que Nesse sentido, o uso racional desse recurso é fundamental a área irrigável no Brasil seja da ordem de 29,6 milhões de para atender à demanda atual e às gerações futuras. Esse hectares (ANA, 2012). uso pode ser mais ou menos consuntivo, dependendo de Na Região Norte do país nota-se, cada vez mais, a cada região, podendo resultar em perda elevada, média importância da aplicação da tecnologia na agricultura. ou reduzida de água. A perda é a diferença entre o volume Com a modernização das atividades agrícolas, cresce de água retirado do corpo d’água para ser utilizado e o a busca por ferramentas que promovam o aumento volume devolvido, ao final do uso, ao mesmo corpo d’água. de produtividade, estando a irrigação dentre elas. No A demanda atual por água superficial no estado do estado do Acre, o volume de retirada de água anual- Acre é apresentada no Quadro 8.4. Comprova-se que o mente para esse fim representa 12% do total estimado, maior consumo hídrico corresponde ao uso animal, repre- com maior consumo nas bacias dos rios Purus e Iaco, sentando 43% do volume de retirada. com 21%. Quadro 8.4 - Uso consuntivo dos recursos hídricos superficiais no estado do Acre. Retirada Consumo Retorno Uso Q (1.000 Q (m3/s) Q (1.000 Q (m3/s) Q (1.000 m3/ano) m3/ano) m3/ano) Q (m 3/s) Urbano 39.662 1,2577 11.400 0,3615 28.262 0,8962 Rural 4.362 0,1383 2.908 0,0922 1.454 0,0461 Industrial 5.360 0,1700 1.072 0,034 4.288 0,136 Irrigação 13.439 0,4261 7.298 0,2314 6.141 0,1947 Animal 46.783 1,4835 37.426 1,1868 9.357 0,2967 Total 109.606 3,4756 60.104 1,9059 49.502 1,5697 Fonte: ACRE, 2012. Abastecimento Navegação O Brasil é um dos países com maior reserva de recursos O Brasil é um país que possui enorme quantidade de hídricos superficiais do planeta. No entanto, devido à gran- rios. Cortando vários estados e regiões, eles servem como de variabilidade climática, a distribuição desses recursos fonte de renda e alimentação para ribeirinhos, ponto de é bastante desigual. Na região hidrográfica amazônica, a turismo para brasileiros e estrangeiros e, principalmente, disponibilidade hídrica alcança vazões da ordem de 74 mil meio de transporte. m3/s, enquanto na região do Atlântico Nordeste-Ocidental Na Bacia Amazônica, a rede hidroviária possui uma esses valores não ultrapassam 100 m3/s (ANA, 2010). extensão de 18.300 km, representando 48% do total da Apesar de toda a riqueza hídrica, a sazonalidade das rede hidroviária do Brasil. Os principais rios navegáveis bacias amazônicas, em particular nas bacias do estado são Amazonas, Solimões, Negro, Branco, Madeira, Purus do Acre, implica famílias desalojadas em épocas de cheia e Tapajós (ANTAQ, 2006). e falta de suprimento público de água durante as secas No estado do Acre, os rios são navegáveis em épocas (DUARTE, 2011). Dos 22 municípios do estado, 16 são abas- de águas médias e altas, quando o calado pode variar desde tecidos por mananciais superficiais, quatro por mananciais mais de 1 m até pouco mais de 14 m em alguns casos. Tal subterrâneos e dois por sistema misto; entretanto, apenas fato implica a redução da capacidade de transporte de carga 20% do abastecimento total é considerado satisfatório, na época de águas médias, enquanto na época de águas enquanto 65% requerem ampliação do sistema. Cerca de baixas os rios são navegáveis apenas por embarcações com 53,7% da população do estado é atendida com rede de capacidade menor ou igual a 10 t. Uma vez que o custo água, com um consumo médio per capita de 148 l/hab./ financeiro e ambiental para a construção de novas estradas dia, constituindo-se no segundo estado da Região Norte é alto, a pressão pela preservação das florestas é crescente, com maior consumo (BRASIL, 2012). o Acre dependerá, ainda por muito tempo, da navegação 125 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE hidroviária para escoamento de parte da produção. Embora mentos impactantes e avaliação da qualidade do ambiente não existam hidrovias formalizadas pela Marinha do Brasil, como um todo (MAGALHÃES JUNIOR, 2000). nos rios de maior porte, em particular em áreas sem acesso A partir da promulgação da Lei nº 9.433/1997, que contínuo por estradas a partir de Rio Branco, tais como instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos e criou o Feijó, Cruzeiro do Sul, Santa Rosa do Purus e Tarauacá, a Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos Hídricos, o navegação comercial é de grande importância (ACRE, 2012). monitoramento passou a ser considerado um processo essen- cial à implementação dos instrumentos de gestão das águas. Setor Industrial Rede Hidrometeorológica Nacional Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Acre (FIEAC), o setor industrial é composto de, aproximadamente, No estado do Acre, a Agência Nacional de Águas (ANA) 40 tipos de atividades. Dentre estas, 35% demandam o uso coordena a Rede Hidrometeorológica Nacional (Quadro 8.5), direto da água, tais como: produção de alimentos e bebidas, composta por estações pluviométricas (medem a quanti- construção civil, panificação, cerâmica e edificação (ACRE, dade diária de chuva), pluviográficas (medem e registram a 2012). Portanto, esse setor da economia deverá sempre estar quantidade e a duração da chuva) e fluviométricas (medem atento à utilização racional desse precioso recurso natural. o nível diário dos rios em determinada seção de controle com réguas linimétricas). Além desse monitoramento, ain- REDE DE MONITORAMENTO HIDROLÓGICO da são realizadas: medição de vazão (volume de água que passa em determinada seção do rio por unidade de tempo), O monitoramento das águas pode ser definido como o sedimentometria (quantidade de sedimentos em suspensão acompanhamento contínuo dos aspectos quantitativos e/ou em determinada seção de controle), avaliação da qualidade qualitativos das águas, envolvendo uma gama de aspectos da água (determinação da qualidade da água por meio de de interesse, tais como dados quantitativos, fontes e ele- parâmetros de qualidade). Algumas dessas estações operam Quadro 8.5 - Rede de estações de monitoramento da Agência Nacional de Águas no Acre. Estação Responsável Latitude Longitude Tipo Código Nome ANA Fluviométrica 12370000 Thaumaturgo - 08:56:04 - 072:47:21 ANA Fluviométrica 12420000 Base São Salvador - 07:29:00 - 073:01:00 ANA Fluviométrica 12600001 Tarauacá – Jusante - 08:08:45 - 070:42:55 ANA Fluviométrica 12560000 Seringal São Luiz - 08:37:05 - 071:33:06 ANA Fluviométrica 12360000 Foz do Breu - 09:24:35 - 072:42:57 ANA Fluviométrica 12530000 Fazenda Paranacre - 07:57:04 - 71:28:56 ANA Fluviométrica 12400000 Serra do Moa - 07:26:48 - 73:39:52 ANA Fluviométrica 12510000 Seringal Bom Futuro - 07:50:57 - 72:03:17 ANA Fluviométrica 12500000 Cruzeiro do Sul - 07:37:59 - 72:39:42 ANA Fluviométrica 12640000 Seringal Santa Helena - 08:41:09 - 70:33:04 ANA Fluviométrica 12390000 Porto Walter - 08:16:02 - 72:44:28 ANA Fluviométrica 12650000 Feijó - 08:09:49 - 70:21:23 ANA Pluviométrica 872001 Porto Walter - 08:16:03 - 72:44:04 INMET Pluviométrica 772000 Cruzeiro do Sul - 07:36:40 - 72:40:52 ANA Pluviométrica 873001 Fazenda Monte Cristo - 08:14:06 - 73:18:02 INMET Pluviométrica 870000 Tarauacá (SEABRA) - 08:10:00 - 70:46:00 ANA Pluviométrica 871001 Seringal São Luiz - 08:39:05 - 71:34:06 ANA Pluviométrica 773001 Seringal Belo Monte - 07:23:08 - 73:05:06 ANA Pluviométrica 772001 Colocação São Francisco - 08:01:04 - 72:02:05 ANA Pluviométrica 773002 Base São Salvador - 07:29:00 - 73:01:00 ANA Pluviométrica 972000 Foz do Breu - 09:24:06 - 72:42:09 ANA Pluviométrica 870001 Tarauacá – Jusante - 08:10:00 - 70:43:00 ANA Pluviométrica 870002 Feijó - 08:09:49 - 70:21:23 126 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS Quadro 8.5 - Rede de estações de monitoramento da Agência Nacional de Águas no Acre. (continuação) Estação Responsável Latitude Longitude Tipo Código Nome ANA Pluviométrica 772004 Cruzeiro do Sul - 07:38:50 - 72:40:37 ANA Pluviométrica 772003 Seringal Bom Futuro - 07:51:01 - 72:01:09 ANA Pluviométrica 872000 Thaumaturgo - 08:56:07 - 72:47:06 ANA Pluviométrica 870003 Seringal Santa Helena - 08:41:09 - 70:33:04 ANA Pluviométrica 771001 Fazenda Paranacre - 07:57:04 - 71:28:56 ANA Pluviométrica 773000 Serra do Moa - 07:26:08 - 73:39:08 ANA Fluviométrica 13580000 Fazenda Santo Afonso - 10:05:27 - 67:54:02 ANA Fluviométrica 13600002 Rio Branco - 09:58:30 - 67:48:03 ANA Fluviométrica 13180000 Manoel Urbano - 08:53:03 - 69:16:05 ANA Fluviométrica 13470000 Brasileia - 10:59:59 - 68:45:42 ANA Fluviométrica 13450000 Assis Brasil - 10:56:37 - 69:33:56 ANA Fluviométrica 13300000 Seringal São José - 09:22:28 - 68:43:26 UFAC Fluviométrica 13610000 Porto Acre - 09:35:26 - 67:31:56 ANA Fluviométrica 13405000 Seringal Guarany - 09:06:37 - 68:59:36 ANA Fluviométrica 13550000 Xapuri - 10:39:05 - 68:30:22 ANA Fluviométrica 13310000 Sena Madureira - 09:04:04 - 68:39:11 ANA Pluviométrica 1069000 Assis Brasil - 10:56:00 - 69:34:00 ANA Pluviométrica 968004 Fazenda Canari - 09:34:00 - 68:17:00 ANA Pluviométrica 1067001 Fazenda Santo Afonso - 10:04:00 - 67:56:00 ANA Pluviométrica 969001 Seringal Guarany - 09:06:37 - 68:59:36 INMET Pluviométrica 1168000 Brasileia - 11:01:24 - 68:44:06 EMBRAPA Pluviométrica 967006 Rio Branco – UEPAE - 09:58:00 - 67:49:00 DEPV Pluviométrica 967002 Rio Branco (SBRB) - 09:59:00 - 67:47:00 ANA Pluviométrica 1168001 Brasileia - 11:01:24 - 68:44:06 ANA Pluviométrica 967005 Santa Rosa - 09:53:17 - 67:28:01 ANA Pluviométrica 1068000 Xapuri - 10:38:59 - 68:30:24 ANA Pluviométrica 869000 Manoel Urbano - 08:53:03 - 69:16:05 ANA Pluviométrica 968003 Seringal São José - 09:22:28 - 68:43:26 INMET Pluviométrica 967000 Rio Branco - 09:58:33 - 67:48:00 ANA Pluviométrica 968005 Sena Madureira - 09:03:57 - 68:39:35 ANA Pluviométrica 967003 Rio Branco - 09:59:00 - 67:47:00 ANA Fluviométrica 15324000 Plácido de Castro - 10:20:14 - 67:10:59 Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Nota: ANA – Agência Nacional de Águas; INMET – Instituto Nacional de Meteorologia; UFAC – Universidade Federal do Acre; EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária; DEPV – Diretoria de Eletrônica e Proteção ao Voo; UEPAE – Unidade de Execução de Pesquisa de Âmbito Estadual; SBRB – América do Sul, Brasil, Rio Branco. com instrumentos modernos, como a plataforma de coleta das águas superficiais no Brasil. Tem como objetivo orientar de dados (PCD), um equipamento automático que pode a elaboração de políticas públicas para recuperação da substituir alguns dos anteriormente mencionados e que qualidade ambiental em corpos d’agua interiores como transmite os dados por satélite ou via celular em tempo real. rios e reservatórios, contribuindo, assim, com a gestão sustentável dos recursos hídricos. Rede Nacional de Qualidade de Água Entretanto, nem todos os estados brasileiros monito- ram a qualidade de suas águas, seja pelos elevados custos O Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das da logística envolvida, seja pela ausência de pessoal capa- Águas (PNQA), lançado pela Agência Nacional de Águas citado para a tarefa, o que resulta em verdadeiros vazios (ANA), visa a ampliar o conhecimento sobre a qualidade no monitoramento (Figura 8.12) (ANA, 2005). 127 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Ressalta-se a importância da rede de monitoramento, uma vez que os dados apresentados no diagnóstico para compor o PLERH-AC mostraram que a maioria dos mu- nicípios pesquisados apresentou problemas com a qualidade das águas superficiais, com destaque para os municípios mais populosos, nos quais o lançamento de esgotos domésticos e de resíduos urbanos e industriais ocorre de forma indiscriminada (ACRE, 2012). Sistema de Alerta Hidrológico na Bacia do Rio Acre O Acre, em 2012, vivenciou uma das maiores cheias já registradas nos últimos 15 anos, envolvendo, principalmente, a bacia do rio Acre, situada a sudeste do estado (Figura 8.13), onde se localiza a capital, Rio Branco, Figura 8.12 - Densidades das redes estaduais de monitoramento de qualidade uma das cidades mais atingidas pela enchente. das águas. Fonte: ANA, 2005. A área urbana do município de Brasileia ficou cerca de 90% submersa, segundo informações da Defesa Nesse sentido, a Rede Nacional de Qualidade de Civil estadual (2012). O nível do rio Acre registrou, em fe- Água (RNQA) é uma das componentes estruturantes do vereiro desse ano, 3 cm abaixo da marca histórica ocorrida Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das Águas em março de 1997, que foi de 17,66 m. (PNQA), que visa a montar uma rede de caráter nacional. Denomina-se enchente ao processo observado quando Para consecução desse objetivo, equipes da ANA visitaram o volume de água que chega à calha do rio ultrapassa a sua diversas unidades da federação para discutir uma proposta capacidade natural de drenagem, inundando as áreas ribei- unificada de monitoramento de qualidade das águas. O rinhas, chamadas de planícies de inundação. As cheias são Acre foi o 22º estado visitado. ditas naturais quando não há intervenção antrópica que as Figura 8.13: Bacia do rio Acre. Fonte: ANA, 2005. 128 RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS cause ou as intensifique. O rompimento de uma barragem, O sistema consiste de diversas etapas. Em um primeiro por exemplo, poderá causar uma cheia devido à intervenção momento, foram realizadas campanhas de campo para humana, enquanto a construção de casas em áreas de mata reconhecimento da bacia, visita às estações preexistentes, ciliar, juntamente com o aumento na vazão do rio, poderá com verificação da qualidade de seu funcionamento e das causar uma cheia dita natural modificada (YEVJEVICH, 1992). condições dos locais de instalação, tais como características A grande inundação ocorrida no estado do Acre em dos barrancos, navegabilidade do curso d’água, existência 2012 atingiu mais de 120 mil pessoas, deixando 90 mil de moradores locais, informações sobre os níveis mais desabrigados, segundo dados da Defesa Civil estadual baixos e mais altos do rio etc. e reunião com os órgãos (2012). Em muitos bairros da capital Rio Branco, o nível do estaduais de interesse dos recursos hídricos. rio atingiu o telhado das casas, obrigando a população a Após o reconhecimento, foram definidas as coorde- se deslocar em barcos na área urbana do município (Figura nadas geográficas das novas estações e confirmadas as 8.14). Outro local muito prejudicado foi a cidade de Xapuri, das estações preexistentes, produzido o mapa da rede de também localizada às margens do rio Acre, onde a marca monitoramento específica ao sistema de alerta e realizados de cheia atingiu 15,55 m em fevereiro de 2012, estando estudos da série histórica de dados fluviométricos e plu- sua cota de transbordamento em 13,40 m (Figura 8.15). viométricos constantes da bacia do rio Acre. Em seguida, Em decorrência desse desastre, o Governo Federal, ocorreram as campanhas para a recuperação das estações por intermédio da CPRM/SGB, está desenvolvendo, desde fluviométricas já existentes, com pintura, reforço de finca- maio de 2013, o Projeto Sistema de Alerta Hidrológico na mento e nivelamento topográfico das réguas linimétricas. Bacia do Rio Acre. Com esse projeto, tem-se como objetivo As etapas posteriores consistiram de novas campa- o melhoramento e a ampliação da rede hidrometeorológica nhas para instalação de plataformas de coleta de dados da bacia do rio Acre, a qual fará parte de um sistema de (PCD), que são estações automáticas que medem o nível previsão hidrológica para atendimento à população, que do rio, altura pluviométrica, umidade e temperatura do ar. terá tempo para se deslocar antes da inundação. A transmissão dos dados é feita em tempo real para uma sala de controle equipada para essa finalidade. Paralelamente a esse trabalho, está se procedendo à conclusão dos estudos da série histórica, consistência e análise estatística dos dados, definição de curvas-chave (cota x vazão) mais confiáveis e o desenvolvimento de modelagem capaz de prever a ocorrência de inundações com antecedência satis- fatória para a mobilização da população que seria atingida. A equipe de escritório do sistema de alerta deverá receber os dados dos observadores, das equipes de cam- po e diretamente das estações automáticas via satélite ou celular. Essa mesma equipe será responsável pela emissão de boletins hidrológicos diários e mensais, repassando-os às defesas civis, corpo de bombeiros, polícia militar e demais órgãos responsáveis por transmitir as informações à popu- Figura 8.14 - Cheia no município de Rio Branco. lação. Ressalta-se que esse projeto é contínuo e espera-se Fonte: FOLHA DE S.PAULO, 2012. que o sistema de alerta de cheias esteja permanentemente em funcionamento no período chuvoso, de outubro a abril, como forma de mitigação dos impactos negativos causados pelas enchentes à população acreana. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo foram apresentadas algumas das características das seis principais sub-bacias hidrográficas do estado do Acre: Juruá, Tarauacá-Envira-Jurupari, Pu- rus, Iaco, Acre-Iquiri e Abunã. Inicialmente, informações descritivas foram capazes de localizar essas bacias no es- paço geográfico e fornecer as características hidrológicas concernentes ao escopo do presente trabalho, tais como direção de escoamento dos cursos d’água principais, índices pluviométricos, períodos secos e chuvosos. Figura 8.15 - Marca de cheia no rio Acre, em Xapuri. Posteriormente, foram fornecidos os dados fluviomé- Fotografia: Defesa Civil do Estado do Acre, 2012. tricos essenciais ao monitoramento hidrometeorológico, 129 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE quais sejam: as cotas históricas mínimas e máximas; as ANTAQ. Ministério dos Transportes. Transporte vazões históricas mínimas e máximas; as vazões médias de aquaviário no Brasil. Brasília, DF: ANTAQ, 2006. longo período e o uso preponderante dos recursos hídricos, na forma de cotagramas e quadros. BRASIL. Ministério das Cidades. Secretaria Nacional Na sequência, foi exposta uma análise descritiva dos de Saneamento Ambiental. Sistema Nacional de seguintes programas e projetos desenvolvidos pelo setor Informações sobre Saneamento: diagnóstico de Hidrologia do Serviço Geológico do Brasil em parceria dos serviços de água e esgoto – 2010. Brasília, DF: com outras entidades, referentes às estações hidrológicas MCIDADES/SNSA, 2012. do estado do Acre: Rede Hidrometeorológica Nacional; Rede Nacional de Qualidade de Água e Sistema de Alerta CPRM. Atlas pluviométrico do Brasil. Brasília, DF: Hidrológico na Bacia do Rio Acre. CPRM, 2011. Versão 2.0 atualizada. Programa Geologia De acordo com o estudo apresentado, conclui-se que do Brasil. o período seco das bacias hidrográficas do Acre limita-se de maio a outubro. Já o período chuvoso está compreendido DEFESA CIVIL. Boletins diários. Rio Branco, 2012. de novembro a abril, período no qual, no ano de 2012, vá- Disponível em: . rios municípios do estado sofreram as maiores enchentes já Acesso em: 10 abr. 2014. registradas, causando inúmeros prejuízos socioeconômicos e ambientais, como deslizamento de encostas, proliferação DUARTE, A.F. As chuvas e as vazões na bacia hidrográfica de doenças de veiculação hídrica, dentre outros. Para aten- do rio Acre, Amazônia ocidental: caracterização e dimento à população nesse sentido, dentre outras medidas implicações socioeconômicas e ambientais. Amazônia: estruturais e não estruturais, tem-se o Sistema de Alerta Ciência & Desenvolvimento, Belém, v. 6, n. 12, p. Hidrológico na Bacia do Rio Acre. 162-183, jan./jun. 2011. Atendo-se especificamente à estação fluviométrica da capital acreana, Rio Branco, foi possível verificar que FOLHA DE S.PAULO. Meteorologistas preveem que o ano de 2011 foi o mais seco e o de 2012, o mais cheio. nível do rio Acre bata recorde. São Paulo, 27 fev. 2012. Essa extrema mudança de comportamento do curso d’água Cotidiano. Disponível em: . Acesso em: 17 do papel da Hidrologia para o desenvolvimento econômico set. 2012. sustentável mundial. MAGALHÃES JUNIOR, A.P. A situação do monitoramento REFERÊNCIAS das águas no Brasil: instituições e iniciativas. Revista Brasileira de Recursos Hídricos, Porto Alegre, v. 5, n. ACRE. Governo do Estado do Acre. Programa Estadual de 3, p. 113-135, jul./set. 2000. Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. Zoneamento ecológico-econômico do Acre fase NASCIMENTO, J.A.S. do. Vulnerabilidade a eventos II: documento síntese – escala 1:250.000. Rio Branco: climáticos extremos na Amazônia Ocidental: uma SEMA, 2006. 354 p. visão integrada na bacia do rio Acre. Rio de Janeiro: UFRJ/COPPE, 2011. 285 p. il. ACRE. Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Plano estadual de recursos hídricos do Acre. Rio Branco: PETCON. Elaboração de estudos de transporte e SEMA, 2012. 243 p. fluxo de cargas dos rios Purus e Acre: período de agosto a dezembro de 2002. Brasília, DF: PETCON, 2002. ANA. Ministério do Meio Ambiente. Atlas Brasil: abastecimento urbano de água: panorama nacional. SOUSA JUNIOR, W.C. et al. Gestão das águas na Brasília, DF: ANA: Engecorps/Cobrape, 2010. Amazônia: a bacia do rio Purus. In: WORKSHOP GESTÃO ESTRATÉGICA DE RECURSOS HÍDRICOS, 1., 2006, ANA. Ministério do Meio Ambiente. Conjuntura dos recursos hídricos no Brasil: informe 2012. Edição Brasília, DF. Anais... Brasília, DF: ABRH, 2006. Especial. Brasília, DF: ANA, 2012. YEVJEVICH, V. Flood and society. In: ROSSI, G.; ANA. Ministério do Meio Ambiente. HidroWeb: sistema HARMANCIOGLU, N.; YEVJEVICH, V. (Ed.). Coping de informações hidrológicas, ano 2005. Disponível em: with floods. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, . Acesso em: 10 abr. 2012. 1992. p. 3-9. 130 9 RISCOS GEOLÓGICOS Ivan Bispo de Oliveira Filho (ivan.filho@cprm.gov.br) Amilcar Adamy (amilcar.adamy@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Introdução .........................................................................................................133 Riscos Geológicos ..............................................................................................134 Riscos Geológicos Endógenos .........................................................................134 Sismos ..........................................................................................................134 Riscos Geológicos Exógenos ...........................................................................135 Movimentos de massa .................................................................................135 Erosão ..........................................................................................................138 Erosão fluvial ............................................................................................138 Erosão pluvial ...........................................................................................140 Riscos Hidrológicos ............................................................................................141 Inundações e Enchentes ..................................................................................141 Referências .........................................................................................................143 RISCOS GEOLÓGICOS INTRODUÇÃO de acidente geológico e C corresponde às consequências quantificáveis desse acidente. Nas últimas décadas, tendo em vista o crescimento A evolução do conhecimento conduziu a uma melhor acelerado das cidades brasileiras, a expansão urbana tem abordagem dos efeitos associados aos riscos geológicos, avançado sobre regiões inadequadas para esse tipo de uso destacando-se os conceitos estabelecidos por Varnes do solo. Constatam-se, por exemplo, a ocupação de áreas (1978), caracterizando termos usualmente aceitos no meio de várzeas, locais com elevadas declividades ou sujeitos a técnico, tais como processo geológico, evento geológico, processos erosivos, e a implantação de loteamentos em perigo geológico, risco geológico e acidente geológico. Os zonas de solos expansivos ou com baixa capacidade de termos “perigo” e “risco” são intrinsecamente relaciona- carga. dos, cujo significado, independentemente de divergências Nos casos em que são desprezadas as condições conceituais, é fundamental para a prevenção de desastres do meio físico, a população vê-se sujeita à ocorrência de naturais. eventos catastróficos, tais como inundações, deslizamen- A percepção de situações em que as populações es- tos de terra, perdas do solo e de equipamentos urbanos, tejam expostas a algum risco ambiental levará ao estudo processos erosivos intensos etc. São situações que caracte- desses riscos e suas consequências, o que se denomina rizam as chamadas áreas de risco (ZUQUETE, 1994), onde análise de risco, definida por Alheiros (1998) como o esforço a ocorrência de fenômenos físicos de ordem natural ou técnico para caracterização e dimensionamento do proble- provocados pelo homem acarretam perdas econômicas, ma, identificando a natureza do perigo, sua probabilidade sociais e ambientais que ultrapassam um valor considerado de ocorrência e as perdas associadas. normal ou aceitável. Todos os anos, diversos munícipios acreanos sofrem Cerri (1990) define risco geológico como uma situação com problemas de enchentes, inundações e movimentos de perigo, perda ou dano, ao homem e a suas proprieda- de massa (Figura 9.1). Isso se deve ao fato de a maioria des, devido à possibilidade da ocorrência de processos das cidades acreanas estar localizada às margens de rios. geológicos, sejam eles induzidos ou não. Mesmo hoje, com a Rodovia BR-364 quase totalmente pa- Por definição, só há risco geológico quando é possível vimentada, ligando os extremos do estado, os rios acreanos a identificação de consequências sociais e econômicas dire- ainda constituem as principais vias de deslocamento e têm tamente relacionadas a determinada condição ou processo grande importância no desenvolvimento econômico do geológico, sendo usualmente representado pela expressão: estado, promovendo a interação das cidades localizadas R = P x C, onde P corresponde ao potencial de ocorrência ao sul com as cidades situadas ao norte. Figura 9.1 - Principais tipos de riscos identificados nos municípios do estado do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 133 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE RISCOS GEOLÓGICOS No Acre são comuns os abalos sísmicos, principal- mente nas regiões mais a oeste do estado. Embora esses Os riscos geológicos são classificados em endógenos abalos sejam menos frequentes e menos intensos do que e exógenos. em regiões de contatos de placas tectônicas, não devem ser ignorados, pois já foram registrados diversos tremo- Riscos Geológicos Endógenos res com magnitude acima de 5,0 graus na Escala Richter (Quadro 9.1). Os riscos geológicos endógenos estão relacionados à A maioria dos sismos registrados no estado do Acre energia gerada no interior da Terra e dela proveniente, tais tem seu epicentro localizado no Peru, a centenas de qui- como sismos (ou terremotos), vulcões e tsunamis. lômetros de profundidade. Segundo o especialista George Sand França, do Observatório Sismológico da Universidade Sismos de Brasília (UnB), “anualmente, o Acre é atingido por pelo menos um terremoto de forte magnitude” (BARBOSA, Os sismos (ou terremotos) são movimentos bruscos 2011) (Figura 9.3). provocados pelo deslocamento das placas tectônicas – blocos rochosos de grandes dimensões que formam Quadro 9.1 - Registro de ocorrências de sismos no estado do Acre. a crosta terrestre –, que liberam grande quantidade de energia acumulada na crosta. No encontro de duas placas Intensidade na Município Data de Escala Richter são formadas zonas de fraqueza, as quais servirão como Ocorrência (Grau) pontos de escape dessas tensões. Essas zonas, ou falhas, Xapuri 09.04.1928 6,9 podem atingir 50 a 70 km em profundidade e centenas de quilômetros de comprimento (PFALTZGRAFF et al., 2008). Rio Branco 02.06.1929 6,9 A determinação da quantidade de energia liberada no Cruzeiro do Sul 02.07.1931 6,2 foco do sismo é estabelecida por uma escala de magnitude en- Cruzeiro do Sul 01.11.1947 7,3 tre 1 a 9 (Escala Richter), enquanto a intensidade, relacionada Xapuri 01.11.1948 7,3 aos danos provocados na superfície do terreno, é determinada Acre 12.05.1960 4,9 pela Escala de Mercalli Modificada de 1 a 12 (Figura 9.2). Oeste do Acre 26.06.1965 4,5 Acre 16.02.1967 6,8 Acre 12.05.1967 4,4 Acre 09.08.1967 5,1 Oeste do Acre 27.08.1968 4,9 Serra do Divisor 29.03.1970 4,3 Cruzeiro do Sul 03.12.1989 5,9 Cruzeiro do Sul 08.09.1990 4,0 Peru-Acre 06.10.1991 5,4 Mâncio Lima 07.05.1998 3,7 Cruzeiro do Sul 01.11.2000 5,8 Cruzeiro do Sul 01.11.2000 5,2 Guanabara 02.10.2002 4,0 Acre 12.10.2002 6,4 Rio Branco 27.04.2003 5,6 Acre 08.07.2003 5,1 Acre 24.12.2003 4,1 Peru-Acre 06.07.2004 4,0 Cruzeiro do Sul 17.12.2010 5,0 Cruzeiro do Sul 25.04.2010 4,9 Cruzeiro do Sul 24.05.2010 6,5 Tarauacá 30.10.2010 4,7 Tarauacá 17.12.2010 5,0 Santa Rosa do Purus 14.06.2011 4,3 Figura 9.2 - Comparação entre as escalas de Mercalli e Richter. Fonte: Departamento de Geodésia da UFRGS. Fonte: CORREA, 2010. 134 RISCOS GEOLÓGICOS Figura 9.3 - Localização dos sismos registrados no estado do Acre. Fonte: CORREA, 2010. Embora não seja alarmante, o nível de sismicidade no As classificações mais detalhadas de movimentos de estado precisa ser considerado em determinados projetos massa consideram a cinemática do movimento (relação de engenharia, como centrais nucleares, barragens e outras entre massa de material mobilizado e material estável, construções de grande porte. velocidade e direção de deslocamento), o tipo de material (estrutura, textura e conteúdo de água) e a geometria (ta- Riscos Geológicos Exógenos manho e forma de material mobilizado) (AUGUSTO FILHO, 1992; CHORLEY; SCHUMM; SUGDEN, 1984) (Quadro 9.2). Os riscos geológicos exógenos resultam de energias A classificação dos movimentos de massa tem grande geradas normalmente na superfície do planeta. Dentre eles, importância, sob o ponto de vista da aplicação, pois gera registram-se: deslizamentos, erosão, subsidências, solos a possibilidade de associar cada tipo de movimento a um colapsáveis ou expansíveis e ação dos ventos (PFALTZGRAFF conjunto de características (profundidade, material mo- et al., 2008). bilizado, raio de alcance, poder destrutivo etc.) que, em conjunto com o entendimento dos condicionantes, permite Movimentos de massa formular modelos para orientar a proposição de medidas preventivas e corretivas. Os movimentos de massa são processos dinâmicos que ocorrem, em geral, em vertentes, e podem ser desenca- Quadro 9.2 - Classificação de movimentos gravitacionais de massa. deados pela interação entre diferentes fatores endógenos, tais como tipo de solo, de rocha ou de forma do terreno, Características Intensidade na e fatores exógenos, como variáveis climáticas, fatores an- Processo de Movimento, Escala Richter trópicos, entre outros. Os movimentos provenientes dessas Geometria e Material (Grau) interações correspondem ao desprendimento e transporte Vários planos de de solo e/ou material rochoso vertente abaixo, devido a 6,9 deslocamento (internos). instabilidade condicionada pela gravidade, que pode ser Velocidades muito baixas intensificada pela ação de outros agentes, tais como água a baixas e decrescentes 6,9 ou vento (CHORLEY; SCHUMM; SUGDEN, 1984; FERNAN- com a profundidade. DES; AMARAL, 1996; SESTINI, 1999). Movimentos Apesar de também ser considerados processos erosi- Rastejos ou constantes, sazonais ou 6,2 creeps vos, por apresentarem em seu ciclo desgaste, transporte intermitentes. e acumulação, os movimentos de massas como quedas de Material constituinte: blocos e deslizamentos de terras são abordados de maneira solo, depósitos, rocha 7,3 distinta das erosões hídricas plúvio-fluviais, pois contêm a alterada ou fraturada. componente gravidade como um dos principais agentes Geometria indefinida. 7,3 condicionantes. 135 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 9.2 - Classificação de movimentos gravitacionais de No estado do Acre, os principais tipos de movimentos massa.(continuação) de massa são deslizamentos e rastejos, principalmente nas vertentes do rio Acre em Rio Branco e Epitaciolândia. Embora Poucos planos de 4,9 haja suscetibilidade à ocorrência de quedas de blocos nas deslocamento (externos). unidades litológicas de idades cretáceas que compõem a serra Velocidades médias a altas. 4,5 do Divisor, no extremo oeste do estado, estas não constituem risco, por se situarem em área de preservação ambiental (Par- Pequenos a grandes que Nacional da Serra do Divisor), sem ocupação na região. 6,8 volumes de material. Um dos principais fatores condicionantes de movi- Geometria e material mentos de massa no estado do Acre está relacionado à 4,4 variável. sua constituição litológica. Por sua natureza geológica de origem continental lacustre, os terrenos resultam em Escorregamentos Tipos: 5,1 materiais superficiais, principalmente os solos, de compo- ou slides sição predominantemente argilosa. Em diversos pontos do (a) planares ou translacionais: solos pouco estado essas argilas possuem características expansivas, 4,9 espessos, solos e rochas podendo se constituir em grande risco às ocupações de com um plano de fraqueza; vertentes com declividades acentuadas, por gerarem danos (b) circulares ou rotacionais: estruturais em obras de engenharia e infraestrutura e em solos espessos, homogêneos 4,3 vias públicas (Figuras 9.4 e 9.5). e rochas muito fraturadas; (c) em cunha: solos e rochas com dois planos de 5,9 fraqueza. Sem planos de 4,0 deslocamento. Movimentos do tipo queda 5,4 livre ou em plano inclinado. Velocidades muito altas. 3,7 Quedas ou falls Material rochoso. 5,8 Pequenos a médios 5,2 volumes. Geometria variável: lascas, 4,0 placas, blocos, etc. Figura 9.4 - Postes inclinados, indicadores de rastejos Rolamento de matacão e (Estação de Tratamento de Água (ETA) de Rio Branco). 6,4 tombamento. Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. Muitas superfícies de deslocamento (internas 5,6 e externas à massa em movimentação). Movimento semelhante ao 5,1 de um líquido viscoso. Desenvolvimento ao longo 4,1 das drenagens. Corridas ou flows Velocidades médias a altas. 4,0 Mobilização de solo, rochas, 5,0 detritos e água. Grandes volumes de 4,9 material. Extenso raio de alcance, 6,5 mesmo em áreas planas. Figura 9.5 - Deformação de calçamento em vias públicas Fonte: Modificado de AUGUSTO FILHO, 1992. (Marechal Thaumaturgo). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. 136 RISCOS GEOLÓGICOS Os solos argilosos plásticos e expansíveis apresentam como a execução de cortes verticalizados na encosta para alterações de volume, contraindo-se no período seco e aplainamento e ganho de terreno, gerando instabilidade expandindo-se na época chuvosa, o que acarreta o sur- e constituindo riscos aos moradores do local, principal- gimento de trincas em sua superfície e aumento de sua mente onde há associação dos fatores citados com argila permeabilidade (Figuras 9.6 e 9.7). expansiva, como é o caso das vertentes do rio Acre, em O relevo no estado do Acre, apesar de não possuir Rio Branco (Figura 9.9). grandes variações de amplitude, exceto na região da serra Nessa região, a gravidade, aliada à declividade e às do Divisor, apresenta, em algumas regiões, um grau maior argilas expansivas, provoca rastejos na meia-encosta, bem de dissecação, expondo vertentes com declividades mais como deslizamentos abruptos no topo e na base das colinas acentuadas. Com o crescimento de cidades como Santa (OLIVEIRA; FERREIRA, 2006). Rosa do Purus, Marechal Thaumaturgo, Cruzeiro do Sul e Ressalta-se que a erosão fluvial das margens do rio Tarauacá, as ocupações, antes restritas a planícies e terra- Acre e igarapé São Francisco desestabiliza continuamente ços aluvionares das margens dos rios, começam a se fazer a base desses terrenos, iniciando a movimentação de presentes em áreas de relevo mais colinoso (Figura 9.8). massa. Em menor escala, esse fenômeno pode ocorrer A ocupação dessas áreas por moradias, em sua maio- devido aos taludes de corte feitos para abertura de ruas ria de baixo padrão construtivo, promove a remoção da e construção de moradias na base ou na meia-encosta cobertura vegetal, importante para a fixação do solo, bem (Figura 9.10). Figura 9.6 - Fendas provocadas por contração de solo rico em Figura 9.8 - Início de ocupação de encosta instável por moradias argilas expansivas (Vertissolos) (rodovia BR-364, próximo a Sena de baixo padrão construtivo (Marechal Thaumaturgo). Madureira). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. Figura 9.7 - Trincas na superfície (vertente do rio Acre) provocadas Figura 9.9 - Encostas do rio Acre em processo de rastejo por rastejo do solo (ETA de Rio Branco). (bairros Papoco e Preventório, Rio Branco). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. 137 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE porções do solo das margens dos rios, provocando o des- moronamento de barrancos e alterando a forma dos rios ao longo dos anos. Em função das variações da energia de um rio desde sua nascente até a sua foz, pode-se dividir o comporta- mento de um rio em três fases distintas. Em uma fase inicial, o processo de desgaste ocorre com maior intensi- dade favorecido pela maior declividade do terreno. Na fase mais avançada ou mediana, também ocorrem processos de desgaste das margens e acumulação de sedimentos mais grosseiros, porém, com a diminuição da declividade, as águas perdem força e a sua capacidade de transporte tende a diminuir, predominando o transporte de sedi- Figura 9.10 - Perfil esquemático de movimentação de massa mentos mais finos. Nessas regiões formam-se grandes (bairros Papoco e Preventório, Rio Branco). Fonte: CPRM, 2006. planícies sedimentares, onde o rio descreve amplas curvas Nota: Os deslizamentos de terra ocorrem no topo da encosta, denominadas meandros. Já na fase final, a inclinação do afetando a Rua Rio Grande do Sul, e na base do talude, às margens terreno torna-se quase nula e há muito pouca erosão e do rio Acre; os rastejos ocorrem na porção mediana da encosta; a erosão fluvial na base do talude desencadeia o processo de quase nenhum transporte, predominando a acumulação movimentação de massa. de sedimentos. Os rios que compõem a bacia do rio Acre têm Nas regiões naturalmente mais suscetíveis a processos uma dinâmica geomorfológica muito característica – o de movimentos de massa, a ocupação das encostas deve deslizamento de suas margens –, que está relacionado, ser evitada. Porém, quando isso não for possível, faz-se principalmente, às variações de regime fluvial de cheias necessário que haja um planejamento urbano adequado e vazantes. Esse fenômeno ocorre, comumente, no perí- para ocupação desses terrenos, que deve incluir coleta de odo das vazantes. Quando as águas começam a baixar, águas servidas e de fossas sépticas, ruas planejadas com a pressão hidrostática diminui e a água anteriormente drenagens superficiais bem dimensionadas, captação de retida nos solos das margens é liberada. Com isso, ocorrem águas pluviais, manutenção de cobertura vegetal, não movimentos de massa nas margens do rio, configurando execução de cortes verticalizados na base das encostas, patamares desmoronados, denominados “terras caídas” além de outras medidas estruturais e não estruturais que (Figura 9.11). garantam a estabilidade do ambiente. Segundo Carvalho (2006), a expressão “terras caídas” é um termo regional amazônico, usado, principalmente, Erosão para designar uma erosão fluvial acelerada, que envolve desde processos mais simples a altamente complexos, A erosão é um fenômeno natural que engloba diversos englobando, indiferenciadamente, deslizamentos, desmo- processos, tais como desgaste, transporte e acumulação, ronamentos e desabamentos, que acontecem, às vezes, em que transformam e modelam a superfície terrestre por meio de seus agentes naturais, como chuvas, rios, ventos, gelei- ras e mares (SUGUIO, 2003). Alguns autores interpretam a erosão apenas como um fenômeno natural ou geológico, enquanto outros (BIGARELLA, 2007) entendem que ela pode ser também de origem antrópica, com o processo sendo potencialmente acelerado. Segundo Adamy (2010), a erosão natural refere- -se àquela desenvolvida em condição de equilíbrio com a formação de solo, ou seja, em condições naturais do ambiente, envolvendo menores quantidades de material removido do solo, não sendo perceptível em curto prazo; já a erosão acelerada decorre de alterações antrópicas, com intensidade superior à de formação do solo, com remoção de grande quantidade de material superficial. Erosão fluvial Figura 9.11 - Fenômeno das “terras caídas” em sedimentos inconsolidados dos terraços aluvionares A erosão fluvial tem como agente principal as águas (rio Juruá, próximo ao povoado de Ocidente). dos rios, que provocam desgaste nas encostas e removem Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. 138 RISCOS GEOLÓGICOS escala quase que imperceptível, pontual, recorrente e/ou ca- - pressão hidrodinâmica da água canalizada impri- tastróficas, afetando, em muitos casos, grandes distâncias. mida pela velocidade e por descomunal descarga Apesar de parecer um fenômeno relativamente simples, é fluvial; predominantemente complexo, inter-relacionado, causa- - pressão hidrostática exercida pelo peso e a capa- do por fatores hidrodinâmicos, hidrostáticos, litológicos, cidade de desagregação da água no pacote sedi- climáticos, neotectônicos e, ainda que em menor escala, mentar causada pela ação conjugada da pressão antropogênicos. hidráulica do rio com a água retida pelo transbor- Para Guerra (1993), “terras caídas” é uma deno- damento e pela ação da água precipitada durante minação dada na Região Amazônica ao escavamento as pesadas chuvas; produzido pelas águas dos rios, fazendo com que os - composição do material que constitui as margens barrancos sejam solapados intensamente (Figuras 9.12 dos rios, que, no caso de várzea, é formado, e 9.13), assumindo, por vezes, aspecto impressionante. principalmente, por areia fina inconsolidada, silte Esse autor afirma, ainda, que, em alguns casos, pedaços e argila; consideráveis de terra sofrem deslocamentos como se - fatores estruturais e tectônicos que atuam como fossem ilhas flutuantes. controladores do processo de deposição e erosão; As “terras caídas” nos rios da Amazônia resultam de - fatores climáticos, como vento, temperatura elevada um processo muito mais dinâmico e complexo do que o e chuva torrencial; registrado na literatura, devido à ação conjugada de vários - fatores antropogênicos, como desmatamentos elementos, tais como: das margens e embarcações potentes, que pro- vocam o deslocamento de massa líquida, forman- do pequenas zonas de turbulência (banzeiro), aumentando a capacidade de solapamento das margens. Observam-se, em imagens de satélite, diversos meandros abandonados às margens dos grandes rios do estado, o que evidencia a dinâmica desses rios e as constantes mudanças em suas formas ao longo dos anos (Figura 9.14). A erosão fluvial no estado do Acre atinge diretamen- te um grande número de pessoas. Além de as cheias e vazantes ocorrerem relativamente rápidas, os materiais inconsolidados e semiconsolidados, constituintes dos depósitos aluvionares e da Formação Solimões, aflorantes em quase todo o estado, são bastante suscetíveis a esse tipo de processo, tornando as margens dos rios instáveis e inseguras à ocupação (Figuras 9.15 e 9.16). Figura 9.12 - Deslizamento de encosta (Santa Rosa do Purus). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. Figura 9.13 - Deslizamentos provocados pelo solapamento da base Figura 9.14 - Meandros abandonados dos rios Moa e Juruá da encosta (Jordão). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. (Cruzeiro do Sul). Fonte: Google Earth, 2012. 139 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE a estrutura e a permeabilidade do solo são as característi- cas físicas que mais se relacionam com a sua erodibilidade intrínseca (WISCHMEIER, 1973). O aumento da biomassa vegetal subterrânea (resíduos culturais incorporados e raízes vivas e/ou mortas) e da estabilidade de agregados do solo pelo manejo adequado aumenta a resistência do solo à erosão hídrica pluvial (VOLK, 2006). Ao longo de uma encosta, dependendo de como se processa o escoamento superficial das águas da chuva, é possível o desenvolvimento de dois tipos de erosão: laminar e linear. Quando a declividade do terreno for pequena, predominará a erosão laminar, que recebe essa denomi- nação devido ao escoamento superficial ocorrer de forma difusa, erodindo, teoricamente, uma lâmina homogênea de solo (SUGUIO, 2003). Com o aumento da inclinação do terreno, há também aumento da concentração das linhas Figura 9.15 - Desmantelamento de bancos arenosos das margens de fluxo, predominando a erosão linear. Esse processo do rio Juruá provocado por turbulenta vazante do rio Amônia (Marechal Thaumaturgo). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. resulta em pequenas incisões, na superfície do terreno, em forma de sulcos (Figura 9.17), que podem evoluir para ravinas (Figura 9.18). Segundo Rossato, Bellanca e Fachinello (2003, p. 244), “as ravinas constituem um tipo de feição de escoamento superficial concentrado”. Figura 9.16 - Erosão das margens do rio Acre, próximo à ocupação ribeirinha (Assis Brasil). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. Figura 9.17 - Sulcos em talude verticalizado (rodovia BR-364; Feijó). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. Erosão pluvial É um processo iniciado pelo impacto das gotas da chuva no solo, causando a degradação das partículas, removendo-as e transportando-as por meio de escoamento superficial e depositando-as nas partes mais baixas dos terrenos. A extensão do processo de erosão hídrica pluvial do solo dependerá de certos atributos do solo e do volume da chuva. Dessa forma, sua magnitude será dada pela combinação da capacidade da chuva de causar erosão (erosividade) e a habilidade do solo de resistir à ação da chuva (erodibilidade). Tal habilidade é determinada, prin- cipalmente, por fatores químicos, biológicos e mineraló- gicos do solo, bem como por sua erodibilidade intrínseca, topografia do terreno e práticas de manejo. A composição Figura 9.18 - Ravinas (trecho da estrada que liga Cruzeiro do Sul granulométrica, a mineralogia, o teor de matéria orgânica, (AC) a Guajará (AM)). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. 140 RISCOS GEOLÓGICOS Com o aprofundamento das ravinas, havendo contri- RISCOS HIDROLÓGICOS buição dos fluxos de águas subsuperficiais, configura-se o processo conhecido por voçorocamento (SUGUIO, 2003) Embora não sejam classificados como riscos geológi- (Figura 9.19). Os fatores condicionantes das erosões lineares cos, os riscos hidrológicos, tais como enchentes e inunda- profundas (voçorocas) são agrupados em dois conjuntos: ções, serão abordados neste capítulo, pois se constituem no antrópicos, como desmatamentos e uso e ocupação do solo principal risco ao qual a população acreana está exposta, (agricultura, obras civis, urbanização etc.), e naturais, que acarretando, anualmente, grandes perdas econômicas, determinam a intensidade dos processos, destacando-se sociais e humanas ao estado. chuva, cobertura vegetal, relevo, tipos de solo e substrato rochoso. Inundações e Enchentes Em trecho da Rodovia BR-364, que estabelece a liga- ção da capital Rio Branco com Cruzeiro do Sul, segunda As inundações são processos naturais e ocorrem maior cidade do estado, observam-se, em diversos pontos, periodicamente, em função da dinâmica fluvial, quando feições erosivas em suas margens que danificam a pista, há transbordamento das águas de um rio para suas áreas criando situações de risco aos motoristas (Figura 9.20). marginais, conhecidas como planícies de inundação ou várzeas, durante os períodos chuvosos. O processo de transbordamento é consequência da elevação do nível da água de um rio, quando a vazão é superior à capacidade de descarga do canal (CHRISTOFOLETTI, 1981; OLIVEIRA, 1998) (Figura 9.21). Figura 9.21 - Perfil esquemático do processo de enchente e inundação de um rio. Fonte: BRASIL, 2007, p. 92. Figura 9.19 - Extensa voçoroca próxima à rodovia (Rodrigues Alves). Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. Segundo UN-ISDR (2002), as inundações e enchentes são problemas geoambientais derivados de fenômenos ou perigos naturais de caráter hidrometeorológico ou hidrológico, ou seja, aqueles de natureza hidrológica ou oceanográfica. Sabe-se hoje que as inundações estão relacionadas à quantidade e intensidade da precipitação atmosférica (SOUZA, 1998). A magnitude e a frequência das inundações ocorrem em função da intensidade e dis- tribuição da precipitação, da taxa de infiltração de água no solo, do grau de saturação do solo e das características morfométricas e morfológicas da bacia de drenagem. Em condições naturais, as planícies e fundos de vales estreitos apresentam lento escoamento superficial das águas das chuvas. Nas áreas urbanas, esses fenômenos têm sido intensificados por alterações antrópicas, como impermeabili- zação do solo, retificação e assoreamento de cursos d’água. Esse modelo de urbanização, com ocupação das planícies de inundação e impermeabilização ao longo das vertentes, afronta a natureza. Em cidades de topografia relativamente Figura 9.20 - Erosão pluvial danificando trecho da rodovia BR-364 entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá. plana, onde, teoricamente, a infiltração seria favorecida, os Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2012. resultados são catastróficos (TAVARES; SILVA, 2008). 141 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Ressalta-se que o extravasamento não se dá de forma histórico-cultural, a remoção/realocação das famílias homogênea ao longo do canal de drenagem nem mesmo residentes em áreas de riscos às margens dos rios para em relação às suas margens. Christofoletti (1981) afirma que áreas com menor ou nenhum risco de inundação, inclusive é na margem côncava que a escavação do leito do rio ocorre; porque os rios acreanos constituem as principais vias de também é nessa margem que há maior velocidade do fluxo. Em contrapartida, na margem convexa ocorre deposição, devido ao fluxo apresentar menor velocidade. Nessa relação diferencial entre as margens observa-se que a maior parte do transbordamento ocorre nas margens côncavas. A probabilidade e a ocorrência de inundação, enchen- te e alagamento são analisadas pela combinação entre os condicionantes naturais e antrópicos. Entre os condicio- nantes naturais, destacam-se: - formas do relevo; - características da rede de drenagem da bacia hi- drográfica; - intensidade, quantidade, distribuição e frequência das chuvas; - características do solo e teor de umidade; Figura 9.22 - Inundação do centro da cidade de Brasileia - presença ou ausência da cobertura vegetal. provocada por transbordo do rio Acre. O estudo desses condicionantes naturais permite Fotografia: Manuel Maia, 2012. compreender a dinâmica do escoamento da água nas bacias hidrográficas (vazão), de acordo com o regime de chuvas conhecido. Um dos principais fatores condicionantes para o rápido aumento dos níveis de água nos rios acreanos é a constituição litológica de sua superfície. O estado do Acre possui, em mais de 80% de sua superficie, o predomínio de sedimentos da Formação Solimões. Essa unidade geológica, por apresentar características pre- dominantemente argilosas, mantém a taxa de infiltração e o grau de saturação de água no solo relativamente baixos, favorecendo o escoamento superficial, que, por conseguinte, quando há grande taxa de precipitação, provoca o transbordo das águas dos rios, inundando as áreas baixas localizadas ao longo das calhas dos rios, constituindo grande risco às ocupações localizadas na Figura 9.23 - Inundação da região central da cidade de planície de inundação. Rio Branco provocada por transbordo do rio Acre. Fotografia: Divulgação/Prefeitura de Rio Branco, 2012. A planície de inundação, também denominada várzea, é uma área que periodicamente será atingida pelo trans- bordamento dos cursos d’água. Ela funciona como um regulador hidrológico, absorvendo o excesso de água nos períodos de intensas chuvas e consequentes cheias. Todo e qualquer rio tem sua área natural de inundação, sendo, portanto, inadequada à ocupação. Dados do governo do estado do Acre, em fevereiro de 2012, apontam que mais de 124 mil pessoas residentes em áreas suscetíveis a inundações foram atingidas no estado pelas cheias dos rios Acre, Purus, Iaco e Juruá, que banham, entre outros municípios, Assis Brasil, Brasileia, Xapuri, Porto Acre, Santa Rosa, Manoel Urbano, Sena Madureira, Cruzeiro do Sul, além de Rio Branco, a capital do estado (Figuras 9.22 a 9.27). Em função do histórico de ocupação no estado do Figura 9.24 - Inundação da periferia da cidade de Rio Branco Acre e em toda a região da bacia amazônica, torna-se provocada por transbordo do rio Acre. extremamente difícil, do ponto de vista econômico e Fotografia: Altino Machado, 2012. 142 RISCOS GEOLÓGICOS deslocamento no estado. Outro fator importante que indicam que, à exceção do extremo oeste, a disponibilidade favorece a fixação da população nas margens dos rios é a de água subterrânea é baixa em quase todo o estado. farta disponibilidade de recursos hídricos superficiais, uma Assim, torna-se imprescindível o monitoramento da vez que os mapas de favorabilidade hidrogeológica do Acre elevação dos níveis dos rios, bem como a criação de siste- mas de alertas e prevenção nas comunidades ribeirinhas, a fim de minimizar os danos provocados pelas inundações. A consolidação de uma defesa civil municipal – agregando profissionais experientes, campanhas de sensibilização junto às comunidades (palestras, cursos, campanhas pre- ventivas antes da época das chuvas) –, além da formação de líderes comunitários que possam apoiar nas horas de emergência, constitui um ponto fundamental na questão de segurança pública do estado. REFERÊNCIAS ADAMY, A. Riscos geológicos. In: ADAMY, A. (Org.). Figura 9.25 - Inundação da cidade de Xapuri. Geodiversidade do estado de Rondônia. Porto Fotografia: Caritas.org.br., 2012. Velho: CPRM, 2010. 337 p. cap. 9. p. 133-152. ALHEIROS, M.M. Riscos de escorregamentos na região metropolitana do Recife. 1998. 1 CD-ROM. Tese (Doutorado em Geociências) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1998. AUGUSTO FILHO, O. Escorregamentos em encostas naturais e ocupadas: análise e controle. São Paulo: IPT, 1992. p. 96-115. Apostila do curso Geologia de Engenharia Aplicada a Problemas Ambientais. BARBOSA, V. Apesar do susto. 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Fotografia: Cotilnet Notícias, 2012. uma concepção voltada às necessidades brasileiras. 143 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA DE imagens TM-LandSat e SIG. São José dos Campos: ENGENHARIA, 6., 1990, Salvador. Anais... Salvador: INPE, 1999. 140 p. ABGE, 1990. v. 1. p. 309-317. SOUZA, C.R. de G. Flooding in the São Sebastião region, CHORLEY, R.J.; SCHUMM, S.A.Y.; SUGDEN, D.E. northern coast of São Paulo state, Brazil. Anais da Geomorphology. Londres: Methuen, 1984. 605 p. Academia Brasileira de Ciências, v. 70, n. 2, p. 353- 366, 1998. CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia fluvial. São Paulo: Edgard Blucher, 1981. 313 p. SUGUIO, K. Geologia sedimentar. São Paulo: Edgard Blucher, 2003. 400 p. il. CORREA, I.C.S. Terremotos no Brasil. Porto Alegre: Museu de Topografia Prof. Laureano Ibrahim Chaffe, TAVARES, A.C.; SILVA, A.C.F. Urbanização, chuvas 2010. de verão e inundações: uma análise episódica. Climatologia e Estudos da Paisagem, Rio Claro, v. CPRM. 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Variáveis geomorfológicas no estudo METROPOLITANA DE PORTO ALEGRE, 2., Porto Alegre, de deslizamentos em Caraguatatuba-SP utilizando 1994. 144 10 A PALEONTOLOGIA NO ESTADO DO ACRE Jonas Pereira de Souza-Filho (jpdesouzafilho@hotmail.com)1 Edson Guilherme (guilherme.edson@uol.br)2 UFAC – Universidade Federal do Acre SUMÁRIO Caracterização Geral do Estado do Acre .............................................................147 Geografia ........................................................................................................147 Geologia .........................................................................................................147 Conceito de Paleontologia ..................................................................................148 Pesquisas Paleontológicas no Estado do Acre ....................................................149 Importância dos Rios e das Estradas para A Paleontologia no Estado do Acre ....................................................................................................149 A Idade dos Fósseis .............................................................................................150 Fósseis do Cretáceo ........................................................................................150 Formação Moa ...........................................................................................150 Principal Localidade Fossilífera e Fósseis Relacionados ...........................150 Fósseis do Mioceno Superior/Plioceno ............................................................151 Formação Solimões ....................................................................................151 Principais Localidades Fossilíferas e Fósseis Relacionados ......................151 Fósseis do Plioceno/Pleistoceno .....................................................................153 Acre, Terra de Gigantes .......................................................................................153 Considerações Paleoecológicas ...........................................................................155 Referências ..........................................................................................................155 A PALEONTOLOGIA NO ESTADO DO ACRE CARACTERIZAÇÃO GERAL Geologia DO ESTADO DO ACRE A unidade geotectônica mais importante do estado é O estado do Acre, incorporado ao território brasileiro a Bacia do Acre. De acordo com Duarte (2011), essa bacia por meio de acordo internacional com a República da Bolí- apresenta um longo registro sedimentar com amostragem via, situa-se na Amazônia Ocidental, caracterizando-se por em poços que atravessaram rochas depositadas desde o baixa densidade demográfica e densa cobertura vegetal Carbonífero (não aflorante) até o recente. equatorial, com dezenas de unidades de conservação e A Bacia do Acre, do tipo IS (KINGSTON; DISHROON; preservação, além de inúmeras terras indígenas. Do ponto WILLIAMS, 1983), está situada no setor brasileiro da Bacia de vista morfológico, a maior parte do espaço geográfico Marañon-Ucayali-Acre, cuja área total é de 905.000 km2 apresenta relativa uniformidade das unidades de relevo, (MILANI; THOMAZ FILHO, 2000), e integra o sistema de excetuando-se a conhecida serra do Divisor, na fronteira bacias de antepaís retroarco da cordilheira dos Andes. peruana, com altitudes entre 300 a 700 m. A Bacia do Acre possui diversas formações geológicas Por se tratar de um estado pouco ocupado, onde (Figura 10.2). Segundo Bizzi et al. (2003, p. 61), “a Bacia do predominam vias de acesso fluviais, não existe um mapea- Acre é a parte mais distal da cunha sedimentar cuja idade mento geológico sistemático de seu território, limitando-se compreende o intervalo do Cretáceo ao Plioceno (FEIJÓ; aos dados coletados em escalas menores, efetuados por SOUZA, 1994), preenchendo o domínio de antepaís da instituições públicas. Bacia Marañon-Ucayali-Acre”. Sua estrutura consiste do conjunto de falhas reversas Geografia de direção norte-sul, da qual a mais importante é a Falha Batã, que marca a terminação oriental da sequência sedi- O estado do Acre possui um território de 164.221,36 mentar paleozoico-jurássica que se estende desde os Andes km2, que correspondem a 16.422.136 ha. Sua extensão (MILANI; THOMAZ FILHO, 2000). O seu limite oriental territorial é de 445 km no sentido norte-sul e 809 km entre com a Bacia do Solimões é o Arco de Iquitos. Os 6.000 seus extremos leste-oeste. Corresponde a 4% da Amazônia m de rochas sedimentares do Acre (MILANI; THOMAZ Legal e a 1,9% do território nacional (ACRE, 2006). FILHO, 2000) estão distribuídos em quatro sequências: Essa unidade federativa está situada entre as latitudes carbonífero-permiana, jurássica, cretácea e terciária (FEIJÓ; 07°07’S e 11°08’S e as longitudes 66°38’W e 74°00’W Gr no sudoeste da Amazônia brasileira. É o ponto mais ocidental do Brasil (marco 76 da fronteira Brasil-Peru pelo município de Mâncio Lima). Limita-se ao norte com o estado do Ama- zonas e, a leste, com o estado de Rondônia (Figura 10.1). O Acre possui uma linha de fronteira internacional de 2.183 km, dividida ao sul e a leste com a Bolívia e ao sul e ao oeste com o Peru. O rio Acre representa um importante marco divisor entre o Brasil e as repúblicas vizinhas do Peru e da Bolívia, estabelecendo, em grande parte, seu limite internacional (ACRE, 2006) (Figura 10.1). Figura 10.1 - Localização geográfica do estado do Acre. Figura 10.2 - Formações geológicas do estado do Acre. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Fonte: IBGE, 2010. 147 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE SOUZA, 1994). Supersequências correspondem a ciclos de No estado do Acre, os primeiros achados fósseis foram segunda ordem, com duração entre 3 e 50 Ma (EMERY; coletados por expedicionários, que realizavam estudos MYERS, 1996), que, de acordo com esses autores, podem esporádicos e casuais, sem aplicação de metodologia ser causados por mudanças na taxa de subsidência da ba- adequada a esse tipo de pesquisa, bem como não havia cia ou na taxa de soerguimento da área-fonte das rochas preocupação em entregar os exemplares coletados a estu- sedimentares que a preenchem. diosos do assunto ou instituições oficializadas qualificadas A supersequência carbonífero-permiana compre- para as análises. Basicamente, foram coletas com finalida- ende as formações Apuí, composta de conglomerados des não paleontológicas, durante a execução de trabalhos formando cunha clástica, Cruzeiro do Sul, contendo para estudos cartográficos, topográficos, delimitação de carbonatos e evaporitos, e Rio do Moura, arenitos. Feijó e fronteiras, dentre outros. Souza (1994) interpretaram o ambiente de sedimentação Segundo Rancy (1985), os primeiros fósseis relaciona- dessas formações como inicialmente aluvial, passando dos ao atual estado do Acre foram coletados pelo geólogo a nerítico. inglês William Chandless, no ano de 1886, em localidades A supersequência jurássica é inteiramente composta não registradas de um trecho do rio Acre. O material cole- pela Formação Juruá-Mirim, que contém arenitos e red tado foi entregue ao professor Louis Agassiz em Manaus, beds intercalados com evaporitos e derrame de basalto no estado do Amazonas, que identificou peixes e, errone- depositados em ambiente continental. amente, o réptil marinho Mousassaurus. Posteriormente, Diversas formações compõem a supersequência esse material teve identificação retificada, pois se tratava cretácea – Moa, Rio Azul, Divisor e Ramon (Figura 10.2) de material de crocodiliano continental. –, compostas por arenitos, folhelhos e calcarenitos depo- Em alguns casos, pelo descaso científico, os fósseis sitados em ambientes fluviolacustres na bacia de antepaís serviram para presentear autoridades estrangeiras, que os (flexural) adjacente à cadeia andina (FEIJÓ; SOUZA, 1994). depositavam em coleções particulares (segundo relatos Ainda durante esse episódio flexural, a supersequência pessoais), sem qualquer estudo, perdendo-se em prateleiras terciária, representada pela Formação Solimões, depositou- empoeiradas. -se em onlap contra o embasamento, possivelmente como Entretanto, a partir de 1983, com a criação do Labo- consequência da deformação incaica na cordilheira dos ratório de Pesquisas Paleontológicas (LPP) da Universidade Andes (RAMOS; ALEMÁN, 2000). As supersequências Federal do Acre (UFAC), foram feitos inúmeros achados de cretácea e terciária somam mais de 3.000 m de espessura fragmentos fósseis, conchas e vegetais fósseis e importan- (MILANI; ZALÁN, 1999). tes interpretações acerca da geologia da região; além disso, as pesquisas na região foram impulsionadas em decorrência CONCEITO DE PALEONTOLOGIA da frequência e sistematização das coletas em campo, do trabalho de identificação e preparação dos fósseis em O termo paleontologia foi utilizado pela primeira vez laboratório e da consequente divulgação dos resultados na literatura geológica a partir do ano de 1834, como resul- em revistas científicas. tado da conjunção das palavras gregas palaios = antigos, Muito do esforço para a crescente produção cien- onto = ser, logos = estudos. Por outro lado, a palavra fóssil tífica tem sido despendido por pesquisadores do LPP e originou-se do termo latino fossilis, que significa “extraído colaboradores, o que culminou na identificação de vários da terra” (CARVALHO, 2010). grupos e espécies anteriormente conhecidas, bem como de outras tantas novas para a ciência, principalmente de PESQUISAS PALEONTOLÓGICAS NO vertebrados fósseis (NEGRI et al., 2010; PAULA COUTO, ESTADO DO ACRE 1978; RANZI, 2000, 2008; RIFF et al., 2010; SIMPSON; PAULA COUTO, 1981). As pesquisas sistematizadas de geologia e de pale- Em 2013, o LPP comemorou 30 anos de sua criação. ontologia ao longo de vários rios e cortes de estradas da Como resultado das coletas nas últimas décadas, o LPP pos- região sul ocidental da Amazônia, mais particularmente sui em seu acervo mais de cinco mil peças de vertebrados no estado do Acre, nas últimas décadas, resultaram em fósseis catalogadas (Figura 10.3). localização e registro de vários sítios com potencial para a Os fósseis coletados são, em sua maioria, de vertebra- exploração paleontológica. dos, reunidos em diferentes classes zoológicas, tais como Todavia, até há pouco tempo, o conhecimento sobre peixes, répteis, aves e mamíferos. Entretanto, predominam a fauna fóssil da Amazônia brasileira, sobretudo na Bacia quantitativamente os achados de répteis e de mamíferos, do Acre, baseava-se em coletas e informações do final do sendo os répteis em maior quantidade e, dentre eles, os século XIX e princípio do século XX. crocodilianos com supremacia. Naquele período, quase sempre coletados aleatoria- Uma parte desse material encontra-se devidamente mente, os achados fósseis não traziam maiores informações exposta em um pequeno museu no próprio LPP/UFAC, sobre procedência e dados geológicos, o que dificultava aberto à visitação pública, com frequência regular de alunos tanto os estudos quanto as conclusões. da rede de ensino público e privado (Figura 10.4). 148 A PALEONTOLOGIA NO ESTADO DO ACRE No que se refere às barrancas, estas se tornam visíveis apenas durante o período de estiagem na região (maio a outubro), quando o nível das águas está baixo e elas po- dem ser alcançadas por meio de pequenas e adequadas embarcações, considerando que, em alguns trechos, os rios ficam quase que intrafegáveis (Figura 10.5). Figura 10.5 - Atividade de pesquisa no alto rio Acre, durante a época de estiagem, quando as barrancas estão expostas (Assis Brasil). Fotografia: Arquivo LPP, 2002. Os principais afloramentos com registro e coleta Figura 10.3 - Fósseis de vertebrados depositados no LPP/UFAC. fossilífera nos sedimentos cenozoicos da Formação Fotografia: Autores, 2013. Solimões foram encontrados em barrancas ao longo de vários rios que a cortam, como Purus, Juruá, Moa, Caeté, Acre, Iaco etc. Nesse contexto, pela proximidade com a instituição de pesquisa (UFAC), o rio Acre tem sido o mais pesquisado e importante em relação à coleta fossilífera (Figura 10.6). O rio Acre, desde suas nascentes no Peru até a locali- dade do Seringal Paraguaçu, atua como divisa internacional entre Brasil e Peru e, desse ponto, até a cidade de Brasileia, entre Brasil e Bolívia. A partir daí, adentra em território brasileiro, percorrendo centenas de quiômetros até sua desembocadura, na margem direita do rio Purus, na ci- dade de Boca do Acre, Amazonas, expondo nesse trajeto internacional e genuinamente brasileiro várias barrancas com rico conteúdo fossilífero. Nos demais rios e em cortes de estradas, outros Figura 10.4 - Vista panorâmica da sala de exposição do LPP/UFAC. sítios paleontológicos, não menos importantes, estão Fotografia: Autores, 2013. registrados. Desta feita, ao longo das estradas acreanas, fundamentalmente da Rodovia BR-364, a mais importan- IMPORTÂNCIA DOS RIOS E DAS ESTRADAS te ligação rodoviária do estado, que liga a capital, Rio PARA A PALEONTOLOGIA NO Branco, à cidade de Cruzeiro do Sul, em um trajeto de ESTADO DO ACRE 650 km, cortando vários outros municípios. Essa rodovia corta do limite fronteiriço com o estado de Rondônia, Em decorrência da exuberante floresta, com densa em sentido leste-oeste, 90% do território acreano e, a cobertura vegetal e condições geológicas desfavoráveis, exemplo dos rios, deixa expostos numerosos barrancos afloramentos tradicionais como ravinas, voçorocas, pedrei- com fósseis. ras etc. são incomuns no Acre, o que impossibilita maior A partir do recente asfaltamento dessa rodovia, no êxito na procura de material fóssil. Devido a tais condições, trecho compreendido entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul, a maioria dos sítios estudados e onde foram coletados os é possível ter acesso às referidas barrancas durante o ano fósseis acreanos localiza-se em barrancas expostas dos rios inteiro, sendo que, durante as chuvas, surgem as dificul- e cortes de estradas. dades a elas relacionadas. 149 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 10.6 - Localização dos principais sítios fossilíferos investigados pelo LPP/UFAC. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Nota: 1 – Patos, 2 – Cavalcante, 3 – Cachoeira do Bandeira, 4 – Niterói, 5 – Lula, 6 – Talismã, 7 – Morro do Careca; 8 – Rio Moa. IDADE DOS FÓSSEIS Devido às dificuldades de acesso e de afloramentos registrados, paleontologicamente a região do alto rio Moa Muito embora, no geral, na Bacia do Acre aflorem é ainda pouco explorada, sendo alcançada apenas com a sedimentos de idades que variam do Pré-Cambriano ao utilização de embarcações e de uma logística que envolva recente, os fósseis coletados na Bacia do Acre, têm sido instituições de pesquisas com experiência em atividades datados em três idades distintas: Cretáceo Superior (60 na região. A existência de uma reserva na área – Parque Ma); Mioceno Superior/Plioceno (entre 8 e 5 Ma); Plioceno/ Nacional da Serra do Divisor – requer, com antecedência, Pleistoceno (entre 2 Ma a 10 mil anos). autorização para acesso e pesquisa. Os fósseis até então coletados foram encontrados in situ (LATRUBESSE et al., Fósseis do Cretáceo 1994). Embora ainda sejam raros os achados, os fósseis dessa Principal localidade fossilífera e fósseis relacionados: idade encontram-se na borda oeste da Bacia do Acre, na região do alto rio Moa, na serra do Divisor. Em sua maioria, - Sítio Rio Moa: Serra do Divisor (vide figuras 10.6 e são fósseis de vertebrados marinhos encontrados em con- 10.7). glomerados atribuídos à Formação Moa, na serra do Divisor, Data: Descoberto pela equipe do LPP em 1991. extremo oeste do Acre (BRITO; NEGRI; BOCQUENTIN, 1994; LATRUBESSE et al., 1994) (Figura 10.7). Descrição: Exposição formada por arenito compacto, muito oxidado, de cor pardo-amarelado, pertencente Formação Moa à Formação Moa – Cretáceo Superior (LATRUBESSE et al., 1994). É constituída de arenitos claros, com intercalações Material encontrado: Dentes de tubarões e raias de argilitos róseos e escuros, calcários e conglomerados (Hybodontidae, Sclerorhynchidae) (BRITO et al., 1994). (LATRUBESSE et al., 1994; PETRI; FÚLFARO, 1988) (vide Referências: BRITO et al. (1994); LATRUBESSE et al. Figura 10.2). (1994). 150 A PALEONTOLOGIA NO ESTADO DO ACRE Embora tenham sido coletados fósseis vegetais (tron- cos e folhas) (MACHADO et al., 2012) e de invertebrados (WESSELINGH et al., 2006), predominam os achados de vertebrados, representados por peixes, répteis, aves e mamíferos. O estado de preservação do material fóssil comumente se apresenta razoável, muito embora não se encontrem esqueletos completos e/ou articulados. Apesar de raros, são encontrados crânio e mandíbulas articuladas (por exemplo, jacarés). A maioria do material coletado está in situ, mas, em diversas localidades, é possível encontrar fósseis rolados (transportados) nas margens dos rios. Principais localidades fossilíferas e fósseis relacionados: Figura 10.7 - Expedição ao rio Moa, realizada em 1994, à procura de afloramentos do Cretáceo. Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 1994. - Sítio Patos (Acre 6 = LACM 4611 de Frailey, 1986) (vide figura 10.6). Fósseis do Mioceno Superior/Plioceno Data: Descoberto na década de 1970. Esse sítio foi explorado em 1985, em uma expedição conjunta da Os fósseis registrados na região sul-ocidental da Ama- equipe do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas zônia, abrangendo o estado do Acre e sul do estado do da UFAC e o Los Angeles County Museum. Nos anos Amazonas, foram coletados em sedimentos cenozoicos da seguintes, diversas outras expedições do LPP foram Formação Solimões. São resultantes de pesquisas realizadas realizadas nessa localidade. na Rodovia BR-364 e nos rios Purus, Caeté, Iaco e Acre. Descrição: Conglomerado de matriz argilosa e seixos de idade miocênica encontrados no leito e nas margens Formação Solimões do alto rio Acre, no município de Assis Brasil, fronteira com o Peru (FRAILEY, 1986). A Formação Solimões é de idade cenozoica e de am- Coordenadas geográficas: 10°56’15”S e 69°55’41”W. biente fluviolacustre (vide figura 10.2). Estende-se por mais Material encontrado: invertebrados, fragmentos de de 80% do estado, constituindo-se na formação geológica peixes, répteis (crocodilianos e quelônios), aves e ma- mais significativa do Acre e, por consequência, a unidade míferos (Primates, Rodentia). litoestratigráfica com maior quantidade e diversidade pa- Referências: BAYÁ; BOCQUENTIN, 1997; COZZUOL et leofaunística (HOORN; WESSELINGH, 2010). al., 2006; FRAILEY, 1986; KAY; COZZUOL, 2006; KAY; Essa formação é rica em fósseis, principalmente de FRAILEY, 1993; LATRUBESSE et al., 2010; SILVA; SOUZA- vertebrados (GUILHERME; BOCQUENTIN-VILLANUEVA; -FILHO, 2001; SOUZA-FILHO, 1993. PORTO, 2011; LATRUBESSE et al., 1997; MIURA, 1972; NEGRI et al., 2010; RIFF et al., 2010; SANTOS, 1974; SOUZA- - Sítio Cavalcante (Acre 1 = LACM 4418 de Frailey, -FILHO; GUILHERME, 2007, 2011). 1986) (vide figuras 10.6 e 10.8). Entretanto, a sua amplitude tem gerado duvidosas Data: Sítio explorado em 1985, em uma expedição interpretações, sobretudo em seu entendimento geológico. conjunta da equipe do Laboratório de Pesquisas Pale- Nesse sentido, há opiniões contrastantes sobre três de seus ontológicas da UFAC e o Los Angeles County Museum. aspectos fundamentais: ambiente de sedimentação, divisão Nos anos seguintes, diversas outras expedições do LPP litoestratigráfica e cronologia. Atualmente, um dos pontos foram realizadas nessa localidade. mais discutidos está relacionado à origem da sedimenta- Descrição: Localizado na margem esquerda do alto rio ção que compõe a Formação Solimões, principalmente, Acre, no município de Assis Brasil. Trata-se de um aflora- a partir de Rässänen et al. (1995), que propuseram uma mento composto por argila e siltito branco-avermelhado origem marinha para uma sequência sedimentar no oeste de idade miocênica. da Região Amazônica no estado do Acre. Coordenadas geográficas: 10°55’00”S e 69°50’00”W. Hoorn (1996) refuta tais afirmações, considerando, Material encontrado: Fragmentos de peixes, répteis principalmente, a restrição da área estudada e o material (crocodilianos – Alligatoridae, Nettosuchidae, Gavialidae fóssil apresentado, claramente de ambiente terrestre e de e quelônios) e mamíferos (Toxodontidae, Edentata e água doce. Litopterna). Os achados fósseis de vertebrados aquáticos e ter- Referências: BOCQUENTIN; SILVA, 1994; BOCQUEN- restres do Neógeno do estado do Acre apontam para um TIN-VILLANUEVA; SANTOS; NEGRI, 1991; FRAILEY, ambiente continental, com rios meandrantes e diversos 1986; OLIVEIRA; SOUZA-FILHO, 2001; SANTOS; RANCY; lagos associados com lâmina d’água variável. FERIGOLO, 1993; SILVA; SOUZA-FILHO, 2001. 151 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE - Sítio Niterói, rio Acre (vide figuras 10.6 e 10.10). Data: Descoberto em 1987 por uma equipe conjunta do LPP e do Museu Goeldi. Localiza-se na margem direita do rio Acre, aproximadamente a 20 km a montante de Rio Branco, capital do estado. Descrição: Formado por sedimentos argilosos, de colo- ração avermelhada, pertencentes ao Mioceno superior da Formação Solimões. Coordenadas geográficas: 10°14’00”S e 67°82’00”W. Material encontrado: Invertebrados (Biválvia, Os- tracode, Crustácea), fragmentos de peixes (Doradidae, Potamotrygonidae, Pimelodiade), répteis (quelônios – Stupendemys, Chelus e crocodilianos – Alligatoridae, Nettosuchidae e Gavialidae), aves (Anhingidae) e mamí- feros (Toxodontidae, Neoepiblemidae, Edentata). Referências: BOCQUENTIN; GUILHERME, 1999; BO- CQUENTIN; GUILHERME; NEGRI, 2001; BOCQUENTIN- Figura 10.8 - Vista geral do sítio Cavalcante (alto rio Acre). -VILLANUEVA; SOUZA-FILHO; NEGRI, 1990; MONES; Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 2002. Nota: A seta indica o TOLEDO, 1989; NEGRI; FERIGOLO, 1999; NEGRI; FERIGO- afloramento em que os fósseis são encontrados. LO, 2004; OLIVEIRA; SILVA; RODRIGUES; BOCQUENTIN, 1997; OLIVEIRA; SOUZA-FILHO, 2001; SOUZA-FILHO, - Sítio Cachoeira do Bandeira, rio Acre (vide figuras 1991; SOUZA-FILHO, 1993; SOUZA-FILHO, 1998; 10.6 e 10.9). SOUZA-FILHO; BOCQUENTIN-VILLANUEVA, 1989; Data: Descoberto pela equipe do RADAMBRASIL (1976). SOUZA-FILHO; BOCQUENTIN, 1991; SOUZA-FILHO; É objeto de exploração contínua por parte do LPP em BOCQUENTIN; SILVA, 1993. diversas expedições desde 1994 até o presente (MELO et al., 1998). Descrição: sedimentos conglomeráticos e síltico-argi- losos localizados no leito e na margem esquerda do rio Acre, entre as cidades de Brasileia e Assis Brasil (Acre). Coordenadas geográficas: 10°56’21”S e 69°20’37”W. Material encontrado: Invertebrados, fragmentos de peixes (Doradidae, Potamotrygonidae, Pimelodiade, entre outros), répteis (quelônios – Stupendemys – e crocodilianos – ), aves (Anhingidae) e mamíferos (To- xodontidae, Neoepiblemidae). Referências: AGUILERA et al., 2008; ALVARENGA; GUILHERME, 2003; BOCQUENTIN-VILLANUEVA; GUI- LHERME, 1997; GAYET et al., 2003; LATRUBESSE et al., 2010; MELO et al., 1998. Figura 10.10 - Equipe do LPP em atividade de coleta de fósseis no sítio Niterói (margem direita do rio Acre; Senador Guiomard). Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 1993. - Sítio Talismã, rio Purus (figuras 10.6 e 10.11). Data: O local foi encontrado pela equipe do LPP no final da década de 1980. Desde então, foi visitado inúmeras vezes durante a década de 1990 até o ano de 2002. Descrição: Localizado na margem direita do rio Purus, no estado do Amazonas. É formado por argila e siltito de cor branco-avermelhada, com veios de gipsita e calcita. Coordenadas geográficas: 08°48’22”S e 68°48’12”W. Material encontrado: Invertebrados, fragmentos de pei- xes, répteis (quelônios – Stupendemys –, lagartos e cobras – Tupinambis sp. Eunectes sp. e crocodilianos – Alligatoridae, Figura 10.9 - Vista panorâmica do sítio Cachoeira do Bandeira (margem esquerda do rio Acre, entre Assis Brasil e Brasileia). Nettosuchidae e Gavialidae), aves (Anhingidae) e mamíferos Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 2000. (Toxodontidae, Neoepiblemidae, Edentata, Primates). 152 A PALEONTOLOGIA NO ESTADO DO ACRE Referências: BERGQVIST; RIBEIRO; BOCQUENTIN- Material encontrado: Invertebrados (Biválvia e -VILLANUEVA, 1998; BOCQUENTIN; GUILHERME; NEGRI, Crustácea), fragmentos de peixes (Dipnoi, Characidae, 2001; HSIOU; ALBINO, 2009; HSIOU; ALBINO; FERIGOLO, Erythrinidae), répteis (quelônios –Stupendemys – e cro- 2009; LATRUBESSE et al., 2010; SANTOS; RANCY; FERIGO- codilianos – Alligatoridae, Nettosuchidae e Gavialidae), LO, 1993; SOUZA-FILHO, 1993. aves e mamíferos (Neoepiblemidae, Edentata). Referências: BOCQUENTIN; MELO, 2006; LATRUBESSE et al., 2010; SOUZA-FILHO; GUILHERME, 2007, 2011. - Sítio Lula (vide figuras 10.6 e 10.13). Data: Descoberto na década de 1980. Foi visitado diversas vezes pela equipe do LPP até o final da década de 1990. Nos dias atuais, uma grande parcela do afloramento foi remo- vida em decorrência do asfaltamento da Rodovia BR-364. Descrição: Localizado em ambas as margens da BR- 364, no município de Sena Madureira. O sítio é formado de argila branco-avermelhada e siltito. Coordenadas geográficas: 09º01’23”S e 68º48’ 21,00”W. Material encontrado: Invertebrados (Biválvia e Crus- tácea), fragmentos de peixes, répteis (quelônios e cro- codilianos – Alligatoridae, Nettosuchidae e Gavialidae) e mamíferos (Neoepiblemidae, Edentata, Rodentia). Figura 10.11 - Vista geral do sítio Talismã (rio Purus, AM). Referências: RICHTER, 1989; SOUZA-FILHO, 1987; Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 1991. SOUZA-FILHO; BOCQUENTIN; SILVA, 1993. - Sítio Morro do Careca, Rodovia BR-364 (vide figuras 10.6 e 10.12). Data: Descoberto pela equipe do LPP no final da déca- da de 1990. Objeto de visitas frequentes desde então pela equipe do LPP de Rio Branco e pela equipe do Laboratório de Paleontologia do Campus Floresta em Cruzeiro do Sul. Descrição: Exposição localizada em ambas as margens da BR-364, entre as cidades de Feijó e Tarauacá. É for- mado por uma sequência de argila avermelhada e siltito com veios de gipsita. Coordenadas geográficas: 08°10’32.1”S e 70°29’ 04.1”W. Figura 10.13 - Exposição do sítio fossilífero Lula (rodovia BR-364; Sena Madureira). Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 1987. Fósseis do Plioceno/Pleistoceno Os fósseis pliopleistocênicos têm sido encontrados mais frequentemente na região do rio Juruá, área interme- diária entre a serra do Moa e a porção sul-ocidental do Acre. Predominam achados da megafauna e pequenos roedores. Segundo Ranzi (2008), a maioria dos fósseis coletados na região do alto Juruá é solta e fragmentada, o que faz com que sejam facilmente carreados rios abaixo pela força Figura 10.12 - Vista panorâmica do sítio fossilífero Morro do da correnteza e depositados longe do afloramento da ma- Careca (margem direita da rodovia BR-364; Feijó). triz original, o que prejudica sua identificação e localização Fotografia: Arquivo LPP/UFAC, 2003. dos sítios com material in situ. 153 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE ACRE, TERRA DE GIGANTES (Figura 10.18). No ambiente em que o Purussaurus viveu também havia aves gigantes representadas por anhingas Os estudos paleontológicos realizados por pesqui- e enormes roedores semiaquáticos como Phoberomys e sadores e colaboradores da Universidade Federal do Acre têm revelado abundante e diversificada fauna fóssil, com destaque para achados de animais gigantescos, principal- mente crocodilianos e tartarugas, que, comparados a seus “parentes” atuais, mais parecem monstruosas criaturas. Alguns, por seu tamanho, lembram os dinossauros do Jurássico, como o crocodiliano Purussaurus brasiliensis (Fi- guras 10.14 e 10.15), que superava 12 m de comprimento total; provavelmente, ele teria sido um predador tão feroz quanto o Tyranossaurus Rex, muito embora o Purussaurus tenha vivido em uma época geológica mais recente, no caso, o Mioceno. Durante o Mioceno, o gigante Purussaurus habitou rios e lagos com outros crocodilianos gigantes, como mourassuquídeos e gavialídeos (Figura 10.16), e com as não menos gigantescas tartarugas Podocnemys (Figura Figura 10.16 - Crânio de Hesperogavialis, um gigantesco crocodiliano gavialídeo que viveu no Acre há aproximadamente 10.17) e Stupendemys e o matamatá do gênero Chelus. oito milhões de anos. Fotografia: Autores, 2013. Coabitou ainda com o peixe da família Acregoliathidae, um dos maiores já conhecidos, superando em tamanho o atual pirarucu, além da piramboia gigante Lepidosiren megalos Figura 10.17 - Carapaça de enorme tartaruga do gênero Podocnemis encontrada no alto rio Acre (Assis Brasil). Fotografia: Autores, 2013. Figura 10.14 - Purussaurus brasiliensis – vista lateral (cópia a partir do fóssil original). Fotografia: Autores, 2013. Figura 10.18 - Piramboia gigante (Lepidosiren megalos). Fotografia: Autores, 2013. Figura 10.15 - Purussaurus brasiliensis – vista frontal (cópia a Nota: Reconstituição em tamanho natural, a partir das dimensões partir do fóssil original). Fotografia: Autores, 2013. das placas dentárias. 154 A PALEONTOLOGIA NO ESTADO DO ACRE Neoepiblema. Certamente, muitos desses animais faziam A extinção dessa fauna de gigantes parece estar rela- parte da dieta alimentar dos crocodilianos que habitavam cionada a profundas mudanças climáticas que resultaram os grandes lagos de água doce da região onde hoje é o em diminuição do volume de água, falta de alimentação e, estado do Acre. por consequência, competição e lutas corporais. Durante o Pleistoceno, o estado do Acre, a exemplo de outras partes da América do Sul, foi habitado por uma REFERÊNCIAS megafauna em um cenário paisagístico dominado por sava- nas e preguiças gigantes (Megatherium), mastodontes, toxo- ACRE. Governo do Estado do Acre. Programa Estadual de dontes, macrauquênias, dentre outros grandes mamíferos. Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. As questões relacionadas à evolução, distribuição geo- Zoneamento ecológico-econômico do Acre fase gráfica, ecologia e extinção da megafauna pleistocênica estão II: documento síntese – escala 1:250.000. Rio Branco: documentadas em artigos e revistas especializadas no assunto. SEMA, 2006. 354 p. Entretanto, a fauna gigante do Mioceno do Acre, no que tange à sua evolução e paleoecologia, precisa ser mais AGUILERA, O.; BOCQUENTIN, J.; LUNDBERG, J.G.; bem estudada e compreendida. Ainda permanecem sem MACIENTE, A. A new cajaro catfish (Siluriformes: resposta diversas questões, tais como: “O que favoreceu Pimelodidae: Phractocephalus) from the late Miocene o gigantismo das espécies e a sua diversidade? Quais os of southwestern Amazonia and its relationship to motivos que levaram à sua extinção?”. Phractocephalus nassi of the Urumaco formation. Todavia, pelo volume de fósseis encontrados e por sua Paläeontologische Zeitschrift, v. 82, n. 2, p. 231-245, supremacia, é inegável que a Bacia do Acre foi berço dos 2008. maiores crocodilianos e tartarugas já registrados até hoje em todo o planeta. ALVARENGA, H.M.F.; GUILHERME, E. The anhingas (Aves: Portanto, é preciso reafirmar, pois a questão ainda é Anhingidae) from the upper Tertiary (Miocene-Pliocene) muito omissa, que o Purussaurus foi o maior crocodiliano of southwestern Amazonia. Journal of Vertebrate jamais conhecido no planeta. Embora seus achados este- Paleontology, v. 23, n. 3, p. 614-621, 2003. jam relacionados a países como Argentina, Peru, Bolívia, Venezuela e Brasil, é no estado do Acre que está registra- BAYÁ, E.M.; BOCQUENTIN, J. Uma mandíbula do o maior número de achados, os mais completos e de de Trigodon sp. nov. (Mammalia, Notoungulata, maiores dimensões. Toxodontidae) no Neógeno do alto rio Acre, estado do Acre, fronteira Brasil-Peru. Geociências, v. 2, n. 6, p. CONSIDERAÇÕES PALEOECOLÓGICAS 39-43, dez. 1997. O registro, na Formação Solimões, de camadas se- BERGQVIST, L.P.; RIBEIRO, A.M.; BOCQUENTIN- dimentares de um ambiente fluvial com fósseis de verte- VILLANUEVA, J. Primatas, roedores e liptoternas do Mio- brados semelhantes às espécies existentes nos dias atuais, Plioceno da Amazônia sul-ocidental (formação Solimões, levou a que Santos (1974) considerasse que, no passado bacia do Acre). Geologia Colombiana, v. 23, p. 9-29, geológico, houve predominância de um ambiente fluvio- 1998. lacustre parecido com o encontrado atualmente na região. A partir de estudos realizados na Formação Solimões, BIZZI, L.A.; SCHOBBENHAUS, C.; VIDOTTI, R.M.; no estado do Acre, Scherer e Souza-Filho (1997) e Latrubes- GONÇALVES, J.H. (Org.). Geologia, tectônica e se et al. (2010) complementam que, durante o Neógeno, o recursos minerais do Brasil: texto, mapas & SIG. ambiente se constituía por um sistema fluvial meandrante Brasília, DF: CPRM, 2003. 692 p. com inúmeros corpos lacustres associados. Souza-Filho (1987) identificou uma interação dos rios BOCQUENTIN, J.; GUILHERME, E. As preguiças com os corpos lacustres e concluiu haver grandes variações Mylodontinae (Mammalia, Xenarthra, Mylodontidae) do na lâmina d’água nesses ambientes aquosos. Apesar de tais Neógeno do sítio Niterói, Acre, Brasil. Acta Geologica variações não terem sido quantificadas ou mensuradas, a Leopoldensia, v. 22, p. 57-67, 1999. dimensão e a profundidade dos rios e dos lagos miocênicos do Acre pretérito não podem ser comparadas àquelas atual- BOCQUENTIN, J.; GUILHERME, E.; NEGRI, F.R. Duas mente observadas na região em que a fauna, principalmente espécies do gênero Chelus (Pleurodira, Chelidae) no a aquática, raramente chega a impressionar pelo tamanho. Mioceno Superior-Plioceno da Amazônia sul-ocidental. Rios e lagos miocênicos da Bacia do Acre deveriam Revista Universidade Guarulhos. Série Geociências, ter sido tão grandes, profundos e variados quanto a sua v. 6, n. 6, p. 50-55, ago.2001. capacidade de proporcionar condições à vida e à convi- vência de várias criaturas de tamanho descomunal em um BOCQUENTIN, J.; MELO, J. Stupendemys souzai sp. mesmo ambiente. nov. (Pleurodira, Podocnemididae) from the Miocene- 155 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Pliocene of the Solimões formation, Brazil. Revista FRAILEY, C.D. Late Miocene and Holocene mammals, Brasileira de Paleontologia, v. 9, n. 2, p. 187-192, exclusive of the Notoungulata, of the Acre region, 2006. western Amazonia. Contributions in Science, v. 374, p. 1-43, 1986. BOCQUENTIN, J.; SILVA, W. Gyrinodon sp. (Notoungulata, Toxodontidae) proveniente do Mioceno GAYET, M. et al. New characoids from the upper superior da localidade de Cavalcante, Acre, Brasil. 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Entretanto, o o imaginário das pessoas. incentivo maior ao turismo regional procede de instituições O geoturismo, por definição, envolve o turismo públicas, tendo à frente a Secretaria de Estado de Turismo ecológico com informações e atrativos de natureza e Lazer (SETUL), que tem buscado alternativas viáveis para geológica. o crescimento do ecoturismo regional, estabelecendo ro- Ruchkys (2007, p. 23) caracteriza o geoturismo como teiros fundamentados em temas associados à ocupação do “um segmento da atividade turística que tem o patrimônio território, à revolução acreana, à presença de geoglifos, à geológico como seu principal atrativo e busca sua proteção integração Brasil-Peru, entre outros. por meio da conservação de seus recursos e da sensibiliza- Outros empreendimentos têm sido implantados em ção do turista, utilizando, para isto, a interpretação deste áreas específicas, visando a resgatar atividades tradicio- patrimônio, tornando-o acessível ao público leigo [...]”. nais e de grande valor na história de ocupação do estado, Por sua vez, Dowling e Newsome (2006) agregam ao como o Seringal Cachoeira, no município de Xapuri, palco termo, além da geologia, a geomorfologia e demais recur- de intensa extração da borracha na segunda metade do sos naturais da paisagem, enfatizando o conhecimento dos século XX (Figura 11.1). processos que deram origem a tais ambientes. O condicionamento geológico dos terrenos acreanos, Esses atrativos de conotação geológica podem ser de em grande parte ocupados por uma unidade geológica natureza distinta, como monumentos naturais, parques relativamente recente (Formação Solimões), representada geológicos, cavernas, cachoeiras, sítios geológicos e/ou por um relevo aplainado a suavemente ondulado, onde se geomorfológicos, minas ativas ou não, áreas de beleza distribuem colinas amplas e suaves e morros baixos, não cênica, sítios paleontológicos e arqueológicos, incluindo favorece a existência de paisagens acidentadas, passíveis de construções antigas, envoltas em atmosfera tropical e detentoras de um enredo histórico-cultural, que tenham empregado algum bem mineral em sua construção. Dessa forma, o levantamento do potencial geoturístico de uma região ou de um estado, preconizado também nos estudos da geodiversidade (SILVA et al., 2008), é de grande importância para identificar oportunidades que favoreçam o seu desenvolvimento econômico, a geração de emprego e renda, a inclusão social, permitindo, ao mesmo tempo, a implantação de políticas públicas de preservação do patrimônio geoturístico e a introdução de estudos que melhor caracterizem os sítios indicados. Nesse processo, é indispensável a participação da comunidade envolvida na área, que será a grande responsável por sua preservação e manutenção. Em território brasileiro, são conhecidas dezenas de sí- tios geoturísticos de grande visitação por turistas brasileiros e internacionais, tais como Cataratas do Iguaçu, Chapada Diamantina, Cânion do Itaimbezinho etc. Na Amazônia, o exemplo começa a ser adotado em decorrência de seus atrativos naturais, fundamentados na exuberante floresta tropical e em seus recursos hídricos superficiais largamente explorados. Entretanto, novas oportunidades estão surgindo, valorizando segmentos inexplorados, em que o componente geológico e/ou geomorfológico representa importante alternativa. Sítios geológicos, cavernas e/ou cavidades, por vezes contendo inscrições rupestres, sítios arqueológicos e/ou paleontoló- gicos e regiões de grande beleza cênica inserem-se nesse contexto e poderão alavancar o desenvolvimento regional. Figura 11.1 - Seringal Cachoeira. Fotografia: SETUL, 2012. 161 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE conter sítios de beleza cênica, tais como cânions, cachoei- a contribuir como elemento de consulta de órgãos públicos ras e cavernas, onde poderiam ser introduzidas atividades e empresas atuantes no setor turístico, possibilitando a vinculadas ao geoturismo. A exceção é a serra do Divisor, definição de roteiros, notadamente aqueles vinculados ao no extremo oeste do estado, constituída por rochas mais ecoturismo. antigas, com relevo pronunciado, que apresenta notável É premente, no entanto, a implantação de infraestru- vocação para o geoturismo. tura mais adequada, principalmente no que se refere a vias Observa-se, no entanto, que o turismo regional de acesso às áreas potenciais, ainda bastante precárias ou está atrelado basicamente ao turismo de eventos, dada mesmo inexistentes (por exemplo, cachoeira Formosa). Por a carência de acesso aos pontos geoturísticos e a falta de outro lado, como vários pontos indicados estão situados informações mais detalhadas sobre os atrativos naturais em áreas protegidas, como parques estaduais e terras indí- identificados no solo acreano. O crescimento do ecoturis- genas, que limitam seu acesso pleno, desperta expectativa mo, mais especificamente do geoturismo, está associado, uma possível alteração na legislação vigente, referente indubitavelmente, a um melhor conhecimento de seu aos parques nacionais, que favorecerá o aproveitamento potencial natural, por meio do levantamento detalhado turístico, obedecendo-se a normas rígidas quanto ao uso de sítios de interesse geológico, geomorfológico/beleza adequado. cênica, paleontológico, arqueológico, espeleológico, As informações sobre os principais atrativos geotu- parque etc. rísticos do estado do Acre, representados por sítios geo- O levantamento abrangente dos pontos geoturísticos lógicos, geomorfológicos, paleontológicos, arqueológicos do estado, realizado de forma inédita a partir de trabalhos e histórico-culturais foram cruzadas com as diversas cate- de campo em todas as regiões com acesso disponível, gorias de unidades de proteção legalmente constituídas, contando, ainda, com a contribuição de terceiros (univer- favorecendo rápida visualização das condições de acesso sidades, instituições públicas e pessoas físicas), propõe-se aos pontos indicados (Figura 11.2). Figura 11.2 - Atrativos geoturísticos x unidades de proteção do estado do Acre. Fonte: Elaborado por Ivan B. de Oliveira Filho, 2013. 162 POTENCIAL GEOTURÍSTICO ATRATIVOS GEOTURÍSTICOS representadas pela Formação Formosa, a sedimentos arenosos da Formação Içá, mais recentes e pouco conso- Os atrativos geoturísticos, em suas diversas formas lidados, discriminados a seguir. de representação, possuem valor natural fundamentado - Metassedimentos tectonizados da Formação For- em termos científicos, culturais, educativos e econômicos, mosa, representados por diversas cachoeiras em um curto estando limitados a uma área geográfica e submetidos a trecho do rio Anil, afluente do rio Moa. Do ponto de vista ameaças de toda ordem que podem comprometer sua in- geológico, caracteriza-se como uma janela estrutural tegridade física. Critérios de classificação variáveis são apre- alçada dentro dos arenitos da Formação Moa (Figuras sentados por distintos autores, inexistindo padronização. 11.3 e 11.4). No escopo deste trabalho, serão abordados alguns tipos de patrimônios e sítios evidenciados regionalmente e de real significado para o estado do Acre, não contem- plando necessariamente todas as formas identificadas no espaço físico regional. Como signatário da Convenção da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNES- CO), o Brasil é responsável, em território nacional, pela proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, que tem o objetivo de reconhecer os sítios culturais e naturais em âmbito mundial que possuam significativo interesse e valor universal, cuja preservação é considerada de respon- sabilidade de toda a humanidade. Em trabalhos de campo do Projeto Geodivesidade do Estado do Acre, foram coletadas informações sobre diversos sítios de interesse geoturístico, aos quais foram incorporados sítios vinculados aos temas paleontologia, arqueologia e geoglifos, de significativo potencial para a Figura 11.3 - Cachoeira Formosa (rio Anil): primeira queda. prática do turismo sustentável. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Sítios Geológicos Compreendem pontos de interesse geoturístico, sem estar associados, entretanto, a um eventual cadastro junto à Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP). Tais pontos estão distribuídos em todo o estado e mantêm forte associação com os recursos hídricos superfi- ciais, alguns dispostos ao longo de drenagens de pequeno a médio porte, como os rios Moa e Anil, não constituindo obstáculos à navegação de pequenas embarcações. A decisão de considerá-los atrativos turísticos de cunho geológico vincula-se às exposições rochosas repre- sentativas de diversas unidades geológicas, alguns dispos- tos em cursos d’água e originando formosas cachoeiras que se constituem em objeto de turismo em níveis local e regional. Por exemplo, o rio Moa e seus afluentes exibem numerosas cachoeiras formadas por arenitos de diferentes Figura 11.4 - Cachoeira Formosa (rio Anil): segunda queda. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. unidades, com destaque para as do Pirapora e da Escada. Nesse contexto, merece menção o “Buraco da Central”, um poço jorrante que atinge profundidade superior a 400 - Arenitos e conglomerados fluviais da Formação m, Em geral, esses sítios não dispõem de vias de acesso Moa, intensamente fraturados e dobrados, com relevo de boa qualidade, restringindo o pleno uso do atrativo acidentado, favorecendo a formação de sítios geoturísticos, natural. Muitos desses sítios estão localizados em áreas tais como cachoeiras e pequenas gargantas (Figuras 11.5 protegidas, como parques e terras indígenas, dificultando a 11.10). Acredita-se que, ao longo do curso dos afluentes seu aproveitamento à luz da legislação atual. secundários do rio Moa, estejam dispostas outras quedas Os sítios geológicos estão abrigados em unidades d’água em direção às suas cabeceiras no alto da serra; geológicas bastante distintas, desde rochas mais antigas, porém, até o momento, não reconhecidas. 163 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 11.5 - Cachoeira Pirapora: arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 11.7 - Cachoeira do ar condicionado: arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 11.6 - Cachoeira do Amor: arenitos da formação Moa. Figura 11.8 - Cachoeira da escada: arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 164 POTENCIAL GEOTURÍSTICO Figura 11.11 - “Buraco da Central”: jorro ininterrupto de água subterrânea. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Arenitos fluviais com intercalação de siltitos da Forma- ção Divisor, fraturados e dobrados, representados por um relevo de morros e serras baixas, com desníveis de dezena de metros que favorecem a formação de cachoeiras como a do Pedernal, disposta no leito do curso superior do rio Moa (Figura 11.12). O relevo acentuado das formações Moa Figura 11.9 - Pequena garganta em arenitos da formação Moa. e Divisor, de encostas declivosas, é responsável pelo baixo Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. reconhecimento dos atrativos naturais no interior da serra, limitando o acesso, praticamente, a uma estreita faixa ao longo do rio Moa. Figura 11.10 - Cavidade em arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. A Formação Moa caracteriza-se também por seu Figura 11.12 - Cachoeira do Pedernal, constituída por arenitos fluviais. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. elevado potencial para águas subterrâneas, como o interes- sante sítio denominado “Buraco da Central”, identificado por uma antiga sondagem da Petrobras datada de 1930 - Sedimentos argilosos ou argilossiltosos da Forma- (informação verbal), que atingiu uma profundidade superior ção Solimões, observados em afloramentos expostos em a 400 m, não tendo sido tamponada, resultando, então, em cortes de rodovias ou em taludes marginais dos rios de um possante jorro de água subterrânea levemente aquecida maior porte, com estratificação plano-paralela rica em e sulforosa, brotando, há décadas, de forma ininterrupta concreções calcárias, gipsitas e restos fossilizados (Figuras (Figura 11.11). 11.13 a 11.16). 165 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 11.16 – Sedimentos da formação Solimões (ponto 111; corte na rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 11.13 - Exposição de sedimentos da formação Solimões (ponto 102; rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. - Sedimentos arenosos inconsolidados da Formação Içá, representados pela área de extração de areia para construção civil identificada como Areal do Alvir, localizado na rodovia estadual AC-405, próximo ao Balneário Igarapé Preto (Figuras 11.17 e 11.18), com desenvolvimento de fei- ções pedogenéticas únicas no estado (orstein). Figura 11.14 - Sedimentos rítmicos da formação Solimões (ponto 102; rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 11.17 - Areal do Alvir: lavra de areia e feições orstein. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 11.15 - Amplo afloramento de sedimentos da formação Solimões (ponto 111; rodovia BR-364). Figura 11.18 - Areal do Alvir: monturos de areia usada na Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. construção civil. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 166 POTENCIAL GEOTURÍSTICO Sítios Geomorfológicos Um observador comum, ao dirigir o olhar para deter- minada paisagem natural possuidora de beleza cênica, irá considerá-la apenas um objeto contemplativo, sem procurar resgatar as informações a ela associadas. A existência de formas de relevo destacadas, entretanto, deve conduzir a uma visão mais ampla e integrada, desde sua origem geológica e ação de agentes intempéricos que modelam a paisagem a eventuais conteúdos fossilíferos e evidências antrópicas, as quais agregam valor a determinado cenário natural, possibilitando ao geoturista melhor entendimento dos processos geológicos e antrópicos que envolvem aquele atraente cenário. No Acre, embora não se registrem altitudes mais expressivas, são comuns diferenças de cotas com algumas centenas de metros que propiciam o surgimento de feições Figura 11.19 - Vale do rio Moa visto do Mirante do Morro Queimado. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. geomorfológicas interessantes para o aproveitamento geoturístico. Em geral, esses sítios estão associados às co- berturas sedimentares da serra do Divisor, na extremidade oeste do estado, de topo aguçado e encostas com forte declive, formadas pelas unidades geológicas constituintes da Bacia do Acre – formações Moa, Rio Azul, Divisor e Ramon –, de idade cretácica (65,5 a 145,5 Ma), compos- tas, fundamentalmente, por arenitos, siltitos, argilitos e conglomerados fluviais. É necessário citar que o relevo mais pronunciado do estado do Acre, representado pela região serrana da serra do Divisor, é reconhecido apenas ao longo do eixo do rio Moa. Em sua quase totalidade, essa serra é praticamente desconhecida em seu potencial geoturístico em seus vários blocos (serras Jaquirana, Moa, Juruá-Mirim e Rio Branco). Esse conjunto serrano é importante ainda por sua biodiversidade, tendo contribuído para a criação do Par- que Nacional da Serra do Divisor (Decreto nº 97.839, de Figura 11.20 - Conjunto de elevações da serra do Divisor. 16.06.1989), contemplando 846,633 mil hectares. Abriga, Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. ainda, o ponto mais extremo do território brasileiro, loca- lizando nas nascentes do rio Moa, e o ponto mais alto do Acre, atingindo 609 m (07°33’13”S/73º59’32”W). Nesse contexto, destacam-se os sítios de interesse científico, como aquele representado pela planície de inundação do rio Tarauacá, junto à ponte sobre o rio ho- mônimo, com bela e ampla área aplainada utilizada para plantio diverso no período de estiagem. Ainda na serra do Divisor, registros de fósseis cretácicos são mencionados. Os trabalhos de campo executados pelo Projeto Geo- diversidade do Estado do Acre, associados às informações obtidas junto a instituições diversas, permitiram a identi- ficação de alguns sítios geomorfológicos que valorizam a paisagem regional, correlacionados às rochas areníticas da Formação Moa/serra do Divisor – Mirante do Morro Quei- mado (Figuras 11.19 e 11.20), bem como em determinados trechos da Rodovia BR-364, próximo à cidade de Tarauacá – morros da formação Solimões (Figura 11.21) e planície Figura 11.21 - Morros pronunciados, de encostas declivosas de inundação do rio Tarauacá, instalada em sedimentos submetidas a frequentes movimentos de massa; sedimentos síltico- aluvionares do rio homônimo (Figura 11.22). arenosos da formação Solimões. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 167 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Convém mencionar a extraordinária coleção de fósseis da megafauna miocênica e pleistocênica do senhor Renato Mota, na cidade de Marechal Thaumaturgo, coletados na bacia do alto Juruá, resultante de uma vida dedicada a pro- teger os fragmentos fósseis encontrados em sítios distintos na região, exibindo exemplares de jacarés, toxodontes, tartarugas, mastodontes, entre outros (Figura 11.24). Outros sítios valiosos localizam-se em determinados trechos da Rodovia BR-364, particularmente entre os muni- cípios de Tarauacá e Manoel Urbano, onde são observados cortes amplos da rodovia aflorando sedimentos argilosos da Formação Solimões. Alguns são citados em trabalhos científicos, tais como os sítios Niterói, Lula e Morro do Careca, e são constantemente objetos de visitação técnica por estudantes e profissionais do estado e de outras partes Figura 11.22 - Planície de inundação do rio Tarauacá (rodovia BR- 364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. do país, sempre obtendo novas evidências fossilíferas. Dife- rentemente do constatado no vizinho estado de Rondônia, os sítios acreanos, em sua maioria, estão in situ, possuindo Sítios Paleontológicos O estudo da vida pretérita do planeta Terra desde suas primeiras manifestações registradas e o seu desenvolvimento ao longo do tempo geológico, assim como os processos de integração da informação biológica no registro geológico representado pelos fósseis, constituem o escopo da Paleon- tologia. Terrenos contendo restos de animais e de vegetais ou evidências das atividades desses organismos que ficaram preservados nas rochas constituem sítios paleontológicos que devem ser objetos de proteção e preservação. O patrimônio paleontológico do Acre registra a pre- sença de numerosos sítios fossilíferos em três períodos distintos: restos fósseis de pequeno porte, associados aos conglomerados cretácicos da Formação Moa, no rio homônimo; importante megafauna e ainda restos vegetais identificados na Formação Solimões, de idade miocênica a pliocênica, e finalmente, um conteúdo fóssil nos se- Figura 11.23 - Crânio de Purussaurus brasiliensis em exposição no dimentos pleistocênicos, retrabalhados pelos processos LPP/UFAC. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. erosivos sub-recentes a atuais, favorecendo sua deposição em sedimentos holocênicos. A importância geocientífica desses jazimentos fossilíferos foi devidamente registrada por numerosos pesquisadores regionais, nacionais e/ou internacionais, produzindo dezenas de artigos científicos, induzindo a um crescente interesse geoturístico. Os sítios fossilíferos ocorrem predominantemente ao longo de diversas bacias hidrográficas do estado, notada- mente nos rios Acre, Juruá, Purus, Envira e Tarauacá, capazes de apresentar taludes marginais expressivos, constantemente retrabalhados pela erosão fluvial, permitindo que aflorem fragmentos de representantes da fauna e da flora antigas. Sítios paleontológicos importantes foram identificados nos rios Purus e Acre (Cachoeira do Bandeira), onde foram encontrados crocodilídeos de grande porte (por exemplo, Purussaurus brasiliensis), um dos quais atingindo 12 m, cujo crânio está depositado no Laboratório de Pesquisas Paleon- tológicas da Universidade Federal do Acre (LPP/UFAC) em Figura 11.24 - Coleção particular de megafósseis (Marechal Rio Branco (Figura 11.23). Thaumaturgo). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 168 POTENCIAL GEOTURÍSTICO baixo transporte, o que favorece uma melhor interpretação do ambiente e da pretérita vida animal e vegetal. O aproveitamento geoturístico e geocientífico de determinados sítios fossilíferos mais representativos, iden- tificados em território acreano, constitui-se em alternativa importante para o estado não só do ponto de vista econô- mico como também acadêmico, possibilitando avanço no conhecimento das condições pretéritas desse espaço físico. Embora existam dezenas de sítios fossilíferos carac- terizados em diversas regiões do estado, foram selecio- nados 10 locais para constar neste capítulo. Distribuídos nas bacias de drenagem mais importantes e ao longo da Rodovia BR-364, foram descobertos em sua maior parte por paleontólogos atuantes no estado. - Cânion Apertado da Hora: Trecho escarpado Figura 11.26 - Extensa exposição de sedimentos fossilíferos da ao longo do alto rio Moa, com exposição de sedimentos formação Solimões no rio Acre, a montante da cidade de Rio arenosos e conglomeráticos da Formação Moa, de idade Branco. Fotografia: Jean Bocquentin-Villanueva/UFAC, s/data. cretácica (Figura 11.25), onde foram identificados rema- nescentes fósseis de peixes (dentes de tubarão e raias), - Cachoeira do Bandeira: Localizado em taludes sugerindo a existência de um mar interior provindo do marginais do alto rio Acre, que favorecem a exposição de sedi- norte em diferentes episódios durante o Cretáceo Superior mentos conglomeráticos da Formação Solimões, portadores (BRITO; NEGRI; BOCQUENTIN, 1994). de fósseis de idade miocênica a pliocênica, constituídos por invertebrados, fragmentos de peixes, répteis (quelônios e cro- codilídeos), aves e mamíferos. Constitui um sítio histórico pela descoberta dos primeiros crocodilianos, sendo o sítio mais expressivo em conteúdo de moluscos fósseis (Figura 11.27). Figura 11.25 - Sedimentos conglomeráticos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. - Sítio Niterói: Localizado em taludes marginais do rio Acre, próximo à cidade de Rio Branco (20 km a mon- tante), associado a sedimentos argilossiltosos da Formação Solimões (Mioceno ao Pleistoceno), com abundante conte- údo fossilífero, onde foram caracterizados invertebrados e fragmentos de peixes, répteis (quelônios e crocodilianos), aves e mamíferos (Figura 11.26). - Sítio Preventório: Localizado no perímetro urba- no de Rio Branco, apresenta restos fósseis diversificados, associados a sedimentos retrabalhados da Formação Soli- mões. Trata-se de área sujeita a frequentes rastejamentos de encostas no período das chuvas, que podem arrastar Figura 11.27 - Curso superior do rio Acre, próximo à cidade de construções, mas que favorecem novas exposições dos sedi- Assis Brasil; alto conteúdo fossilífero em sedimentos argilossiltosos mentos subjacentes, portadores de fragmentos fossilíferos. da formação Solimões. Fotografia: R. Francisco Negri, 1998. 169 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE - Fazenda do Zé Brasil: Extensa exposição de rit- mitos da Formação Solimões em margem côncava do rio Purus, compreendendo siltitos, arenitos e conglomerados situados a jusante da cidade de Santa Rosa do Purus. Fo- ram encontrados abundantes restos de madeira fossilizada pleistocênica (Figura 11.28). Figura 11.30 - Sítio Morro do Careca: fêmur de jacaré (rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. - Sítio do Lula: Situa-se em corte marginal à Rodovia BR-364, próximo a cidade de Sena Madureira. É objeto de Figura 11.28 - Fazenda do Zé Brasil: fragmentos fossilizados de pesquisa há muitos anos, por seu significativo conteúdo vegetais. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. fossilífero. Nesse sítio foram caracterizadas algumas das primeiras evidências de crocodilianos e quelônios, pos- - Sítio Morro do Careca: Localizado em corte teriormente também identificadas em outros locais do marginal à Rodovia BR-364, constitui um dos sítios pale- território acreano (Figura 11.31); também foram coletados ontológicos mais expressivos do território acreano, devido invertebrados, fragmentos de peixes, répteis e mamífe- tanto à abundância de fragmentos fossilizados como à sua ros. Atualmente, o sítio está coberto por vegetação de qualidade e diversificação. Conhecido há muitos anos, é ob- gramíneas e parcialmente removido pelo asfaltamento jeto de coleta contínua de fósseis, tais como invertebrados, da rodovia. fragmentos de peixes, répteis (quelônios – placas córneas - Sítio na Rodovia BR-364: Constitui amplo corte e crocodilianos), aves e mamíferos. Em visita de campo marginal a essa rodovia, onde afloram sedimentos pelíti- foram identificados, dentre outros, garras de caranguejo, cos da Formação Solimões. É rico em fósseis, como os de vértebras de peixes, placas córneas de tartarugas, dentes crocodilianos da espécie Mourasuchus Arenosi. de jacaré, coprólitos (Figuras 11.29 e 11.30). Figura 11.29 - Sítio Morro do Careca (rodovia BR-364). Figura 11.31 - Sítio Lula: abundantes fragmentos fósseis. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 170 POTENCIAL GEOTURÍSTICO - Corte na Rodovia BR-364: Nova exposição de sedimentos pelíticos da Formação Solimões, dispostos em corte marginal a essa rodovia, contemplando conteúdo fóssil diversificado (dentes de jacaré, garras de caranguejo etc.). Ressalta-se a presença de gipsita, comum nesses sedimentos, além de abundantes concreções calcárias (Figura 11.32). Figura 11.34 - Cachoeira do Gastón: fragmento fóssil vegetal. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. - Sítio Patos: Extenso talude marginal do alto rio Acre (município de Assis Brasil), representado por sedimentos conglomeráticos de matriz argilosa da Formação Solimões, onde se distribuem fósseis de invertebrados, fragmentos de peixes, répteis (quelônios e crocodilianos), aves e mamíferos. - Sítio Cavalcante: Ampla exposição de sedimen- Figura 11.32 - Corte na rodovia BR-364: afloramento de tos argilossiltosos da Formação Solimões dispostos em sedimentos da formação Solimões; fragmentos fósseis. barrancas do alto rio Acre (município de Assis Brasil), com Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. abundantes fragmentos fósseis de peixes, répteis (quelônios e crocodilianos) e mamíferos (Figura 11.35). - Cachoeira do Gastón: Trata-se de uma corredeira- -cachoeira disposta transversalmente ao fluxo do rio Juruá, exibindo sedimentos conglomeráticos e arenosos terciquaternários, de presumível idade pleistocênica (Fi- gura 11.33). O conteúdo fossilífero é expressivo, desde fragmentos de crocodilianos e quelônios (miocênicos) a restos de toxodontes e madeiras fossilizadas (pleistocê- nicas) (Figura 11.34). Figura 11.33 - Cachoeira do Gastón: arenitos e conglomerados Figura 11.35 - Sítio Cavalcante: local de identificação de pleistocênicos. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. fragmentos fósseis (alto rio Acre). Fonte: Arquivo LPP, 2002. 171 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Sítios Arqueológicos (retângulos, círculos, hexágonos, octógonos etc.) e caminhos que as conectam. Atingem dimensões de várias centenas O termo “estudos geoarqueológicos” tem sido aplicado de metros (diâmetros até 350 m) e profundidades de um a desde 1970 para designar pesquisas com utilização de técni- cinco metros (SCHAAN; RANZI; PÄRSSINEN, 2008). Datações cas das Geociências na avaliação do registro arqueológico. A geocronológicas estimam a idade dessas estruturas em interação dessas ciências tornou-se necessária pelo avanço aproximadamente 2.000 anos; no entanto, datações sobre das análises temporal e espacial dos sítios arqueológicos, objetos resgatados nos geoglifos, que indicariam a idade das relacionando-as às fases de evolução ambiental, cultural e construções, são bastante escassas, citando-se, por exemplo, de ocupação humana. Nesse contexto, a significativa asso- aquela efetuada por Pärssinen et al. (2008) no sítio Fazenda ciação de afloramentos rochosos a vestígios arqueológicos, Colorado, em que se obteve uma idade de 1.275 a.D. seja por meio de petróglifos, inscrições rupestres (pinturas Os geoglifos estão presentes em diversos municípios e/ou gravuras) ou de artefatos líticos, dentre outros, indica acreanos, destacando-se Rio Branco, Capixaba, Porto Acre, a importância de um estudo geológico com outro olhar, Xapuri e Senador Guiomard. Tais estruturas são mais bem havendo autores que se referem a uma disciplina deno- observadas e caracterizadas em sobrevoos do que no nível minada “Arqueologia Geológica” (RUBIN; SILVA, 2008). do solo, onde a visão é muito limitada. São registrados Tais achados representam aspectos da rotina diária, ritos, 181 diferentes geoglifos de formas e dimensões distintas, cerimônias de antigos habitantes de determinada região, constituindo-se em patrimônio de valor incomensurável, a bem como simples figuras antropomórficas ou de animais, ser bem gerido pelo poder público, que deverá preservá- muitos já extintos. Deve-se levar em conta, ainda, que cada -los e, ao mesmo tempo, fazer com que proporcionem sítio arqueológico é único em sua composição sedimento- benefícios de ordem cultural e material para a comunidade lógica, inserção paisagística e práticas culturais que nele se envolvida (RANZI, 2010). O aproveitamento ecoturístico manifestaram, merecendo, portanto, estudos específicos. deverá obedecer a um planejamento integrado, que, dentre Na Região Amazônica, existem sítios arqueológicos outros fatores, propicie um ambiente adequado e favorável descobertos em terrenos de solos cujas características ao bom aproveitamento do sítio ecoturístico, favorecendo originais foram modificadas pela atividade humana pré- retorno ou indicação para terceiros. histórica, evidenciando uma coloração escura, restos de O tema “geoglifos” implica um campo aberto para material arqueológico e altos teores de carbono orgânico, pesquisas diversas. Apesar de decorridos 35 anos da fósforo, cálcio, magnésio, zinco e manganês, diferenciados primeira descoberta, persistem dúvidas quanto à idade dos solos de seu entorno. Tais solos são conhecidos como e finalidade das construções, o contingente populacional “terra preta”, denominação normalmente associada ao existente na época, o tipo de clima e de cobertura vegetal resultado natural de descarte doméstico e acúmulo de sobre a área etc. (RANZI, 2003). Tais estruturas representam matéria orgânica estabelecido por pretéritas populações assentamentos humanos do período pré-histórico recente, indígenas, assentadas, por longos períodos, próximas a estando alojados em terras firmes, em lugares mais altos. cursos de água (KERN, 1988). Vestígios cerâmicos, de dimensão variável, ocorrem Em território acreano, as pesquisas arqueológicas praticamente em todos os quadrantes do estado, sendo começaram tardiamente (1977), com poucos projetos de- mais bem caracterizados na porção leste, onde a vege- senvolvidos, seja pela falta de investimentos em pesquisa, tação nativa foi parcialmente erradicada, favorecendo a seja pela carência de pessoal capacitado (SCHAAN, 2008). identificação de sítios cerâmicos, aos quais podem estar Um dos projetos iniciais, o Programa Nacional de Pesquisas associados artefatos líticos. Esses artefatos foram des- Arqueológicas na Bacia Amazônica (PRONAPABA), identi- cobertos em poucos lugares, mostrando uma presença ficou sítios em vários rios acreanos (Iquiri, Abunã, Acre e restrita no estado devido à inexistência de rochas duras, Purus), dividindo-os em cemitério de urnas, concentração sugerindo que os objetos encontrados possam provir de superficial de peças de cerâmica, com estruturas e sítios- ações de escambo entre diferentes aglomerados indígenas, -habitações em terras altas, embora frequentemente haja ou mesmo troféus de ações belicosas. superposição de um ou mais tipos de sítios. Nos anos sub- A idade da ocupação humana do estado do Acre não sequentes, novos sítios foram gradualmente identificados está plenamente consolidada. devido à escassez de infor- em outras bacias acreanas (Tarauacá, Moa, Juruá etc.). mações provenientes de sítios arqueológicos esclarecedores Entretanto, a descoberta e divulgação de sítios deno- deixados por povos que ocuparam preteritamente a região. minados “geoglifos” nas últimas décadas, até então desco- Citações bibliográficas mencionam que os primeiros grupos nhecidos no território brasileiro, provocaram um despertar indígenas se deslocaram para essa região há mais de 5.000 para a arqueologia, não só por pesquisadores locais como anos, revelando a precariedade de uma informação mais também nacionais e até mesmo internacionais. Os geogli- segura e precisa (ACRE, 2010). fos constituem o achado arqueológico mais importante A identificação de geoglifos no Acre é incrementa- do estado do Acre, representando estruturas físicas do da de forma contínua, contando-se atualmente mais de tipo trincheiras, escavadas em solos argilosos derivados da duas centenas de sítios catalogados. Para os objetivos do Formação Solimões, exibindo formas geométricas variáveis presente trabalho, foram considerados 14 geoglifos, indi- 172 POTENCIAL GEOTURÍSTICO vidualizados por critérios de distribuição espacial, forma geométrica assumida pela estrutura e importância histórica. - Fazenda Atlântica: Geoglifo localizado no muni- cípio de Senador Guiomard, constituído por um conjunto de valas geométricas dispostas em forma de quadrado e círculo, escavadas na margem direita da Rodovia BR-364, próximo ao entroncamento com a BR-317. A magnitude do quadrado, a profundidade e largura da vala, bem como a precisão geométrica do conjunto impressionam pela estética e habilidade de construção (Figura 11.36). As coordenadas geográficas do ponto são 67º34’16,00”W e 10º04’47,00”S. Figura 11.38 - Vala escavada em geoglifo. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. - Sítio do Tequinho: Situado no Ramal Pelé, junto à Rodovia BR-317, sentido Boca do Acre, município de Senador Guiomard (67º25’20,30”W e 09º53’50,90”S). Representa um dos geoglifos mais importantes descobertos no estado do Acre, sendo constituído por um quadrado e outras estruturas, disposto em valas de fosso duplo, cujo lado pode atingir 165 m (Figura 11.39). Figura 11.36 - Fazenda Atlântica: conjunto de geoglifos (Senador Guiomard). Fonte: SCHAAN, 2010. - Sítio do Senhor Jacó Sá (Colônia Bom Começo): Localiza-se no município de Rio Branco, junto à Rodovia BR-317, sentido Boca do Acre, definido pelas coordenadas 67º29’43,00”W e 09º57’30,90”S. Trata-se de um geoglifo caracterizado por valas profundas e geométricas, em forma de quadrados, em um dos quais se insere um círculo inter- no, com diâmetro de 100 m. Os lados do quadrado medem 140 m e a largura das valas, até 11 m (Figuras 11.37 e 11.38). Figura 11.39 - Sítio do Tequinho: conjunto complexo de geoglifos (Senador Guiomard). Fonte: SCHAAN, 2010. - Sítio Bimbarra: Localizado próximo à cidade de Capixaba (67º40’04,94”W e 10º34’09,11”S). Geoglifo dis- posto em forma de um círculo e semicírculo interno, com diâmetro de 100 m (Figura 11.40). As valas foram gradati- vamente assoreadas, reduzindo sua profundidade média e suavizando os declives. Potencial ecoturístico favorável, devido à proximidade de centro urbano e facilidade de Figura 11.37 - Sítio do senhor Jacó Sá: geoglifos em formatos acesso, o que permitiu a construção de uma plataforma diversos (Rio Branco). Fonte: SCHAAN, 2010. de observação. 173 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE a Figura 11.40 - Sítio Bimbarra: estruturas circulares dos geoglifos (Capixaba). Fonte: SCHAAN, 2010. - Sítio Los Angeles: Constituído por uma estrutura geométrica em forma circular, com 200 m de diâmetro e valas de 2-3 m de largura (Figura 11.41). Sítio intensamente pesquisado, com escavações que resultaram em rico acervo arqueológico, tais como peças de cerâmica, ossos e material b lítico. Situa-se na Fazenda Ouro Branco (Epitaciolândia), junto à Rodovia BR-317 (68º10’46,00”W e 10º42’48,00”S). c Figura 11.41 - Sítio Los Angeles: sítio litocerâmico e geoglifo (Epitaciolândia). Fonte: SCHAAN, 2010. - Fazenda Colorado: Ponto localizado no município de Rio Branco, ao longo da Rodovia BR-317, sentido Boca do Acre (67º31’55,70”W e 09º52’15,00”S). As estruturas escavadas são representadas por um círculo (diâmetro de 120 m), um quadrado (200 m lado) e uma vala tipo “U” com fosso duplo (Figura 11.42). Constitui o primeiro geoglifo a chamar a atenção dos pesquisadores e onde foi efetuada a determinação cronológica de um pedaço de carvão co- Figura 11.42 - Sítio Fazenda Colorado: conjunto complexo de letado no local, indicando idade aproximada de 1.283 a.D. geoglifos (Rio Branco). Fonte: SCHAAN, 2010. 174 POTENCIAL GEOTURÍSTICO - Fazenda do Senhor Severino Calazans da Silva: município de Porto Acre, próximo ao entroncamento dos Caracteriza-se por um padrão geométrico em forma de ramais 49 e 55 com a Rodovia BR-317 (67º25’06,00”W e um quadrado, no qual foram coletados fragmentos de 09º52’54,00” S). cerâmica. Foi descoberto na Rodovia BR-317 (município de - Fazenda Missões: Implantado em Senador Guio- Rio Branco), no trajeto para Boca do Acre (67º30’23,40”W mard, contempla uma estruturação complexa, compre- e 10º01’18,70”S). Sítio submetido a escavações e mapea- endida por dois círculos (diâmetro de 220 m e 67 m), mento detalhado (Figura 11.43). um quadrado e uma vala em “U” (218 m de lado) (Figura - Fazenda Baixa Verde I: Disposta na Rodovia BR-317, 11.46). Posiciona-se segundo as coordenadas geográficas sentido Boca do Acre (67º32’41,00”W e 10º04’15,00”S), 67º43’10,00”W e 10º11’25,00”S. pertencente ao município de Rio Branco. Geoglifo estru- - Fazenda São Paulo: Representado por um geoglifo turado em forma de um círculo e de um quadrado (Figura em forma de dois círculos (200 e 70 m) e um quadra- 11.44). do (30 m de lado), descoberto no município de Xapuri - Sítio Sapucaia: Sítio identificado por escavações no (68º18’51,10”W e 10º40’11,90”S). Registra-se, ainda, a solo. Bastante depredado atualmente, assume uma suposta presença de um fosso profundo, de forma sinuosa, ligando forma geométrica quadrada (Figura 11.45). Localiza-se no o círculo maior e o quadrado (Figura 11.47). Figura 11.43 - Sítio Fazenda Severino C. da Silva: geoglifo Figura 11.45 - Sítio Sapucaia: geoglifo depredado (Porto Acre). quadrático e fragmentos de cerâmica (Rio Branco). Fonte: SCHAAN, 2010. Fonte: SCHAAN, 2010. Figura 11.44 - Sítio Fazenda Baixa Verde I: formas de quadrado e Figura 11.46 - Sítio Fazenda Missões: estrutura complexa circulo (Rio Branco). Fonte: SCHAAN, 2010. (Senador Guiomard). Fonte: SCHAAN, 2010. 175 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Como sítios litocerâmicos, foram individualizadas apenas as duas localidades melhor caracterizadas: - Sítio Macauã: Sítio arqueológico descoberto na bacia do riozinho do Rola, município de Rio Branco (67º56’25,00”W e 10º05’19,00”S), contendo evidências de antiga ocupação humana, representadas por urnas fragmentadas, cacos de cerâmica, lâminas de machado e polidores de grandes dimensões. - Sítio Ouro Branco: Próximo ao Sítio Los Ange- les (BR-317), no município de Xapuri (68º10’36,00”W e 10º43’12,00”S). Exibe conteúdo litocerâmico, com cacos de cerâmica, peças líticas (lâminas de machados, batedores, polidores etc.). Observam-se, ainda, seixos de madeira fossilizada. É importante salientar que existe um controle relati- Figura 11.47 - Sítio Fazenda São Paulo: formas circulares unidas vamente preciso da ocorrência de geoglifos no estado do por fosso (Xapuri). Fonte: SCHAAN, 2010. Acre, limitados até o presente momento em áreas desma- tadas e distantes de terrenos inundáveis, o que leva a supor - Sítio Xipamanu I: Identificado na Fazenda Indepen- sua existência em número indeterminado nos trechos ainda dência, junto à Rodovia BR-317, no município de Xapuri. É protegidos pela cobertura vegetal nativa. Por outro lado, os constituído por uma figura geométrica elipsoidal, com di- demais sítios arqueológicos, tais como os litocerâmicos, de mensões de 312 x 162 m (68º09’27,00”W e 10º42’06,00”S) (Figura 11.48). Estrutura seccionada pela Rodovia BR-317. - Sítio Coquinho: Geoglifo em forma de um círculo (100 m de diâmetro) e outras estruturas geométricas, com largura do fosso de até 11 m e profundidade média de 2 m. Fragmentos de cerâmica também foram constatados nesse local. Foi descoberto no Km 134 da Rodovia BR-317, próximo ao entroncamento com a AC-40 (11,5 km de dis- tância), no município de Senador Guiomard. Constitui um geoglifo importante, com belas estruturas. Seu ótimo aces- so favorece o aproveitamento geoturístico (67º41’34,00W e 10º18’05,00S). - Fazenda Paraná: Geoglifo caracterizado no mu- nicípio de Porto Acre, sob as coordenadas geográficas 67º20’39’’W e 9º47’14,00”S. Sua estruturação geométrica diferenciada é constituída por dois quadrados (200 m e 100 m de lado) ligados entre si por um caminho retilíneo Figura 11.49 - Sítio Fazenda Paraná: formas quadráticas unidas de 100 m de extensão (Figura 11.49). entre si (Porto Acre). Fonte: SCHAAN, 2010. Figura 11.48 - Sítio Xipamanu I: geoglifo elipsoidal (Xapuri). Fonte: SCHAAN, 2010.. 176 POTENCIAL GEOTURÍSTICO habitação, de acampamento, oficinas líticas, entre outros, podem ser danificados quando da remoção da vegetação nativa, perdendo-se informações importantes. Por iniciativa do poder público, centros importantes de preservação de objetos resgatados em sítios arqueológicos ou da memória de povos pretéritos e/ou atuais ocupantes do solo acreano foram implantados em diversas sedes municipais, tais como o Museu da Borracha e a Biblioteca da Floresta, ambos em Rio Branco. Sítios Histórico-Culturais O estado do Acre apresenta sítios de relevante interes- se histórico-cultural, associados ao processo de ocupação inicial, à revolução acreana e à luta pela preservação da Figura 11.50 - Casa de Chico Mendes (Xapuri). floresta amazônica liderada por seringueiros. No escopo Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. deste trabalho, foram considerados dois sítios de maior interesse, de grande envolvimento da população nativa, Na capital do estado, Rio Branco, durante os últimos anos localizados em dois núcleos urbanos detentores de um vem-se procedendo a uma ampla reformulação da geografia contexto histórico importante. física da cidade, com a restauração de espaços urbanos, Na porção SSE do estado, próximo à fronteira com a re- recuperando antigas construções e paços, e a criação de áreas pública boliviana, abriga-se a cidade de Xapuri, pequeno alternativas para o lazer da população, e, ao mesmo tempo, núcleo urbano criado pela expansão do movimento extrati- resgatando sítios de interesse histórico-cultural. vista da borracha no final do século XIX, possuidor de um Nesse contexto, um importante sítio urbano destaca- passado histórico expressivo, desde suaencarte unidosREDE se por sua associação com os primórdios da cidade e ocupação pelos primeiros seringueiros, transitando pela re- representar o primeiro porto local, onde desembarcavam volução acreana e culminando com os movimentos sindicais pessoas e mercadorias para atender à demanda existente. dos seringueiros contra os grandes proprietários de terra, Com a revitalização desse espaço, agora denominado interessados em devastar a floresta tropical para a prática Complexo do Calçadão da Gameleira, foram restauradas da bovinocultura e a comercialização da madeira. Contra antigas edificações, ocupadas atualmente por instituições essa prática empresarial levantaram-se os moradores da públicas voltadas a cultuar a história regional. floresta, que buscavam manter sua concepção de vida como Construiu-se, também, um extenso calçadão às mar- extrativistas de seivas naturais, principalmente látex, como gens do rio Acre, ocupado diariamente por moradores também a própria preservação da mata tropical, essencial locais (Figura 11.51). O cenário contempla a visão de várias para a manutenção de suas famílias. Liderados pelo sindi- pontes cruzando o rio e do belíssimo pôr do sol refletido calista Chico Mendes, promoveram diversas manifestações nas águas do rio Acre (Figura 11.52). contrárias à derrubada da mata, que ressoaram no mundo inteiro, paralisando o processo de invasão do território acreano e pressionando os governos estadual e federal para implantação de políticas ambientais alinhadas com essa visão, contribuindo, finalmente, na criação das reservas extrativistas. Entretanto, para o líder seringueiro, a vitória custou-lhe caro, tendo perdido a vida no ano de 1988. Como homenagem a essa figura histórica, foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes na zona rural de Xapuri, além de um museu com objetos e pertences pessoais. Da mesma forma, foi preservada sua última moradia, objeto de visita diária de turistas (Figura 11.50). Nas ruas da cidade podem ser admirados casarões antigos e pontos pito- rescos, remanescentes do ciclo da borracha, bem como ouvidos relatos de antigas histórias Figura 11.51 - Casario restaurado às margens do rio Acre. contadas por moradores locais. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 177 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 11.52 - Pontes contruídas sobre o rio Acre e calçadão Figura 11.54 - Palácio Rio Branco. extenso em suas margens. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. Nas proximidades desse complexo foi preservada a an- revolução acreana e onde foi implantado o quartel-general tiga sede de um seringal implantado em 1882 com o nome das forças brasileiras. Recentemente, foi objeto de uma de Volta da Empresa, que teve forte atuação na revolução reforma, de modo a adaptar suas instalações para uma acreana. As construções, conhecidas como Parque Capitão pousada de floresta, capaz de receber turistas em viagens Ciriaco, estão preservadas e ocupadas por 400 seringueiras pré-programadas. em uma área de 4,6 hectares (Figura 11.53). Mencionam-se, ainda, as Reservas Extrativistas, Outros locais de importância histórico-cultural divididas em cinco áreas distintas e capazes de absorver são identificados no território acreano, como opções a pequenos grupos de turistas, curiosos em conhecer a vida serem consideradas, tais como o Palácio Rio Branco, dos seringueiros e o processo de extração e defumação da antiga sede do governo estadual. Obra iniciada em 1920 seiva natural extraída da árvore “seringueira”. e concluída em 1945, de estilo inspirado na arquitetura Políticas públicas estaduais associadas ao desenvol- grega, hoje abriga um museu, com objetos, fotografias vimento sustentável favorecem a preservação da floresta e depoimentos das diversas fases da história do povo amazônica nativa em grande parte do território, onde não acreano (Figura 11.54). existem estradas de rodagem, dificultando o acesso de fren- Uma alternativa vincula-se ao Seringal Bom Desti- tes migratórias. Esse cenário é favorável às diversas etnias no, no baixo rio Acre, município de Porto Acre, berço da indígenas existentes no estado, permitindo que conservem sistemas de vida tradicionais, embora tenham contato com as áreas urbanas próximas. Os melhores exemplos de con- vívio pacífico entre a população urbana e as comunidades nativas podem ser constatados nas cidades de Jordão e Santa Rosa do Purus, onde significativa parcela da popu- lação municipal pertencente às etnias indígenas Kaxinawã, Kulina e Jaminawa ocupam parcelas da mancha urbana. Em decorrência da preservação da identidade cul- tural das comunidades nativas, foram demarcadas e re- gulamentadas 30 Terras Indígenas, distribuidas em sua maior parte na região oeste do estado, onde a cobertura vegetal encontra-se mais bem preservada. Estima-se que 15 mil índios habitem o estado do Acre, de 14 diferentes nações, que procuram manter preservadas as tradições de suas respectivas etnias. Numerosas etnias transformaram suas aldeias em produtos turísticos autênticos, recebendo turistas nacionais e internacionais, tais como a Ashaninka, Figura 11.53 - Parque Capitão Círiaco. do rio Amônia; a Huni Kuin, no rio Jordão, a Poyanawa, no Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. rio Moa, principalmente durante os períodos de suas festas 178 POTENCIAL GEOTURÍSTICO anuais. É conhecido também o Festival Yawanawá em uma 11.57)., é de uso intenso no período seco, favorecido por ex- aldeia dessa etnia no rio Gregório. celente acessibilidade e oferta de restaurantes típicos. Área Uma menção especial associa-se ao Santo Daime, a definida pelas coordenadas geográficas 72º45’19,46”W e doutrina que surgiu no interior da floresta amazônica no 7º35’40,46”S. início do século XX tendo como mestre a figura de Irineu Serra, homenageado posteriormente com a designação de uma área de proteção ambiental. Segundo consta, ele teria recebido a revelação de uma doutrina de cunho cristão, a partir da bebida ayahuasca, bastante difundida pelos povos indígenas da região, hoje espalhada por vários estados brasileiros. Outros Sítios de Interesse Geoturístico Durante os trabalhos de campo, realizados em todos os municípios acreanos, foram identificados sítios alterna- tivos para aproveitamento ecoturístico e que são objeto de visitação permanente pela população regional e de turistas procedentes de outros estados brasileiros. - Balneário do rio Moa: Trata-se de charmosa praia fluvial do rio Moa, situada na Rodovia AC-405, em direção ao município de Mâncio Lima, constituída por sucessivos bancos arenosos expostos na estação seca pelo rebaixa- Figura 11.56 - Balneário do igarapé Preto: águas límpidas e mento do nível fluviométrico do rio (Figura 11.55). Sítio escuras. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. de uso intenso pela população do entorno e de excelente acesso. Um viés ambiental é observado no local, que busca o menor impacto na cobertura vegetal primária, que se en- contra preservada em seu estrato superior. Espacialmente, é definido pelas coordenadas geográficas 72º47’46,38”W e 7º37’19,03”S. Figura 11.57 - Rodovia marginal ao balneário do igarapé Preto. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. - Parque Natural Chico Mendes: Ampla área na- tural no perímetro urbano de Rio Branco, criada em 2003, com a cobertura vegetal nativa preservada e atraente es- Figura 11.55 - Balneário do rio Moa. trutura de lazer e exposição de aspectos do cotidiano da Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. população nativa e lendas regionais (Figura 11.58). Exibe, também, um pequeno memorial em homenagem ao líder - Balneário do Igarapé Preto: Significativa opção sindical Chico Mendes. Diversas trilhas podem ser percorri- de lazer da população de Cruzeiro do Sul, constituído por das pelos visitantes, além de um zoológico com exemplares trechos represados do igarapé Preto, com águas negras e da fauna amazônica (aves, mamíferos, anfíbios e répteis) baixa quantidade de material em suspensão (Figura 11.56). (Figura 11.59). As coordenadas geográficas do local são: Localizado às margens da rodovia estadual AC-405 (Figura 67º47’48,35”W e 10º02’15,35”S. 179 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE do mundo, o Ministério do Meio Ambiente criou, em 2000, o Programa para o Desenvolvimento do Ecotu- rismo na Amazônia Legal (PROECOTUR Amazônia), cuja meta é viabilizar o desenvolvimento do ecoturismo na Região Amazônica brasileira, estabelecendo a base de investimentos públicos necessários para a atração de investidores privados. A Fase I do programa se cons- tituiu em reuniões e atividades em conjunto com os governos estaduais e entidades privadas ligadas direta ou indiretamente à implantação e ao desenvolvimento do turismo na Amazônia, visando a levantar regiões dos nove estados da Amazônia Legal propícias ao eco- turismo (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins). A Fase II, denominada PRODETUR Norte, dará continuidade aos objetivos estabelecidos, estando sob a responsabilidade Figura 11.58 - Parque Chico Mendes: exposição de lendas do Ministério do Turismo. regionais. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Em decorrência de um gradativo convencimento, a Secretaria de Estado de Turismo e Lazer (SETUL) do Acre formulou um plano estadual de turismo, em que são estabelecidas as diretrizes para formulação de políticas públicas para o crescimento dessa atividade em âmbito regional e incentivar a participação da iniciativa privada. Como resultado, foram criados quatro roteiros turísticos no Acre, aos quais é incorporado um quinto, associado aos geoglifos (os dois primeiros são reconhecidos pelo Ministério do Turismo). Roteiro Integrado Vale do Acre e Caminhos de Chico Mendes O seringal se constituía na unidade produtiva e so- cial da economia da borracha, implantada na Amazônia a partir da primeira metade do século XX e de grande importância para o estado do Acre. Esse roteiro percorre uma região que ainda preserva esse tipo de atividade, Figura 11.59 - Trilhas no interior do Parque Chico Mendes. devassando a rotina diária de um seringueiro e do seringal Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. que lhe dá suporte, sempre em uma relação próxima com a floresta amazônica. ROTEIROS TURÍSTICOS O passeio está centrado na cidade de Xapuri, loca- lizada na confluência dos rios Acre e Xapuri, de grande O Plano Nacional de Turismo (PNT) para o quadriênio importância para acesso aos seringais e transporte de 2007/2010, do Ministério do Turismo, foi concebido para mercadorias. A cidade é reconhecida mundialmente por se constituir em “um instrumento de planejamento e ser o berço do líder sindical Chico Mendes, que lutou pela gestão que coloca o turismo como indutor do desenvolvi- preservação da floresta amazônica, agregando os povos mento e da geração de emprego e renda no país. [...]. Os da floresta na defesa de seus direitos. Em homenagem a investimentos em infraestrutura e qualificação profissio- ele, o seringal em que nasceu foi convertido em Reserva nal vão permitir a organização de 65 destinos turísticos, Extrativista Chico Mendes, agregando, ainda, os seringais distribuídos em todo o território nacional, dentro de um do entorno, tal como o Seringal Cachoeira, em Xapuri, padrão internacional de mercado.” (BRASIL, 2007, p. 11). sede do Assentamento Agroextrativista Chico Mendes, Contemplando nossas diversidades regionais, culturais e transformado em refúgio ecológico, situado em meio à naturais, o turismo teria sua inclusão na pauta de consumo exuberante floresta tropical, ainda de estrutura receptora de todos os brasileiros. de turistas. Ciente do potencial turístico da Amazônia, que Próximo à cidade de Xapuri, está instalada a primeira desperta curiosidade e atrai visitantes do mundo in- fábrica de preservativos a usar látex de seringal nativo teiro, desejosos de conhecer a maior floresta tropical (Figura 11.60). 180 POTENCIAL GEOTURÍSTICO liderados por Plácido de Castro, que exploravam as terras bolivianas, e forças militares da Bolívia, que cobravam impostos elevados pelo exercício dessa atividade. Ao final desse movimento, o resultado mais expressivo foi a vitória dos seringueiros e a consequente criação do Território do Acre, transformado mais tarde em um novo estado brasilei- ro. A área conflagrada durante a revolução compreendeu, principalmente, os atuais municípios de Rio Branco, Plácido de Castro, Xapuri, Epitaciolândia e Porto Acre. Em Porto Acre, um pequeno prédio de madeira na área urbana foi escolhido para se instalar a Sala de Memória (Figura 11.62), que guarda importante acervo histórico do município referente à revolução. Figura 11.60 - Fábrica de preservativos Natex (Xapuri). Na zona rural, o Seringal Bom Destino, situado às mar- Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. gens do rio Acre e de grande importância à época pela pro- dução e exportação de borracha, foi palco da maior batalha da revolução. Nos dias atuais, esse seringal foi transformado Roteiro Caminhos do Pacifico na Pousada de Selva Bom Destino (Figura 11.63). O roteiro foi elaborado como alternativa turística para fortalecimento dos municípios fronteiriços acreanos com os países vizinhos Peru e Bolívia, de modo a promover a integra- ção latino-americana por meio de sua diversidade histórico- -cultural. No trajeto, além das paisagens dominadas pela floresta amazônica, apreende-se um pouco da riqueza cultural dos municípios de Epitaciolândia, Brasileia e Assis Brasil, que estabelecem, pelo lado brasileiro, a tríplice fronteira. Permite ainda a conexão com a Rodovia Interoceânica Brasil-Peru que conduz a diversas cidades peruanas, entre as quais Cuzco e as ruínas de Macchu Picchu, de forte apelo turístico (Figura 11.61). Ao longo da rota, acompanha-se a transposição das paisagens da Amazônia brasileira para os picos andinos. Roteiro Caminhos da Revolução Figura 11.62 - Sala de Memória de Porto Acre: antiga igreja. No período compreendido entre o final do século XIX e Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. início do século XX, o atual estado do Acre foi tomado por um importante evento histórico, denominado Revolução Acreana, que consistiu na luta entre seringueiros brasileiros Figura 11.61 - Rodovia interoceânica Brasil-Peru (cidade de Iñapari, Peru). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 11.63 - Pousada de Selva Bom Destino. Fotografia: SETUL, s/d. 181 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Roteiro Caminhos das Aldeias de estruturas geométricas escavadas no solo, em formato e da Biodiversidade de valas profundas e largas, perfeitamente dispostas como círculos, retângulos, hexágonos, octógonos e elipses, com Constitui uma opção turística da região ocidental do extensão superando centenas de metros, sendo nitidamen- estado do Acre, centrado na cidade de Cruzeiro do Sul. te visíveis por voos de baixa altura. Em algumas dessas Aproveitando a riqueza natural do vale do rio Juruá, tem construções, foram identificados fragmentos de cerâmica, como atrativos maiores as diversas etnias indígenas e o os quais, datados, revelaram idades aproximadas de 1.275 Parque Nacional da Serra do Divisor. a.D. Os geoglifos foram criados/elaborados por populações A cidade de Marechal Thaumaturgo, localizada no nativas, sendo objeto de diferentes interpretações até a alto rio Juruá, serve como ponto de apoio para atingir as presente data os reais objetivos de sua implantação, bem terras indígenas ocupadas por etnias diversas, situadas como da cobertura vegetal existente na época. nos afluentes maiores do rio Juruá, e a floresta amazônica O aproveitamento geo/arqueoturismo dos geoglifos totalmente preservada dentro da qual elas vivem. Como é potencializado por meio de três roteiros de visitação às destaque, menciona-se o Festival Yawanawá, organizado principais áreas de registro dessas estruturas: pelos povos indígenas da região, que realizam uma semana - Rota da BR-364, entre Rio Branco e limite do Acre de celebração do canto, dança, cura, expressão artística, com o estado de Rondônia; manifestação cultural e espiritual do povo Yawanawá (povo - Rota da BR-317, entre Rio Branco e a cidade de Boca da Queixada). do Acre, no estado do Amazonas; Por sua vez, o Parque Nacional da Serra do Divisor é - Rota da BR-317, entre Rio Branco e Xapuri. acessível a partir da cidade de Mâncio Lima, percorrendo-se Entende-se como indispensável, para que o ecotu- o rio Moa até atingir os contrafortes da referida serra. Esse rismo assuma um papel econômico importante para o parque, considerado por pesquisadores da região como estado, a realização do inventário da oferta turística, que o de maior biodiversidade do planeta, é acessível por via se constitui em levantamento, identificação e registro de fluvial e por caminhos abertos no seio da mata. Paisagens atrativos, serviços e equipamentos turísticos e de infraes- deslumbrantes podem ser apreciadas em mirantes no alto trutura de apoio ao segmento, o que atualmente existe de elevações de cotas superiores a 300 m, que possibilitam apenas parcialmente. a formação de numerosas cachoeiras e cânions. O vale do rio Juruá também abriga numerosos sítios UNIDADES DE CONSERVAÇÃO paleontológicos, dispostos tanto no leito do referido rio como em seus afluentes maiores, com espécies da me- Nas últimas décadas, o poder público, em suas diversas gafauna miocênica a pleistocênica de vertebrados e de instâncias, em consonância com movimentos ambientalis- restos fossilizados da flora, merecendo destaque restos de tas transfronteiriços, tem se notabilizado pela adoção de crocodilídeos, mastodontes e toxodontes. políticas de proteção e conservação do meio ambiente, em Na estação seca, o rio Juruá se constitui em exce- particular na Amazônia, visando a resguardar, por meio lente oportunidade para passeios fluviais, percorrendo-se de instrumentos legais, extensas áreas naturais das ações trechos ocupados por ribeirinhos ou fazendas, além do predatórias associadas à expansão das frentes de ocupação aproveitamento de bancos arenosos aptos a abrigar via- humana, já identificadas em outros países e até mesmo jantes interessados em desfrutar de suas águas tépidas e em algumas regiões do território brasileiro. Tais políticas renováveis. O nível fluviométrico baixo desse rio desperta públicas alicerçam o crescimento econômico do país em o interesse geológico e paleontológico pela exposição de conceitos de desenvolvimento sustentável, arduamente extensos taludes marginais, constituídos por sedimentos incentivado por defensores do ambiente natural. pelíticos e arenosos da Formação Solimões, ricos em restos O Sistema Estadual de Unidades de Conservação do fósseis, que permitem a investigação dos paleoambientes estado do Acre, em conjunto com o Sistema Nacional de dominantes na região em tempos pretéritos. Unidades de Conservação (SNUC), tem buscado proteger as Sítios geológicos de grande interesse são observados unidades de conservação, ampliando-as ou modificando- no interior da serra do Divisor, manifestação única do -as quando necessário. Tais unidades são divididas em dois soerguimento andino no território brasileiro, totalmente grupos: Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso afetada pela tectônica mesozoica a recente, e parcamente Sustentável. estudada, representando um terreno propício para inves- No âmbito do território acreano, são consideradas tigações científicas. Unidades de Proteção Integral (UPI): Estação Ecológica (ESEC), Parque Estadual (PES) e Parque Nacional (PARNA). Roteiro dos Geoglifos Por sua vez, as Unidades de Uso Sustentável (UUS) estão divididas nas seguintes categorias: Área de Proteção Am- Na parte oriental do estado, particularmente na região biental (APA), Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE), de Rio Branco a Xapuri e ao longo do divisor de águas onde Floresta Estadual (FLORSU), Floresta Nacional (FLONA) e se encontra a Rodovia BR-317, foram identificadas dezenas Reserva Extrativista (RESEX). 182 POTENCIAL GEOTURÍSTICO As Unidades de Proteção Integral totalizam três áreas, Embora a visitação a terras indígenas seja bastante res- das quais duas são federais e uma estadual, corresponden- trita, sensíveis modificações poderão ser introduzidas no novo do a uma estação ecológica, um parque nacional e um Estatuto do Índio, atualmente em discussão no Congresso parque estadual; as Unidades de Uso Sustentável com- Nacional, em particular, quanto a essa limitação, possibili- preendem 17 áreas, sendo nove federais e oito estaduais, tando a inserção dessas localidades em práticas ecoturísticas. correspondendo a três áreas de proteção ambiental, duas No estado do Acre, há 30 áreas ocupadas por terras áreas de relevante interesse ecológico, quatro florestas indígenas (Quadro 11.2), devidamente demarcadas e ho- estaduais, três florestas nacionais e cinco reservas extrativis- mologadas. tas (Quadro 11.1). Destacam-se os municípios de Tarauacá Os dados contidos nesse quadro revelam um número (quatro unidades) e Sena Madureira (três unidades). significativo de terras indígenas em três municípios: Feijó Foram indicadas outras sete áreas para implantação de (oito), Tarauacá (cinco) e Jordão (cinco), ocupando boa unidades de conservação, estando em fase de apreciação para parcela do território municipal. Nesse contexto, destaca-se futura homologação: Campinarana do Guajará (Cruzeiro do o município de Tarauacá, que já abriga quatro unidades Sul), Curralinho e Jurupari (Feijó), expansão do Parque Nacional de conservação. da Serra do Divisor (Mâncio Lima), Mari-Floresta (Porto Acre), Presentemente, cinco áreas distintas se encontram Rio Croa (Rodrigues Alves), Riozinho do Rola (Rio Branco). em fase de identificação e caracterização, visando à Quadro 11.1 - Distribuição das unidades de conservação no estado do Acre. Nome Sigla Grupo Categoria Decreto/Ano Plano de Criação Município de Instituição Área (ha)Manejo Rio Acre ESEC UPI Estação Ecológica 86.061/1981 Assis Brasil NÃO IBAMA 77.500 Rio Liberdade FLOES UUS Floresta Estadual 9.716/2004 Tarauacá NÃO SEF* 126.360 Alto Juruá RESEX UUS Reserva Extrativista 98863/1990 Cruzeiro do Sul NÃO IBAMA 538.492 Riozinho da RESEX UUS Reserva Extrativista Tarauacá NÃO IBAMA 325.602 Liberdade Mogno FLOES UUS Floresta Estadual 9.717/2004 Tarauacá NÃO SEF 143.897 Chico Mendes RESEX UUS Reserva Extrativista 99.144/1990 Xapuri SIM IBAMA 903.203 Rio Gregório FLOES UUS Floresta Estadual 9.718/2004 Tarauacá NÃO SEF 216.062 Alto Tarauacá RESEX UUS Reserva Extrativista 2000 Tarauacá NÃO IBAMA 160.903 São Francisco FLONA UUS Floresta Nacional 2001 Sena Madureira IBAMA 21.205 Cazumbá- RESEX UUS Reserva Extrativista 2002 Sena Madureira IBAMA 750.794 Iracema Chandless PARES UPI Parque Estadual 10.670/2004 Santa Rosa do Purus NÃO SEMA 695.303 Área de Proteção Amapá APA UUS 13.531/2005 Rio Branco NÃO IMAC 5.233 Ambiental Macauã FLONA UUS Floresta Nacional 96.189/1988 Sena Madureira IBAMA 173.475 Serra do PARNA UPI Parque Nacional 97.839/1989 Cruzeiro do Sul SIM IBAMA 784.079 Divisor Área de Proteção São Francisco APA UUS 12.310/2005 Rio Branco/Bujari NÃO IMAC 30.019 Ambiental Área de Proteção Irineu Serra APA UUS 2004 Rio Branco 843 Ambiental Santa Rosa FLONA UUS Floresta Nacional S/Nº/2001 Santa Rosa do Purus NÃO IBAMA 230.257 do Purus Seringal Nova Área de Relevante ARIE UUS S/Nº/1999 Epitaciolândia NÃO IBAMA 2.576 Esperança Interesse Ecológico Japiim Área de Relevante ARIE UUS Mâncio Lima NÃO SEMA 25.000 Pentecostes Interesse Ecológico Floresta Bujari/Sena Estadual do FLOES UUS Floresta Estadual SEF 47.064 Madureira Antimary Fonte: Elaborado por Luiz Gilberto Dall’Igna, 2013. *SEF = Secretaria Estadual da Floresta. 183 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Quadro 11.2 - Terras indígenas do estado do Acre. Terra Indígena Município Área (ha) Alto Rio Purus Santa Rosa do Purus 263.129 Alto Tarauacá Jordão 142.619 Arara do Rio Humaitá Porto Valter 87.572 Arara do Rio Amônia Marechal Thaumaturgo 20.764 Cabeceira do Rio Acre Assis Brasil 78.513 Campinas Katukina Cruzeiro do Sul 32.623 Igarapé do Caucho Tarauacá 12.318 Jaminawa Arara do Rio Bagé Marechal Thaumaturgo 28.926 Jaminawa Envira Feijó 80.618 Jaminawa do Igarapé Preto Cruzeiro do Sul 25.651 Kampa do Igarapé Primavera Tarauacá 21.987 Kampa Isolados do Rio Envira Feijó 232.795 Kampa do Rio Amônia Marechal Thaumaturgo 87.205 Kaxinawa/Ashaninka do Rio Breu Jordão/Marechal Thaumaturgo 31.277 Kaxinawa Colônia Vinte e Sete Tarauacá 105 Kaxinawa da Praia do Carapanã Tarauacá 60.698 Kaxinawa do Baixo Rio Jordão Jordão 8.726 Kaxinawa do Rio Humaitá Feijó 127.383 Kaxinawa do Rio Jordão Jordão 87.293 Kaxinawa Nova Olinda Feijó 27.533 Kaxinawa Seringal Independência Jordão 11.463 Katukina/Kaxinawa Feijó/AM* 23.474 Kulina do Igarapé do Pau Feijó 45.590 Kulina do Rio Envira Feijó 84.365 Mamoadate Sena Madureira 313.647 Nukini Mâncio Lima 27.263 Poyanawa Mâncio Lima 24.459 Rio Gregório Tarauacá 187.400 Riozinho do Alto Envira Santa Rosa do Purus 260.972 Xinane Feijó Fonte: Elaborado por Luiz Gilberto Dall’Igna, 2013. (*) Área incluindo o estado do Amazonas. futura demarcação e homologação de uma nova Terra brante serra do Divisor. Esse conjunto serrano, inserido no Indígena: Parque Nacional da Serra do Divisor, representa excepcional - Jaminawa do Rio Arara / Sena Madureira alternativa da prática de geoturismo, fundamentado na - Jaminawa do Rio Caeté / Sena Madureira presença de numerosos atrativos, tais como cachoeiras, - Kaxinawa do Seringal do Curralinho / Feijó cânions, corredeiras, cavidades e mirantes, além da reco- - Manchineri do Seringal Guanabara / Sena Madureira nhecida biodiversidade praticamente preservada em sua - Nawa / Mâncio Lima condição primitiva pela precariedade de acesso, restrito à via fluvial pelo rio Moa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Por outro lado, a comunidade geocientífica interna- cional tem demonstrado interesse crescente nas estrutu- O estudo morfológico do espaço geográfico acreano ras geométricas diversas encontradas em solo acreano, revela uma compartimentação de relevo pouco expressiva, denominadas geoglifos, cujas origem e finalidade ainda com um padrão relativamente uniforme na maior parte do permanecem em aberto, despertando a curiosidade de estado, excetuando-se o extremo oeste, cenário da deslum- todos que as conhecem. Estima-se um total superior a duas 184 POTENCIAL GEOTURÍSTICO centenas dessas estruturas, não cessando de aumentar, a BRITO, P.M.; NEGRI, F.R.; BOCQUENTIN, J. Fish remains partir da remoção da cobertura vegetal nativa. Estruturas from the upper Cretaceous of the Acre basin, north semelhantes já foram caracterizadas no vizinho estado de Brazil. SIMPÓSIO SOBRE O CRETÁCEO DO BRASIL, 3., Rondônia, embora em menor número. 1994, Rio Claro. Anais... Rio Claro, SP: UNESP, Campus Desde o século XIX são conhecidos sítios paleonto- de Rio Claro. p. 113-114. lógicos no Acre, localizados ao longo de cursos d’água navegáveis, como Purus e Acre, revelando uma paleofauna DIAS, O.; CARVALHO, T.C. As estruturas de terra na diversificada e de grande porte. Embora explorações pon- arqueologia do Acre. In: SCHAAN, D.; RANZI, A.; tuais tenham sido registradas desde então, somente com PÄRSSINEN, M. (Org.). Arqueologia da Amazônia a criação, há três décadas, do Laboratório de Pesquisas ocidental: os geoglifos do Acre. Belém: EDUFPA; Rio Paleontológicas da Universidade Federal do Acre (LPP/UFAC) Branco: Biblioteca da Floresta Ministra Marina da Silva, foi possível o cadastramento das ocorrências, a sistema- 2008. 192 p. tização das informações, o estudo e a identificação das amostras coletadas, promovendo um ganho significativo DOWLING, R.; NEWSOME, D. Geoturism: no conhecimento da paleofauna e paleoflora desenvolvidas sustainability, impacts and management. Oxford: preteritamente nessa região da Amazônia Ocidental. Fo- Elsevier, 2006. 352 p. ram caraterizados espécimes fósseis de diferentes idades, representativas do Cretáceo, Mioceno Superior-Plioceno e KERN, D.C. Caracterização pedológica de solos com do Plioceno-Pleistoceno, traduzindo-se em ampla variedade terra preta arqueológica na região de Oriximiná, de espécies animais, com destaque para os vertebrados Pará. 1988. 233 f. Dissertação (Mestrado em Ciência do de grande porte, tais como jacarés e preguiças, gerando a Solo) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto expressão “Acre – Terra de Gigantes”. Alegre, 1988. Como em toda a Região Amazônica, também o estado do Acre é pródigo em ambientes associados a praias fluviais, PÄRSSINEN, M.; RANZI, A.; SAUNALUOMA, S.; largamente utilizados pela população local e regional na SIRIÄINEN, A. Antigas construções geométricas de terra estação seca, quando se formam extensos bancos arenosos, na região de Rio Branco, Brasil. In: SCHAAN, D.; RANZI, principalmente nos rios Acre, Moa e Juruá. A.; PÄRSSINEN, M. (Org.). Arqueologia da Amazônia O aproveitamento em maior escala dos atrativos na- ocidental: os geoglifos do Acre. Belém: EDUFPA; Rio turais ou não, caracterizados em território acreano, esbarra Branco: Biblioteca da Floresta Ministra Marina da Silva, nas distâncias amazônicas existentes tanto em nível interno 2008. 192 p. il. p. 63-96. como em mercados consumidores, além da precariedade de acesso e restrita divulgação. Estudos realizados na Co- RANZI, A. Geoglifos: a descoberta e o potencial turístico. munidade Europeia indicam uma distância não superior In: SCHAAN, D.; RANZI, A.; BARBOSA, A.D. (Org.). a 1.000 km entre o ponto turístico e o consumidor final; Geoglifos: paisagens da Amazônia ocidental. Rio contudo, um planejamento mais adequado e melhores Branco: GKNORONHA, 2010. p. 9-12. condições de acesso e hospedagem podem representar um diferencial favorável ao desenvolvimento do turismo RANZI, A. Geoglifos: patrimônio cultural do Acre. In: sustentável no estado do Acre. Western Amazônia – Amazônia Ocidental, Renvall Institute Publications, Helsinki, n. 14, p. 135-172, 2003. REFERÊNCIAS RUBIN, J.C.R.; SILVA, R.T. (Org.). Geoarqueologia: teoria ACRE. Governo do Estado do Acre. Programa Estadual de e prática. Goiânia: EDUCG, 2008. 175 p. Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. Zoneamento ecológico-econômico do Acre fase II: RUCHKYS, U. de A. Patrimônio geológico e documento síntese – escala 1:250.000. 2. ed. Rio Branco: geoconservação no Quadrilátero Ferrífero, Minas SEMA, 2010. 356 p. Gerais: potencial para criação de um geoparque da UNESCO. 2007. 233 f. Tese (Doutorado em Geologia) – BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Programa para Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, o Desenvolvimento do Ecoturismo na Amazônia 2007. Legal (PROECOTUR Amazônia). Brasília, DF: Ministério do Meio Ambiente, 2000. Disponível em: . Acesso em 22 ago. 2014. A.; PÄRSSINEN, M. (Org.). Arqueologia da Amazônia ocidental: os geoglifos do Acre. Belém: EDUFPA; Rio BRASIL. Ministério do Turismo. Plano Nacional de Branco: Biblioteca da Floresta Ministra Marina da Silva, Turismo 2007/2010. Brasília, DF: MTur, 2007. 2008. 192 p. p. 15-44. 185 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE SCHAAN, D. Paisagens da Amazônia ocidental. In: Acre. Belém: EDUFPA, Rio Branco: Biblioteca da Floresta SCHAAN, D.; RANZI, A.; BARBOSA, A.D. (Org.). Ministra Marina da Silva, 2008. 192 p. p. 134-167. Geoglifos: paisagens da Amazônia ocidental. Rio Branco: GKNORONHA, 2010. p. 13-94. SILVA, C.R.; MARQUES, V.J.; DANTAS, M.E.; SHINZATO, E. Aplicações múltiplas do conhecimento da SCHAAN, D.; RANZI, A.; PÄRSSINEN, M. Sítios geodiversidade. In: SILVA, C.R. da (Ed.). Geodiversidade arqueológicos no estado do Acre: 165 sítios. In: do Brasil: conhecer o passado, para entender o SCHAAN, D.; RANZI, A.; PÄRSSINEN, M. (Org.). presente e prever o futuro. Rio de Janeiro: CPRM, 2008. Arqueologia da Amazônia ocidental: os geoglifos do cap. 13. p. 181-202. 186 12 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO Denise Pahl Schaan (deniseschaan@marajoara.com)1 Antônia Damasceno Barbosa (plintita_ac@hotmail.com)2 1UFPA/CNPq – Universidade Federal do Pará/Conselho Nacional de Desesnvolvimento Científico e Tecnológico 2Pesquisadora na Área de Arqueologia Pré-Histórica SUMÁRIO Introdução ..........................................................................................................189 Sítios Arqueológicos no Acre ..............................................................................186 Os Povos Indígenas e os Geoglifos ......................................................................189 Os Geoglifos como Atrativos Geoturísticos .........................................................190 Rota BR-364: Rio Branco a Porto Velho ..........................................................190 Rota BR-364: Rio Branco a Boca do Acre ........................................................191 Rota BR-364: Rio Branco a Xapuri ...................................................................191 Considerações Paleoecológicas ...........................................................................192 Referências ..........................................................................................................192 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO INTRODUÇÃO ção Nacional (PIN), que tinha por objetivo a ocupação da Amazônia pelos brasileiros, valendo-se, para isso, da O formato natural de certas paisagens, como as rochas construção de rodovias que cortavam a floresta nos eixos esculpidas em formas peculiares pelo vento e pela água, a sul-norte e leste-oeste. Para o Acre foram planejadas as silhueta de uma praia de areias brancas em contraste com rodovias BR-317, ligando Assis Brasil, no sul, a Lábrea, no um rio de águas cristalinas, ou, ainda, o deserto com suas Amazonas, onde faria a conexão com a Transamazônica, e dunas imensas em oposição a um límpido céu azul nos BR-364, que integraria o oeste do estado a Rondônia e daí trazem uma sensação de paraíso na Terra, a beleza simples ao centro-sul do país. Com a possibilidade de transportar da natureza. Geralmente, pensamos nas paisagens assim, produtos e pessoas através de um território que se enten- como dádivas da natureza, como locais pouco afetados dia como desabitado ou mal explorado – uma vez que o pela presença humana e que formam, por meio de atrativos aproveitamento indígena de várias áreas ecológicas era como montanhas, rochas, vegetação, hidrografia e clima, visto como monopólio improdutivo – o Acre, assim como um ambiente prístino, onde os impactos da vida urbana e da outras regiões amazônicas, passa a ser ocupado por pe- sociedade industrial não conseguiram chegar. No entanto, o quenos agricultores levados por projetos de assentamento estudo histórico da morfologia das paisagens demonstra que do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária a ação humana alterou grande parte dos ambientes da Terra (INCRA) e fazendeiros que plantam pasto para a criação (SAUER, 1969), e não seria diferente na floresta amazônica. de gado (SCHMINK; WOOD, 2012). A região em que hoje se encontra o estado do Acre A ocupação efetiva do território era medida pelo começa efetivamente a fazer parte da história nacional a desmatamento para plantação e pastagens, atividades partir da segunda metade do século XIX, com a expansão vistas como alternativas econômicas viáveis ao extrativismo. da economia da borracha para a Amazônia Ocidental. Entretanto, ao derrubar a floresta, centenas de imigrantes Apesar do extrativismo do látex já ser conhecido dos há pouco chegados à região se depararam com feições indígenas, foi a demanda internacional pela borracha e a topográficas singulares em seus lotes: largas e extensas possibilidade de seu escoamento pelos rios amazônicos por valas que pareciam leitos de córregos secos, a não ser pelo barcos a vapor que intensificaram essa economia, levando fato de que não se dirigiam a lugar algum, mas se fechavam à migração de seringueiros e comerciantes para aquela área em si mesmas, formando círculos ou retângulos (Figura por meio do rio Purus (SCHMINK; WOOD, 2012). 12.1). Na tentativa de explicar uma geomorfologia que As fronteiras do Acre com a Bolívia e o Peru, como reconheciam como alheia à natureza, buscaram os acon- hoje são conhecidas, só se efetivaram na primeira década tecimentos históricos mais antigos de que se tinha notícia do século XX, por meio de tratados específicos. Com a na região: julgaram estar diante das famosas trincheiras crise da borracha brasileira, após o auge de 1910, quando da revolução acreana escavadas durante a guerra contra começou a ser preterida nos mercados mundiais em favor os bolivianos em 1903. do produto asiático, o Acre desenvolveu-se a passos lentos, As trincheiras que formam figuras geométricas, entre- pois sua economia tinha bases extrativistas e o sistema tanto, são muito mais antigas. Foram construídas a partir de aviamento historicamente proibia a concorrência com de três mil anos atrás, por povos indígenas que habitaram outras formas de subsistência (SCHMINK; WOOD, 2012). as áreas altas e planas de interflúvio entre os rios Acre e A partir da década de 1970, renova-se a afluência Iquiri, tributários do alto rio Purus, e rio Abunã, afluente do de imigrantes para o Acre, especialmente aqueles vindos rio Madeira. Consistentemente localizadas nas bordas de do Nordeste do Brasil, a partir do Programa de Integra- platôs que encimam os vales, os amplos recintos, circunda- Figura 12.1 - Trincheira do geoglifo Jacó Sá, quadrado com 140 m de lado situado na Colônia Bom Começo (margem esquerda da rodovia BR-317; Rio Branco). Fotografia: Charles Mann, s/d. 189 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE dos pelas trincheiras, ofereciam proteção e vista privilegiada Ocidental, nela imprimindo suas marcas culturais, cons- aos caminhantes que para ali se dirigiam vindos dos rios truindo paisagens que abrigam, em sua longa história, os ou de outras terras. Áreas de 3 a 10 hectares, cercadas por resultados de múltiplos encontros entre grupos humanos trincheiras de 11 m de largura e até 4 m de profundidade, e o ambiente natural (CRUMLEY; MARQUARDT, 1990). impressionam pela monumentalidade – uma construção que teria demandado tempo e esforço coordenado. Além SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS NO ACRE disso, a geometria perfeita das figuras desenhadas no solo pelas trincheiras e a recorrência de medidas e ângu- A arqueologia do Acre era desconhecida dos cientistas e los exatos sugerem a existência de engenheiros treinados do público até o final dos anos de 1970, quando foi realizado através de gerações. A visão dessas estruturas a partir do o primeiro levantamento arqueológico por profissionais liga- alto é fantástica, pois de aviões ou imagens de satélites a dos ao Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) do Rio de Ja- morfologia perfeita dessas geoesculturas pode ser mais neiro, com apoio do Museu Paraense Emílio Goeldi, Conselho bem apreciada. Por essa razão, esses sítios arqueológicos Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) foram denominados, pelo geógrafo e paleontólogo Alceu e Smithsonian Institution, por intermédio de um programa Ranzi, de “geoglifos”, que ele mesmo definiu como “marcas nacional de pesquisas arqueológicas que enfocou primei- na terra” (RANZI; AGUIAR, 2000, 2004). ramente o Brasil e, depois, a Amazônia (MEGGERS, 1985; Sítios arqueológicos são locais onde são encontrados SIMÕES, 1977). O arqueólogo Ondemar Dias, que chefiou vestígios da presença humana pretérita, compostos, em as pesquisas de campo realizadas de 1977 a 1980, percorreu geral, por remanescentes de construções, sepultamentos, os vales dos principais rios – Juruá e Purus –, identificando 72 objetos que tenham sido propositalmente enterrados e lixo sítios arqueológicos, que foram classificados quanto ao tipo decorrente dos mais diversos tipos de atividade humana. A de vestígios culturais encontrados em: cerâmicos, cemitérios, escavação das trincheiras que compõem os geoglifos resul- cerimoniais, estruturas de terra (hoje chamados de geoglifos) tou em alteração significativa na geomorfologia regional, e líticos (com polidores fixos) (Figura 12.3). pois os cerca de 300 geoglifos conhecidos no estado ocor- A pouca quantidade de vestígios encontrados nos sítios rem de Assis Brasil a Porto Acre, no sentido sul-norte, e de cerâmicos (onde o principal indício de ocupação humana Sena Madureira a Plácido de Castro, no sentido oeste-leste. resumia-se aos fragmentos de cerâmica), contudo, levou o O sítio arqueológico do tipo geoglifo contém uma ou arqueólogo a considerar muitos deles como acampamentos mais estruturas geométricas em trincheiras e eventualmente de curta duração. O estudo da cultura material apontou a também estruturas em relevo e caminhos que as conectam existência de duas tradições ceramistas: a Tradição Acuriá, (Figura 12.2). que correspondia aos sítios encontrados no vale do Juruá, As pesquisas, até o momento, descobriram que os e a Tradição Quinari, referente aos sítios encontrados nos geoglifos foram utilizados ao longo de centenas de anos interflúvios dos tributários do alto rio Purus. com finalidades diversas. Os construtores dos geoglifos Os oito sítios com estruturas de terra então descober- adotaram uma mesma técnica construtiva em toda essa tos estavam localizados sobre platôs no leste do estado, a grande região, de cerca de 40 mil quilômetros quadrados, área mais urbanizada, onde a criação de gado e as plan- para erigir seus locais de encontro, moradia e cultos. Não tações haviam impulsionado o aumento de áreas abertas, há dúvida de que os povos indígenas modificaram subs- que permitiam a visualização desse tipo de estrutura. Os tancialmente a geomorfologia dessa parte da Amazônia arqueólogos interpretaram as estruturas como valetas de- fensivas, assinalando, contudo, que a colocação da mureta Figura 12.2 - Conjunto de cinco geoglifos medindo de 63 m a 148 m Figura 12.3 - Classsificação e frequência dos 72 sítios de diâmetro, situados na fazenda Gavião (Capixaba). arqueológicos identificados na década de 1970. Fotografia: Edson Caetano, s/d. Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 190 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO do lado de fora não daria vantagem ao morador (DIAS de empreendimentos de grande porte, públicos e privados, JUNIOR; CARVALHO, 1988). têm demandado levantamentos arqueológicos em várias Algumas pesquisas pontuais foram realizadas na partes do estado, levando continuamente à descoberta década de 1990 nos sítios com estrutura de terra, sem, no de novos sítios, favorecida pelo processo de remoção da entanto, gerar publicações à época (DIAS, 2006; SCHAAN; cobertura vegetal primária para implantação de atividades RANZI; PÄRSSINEN, 2008), o que manteve a arqueologia do agropecuárias (Figura 12.4). Acre de certa forma à margem das grandes discussões que A ocupação indígena antiga do território acreano se então se travavam nos meios acadêmicos sobre o caráter deu pelo menos ao longo dos últimos três mil anos por das sociedades indígenas que ocupavam a Amazônia no povos que deixaram vestígios bastante diversos. No vale do período da conquista europeia. Pesquisas arqueológicas Juruá abundam sítios com vestígios cerâmicos, em geral de realizadas na Ilha de Marajó e na Amazônia boliviana, então, pouca densidade, ao passo que no leste do estado, apesar sugeriam que sociedades densas demograficamente e com da existência de sítios cerâmicos, são os geoglifos que ocor- organização sociopolítica complexa teriam sido encontradas rem em maior número e chamam mais a atenção por suas pelos primeiros exploradores portugueses e espanhóis no características monumentais. Há sítios ainda não estudados, século XVI (ERICKSON, 1980; ROOSEVELT, 1991, 1994). com urnas funerárias cerâmicas de grandes dimensões, no A retomada das pesquisas arqueológicas no Acre ocor- município de Sena Madureira. Foram identificados três sítios reu com mais vigor a partir do início da década passada, formados por montículos circulares, prováveis remanescen- tendo-se intensificado nos últimos cinco anos. Ênfase maior tes de casas dispostas ao redor de uma praça central, nos tem sido dada aos sítios com estrutura de terra descobertos municípios de Sena Madureira e Senador Guiomard. Os por Dias e Carvalho (1988) e amplamente divulgados por sítios arqueológicos do período histórico ainda não foram Ranzi (2003) e Ranzi e Aguiar (2000, 2004). Os geoglifos estudados, havendo no momento somente três registrados. e outros sítios que possam estar a eles relacionados hoje Em especial, o Seringal Bom Destino, em Porto Acre, guarda são foco de estudos de equipe interdisciplinar formada os vestígios do mais famoso acontecimento histórico do por pesquisadores brasileiros, finlandeses, americanos e Acre – a revolução comandada por Plácido de Castro, que ingleses, com recursos de várias fontes de financiamento devolveu o Acre aos brasileiros em 1903. O gráfico a seguir externas e internas, incluindo o CNPq e o governo do estado (Figura 12.5) mostra a frequência dos oito tipos de sítios do Acre. Ao mesmo tempo, pesquisas realizadas em função arqueológicos que ocorrem no Acre (Figura 12.6). Figura 12.4 - Distribuição dos geoglifos no Acre e sua relação com a cobertura vegetal. Fonte: ACRE, 2010; DSG-Ministério do Exército, 198-; SCHAAN, 2011. 191 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE carvão pirogênico produzidos por sociedades indígenas, que, acredita-se, alcançaram grande densidade demográ- fica (ARROYO-KALIN, 2010; SMITH, 1980; WOODS et al., 2009). Como resultado, há extensos sítios arqueológicos, interpretados como aldeias ou conjuntos de aldeias, que, por vezes, estendem-se por dezenas de quilômetros. No Acre, ao contrário, não se formou a terra preta e os solos antropogênicos são raros. Apesar de os estudos pedológicos relacionados aos sítios do Acre ser ainda incipientes, têm sido identificados baixos índices de elementos químicos relacionados à ocu- Figura 12.5 - Classsificação e frequência dos 289 sítios pação pretérita, como fósforo (P), um bom indicador da arqueológicos existentes no estado do Acre. presença humana (EIDT, 1985; SCHAAN, 2012). Além disso, Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. a cerâmica encontrada nos sítios é, com raras exceções, de manufatura rústica e de constituição friável, sugerindo Os sítios arqueológicos do Acre possuem caracte- a existência de uma indústria oleira pouco desenvolvida, rísticas singulares se comparados a outros sítios arqueo- talvez prejudicada pela má qualidade da argila e alta mo- lógicos amazônicos. Da confluência do rio Negro com o bilidade dos povos locais (Figuras 12.7 e 12.8). rio Solimões até o estuário, assim como no baixo e médio Essa situação contrasta com a existência dos geoglifos, curso dos principais afluentes do rio Amazonas, abundam que teriam demandado esforço coordenado de grupos extensas áreas com solo de terra preta, onde se encontra numerosos. Entretanto, a pouca densidade de vestígios alta densidade de fragmentos de cerâmica, objetos líticos, encontrada no interior dos geoglifos indica que estes foram sepultamentos em urnas funerárias, fogões, pisos de casas, usados por curtos períodos. A hipótese mais provável é a poços e diversas outras feições e estruturas arqueológicas de que os geoglifos tenham sido construídos por povos (KERN et al., 2003; NEVES et al., 2003; SCHAAN, 2012). nômades que se encontravam em transição para um modo Os solos de terra preta formaram-se ao longo de dois mi- de vida sedentário, e que os recintos circundados por trin- lênios, devido ao descarte contínuo de matéria orgânica e cheiras seriam espaços públicos utilizados para encontros, Figura 12.6 - Mapa de localização dos sítios arqueológicos no estado do Acre. Fonte: ACRE, 2010; DSG-Ministério do Exército, 198-; SCHAAN, 2011. 192 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO A técnica de construção de um geoglifo demanda- va inicialmente a procura de local plano e alto, onde se aproveitavam as feições geomorfológicas do terreno para implantar a nova construção junto às bordas do platô, com visão privilegiada do vale (Figura 12.9). É possível que tenham sido construídos em locais de vegetação aberta, o que indica que as florestas nessa parte do estado esta- riam distribuídas na forma de refúgios e não ocupariam todo o território. A demarcação do local da trincheira e seu formato geométrico requeriam medidas, assim como o uso de cordas esticadas a determinados ângulos, para demarcação cuidadosa do terreno a ser escavado (SCHA- AN, 2010). A escavação ocorreria com pás de madeira, e o solo seria retirado com padiolas construídas com troncos Figura 12.7 - Escavação no sítio Tequinho (Senador Guiomard). cortados e fibras trançadas. O solo retirado da escavação Fotografia: Rui Gomes Coelho, s/d. das trincheiras era colocado do lado de fora, empilhado para a formação de uma mureta de proteção. Em alguns casos, parte do solo também foi colocada do lado interno da estrutura. Estradas com 18 m de largura, em média, flanqueadas por uma mureta baixa, foram construídas para disciplinar a entrada nos recintos geométricos e a respectiva saída. Algumas se estendem por cerca de um quilômetro na direção de rios ou de outras estruturas. A palavra “geoglifo” tem sido usada para denominar a estrutura geométrica. No entanto, sítios do tipo geoglifo podem ser formados por uma ou mais estruturas geomé- tricas, às vezes conectadas por estradas e acompanhadas por outras estruturas, como muretas lineares e montículos. Apesar da pouca densidade de artefatos identificada no interior dos geoglifos, alguns sítios são mais pródigos em vestígios, o que sugere variabilidade nas formas e tempo Figura 12.8 - Escavação no sítio Tequinho: fragmentos de vasilha de ocupação das estruturas. Embora as pesquisas tenham decorada com espirais incisas. Fotografia: Rui Gomes Coelho, s/d. avançado bastante, com a escavação de mais de 10 sítios, muitas perguntas ainda permanecem sem respostas. feiras, celebrações religiosas e, eventualmente, moradias Algumas dizem respeito às formas de organização social (SAUNALUOMA; SCHAAN, 2012). A cerâmica encontrada dos povos que construíram os geoglifos e sua base de indica que esses povos compartilhavam de uma mesma subsistência. Alguns sítios cerâmicos existentes na mesma tradição cultural, o que é atestado pela técnica construtiva região podem ter sido resultado de ocupação pelos mes- adotada para abertura de trincheiras, muretas e estradas mos povos e, portanto, é possível que uma configuração que se espalham por uma extensa região e possuem grande persistência temporal – de 1000 a.C. a 1400 d.C. A construção de um geoglifo com 200 m de diâmetro era o resultado de trabalho comunal e tempo, sendo difícil estimar o número de pessoas envolvidas e o tempo gasto. Para construí-lo em um mês, por exemplo, seriam neces- sárias algumas centenas de pessoas; por outro lado, uma pequena comunidade de 30 pessoas poderia construí-lo ao longo de 6 a 12 meses de trabalho árduo. Centros ceri- moniais construídos nos Andes centrais no último milênio anterior à era cristã, por exemplo, são interpretados como obras de populações pequenas, assim como os recintos cercados por valetas ou grandes blocos de pedra que sur- gem na Península Ibérica e nas Ilhas Britânicas no período neolítico foram obras de grupos pouco numerosos, ser- Figura 12.9 - Geoglifo do Tequinho, composto por duas vindo, principalmente, como locais cerimoniais (DARVILL; estruturas quadrangulares complexas, com 213 e 128 m de lado THOMAS, 2001; SAUNALUOMA; SCHAAN, 2012). (Senador Guiomard). Fotografia: Édson Caetano, s/d. 193 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE regional mais complexa possa explicar os poucos vestígios povo àquela dos construtores de geoglifos, para entender encontrados nos geoglifos. Além disso, pesquisas palinoló- o significado e a função das antigas estruturas. gicas buscam dados para caracterizar os paleoambientes à A presença de Manchineri, Apuriña e outros falantes época da construção das estruturas, já que um cenário de de línguas do tronco linguístico Arawak na região em savana seria mais plausível para a escavação das valetas, época histórica, além de topônimos de origem Arawak na pois o esforço adicional de ter de derrubar as árvores para região, sugere que esses grupos seriam os descendentes remover tanta terra seria imenso para uma população dos antigos habitantes (VIRTANEN, 2010). Os Manchine- provavelmente pequena. ri, antigamente, moravam em grandes canoas, sempre viajando ao longo do rio, mas também mantendo resi- OS POVOS INDÍGENAS E OS GEOGLIFOS dências fixas. Plantavam e produziam roupas de algodão, sendo conhecidos como bons caçadores e construtores Os relatos de viajantes, cientistas e membros de ex- de canoas. Segundo Virtanen (2010, 2011), os Manchineri pedições ordenadas pelo governo de Manaus, escritos nos reconhecem as florestas antropogênicas (BALÉE, 1989), em séculos XVIII e XIX, são as únicas fontes históricas anteriores especial aquelas compostas de palmeiras, como lugares ao século XX sobre os indígenas do alto Purus. Inicialmente que guardam a história de seus ancestrais, assim como os exploradores iam atrás das chamadas “drogas do ser- indicam ser de seus ancestrais os fragmentos de cerâmica tão” (cacau, salsaparrilha e óleo de copaíba) e com elas que ocasionalmente encontram. Sabe-se que as palmei- traziam índios escravos para Manaus. Por força do tratado ras que abundam nas matas amazônicas são resultado de Madri de 1750, boa parte da bacia do Purus pertencia de processos de manejo por parte dos povos indígenas à Espanha e essa situação permanece ainda à época da (BALICK, 1988; CLEMENT, 2006). Virtanen (2011) explica independência do Brasil. que os espíritos das palmeiras, que possuem formatos ge- Ao final do século XVIII, missões religiosas, criadas ométricos, são vistos pelos indígenas em suas cerimônias nos rios Negro e Solimões, desciam indígenas do Purus. religiosas quando estão sob o efeito da ayahuasca. Para Com a criação dos Diretórios de Índios, que os tirou de suas esse povo, os desenhos geométricos são entidades não aldeias, os nativos também passaram a ser requisitados humanas, compreendidos como espíritos da floresta ou para serviços em Manaus (FERRARINI, 2009). No começo ancestrais (VIRTANEN, 2011). do século XIX ainda não se conheciam as nascentes do rio Devido aos solos ácidos e ao clima úmido da floresta Purus e havia especulações sobre uma possível via de comu- tropical, que favorecem a reprodução de micro-organismos, nicação entre o Purus e o Madeira. Os relatos descrevem o materiais orgânicos decompõem-se rapidamente. Portanto, rio Purus como bastante povoado por aldeias de diferentes vestígios arqueológicos fundamentais para a reconstituição grupos, mencionando, frequentemente, os Purupurus, que dos modos de vida de povos indígenas do passado, como teriam dado nome ao rio. tecidos, plumária, objetos de madeira, telhados de palha, A era da borracha, desde meados do século XIX, trou- redes, cestos e outros objetos feitos de materiais vegetais, xe consigo a escravidão ou o trabalho forçado de centenas desaparecem em poucos anos. de indígenas, ocasionando a morte de milhares de outros As trincheiras que compõem os geoglifos são marcas nas correrias, assim como o desaparecimento de povos na paisagem que ajudam a contar a história dos antigos ha- inteiros pelas doenças, com o consequente retraimento dos bitantes dessa parte da Amazônia. Em um cenário marcado povos remanescentes para o alto curso dos rios e locais de pela violência da colonização e da exploração da borracha matas mais fechadas. A vida nos seringais e nas missões e pelo desmatamento causado pela pecuária extensiva, os trouxe a perda de suas terras e a obrigação de abrir mão geoglifos ajudam a lembrar que mesmo ambientes que de seu modo de vida. imaginávamos intocados já tinham sido morada de povos Segundo dados da Fundação Nacional da Saúde ameríndios. O fato de essas áreas terem sido cobertas pela (FUNASA) e do Instituto Socioambiental (http://pib.socio- floresta nos últimos mil anos sugere que os modos de ambiental.org/pt/c/0/1/2/populacao-indigena-no-brasil), exploração do território por povos antigos não resultaram há no estado do Acre 13 povos indígenas pertencentes às em desmatamento e empobrecimento dos solos, e que há famílias linguísticas Pano, Arawak e Arawa. Juntos, somam muito a aprender com os povos nativos. cerca de 20 mil pessoas vivendo em 34 terras indígenas, que ocupam 16,1% do território do estado (FUNTAC, 2010). OS GEOGLIFOS COMO ATRATIVOS Esses povos não habitam as áreas em que se encon- GEOTURÍSTICOS tram os geoglifos, ainda que provavelmente alguns deles sejam descendentes dos povos que construíram os recintos O aproveitamento turístico dos geoglifos vem sendo geométricos no passado. Não há entre eles memória das defendido por Alceu Ranzi há 10 anos, quando se tornou obras de terra. A antropóloga Pirjo Virtanen vem realizando, evidente que se tratava de um fenômeno de alcance regional, desde 2005, pesquisas com os Manchineri que vivem na com características únicas no Acre (RANZI, 2003). Dada a mo- reserva Mamoadate, junto ao rio Iaco (VIRTANEN, 2010), numentalidade das estruturas, a melhor forma de visualizá-las buscando, dentre outros objetivos, associar a cultura desse é por via aérea (decolando do aeroporto de Rio Branco ou de 194 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO pistas de pouso particulares). A proximidade das estruturas, visitação a museus e conhecimento da história recente da em geral a cada 2 ou 5 km de voo, permite a visualização de região, marcada pela exploração da borracha e luta dos dezenas delas em apenas meia hora. Uma alternativa ao alto seringalistas em defesa da preservação da floresta para custo do sobrevoo está em processo de implantação pelo atividades extrativistas. A cidade de Xapuri está na rota governo do Acre: a construção de uma torre de observação turística, devido, principalmente, à figura de Chico Mendes, aliada a um projeto de arqueoturismo (Figura 12.10). líder sindicalista reconhecido mundialmente, tragicamente O turismo ainda é pouco desenvolvido no estado assassinado em 1988 nos fundos de sua casa. É permitida do Acre. Os atrativos naturais, como parques, pousada visitação à casa de Chico Mendes e ao museu mantido pela ecológica e arborismo são divulgados como parte de uma fundação que leva seu nome. proposta de turismo ecológico e sustentável, aliados à Um roteiro de visitação aos geoglifos poderia po- tencializar a vocação do estado para o geoturismo, uma vez que as figuras geométricas constituem-se em uma geomorfologia esculpida ao longo dos séculos, nessa pe- culiar imbricação entre natureza e cultura (Figura 12.11). As pesquisas realizadas até o momento, apesar das muitas perguntas levantadas, já podem reunir um arcabouço de informações consistentes a serem oferecidas aos turistas. O turismo, como uma das atividades econômicas que mais crescem no mundo, seria uma alternativa econômica viável ao uso sustentável desses recursos. Um número considerável de geoglifos localiza-se próximo às principais vias de transporte no estado do Acre, especialmente ao longo das rodovias BR-317 e 364, o que facilita o acesso e a possibilidade de visualização, mesmo por via terrestre. A seguir, são apresentadas três propostas Figura 12.10 - Ilustração de uma torre de observação para de rotas de visitação aos geoglifos: uma pela BR-364 e visitação turística aos geoglifos. Fonte: Soad Farias, 2006. duas pela BR-317. Figura 12.11 - Distribuição dos geoglifos no Acre e relação de suas formas geométricas. Fonte: ACRE, 2010; DSG-Ministério do Exército, 198-; SCHAAN, 2011. 195 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Rota BR-364: Rio Branco a Porto Velho Por fim, 19 km a leste do Sítio JD, na margem direita da BR-364, antes da entrada para Acrelândia, está locali- Saindo de Rio Branco em direção a Porto Velho (Figura zado o Sítio Fazenda Aref. Trata-se de um trapézio, com 12.12), após 24 km, a 500 m da margem direita da rodovia, lados medindo entre 90 e 70 cm. A largura da trincheira é está localizado o sítio arqueológico Fazenda Atlântica, que de cerca de 10 m; a profundidade raramente atinge 1,5 m. é composto por uma estrutura quadrada (250 m de lado) e uma circular (125 m de diâmetro). Construído no começo Rota BR-317: Rio Branco a Boca do Acre da era cristã, o local foi ocupado ocasionalmente até pelo menos o século III (SAUNALUOMA; SCHAAN, 2012). Saindo de Rio Branco e tomando a BR-317 rumo norte, Retornando à BR-364, 2 km depois e ainda na margem em direção a Boca do Acre (Figura 12.13), depois de 28 km, direita, avista-se o Sítio Alto Alegre, que foi tangenciado na margem direita da rodovia, está localizado o sítio arque- pela rodovia. Esse geoglifo circular (150 m de diâmetro) tem ológico Fazenda Baixa Verde II, composto por uma estrutura valetas duplas que alcançam até 3 m de profundidade na quadrada que foi cortada pela rodovia. O quadrado tem 120 porção sul. Um caminho largo ladeado por muretas e com m de lado e as trincheiras já estão muito erodidas, mas me- 170 m de comprimento sai da estrutura na direção do rio. dem, em média, 14,7 m de largura e 1,5 m de profundidade. Essa estrutura foi construída cerca de 200 anos antes do Retornando à rodovia e após 4,5 km, chega-se ao sítio início da era cristã e era ocupada até pelo menos o final do Sr. Severino Calazans, situado à esquerda, que também foi do século II (NÍCOLI, 2000). cortado pela rodovia. Esse quadrado tem 230 m de lado e foi Para os próximos três sítios desse trajeto não se tem escavado justamente na borda do platô que desce de forma datação. abrupta em direção ao rio Iquiri, do lado direito da estrada. Novamente na BR-364, 36 km a leste do Sítio Alto A trincheira, com 12 m de largura, tem pouca profundidade, Alegre, ainda na margem direita da rodovia, chega-se ao tendo em vista a casa e as plantações que existem sobre o geoglifo Cinco de Novembro, que é composto por um re- sítio. Este é um dos sítios mais antigos, pois começou a ser tângulo medindo 117m x 144 m. A trincheira possui 13,7 construído mil anos antes da era cristã (SCHAAN et al., 2012). m de largura e 1,75 m de profundidade. Retomando a rota, 8 km ao norte do Sítio Severino Continuando a viagem, 9 km depois, na margem Calazans, também na margem esquerda, encontra-se a esquerda da BR-364 situa-se o sítio arqueológico JD, com- propriedade do Sr. Jacó Sá, local que está sendo estudado posto por duas estruturas quadradas, cada uma com 130 para implantação de uma torre de observação. Esse sítio é m de lado. As trincheiras nesse sítio medem entre 12 e 14 composto por dois geoglifos quadrados, um deles conten- m de largura e 1,6 e 2,1 m de profundidade. do um círculo inscrito. O quadrado maior, com 140 m de Figura 12.12 - Rota BR-364: Rio Branco a Porto Velho. Fonte: ACRE, 2010; DSG-Ministério do Exército, 198-; SCHAAN, 2011. 196 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO Figura 12.13 - Rota BR-317: Rio Branco a Boca do Acre – parte norte do traçado. Fonte: ACRE, 2010; DSG-Ministério do Exército, 198-; SCHAAN, 2011. lado, é o mais próximo da estrada, tendo sido seccionado 12.14). Após 66,5 km de viagem, a rodovia corta o sítio que pelo caminho de entrada da propriedade. O quadrado com leva o mesmo nome, BR-317, composto de duas estruturas o círculo interno, localizado a norte, mede 100 m de lado. irregulares: uma elipse, medindo 100 m por 85 m, e uma As escavações realizadas nesse sítio, surpreendentemente, segunda trincheira por volta desta, que se inicia de forma mais revelaram poucos materiais culturais. Sua construção e pronunciada junto à rodovia. utilização deram-se na segunda metade do primeiro mi- Dando continuidade à viagem, depois de 28,5 km lênio, entre os séculos VI e VIII (SAUNALUOMA; SCHAAN, acessa-se o geoglifo Bimbarra, situado em uma fazenda 2012). As trincheiras medem entre 9 m e 11 m de largura; a apenas 1 km do centro da cidade de Capixaba. Trata-se a profundidade pode alcançar, em alguns locais, 4 m. de duas estruturas unidas pela mesma trincheira em sua Retornando à rota, após 11 km chega-se a Vila Pia, à porção sul. A estrutura maior é um círculo irregular, com esquerda da rodovia. Quase em frente, à direita, toma-se diâmetro de 260 m. A figura inscrita é um retângulo, com o Ramal do Pelé por 2,5 km, em direção ao Sítio Tequinho, lados de 250 e 200 m. As trincheiras medem em torno de o mais complexo de que se tem notícia. O nome foi dado 12 m de largura, com profundidades variáveis, em torno em homenagem ao proprietário, que atende por esse de 1 m. apelido. São dois grandes quadrados, sendo um maior, Retomando a rota, depois de 17 km chega-se à Fa- com trincheiras triplas e um caminho largo na direção do zenda Pontão, onde há um geoglifo quadrado, com 145 rio. A fotografia aérea permite apreciar bem as estruturas, m de lado e cantos arredondados. A trincheira mede 11 m mas, no solo, as muitas trincheiras confundem o visitante. de largura e 1,5 m de profundidade. A 19 km desse local, Esse sítio está sendo pesquisado e será transformado em a poucos metros da margem direita da rodovia, chega-se museu a céu aberto, estando franqueado à visitação desde ao Sítio Eletronorte I, que possui formato de octógono, o ano de 2013. com 328 m de diâmetro. As trincheiras medem 13 m de largura e pouco mais de 1 m de profundidade. Dois ca- Rota BR-317: Rio Branco a Xapuri minhos largos conectam-se a esse geoglifo nas direções oeste e sudeste. Outra rota pela BR-317 é a que leva para o rumo sul, em O penúltimo geoglifo dessa rota é o Piçarreira, um direção a Xapuri e a Brasileia, na fronteira com a Bolívia (Figura círculo de 90 m de diâmetro, cortado pela rodovia a cer- 197 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 12.14 - Rota BR-317: Rio Branco a Xapuri – parte sudoeste do traçado. Fonte: ACRE, 2010; DSG-Ministério do Exército, 198-; SCHAAN, 2011, ca de 15 km seguindo a estrada em direção a Xapuri. A encontradas, geralmente, em trincheiras, pequenos montí- trincheira é larga (17 m) e profunda (3 m); seu tamanho culos ou muretas, sugerindo que comidas eram preparadas pequeno proporciona uma boa visualização de toda a no local durante a construção ou posteriormente, quando estrutura. da utilização das estruturas. Por fim, o Sítio Los Angeles. Situado dentro de uma Atualmente, trabalha-se com a hipótese de que os fazenda a 1,5 km da rodovia e com entrada a 11 km do Sítio geoglifos eram locais para realização de cultos religiosos, Piçarreira, pela margem esquerda da BR-317, apresenta-se celebrações rituais, festas e feiras, recintos construídos e como um geoglifo relativamente preservado, apesar de utilizados por povos que possuíam um modo de vida se- ter sido cortado pela estrada da fazenda. Com trincheira minômade. Os fragmentos de cerâmica encontrados nos profunda e diâmetro de 200 m, está posicionado no topo sítios são em geral de panelas sem decoração, utilizadas de um vale recortado pelo rio Abunã. Pesquisas realizadas para cozinhar, mas eventualmente fragmentos decorados na década de 1990 (DIAS, 2006) indicaram que o sítio pode aparecem em contextos provavelmente ritualísticos. As ter sido construído 200 anos antes da era cristã, sendo datações têm indicado que a maioria das estruturas deve ter ocupado até pelo menos o século V. sido construída no início da era cristã, sendo abandonadas antes da chegada dos europeus. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os povos indígenas atuais não têm memória das estruturas, mas visões estimuladas pela ayahuasca du- Os geoglifos do Acre são um tipo peculiar de sítio rante rituais produzem figuras geométricas semelhantes, arqueológico, com poucos vestígios materiais, o que sugere sugerindo que as formas dos geoglifos podem ter sido que não foram construídos para moradia permanente. inspiradas pelas visões dos pajés que conduziriam ali ce- O enorme esforço envolvido em sua construção permite lebrações religiosas. Os significados religiosos e simbólicos entendê-los como obras públicas, que, possivelmente, das estruturas provavelmente nunca serão conhecidos, demandaram a cooperação entre povos que viviam na re- mas a perfeição das formas alude a um caráter mágico- gião e que frequentavam esses locais de forma esporádica. -simbólico. As estradas, entradas e saídas dos geoglifos, Vasilhas de cerâmica quebradas, juntamente com carvão, a demarcação dos espaços pelas valetas podem ter tido argila queimada e, mais raramente, ossos de fauna, são a intenção de defesa, mas também indicam controle e 198 OS SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS DO ACRE E AS POSSIBILIDADES DE GEO/ARQUEOTURISMO disciplina no uso desses espaços públicos. Sua monumen- DIAS JUNIOR, O.F.; CARVALHO, E.T. de. As estruturas talidade também deve ter tido significado religioso, assim de terra na arqueologia do Acre. Arqueo-IAB, v. 1, p. como sua altitude, sempre no topo dos platôs, pode ter 14-28, 1988. almejado relação com o cosmos. Independentemente de suas intenções, os povos DIAS, O. As estruturas aqueológicas de terra no estado nativos do Acre deixaram um legado impressionante na do Acre, Amazônia ocidental, Brasil: um caso de porção leste do estado, modificando de forma indelével a resiliência? 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Springer-Verlag, 2009. 200 13 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE Wenceslau Geraldes Teixeira (wenceslau.teixeira@embrapa.br)1 Denise Pahl Schaan (deniseschaan@marajoara.com)2 Edgar Shinzato (edgar.shinzato@cprm.gov.br)3 Antônia Damasceno Barbosa (plintita_ac@hotmail.com)4 Lilian Rebellato (lilian.rebellato@gmail.com)5 William Woods (wwoods@ku.edu)6 1Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) 2Universidade Federal do Pará (UFPA)/CNPQ 3CPRM – Serviço Geológico do Brasil 4Pesquisadora na Área de Arqueologia Pré-Histórica 5Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) 6Universidade do Kansas (KU) SUMÁRIO Introdução ..........................................................................................................203 Distribuição dos Geoglifos na Amazônia Ocidental ...........................................203 Relações Ambientais dos Geoglifos no Município de Plácido de Castro ............203 Localização dos Geoglifos em Relação Às Feições Geomorfológicas .................203 Localização dos Geoglifos em Relação às Classes e Características dos Solos ... 206 Ocorrência de Geoglifos em Argissolos .......................................................... 208 Ocorrência de Geoglifos em Latossolos .......................................................... 208 Ocorrência de Geoglifos em Plintossolos ........................................................ 208 Características dos Solos nos Geoglifos ............................................................. 209 Falta de Evidências de Sítios de Habitação no Interior dos Geoglifos .................211 Referências ..........................................................................................................212 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE INTRODUÇÃO RELAÇÕES AMBIENTAIS DOS GEOGLIFOS EM PLÁCIDO DE CASTRO Os sítios arqueológicos denominados geoglifos constituem-se de imensas valas escavadas por povos pré- As análises do estudo apresentado neste capítulo -colombianos, com até 4 m de profundidade, com muretas foram concentradas no município de Plácido de Castro, adjacentes, formando, em sua maioria, círculos, retângulos localizado na parte sudeste do estado do Acre, onde há e hexágonos de grande precisão geométrica (SCHAAN; grande ocorrência de geoglifos. A opção por esse muni- BARBOSA, 2014). A área circundada por essas valas e mu- cípio baseou-se, principalmente, no fato de que cerca de retas mede entre 3 a 10 ha, com diâmetro médio de 100 m, 80% de sua área já foram desmatados, segundo dados do chegando a alcançar 385 m. São, muitas vezes, conectadas PRODES-INPE (BRASIL, 2012) (Figura 13.1). por caminhos também murados. As datações indicam que O município dispõe de uma carta topográfica na escala houve construção/ocupação dos geoglifos variando entre o 1:100.000 (BRASIL, 1979) (Figura 13.2) e de um mapa de ano 200 a.C. até 1300 d.C. (PÄRSSINEN; SCHAAN; RANZI, solos semidetalhado na escala 1:100.000 (RODRIGUES et 2009; SCHAAN, 2012). al., 2003) (Figura 13.3). Foram utilizadas imagens de radar do Projeto Shuttle DISTRIBUIÇÃO DOS GEOGLIFOS NA Radar Topographic Mission (SRTM), reamostradas para AMAZÔNIA OCIDENTAL uma precisão de 30 m (Figura 13.4). Entretanto, uma aná- lise detalhada dos modelos de elevação gerados com as Os registros, até o presente, indicam maior densida- referidas imagens nessa região mostrou um enviesamento de de ocorrências de geoglifos na região leste do estado com aumento artificial das altitudes nas áreas cobertas pela do Acre. No entanto, estruturas semelhantes foram floresta. Os radares do Projeto SRTM utilizaram a banda identificadas na região sul do Amazonas (PÄRSSINEN; C, que tem baixa penetração na copa das árvores, criando SCHAAN; RANZI, 2009), oeste de Rondônia, norte do artificialmente áreas mais elevadas, onde estas são cobertas Mato Grosso (HECKENBERG, 2005) e na Bolívia, onde por vegetação (KELLNDORFER et al., 2004; VALERIANO et são denominados zanjas circundantes (DENEVAN, 1996, al., 2006). 2001; ERICKSON, 2010; HASTIK; GEITNER; NEUBUR- Nessa região, os desníveis do relevo são relativamente GER, 2013; PRÜMERS; JAIMES BETANCOURT; PLAZA pequenos e a precisão das imagens SRTM foi estimada MARTÍNEZ, 2006). Na região de Baures, na Bolívia, há para a América do Sul na ordem de 6 m na vertical e 9 m geoglifos com áreas circundadas superiores a 100 ha na horizontal (RODRIGUEZ et al., 2005). A dificuldade de (ERICKSON, 2010). Até o momento, foram registrados se obter uma base de relevo compatível com as dimensões aproximadamente 300 geoglifos no estado do Acre dos geoglifos não pode ser contornada nem com o uso (SCHAAN; BARBOSA, 2014), predominantemente nos da carta topográfica da Folha Plácido de Castro (Figura interflúvios dos rios Acre, Iquiri e Abunã. 13.2), pois ela apresenta as curvas de nível distanciadas de Apesar da monumentalidade dos geoglifos, as bases 20 m na vertical; consequentemente, a discussão quanto cartográficas de relevo e hidrografia, os mapas temáticos às relações entre as feições do relevo e as ocorrências dos de solos, geomorfologia, geologia e vegetação disponí- geoglifos foi simplificada. veis para o estado do Acre – folhas SC.19 Rio Branco e SC.18 Javari/Contamana, em escala 1:1.000.000 (BRASIL, LOCALIZAÇÃO DOS GEOGLIFOS EM RELAÇÃO 1976, 1977) –, como também os mapas do zoneamento ÀS FEIÇÕES GEOMORFOLÓGICAS ecológico-econômico do estado (ACRE, 2010), em escala 1:250.000, não possibilitam uma análise detalhada, rela- Os geoglifos no município de Plácido de Castro estão cionando as posições no relevo, vegetação, geomorfologia localizados, em geral, junto a pequenos cursos de água das e os solos com as localizações desses sítios arqueológicos drenagens primárias, com poucas ocorrências próximas ao na paisagem. principal rio da região – Abunã (Figura 13.2). As análises Adicionalmente, as análises podem ser enviesadas, da distribuição espacial dos geoglifos na paisagem acreana pois a maioria das ocorrências conhecidas de geoglifos foi levadas a efeito até o momento indicam que eles eram cons- descrita em áreas desmatadas, possíveis de serem identifi- truídos, preferencialmente, em pequenos platôs, próximo cados em fotografias aéreas e imagens de satélite (RANZI; às bordas e a alguma fonte de água primária (CARMO, FERES; BROWN, 2007). Certamente, muitos geoglifos 2012; SCHAAN; BARBOSA, 2014; SCHAAN, 2012). Essa localizados em áreas com florestas primárias ainda não posição permite ampla visão do ambiente circundante, o foram descritos. Entretanto, as imagens obtidas com as que poderia estar relacionado a questões de segurança, tecnologias Light Detection And Ranging (LIDAR) ou Radio caso a cobertura vegetal não fosse de floresta na época Analysis Detection And Ranging (RADAR), principalmente de sua construção, além do simbolismo pela posição mais com a banda P, que possibilitam a penetração no dossel da alta na paisagem. Em um ambiente com excesso de água floresta, auxiliarão na identificação de geoglifos e caminhos no passado, esses locais foram também os potencialmente com muretas em áreas vegetadas. mais drenados e com menos riscos de inundação. 203 gEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 13.1 - Mapa de desmatamento do município de Plácido de Castro. Fonte: BRASIL, 2012. Figura 13.2 - Folha SC.19-Z-B-I Plácido de Castro. Fonte: BRASIL, 1979. Nota: Os pontos em negro indicam a ocorrência de geoglifos. 204 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE Figura 13.3 - Mapa de solos do município de Plácido de Castro, com indicação das ocorrências e formas dos geoglifos. Fonte: Adaptado de RODRIGUES et al., 2003; SCHAAN; BARBOSA, 2014. Figura 13.4 - Mapa hipsométrico do município de Plácido de Castro, com indicação das ocorrências e formas dos geoglifos. Fonte: SRTM, 2000. 205 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO AcRE As fases de relevo na região variam de plano a suave dos à Formação Solimões, depositados no Neógeno entre o ondulado (3 a 8% de declive) nos interflúvios tabulares, Mioceno e o Plioceno (BAHIA, 2014). Os sedimentos finos onde se registra a maioria das ocorrências de geoglifos. desse material conferem a esses solos reduzida permeabi- Predominam as fases suave ondulado a ondulado nas lidade. Próximo aos rios observam-se solos desenvolvidos colinas e ondulado nas áreas dissecadas pela rede de dre- a partir de sedimentos aluvionares e coluvionares do Qua- nagem. Nessas áreas de nítida ruptura do relevo ocorrem, ternário (holocênicos e pleistocênicos), onde a presença frequentemente, deslizamentos (rastejo e escorregamentos de geoglifos é rara a praticamente inexistente. Entretanto, rotacionais), que já atingiram alguns geoglifos localizados há ao menos um registro de geoglifo nesse ambiente (de- próximos a essas bordas (Figura 13.5). pósitos aluvionares) identificado no estado do Amazonas A precipitação atual tem média de 1.400 mm; entre- (PÄRSSINEN; SCHAAN; RANZI, 2009). Essa região, também tanto, ocorrem alguns meses com baixa precipitação (<60 classificada como Depressão do Endimari-Abunã, encontra- mm), o que classifica o clima, segundo Köppen, em Aw (RO- -se no domínio dos Tabuleiros da Amazônia Ocidental DRIGUES et al., 2003). As temperaturas apresentam média (DANTAS et al., 2014). anual próxima a 25°C, sendo que entre os meses de junho a As principais classes de solo onde ocorrem com mais agosto, frequentemente, ocorrem temperaturas abaixo de frequência os geoglifos no espaço geográfico de Plácido 5°C, fenômeno localmente conhecido como friagem. Já foi de Castro são apresentadas no Quadro 13.1. aventado que as valas dos geoglifos poderiam ter a função Argissolo Vermelho-Amarelo e Latossolo Vermelho de abrigo durante fenômenos de friagem (DIAS, 2006), a são as classes de solo de maior ocorrência no município, exemplo das casas escavadas no solo dos índios Kaingang predominantemente nas áreas de relevo mais aplainado. Já do sul do Brasil (SCHMITZ, 2002) e do índio solitário em a classe textural predominante é a argilosa. As característi- Rondônia (MONTE REEL, 2011). cas inerentes a essa classe textural devem ter orientado os construtores dos geoglifos em sua busca de estabilidade LOCALIZAÇÃO DOS GEOGLIFOS EM RELAÇÃO para valas e muretas, bem como para reduzir a infiltração, ÀS CLASSES E CARACTERÍSTICAS DOS SOLOS no caso de haver intenção de armazenamento de água nas valas, além de compactá-los. Esses solos, apesar da Os solos dessa região foram desenvolvidos, predomi- textura argilosa, são bem drenados, fato confirmado pela nantemente, de argilitos sílticos e siltitos argilosos, associa- ocorrência de cores de oxidação em todo o perfil. A clas- Figura 13.5 - Geoglifo Chinésio (Plácido de Castro). Fotografia: Denise Schaan, s/d. Nota: Atentar para a posição próximo à borda, que apresenta escorregamento de parte de sua estrutura. 206 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE Quadro 13.1 - Número de ocorrência de geoglifos por classes de solo e principais características, feições de relevo e de vegetação em Plácido de Castro. Número de Classe de Solo Símbolo Fertilidade Classe Textural Fases de Relevo Fases de VegetaçãoGeoglifos Argissolo Vermelho- Plano e suave Floresta Equatorial 2 Amarelo + Alissolo PVAd1 Distróficos Média/Argilosa ondulado + ondulado Subperenifólia Densa e Aberta Crômico Argissolo Vermelho- Suave ondulado + Floresta Equatorial 2 Amarelo + PVAd4 Distróficos Média/Argilosa ondulado Subperenifólia Aberta Plintossolo Háplico Argissolo Vermelho + Suave ondulado e Floresta Equatorial 2 Argissolo Vermelho PVD2 Distróficos Média/Argilosa ondulado Subperenifólia Densa Amarelo-plíntico Plintossolo Háplico Argilosa/Muito Suave ondulado e Floresta Equatorial 3 alumínico + Neossolo FXbd Distróficos Argilosa ondulado Subperenifólia Flúvico Argissolo Vermelho- Suave ondulado + Floresta Equatorial 4 Amarelo + PVAd3 Distróficos Média/Argilosa ondulado Subperenifólia Aberta Plintossolo Háplico Latossolo Vermelho + Plano e suave Argilosa/Muito Floresta Equatorial 5 Argissolo Vermelho- LVd2 Distróficos ondulado + Suave Argilosa Subperenifólia Densa Amarelo ondulado e ondulado Alissolo Crômico argilúvico + Argilosa/Muito Suave ondulado e Floresta Equatorial 6 Act Distróficos Plintossolo Háplico Argilosa ondulado Subperenifólia alumínico Argissolo Vermelho- Amarelo + Argissolo Suave ondulado + Floresta Equatorial 12 PVAd5 Distróficos Média/Argilosa Vermelho Amarelo- ondulado Subperenifólia Aberta alumínico plíntico Latossolo Vermelho + Floresta Equatorial Argilosa/Muito 17 Latossolo Vermelho- LVd1 Distróficos Plano Subperenifólia Aberta de Argilosa Amarelo Várzea Argissolo Vermelho- Suave ondulado + Floresta Equatorial 27 Amarelo + PVAd2 Distróficos Média/Argilosa ondulado Subperenifólia Aberta Plintossolo Háplico Fonte: Adaptado de RODRIGUES et al., 2003. sificação textural de Argissolos e de alguns Plintossolos é normalmente em relevo mais movimentado, com predomínio apresentada em forma binária (Quadro 13.1), sendo que a da fração silte e de argilas ativas, características que levam à primeira indicação se refere à classe textural dos horizon- ocorrência de fendas no período seco. Na região centro-oeste tes superficiais e a segunda, aos horizontes diagnósticos do Acre, devido ao material de origem e a uma evolução subsuperficiais. Nos horizontes subsuperficiais todas as paleoclimática diferenciada, os solos mostram indícios de má ocorrências foram classificadas na classe argilosa. drenagem, tais como horizontes plínticos, argilas de atividade Há predomínio de solos de baixa fertilidade (distróficos) alta e teores de silte consideráveis. Entretanto, os solos e o e baixa reserva de minerais. Isso indica que a disponibilidade ambiente em todo o Acre parecem estar em evolução para de nutrientes, pelo menos na região estudada (parte um ambiente de melhor drenagem, o que é evidenciado pela leste do Acre), não era critério essencial para seleção dos grande ocorrência de horizontes petroplínticos em várias locais. Ressalta-se que nesse estado ocorrem muitas áreas localidades atualmente bem drenadas. com solos férteis naturais (eutróficos); entretanto, esses A vegetação dominante nas unidades de mapeamento solos (Cambissolos, Vertissolos, Argissolos) se encontram em que ocorre maior número de geoglifos é, principalmen- 207 gEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE te, do tipo Floresta Aberta Subperenifólia (RODRIGUES et A estabilidade deve estar relacionada à grande den- al., 2003) Densa e Aberta, refletindo as condições climáticas sidade de ocorrência de geoglifos nessa classe de solos, atuais (da atmosfera e do solo). Entretanto, a vegetação que ocupam pouco mais de 10% da área do município e existente na época de construção dos geoglifos deve ter mais de 25% das ocorrências de geoglifos no município. sido diferente desta, assumindo-se a hipótese de que seria Os Latossolos são muito profundos (>2,0 m) (BRA- uma vegetação mais aberta e de porte reduzido, semelhan- SIL, 1976; RODRIGUES et al., 2003) e apresentam, em sua te à que ocorre em áreas com drenagem reduzida, como no maioria, a classe textural argilosa (Figura 13.6). Entretanto, sul do estado do Amazonas, nos campos Puciarí-Humaitá a fração argila, nesses solos, se encontra quase que na (BRAUN; RAMOS, 1959), e na região do Beni, na Bolívia totalidade floculada, conferindo-lhes boa capacidade de (HANAGARTH, 1993). Estudos de reconstituição paleocli- infiltração e transmissão de água em condições naturais. mática estão sendo conduzidos nessa região e, em breve, Os perfis descritos no município de Plácido de Cas- resultados menos especulativos deverão ser publicados. tro indicam Latossolos Vermelhos, caracterizados por cores na matiz 10R da Carta de Munsell (RODRIGUES et Ocorrência de Geoglifos em Argissolos al, 2003). Estudos efetuados por Carmo (2012) também registram grande frequência de geoglifos sobre Latossolos Os Argissolos, que compreendem solos minerais, não Vermelhos. hidromórficos, apresentam horizonte B textural e perfis Em condições naturais de elevada permeabilidade e bem desenvolvidos, profundos e muito profundos (>2 bem estruturados, são pouco suscetíveis aos processos de m). Em Plácido de Castro, são pouco férteis (distróficos), erosão hídrica. Atualmente, a maioria das áreas está ocu- apresentando, em alguns locais, elevados teores de alumí- pada por pastagens do gênero braquiária (Brachiaria spp). nio trocável (RODRIGUES et al., 2003). Distinguem-se dos A vegetação original predominante sobre esses Latossolos pelo aumento acentuado dos teores de argila solos é representada por Floresta Ombrófila Densa com nos horizontes subsuperficiais (Bt) (EMBRAPA, 2013). Nessa Palmeiras e Floresta Ombrófila Aberta, praticamente região, os Argissolos são menos vermelhos do que os Latos- erradicada na maior parte de sua ocorrência, mantendo solos, com predomínio de cores nos matizes 10YR, 7,5YR e poucas áreas ainda com a vegetação nativa original (Fi- 5YR. Apresentam textura binária, com textura mais arenosa guras 13.1 e 13.3). nos horizontes superficiais e, muitas vezes, uma drenagem restrita no horizonte subsuperficial. São relativamente Ocorrência de Geoglifos em Plintossolos resistentes ao processo erosivo; entretanto, em algumas localidades, observam-se escorregamentos nas áreas de Os Plintossolos são solos minerais formados em am- maior declive, principalmente nas bordas de tabuleiros ou bientes de reduzida drenagem, apresentando horizonte colinas tabulares. A resistência parece estar relacionada aos plíntico, petroplíntico ou litoplíntico (EMBRAPA, 2013). horizontes plínticos e, os deslizamentos, às argilas ativas. A característica mais marcante dessa classe é a presença Porém, estudos complementares necessitam ser realizados. de manchas ou mosqueados avermelhados (plintita), Alguns Argissolos apresentam petroplintitas que são geralmente compondo um mosqueado de cores bem provenientes de plintita após repetitivos ciclos de umedeci- contrastantes (tons de amarelo e vermelho) com a matriz mento e secagem, culminando na formação de concreções (geralmente esbranquiçada) ou concreções endurecidas ferruginosas altamente consolidadas, que, nesse caso, estão denominadas petroplintita. Quando apresentam tais em estágio de decomposição. Esses horizontes são relictos de um período mais úmido no passado, que pode tanto ser do Pleistoceno (LATRUBESSE; RANCY, 1998) como mais recente, vinculado à época de construção dos geoglifos. A vegetação original predominante é a Floresta Subpe- renifólia Densa, indicando uma boa drenagem atualmente. Os Alissolos Crômicos seriam classificados, segundo as regras atuais do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (EMBRAPA, 2013), como Argissolos. Ocorrência de Geoglifos em Latossolos A classe dos Latossolos compreende solos minerais, não hidromórficos, que apresentam pouca diferenciação entre os horizontes. Os Latossolos, muito frequentes em varias regiões do Brasil, são escassos no estado do Acre, Figura 13.6 - Detalhe de uma trincheira aberta no geoglifo JK, onde ocorrem em baixo percentual (SHINZATO et al., 2014), mostrando a uniformidade dos horizontes típicos dos Latossolos. estando presentes na região leste do estado. Fotografia: Diego Gurgel, 2009. 208 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE concreções são denominados Plintossolos Petroplintícos. oglifos tinham a função de drenagem ou conservação de Tais concreções são denominadas localmente de “piçarra”. água para uso e para criadouros de peixes ou tartarugas Originalmente, esses solos são encontrados em áreas (PÄRSSINEN et al., 2003). A construção das muretas na deprimidas, planícies aluvionares e terços inferiores de parte externa reforça a hipótese de manejo de água e encostas, locais que implicam reduzida drenagem. Entre- enfraquece a hipótese de que as valas seriam trincheiras tanto, esses solos podem ocupar uma posição na paisagem de defesa (ERICKSON, 2010; SCHAAN, 2012). Se essas diferente das condições de sua formação, seja pelo rebai- inferências, relacionadas à seleção de solos com grande xamento do nível do lençol freático, muito frequente nos estabilidade estrutural para construção dos geoglifos, fo- períodos glaciais, seja devido a processos de dissecamento rem confirmadas, a região oriental do estado do Acre não e de movimentação tectônica (Figura 13.7). deverá apresentar ocorrência elevada dessas estruturas, pois os solos com argilas de atividade alta e siltosos são predominantes naquela região (SHINZATO et al., 2014). Aparentemente, em alguns geoglifos, existem caminhos com mu- retas ligando os geoglifos a fontes de água, os quais poderiam ser canais de drenagem (Figura 13.8). As valas poderiam ter tanto a função de drenagem como de reservatórios de água. A movimentação de terra, pelas civilizações da América, para contornar excesso ou deficiência de água, era praticada amplamente, conhecida e difundida em outras partes do Brasil, como em sítios de habitação no Pantanal (FELICISSI- MO et al., 2010) e na Ilha de Marajó (SCHAAN, 2012). Nas terras baixas de Llanos de Mojos, na vizinha Bolívia, extensos canais em áreas Figura 13.7 - Esquema de formação e mudança de posição dos horizontes elevadas foram construídos com fins agrícolas plínticos no solo, relictos de um período de reduzida drenagem. Fonte: Adaptado de DRIESSEN et al., 2001. e de manejo de água (DENEVAN, 2011; ERICK- SON, 2006; LOMBARDO et al., 2011). As obras hidráulicas com movimentação de solo para São solos, geralmente, imperfeitamente drenados, manejo da água eram também difundidas nas exceto os que se apresentam como petroplínticos, os quais, Guianas (IRIARTE et al., 2010), Peru e Equador (WASSILO- em sua maioria, são moderadamente ou bem drenados. WSKY, 2011) e por várias civilizações da América Central Os Plintossolos Pétricos, geralmente, são encontrados em (LUCERO; FASH, 2006; SCARBOROUGH, 2003). relevo suave ondulado e ondulado, localizan- do-se predominantemente próximo ao curso dos rios. CARACTERÍSTICAS DOS SOLOS NOS GEOGLIFOS Os geoglifos estudados estão localizados, predominantemente, em solos de textura argilosa, pois algumas classes de solos não têm estabilidade estrutural para esse tipo de construção, tais como Espodossolos e Neos- solos Quartzarênicos, constituídos por textura arenosa. No estado do Acre são identificadas vá- rias classes de solos com presença de argila de atividade alta, tais como Cambissolos, Lu- vissolos, Vertissolos (SHINZATO et al., 2014), capazes de apresentar problemas estruturais, Figura 13.8 - Geoglifo Bastião da Mata, evidenciando um caminho com mureta devido à abertura de fendas quando secos, ligando a uma fonte de água (Plácido de Castro). principalmente se as valas presentes nos ge- Fotografia: Denise Schaan, 2014. 209 gEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE FALTA DE EVIDÊNCIAS DE SÍTIOS DE HABITAÇÃO NO INTERIOR DOS GEOGLIFOS Foram realizadas análises de parâmetros químicos – pH, fósforo trocável (P), ), cálcio disponível (Ca), carbono orgânico (C) – em amostras coletadas na superfície do solo (~ 0-20 cm) no interior dos geoglifos Jacó Sá, Três Vertentes, JK (neste, em três setores – vala, parede da vala e interno) e Fazenda São Paulo (Figuras 13.9 a 13.12). Os métodos utilizados para as análises são aqueles descritos em Em- brapa (2011). Os resultados mostraram que, à exceção das análises dos teores de fósforo trocável e Figura 13.10 - Gráfico box-plot das análises do teor de fósforo trocável em geoglifos situados em Plácido de Castro. onte: Elaborado pelos autores, 2014. cálcio disponível de duas amostras coletadas no geoglifo da Fazenda São Paulo (Figuras 13.13 a 13.15), localizado em Xapuri, não há indicadores pedológicos claros de antropismo no solo, como nos típicos sítios de habitação na Amazônia Central, as denominadas “terras pretas de índio” (TPI) (TEIXEIRA et al., 2010; WOODS et al., 2009). Os elevados teores de fósforo encontra- dos no geoglifo da Fazenda São Paulo podem estar relacionados à sua construção em um solo originalmente rico nos elementos estuda- dos. No estado do Acre há ocorrências de solos eutróficos e com elevados teores de fósforo e cálcio sem influências antrópicas (SHINZATO; TEIXEIRA; DANTAS, 2014, WADT, 2005). Figura 13.11 - Gráfico box-plot das análises do teor de cálcio disponível em geoglifos situados em Plácido de Castro. Fonte: Elaborado pelos autores, 2014. Figura 13.9 - Gráfico box-plot das análises de pH em geoglifos Figura 13.12 - Gráfico box-plot do teor de carbono orgânico em situados em Plácido de Castro. geoglifos situados em Plácido de Castro. Fonte: Elaborado pelos autores, 2014. Fonte: Elaborado pelos autores, 2014. 210 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE Os dados da Fazenda São Paulo são resultados de uma média aritmética de amostras coletadas em triplicata em três locais. Um dos locais apresentou teores muito elevados de fósforo, estando situado próximo a uma ele- vada concentração de fragmentos de cerâmica, os quais podem ter sido descartados com restos de alimentação. O outro ponto, com valores relativamente elevados de fósforo, está localizado no fundo da vala, logo abaixo de uma camada escurecida, provavelmente resultante de carvões da queima ocorrida no desmatamento. Uma possibilidade para o enriquecimento anômalo de fósforo no solo é a amostra ter sido coletada em um local de sepultamento ou de enterramento de carcaça bovina em fases mais atuais. Os solos mais frequentes nos sítios com horizontes Figura 13.13 - Imagens aéreas dos geoglifos Jacó Sá. TPI se caracterizam pela presença de horizontes de solo Fotografia: Sérgio Valle, 2001. escurecidos, com aumento dos valores de pH e dos teores e estoques de P, Ca e C. A alteração química mais per- sistente, causada por atividades antrópicas em sítios de habitação, é o aumento dos teores de fósforo no solo. Esse elemento tem sua mobilidade reduzida na maioria dos solos tropicais e a adição de ossos, espinhas de peixe, sangue e resíduos vegetais provoca um aumento persistente de sua concentração; geralmente, esse aumento correlaciona-se, também, a um aumento dos teores de cálcio, pois os ossos são formados basicamente de fosfato de cálcio (apatita biogênica). Nas TPI, a típica coloração preta de um espesso horizonte superficial é originada da adição de carbono pirogênico (carvões e produtos secundários da carboniza- ção de resíduos), que tem alto poder pigmentante, e são relativamente recalcitrantes quanto à degradação. Grande parte das TPI não apresentam elevados teores de carbono, como amplamente divulgado, mas, sim, elevados esto- Figura 13.14 - Imagem aérea do geoglifo da Fazenda São Paulo. Fotografia: Edson Caetano, 2008. Figura 13.15 - Imagem aérea do geoglifo JK. Fotografia: Diego Gurgel, 2009. 211 gEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE ques de carbono, devido à grande espessura do horizonte práticas, inicialmente sem intenção de melhoria das carac- antrópico. Os dados dos teores de carbono dentro dos terísticas agronômicas do solo, promoveram a criação de geoglifos são semelhantes aos encontrados em outros espessos e férteis horizontes antrópicos e a preservação estudos nos solos do Acre fora dos geoglifos; paradoxal- de algumas substâncias minerais que os caracterizam mente, os menores teores foram encontrados no geoglifo (Figura 13.17). da Fazenda São Paulo, indicando que se esse sítio foi de O aumento da suscetibilidade magnética (SM) dos habitação, as atividades realizadas não preservaram as solos, causado pelo calor que altera as propriedades mag- frequentes adições de carbono, típicas desses locais, por néticas dos minerais presentes no solo, conhecido como acúmulo de resíduos alimentares e carbonização parcial magnetismo remanescente, é um parâmetro bastante nas fogueiras. utilizado em trabalhos arqueológicos para identificação Alguns horizontes escurecidos observados em al- de locais em que houve aquecimento, como, por exemplo, gumas escavações em geoglifos parecem ser recentes, fogueiras, fornalhas de queima de cerâmica etc. (STERN- mais relacionados ao processo de queima da floresta para BERG, 2008). limpeza da área do que a uma ocupação pretérita. Prova- Na área interna do geoglifo Três Vertentes, em Acre- velmente, esses horizontes estavam na superfície na época lândia, foram coletadas amostras em três profundidades do desmatamento, tendo sua preservação favorecida pelo (10, 30 e 50 cm) em um grid amostral aleatório composto enterramento (Figura 13.16). por 41 pontos, além de sete pontos em áreas fora do geo- A falta de marcadores químicos do solo, na parte glifo (pastagem) com as mesmas medidas de profundidade. interna dos geoglifos, não deve descartar totalmente seu Os resultados dessas avaliações não indicaram alterações uso como sítios de habitação, pois há possibilidade de o significativas da SM (Figura 13.18). Esse geoglifo ainda se espaço restrito ter sido limpo frequentemente e os resíduos (principalmente de caça, pesca e coletas de vegetais) terem sido descartados de forma dispersa, fora dos geoglifos. Atualmente, grupos de pesquisa buscam uma melhor compreensão da permanência dos horizontes antrópicos das TPI. Esses horizontes têm uma localização relativa- mente restrita, próximo à calha dos principais rios da Bacia Amazônica, sendo raramente encontrados em ou- tros locais do continente. Os modelos da gênese desses horizontes criados somente pelo descarte de resíduos em lixeiras (SCHMIDT et al., 2014) podem não ser a causa única de sua presença. O aquecimento e, consequente- mente, a carbonização dos resíduos, bem como algumas reações organominerais que devem ocorrer em circuns- tâncias específicas, além de uma grande movimentação de terras nos sítios TPI (enterramento dos horizontes), podem ter sido práticas culturais de alguns grupos. Tais Figura 13.17 - Perfil típico de terra preta de índio mostrando Figura 13.16 - Perfil de solo mostrando um horizonte escurecido horizonte espesso e preto na superfície do solo (município de Rio no geoglifo JK. Fotografia: Denise Schaan, s/d. Preto da Eva, AM). Fotografia: Wenceslau Teixeira, s/d. 212 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE Figura 13.18 - Gráfico box-plot do resultado da avaliação da suscetibilidade magnética do geoglifo Três Vertentes com amostras Figura 13.19 - Gráfico box-plot do resultado da análise do teor de coletadas a 10, 30 e 50 cm de profundidade. pH do geoglifo Três Vertentes com amostras coletadas a 10, 30 e Fonte: Elaborado pelos autores, 2014.. 50 cm de profundidade. Fonte: Elaborado pelos autores, 2014. encontra com vegetação de floresta primária, reduzindo interferências do aquecimento causado pela queima da vegetação florestal após o desmatamento. O aumento da SM em alguns pontos isolados provavelmente está rela- cionado a alguma fogueira pretérita ou queima por longo tempo de árvores grandes com aquecimento do solo por longo tempo para que se atinjam temperaturas que possam alterar a SM (T ~> 400 C), ou a pontos onde há acúmulo de minerais paramagnéticos. Nesse geoglifo também se procedeu à análise de alguns parâmetros químicos do solo (pH, fósforo disponí- vel e carbono orgânico), cujos resultados não mostraram indícios claros de ocupação dos geoglifos como sítios de habitação ou de acampamentos de longa duração (Figuras 13.18 a 13.21). Figura 13.20 - Gráfico box-plot do resultado da análise do teor de Esses resultados preliminares das pequenas alte- fósforo trocável do geoglifo Três Vertentes com amostras coletadas a 10, 30 e 50 cm de profundidade. Fonte: Elaborado pelos autores, 2014.. rações causadas por atividades antrópicas nos solos desenvolvidos no interior de alguns geoglifos concordam com os resultados dos estudos de alguns parâmetros pedológicos em geoglifos no Acre (CARMO, 2012; SAU- NALUOMA, 2013) e corroboram a possibilidade de essas áreas terem tido uso cerimonial, religioso (SCHAAN, 2012) ou agrícola, cujos registros químicos e físicos nos solos são de difícil identificação, ao invés de representarem sítios de habitação. Em estudo realizado em geoglifos localizados na região de Baures, oeste de Llanos de Mojos, na Bolívia, foram encontrados, na área interna de um dos geoglifos estudados, horizontes de solo mais escuros e mais férteis do que os da área externa (HASTIK; GEITNER; NEUBURGER, 2013). Entretanto, não se deve descartar a possibilidade de que os geoglifos possam ter tido uma função múltipla ou variada nas diferentes regiões. Recomenda-se uma ampliação das análises de amostras de solos coletadas dentro e fora dos Figura 13.21 - Gráfico box-plot do resultado da análise do teor de geoglifos, para se ter menos incerteza nas afirmativas sobre carbono orgânico dentro (floresta) e fora (pastagem) do geoglifo Três Vertentes com amostras coletadas a 10, 30 e 50 cm de possíveis uso e marcas antrópicas nos geoglifos. Análises de profundidade. Fonte: Elaborado pelos autores, 2014. 213 gEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE parâmetros mineralógicos poderão auxiliar na busca de infor- DENEVAN, W.M. Cultivated landscapes of native mações sobre o uso das valas como reservatórios de água ou Amazonia and the Andes. Oxford: Oxford University sistemas de drenagem. Press, 2001. 396 p. REFERÊNCIAS DENEVAN, W.M. Indian adaptations in flooded regions of South America. Journal of Latin American ACRE. Secretaria de Estado de Meio Ambiente. Geography, v. 8, n. 2, p. 209-224, 2009. 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Late 214 FEIÇÕES gEOMORFOLÓgICAS E SOLOS NOS LOCAIS EM QUE FORAM CONSTRUÍDOS OS gEOgLIFOS NO ESTADO DO ACRE holocene neotropical agricultural landscapes: phytolith Caracterização e classificação dos solos do and stable carbon isotope analysis of raised fields município de Plácido de Castro, estado do Acre. from French Guiana coastal savannahs. Journal of Belém, PA: Embrapa Amazônia Oriental, 2003. 50 p. Archaeological Science, v. 37, n. 12, p. 2984-2994, (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 160). 2010. RODRÍGUEZ, E.; MORRIS, C.S.; BELZ, J.E.; CHAPIN, E.C.; KELLNDORFER, J.; WALKER, W.S.; PIERCE, L.E.; DOBSON, MARTIN, J.M.; DAFFER, W.; HENSLEY, S. An assessment C.; FITES, J.A.; HUNSAKER, C.; VONA, J.; CLUTTER, of the SRTM topographic products. Technical Report M.L. Vegetation height estimation from Shuttle Radar JPL D-31639, Jet Propulsion Laboratory, Pasadena, Topography Mission and National Elevation Datasets. California, 2005. 143 p. Disponível em: . Acesso em: 10 2004. mar. 2014. 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Berlin: Springer-Verlag, 2009. 216 14 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica Maria Angélica Barreto Ramos (angelica.barreto@cprm.gov.br.)1 Marcelo Eduardo Dantas (marcelo.dantas@cprm.gov.br)1 Antonio Theodorovicz (antonio.theodorovicz@cprm.gov.br)1 Valter José Marques (valter.marques@cprm.gov.br)1 Vitório Orlandi Filho (vitorioorlandi@gmail.com.br)2 Maria Adelaide Mansini Maia (adelaide.maia@cprm.gov.br)1 Pedro Augusto dos Santos Pfaltzgraff (pedro.augusto@cprm.gov.br)1 1CPRM – Serviço Geológico do Brasil 2Consultor SUMÁRIO Introdução ..........................................................................................................219 Procedimentos Metodológicos ...........................................................................219 Definição de Domínios e Unidades Geológico-Ambientais .................................219 Atributos da Geologia ........................................................................................220 Deformação ....................................................................................................220 Tectônica: Dobramento ..................................................................................220 Tectônica: Fraturamento (Juntas e Falhas)/Cisalhamento ................................220 Tipo de Deformação .......................................................................................220 Aspecto ..........................................................................................................220 Comportamento Reológico ............................................................................220 Resistência ao Intemperismo Físico .................................................................220 Resistência ao Intemperismo Químico ............................................................221 Grau de Coerência ..........................................................................................221 Características do Manto de Alteração Potencial (Solo Residual) ....................222 Porosidade Primária ........................................................................................222 Característica da Unidade Lito-Hidrogeológica ............................................. 223 Atributos do Relevo ........................................................................................... 223 Modelo Digital de Terreno – Shutlle Radar Topography Mission (Srtm) ..............224 Mosaico Geocover 2000 .....................................................................................225 Análise da Drenagem ..........................................................................................225 Kit de Dados Digitais ...........................................................................................225 Trabalhando com o Kit de Dados Digitais .......................................................225 Estruturação da base de dados: geobank ...........................................................227 Atributos dos Campos do Arquivo das Unidades Geológico-Ambientais: Dicionário de Dados ............................................................................................229 Referências ..........................................................................................................229 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica INTRODUÇÃO DEFINIÇÃO DE DOMÍNIOS E UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS Neste capítulo são apresentadas as diversas etapas que envolveram o tratamento digital dos dados no de- O estabelecimento de domínios geológico-ambien- senvolvimento do SIG Mapa Geodiversidade do Estado tais e suas subdivisões para o estado do Acre se insere do Acre, do Programa Geologia do Brasil (PGB) da CPRM/ nos critérios adotados para a definição de domínios e SGB, integrante do Programa de Aceleração do Crescimento unidades geológico-ambientais do Brasil, com o objetivo (PAC 2009), que tem como objetivo a geração de produtos de se agrupar conjuntos estratigráficos de comportamento voltados para ordenamento territorial e planejamento de semelhante frente ao uso e à ocupação dos terrenos. Des- setores tais como: mineral, transporte, agricultura, turismo sa forma, o resultado obtido não foi um mapa geológico e meio ambiente. ou tectônico, mas, sim, um novo produto, denominado As informações disponibilizadas estão armazenadas Mapa Geodiversidade do Estado do Acre, no qual foram no GEOBANK (sistema de bancos de dados geológicos inseridas informações de cunho ambiental, embora a corporativo da CPRM/SGB), a partir de dados geológicos matéria-prima para análises e agrupamentos tenha sido multiescalares contidos em suas bases Litoestratigrafia e proveniente de informações contidas nas bases de da- Recursos Minerais, além da utilização de sensores como o dos Litoestratigrafia e Recursos Minerais do GEOBANK, Modelo Digital de Terreno SRTM (Shuttle Radar Topography como também da larga experiência em mapeamento e Mission), do Mosaico GeoCover 2000 e das informações em projetos de ordenamento e gestão do território dos de estruturas e drenagem (RAMOS et al., 2005; SCHOB- profissionais da CPRM/SGB. BENHAUS; GONÇALVES; SANTOS, 2004; THEODOROVICZ; Em alguns casos foram agrupadas, em um mesmo THEODOROVICZ; CANTARINO, 1994, 2002; THEODOROVI- domínio, unidades estratigráficas com idades diferentes, CZ et al., 2001, 2005; TRAININI; ORLANDI, 2003; TRAININI desde que a elas se aplicasse um conjunto de critérios et al., 2001). classificatórios, como: posicionamento tectônico, nível Do mesmo modo que na elaboração do Mapa Geo- crustal, classe da rocha (ígnea, sedimentar ou metamór- diversidade do Brasil (escala 1:2.500.000), também foram fica), grau de coesão, textura, composição, tipos e graus utilizadas para o Mapa Geodiversidade do Estado do Acre de deformação, expressividade do corpo rochoso, tipos informações temáticas de infraestrutura, recursos minerais, de metamorfismo, expressão geomorfológica ou litótipos unidades de conservação, terras indígenas e áreas de prote- especiais. Se, por um lado, agruparam-se quartzitos friáveis ção integral e de desenvolvimento sustentável estaduais e e arenitos friáveis, por outro foram separadas formações federais, dados da rede hidrológica e de água subterrânea, sedimentares muito semelhantes em composição, estrutura áreas impactadas (erosão, desertificação), áreas oneradas e textura, quando a geometria do corpo rochoso apontava pela mineração, informações da Zona Econômica Exclusiva no sentido da importância em distinguir uma situação da Plataforma Continental (ZEE), gasodutos e oleodutos, de extensa cobertura de uma situação de pacote restrito dados paleontológicos, geoturísticos e paleontológicos. limitado em riftes. O principal objetivo para tal compartimentação é PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS atender a uma ampla gama de usos e usuários interessados em conhecer as implicações ambientais decorrentes Assim como para o Mapa Geodiversidade do Brasil e do embasamento geológico. Na elaboração do Mapa do SIG Geodiversidade ao Milionésimo, os levantamentos Geodiversidade do Brasil (escala 1:2.500.000) analisaram- estaduais foram elaborados seguindo as orientações con- se somente as implicações ambientais provenientes de tidas em roteiro metodológico preparado para essa fase, características físico-químicas, geométricas e genéticas apoiados em kits digitais personalizados para cada estado dos corpos rochosos. Na escala 1:1.000.000, do recorte ao que contêm todo o material digital (imagens, arquivos milionésimo e dos estados, também foram selecionados vetoriais etc.) necessário ao bom desempenho da tarefa. atributos aplicáveis ao planejamento e informações dos A sistemática de trabalho adotada permitiu a conti- compartimentos do relevo, reservando-se para as escalas nuação da organização dos dados na Base Geodiversidade de maior detalhe o cruzamento com informações sobre integrante do GEOBANK, desde a fase do recorte ao milio- clima, solo e vegetação. nésimo até os estaduais e, sucessivamente, em escalas de Como é fruto da reclassificação das unidades litoes- maior detalhe (em trabalhos futuros), de forma a possibilitar tratigráficas contidas na base multiescalar Litoestratigrafia, a conexão dos dados vetoriais aos dados alfanuméricos. compondo conjuntos estratigráficos de comportamento Em uma primeira fase, com auxílio dos elementos-chave semelhante frente ao uso e à ocupação, a Base Geodiver- descritos nas tabelas dos dados vetoriais, é possível vincular sidade tem a sua estruturação em domínios e unidades facilmente mapas digitais ao GEOBANK, como na monta- geológico-ambientais apresentada no Apêndice I (Unidades gem de SIGs, em que as tabelas das shapefiles (arquivos Geológico-Ambientais do Território Brasileiro). Tal estru- vetoriais) são produtos da consulta sistemática ao banco turação é dinâmica e, na medida do detalhamento das de dados. escalas, novos domínios e unidades poderão ser inseridos. 219 geodiVersidade do estado do ceará ATRIBUTOS DA GEOLOGIA Aspecto Desde a etapa do recorte ao milionésimo, para melhor – Sem estruturas caracterizar as unidades geológico-ambientais, foram selecio- – Estratificada/Biogênica nados atributos da geologia que permitem uma série de in- – Maciça/Vesicular terpretações na análise ambiental, como os descritos a seguir. – Maciça/Acamadada – Maciça/Laminada Deformação – Maciça – Acamadada Relacionada à dinâmica interna do planeta. Procede – Acamadada/Filitosa -se à sua interpretação a partir das ambiências tectônica – Acamadada/Xistosa e litológica, bem como da análise de estruturas refletidas – Xistosa/Maciça nos sistemas de relevo e drenagem. – Filitosa/Xistosa – Acamadamento Magmático Tectônica: Dobramento – Gnáissica – Bandada – Ausente: sedimentos inconsolidados (aluviões, du- – Concrecional nas, terraços etc.). – Concrecional/Nodular – Não dobrada: sequências sedimentares, vulcanossedi- – Biogênica mentares e rochas ígneas não dobradas e não metamorfizadas. – Estruturas de Dissolução – Pouco a moderadamente dobrada: sequências – Estruturas de Colapso sedimentares ou vulcanossedimentares do tipo Bambuí, por exemplo. Comportamento Reológico – Intensamente dobrada: sequências sedimentares ou vulcanossedimentares complexa e intensamente dobra- De acordo com Oliveira e Brito (1998), as rochas das (por exemplo, grupos Açungui, Minas etc.) e rochas podem apresentar as seguintes características reológicas granítico-gnáissicas migmatíticas. (comportamento frente a esforços mecânicos): – Moderadamente a intensamente dobrada. – Comportamento isotrópico: quando as propriedades – Pouco a intensamente dobrada. das rochas são constantes, independentemente da direção observada. Tectônica: Fraturamento (Juntas e Falhas)/ – Comportamento anisotrópico: quando as proprieda- Cisalhamento des variam de acordo com a direção considerada. As bibliotecas podem ser: – Não fraturada: por exemplo, coberturas sedimen- – Isotrópico: caso dos granitos com granulação e tares inconsolidadas. textura homogênea. – Pouco a moderadamente fraturada (distribuição – Anisótropico: caso das unidades formadas por diver- regular). sas litologias e/ou deformações heterogêneas. – Pouco a moderadamente fraturada (distribuição irregular). Resistência ao Intemperismo Físico – Moderada a intensamente fraturada (distribuição regular). Procede-se à dedução a partir da análise da com- – Moderada a intensamente fraturada (distribuição posição mineral da(s) rocha(s) que sustenta(m) a unidade irregular). geológico-ambiental. – Pouco a intensamente fraturada (distribuição re- Se apenas um tipo de litologia sustentar a unidade gular). ou se forem complexos plutônicos de várias litologias, – Pouco a intensamente fraturada (distribuição irregular). são definidas as seguintes classificações para esse – Intensamente fraturada (distribuição regular). atributo: – Intensamente fraturada (distribuição irregular). – Baixa: rochas ricas em minerais ferromagnesianos, arenitos, siltitos, metassedimentos argilosos, rochas ígneas Tipo de Deformação ricas em micas, calcários, lateritas, rochas ígneas básico -ultrabásico-alcalinas efusivas. – Não se aplica – Moderada a alta: ortoquartzitos, arenitos silicifica- – Deformação rúptil dos, leucogranitos e outras rochas pobres em micas e em – Deformação dúctil/rúptil minerais ferromagnesianos, formações ferríferas, quartzitos – Deformação rúptil/dúctil e arenitos impuros. – Deformação dúctil – Não se aplica: sedimentos inconsolidados. 220 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica Entretanto, se várias litologias sustentarem a unidade – Baixa a moderada na vertical: unidades em geológico-ambiental, a classificação será: que o substrato rochoso é formado por empilhamento de – Baixa a moderada na vertical: por exemplo, camadas horizontalizadas, não dobradas, de composição coberturas pouco a moderadamente consolidadas. mineral e grau de consolidação semelhantes a ligeiramente – Baixa a alta na vertical: unidades em que o diferentes e mesma composição mineralógica. substrato rochoso é formado por empilhamento de ca- – Baixa a alta na vertical: unidades em que o subs- madas horizontalizadas, não dobradas, de litologias de trato rochoso é formado por empilhamento de camadas composição mineral e grau de consolidação diferentes, horizontalizadas, não dobradas, de litologias de compo- como as intercalações irregulares de calcários, arenitos, sição mineral e grau de consolidação muito diferentes, siltitos, argilitos etc. como as intercalações irregulares de calcários, arenitos, – Baixa a alta na horizontal e na vertical: sequ- siltitos, argilitos etc. ências sedimentares e vulcanossedimentares dobradas, – Baixa a alta na horizontal e na vertical: sequ- compostas de várias litologias; rochas gnáissico-migma- ências sedimentares e vulcanossedimentares dobradas, títicas e outras que apresentam grande heterogeneidade compostas de várias litologias; rochas gnáissico-migma- composicional, textural e deformacional lateral e vertical. títicas e outras que apresentam grande heterogeneidade composicional, textural e deformacional lateral e vertical. Resistência ao Intemperismo Químico Grau de Coerência Procede-se à dedução a partir da análise da com- posição mineral da(s) rocha(s) que sustenta(m) a unidade Refere-se à resistência ao corte e à penetração. Mes- geológico-ambiental. mo em se tratando de uma única litologia, deve-se prever No caso de apenas um tipo de litologia sustentar a combinação dos vários tipos de grau de coerência, a a unidade geológico-ambiental, ou se forem complexos exemplo dos arenitos e siltitos (Figura 14.1). Para o caso de plutônicos de várias litologias, são definidas as seguintes complexos plutônicos com várias litologias, todas podem classificações para esse atributo: ser enquadradas em um único grau de coerência. A classi- – Baixa: calcários, rochas básicas, ultrabásicas, alca- ficação a ser utilizada para esse atributo é: linas etc. – Muito brandas, – Brandas, – Médias, – Duras – Moderada a alta: ortoquartzitos, leucogranitos e – Muito brandas a duras outras rochas pobres em micas e em minerais ferromag- Entretanto, se forem várias litologias, esta será a nesianos, quartzitos e arenitos impuros, granitos ricos em classificação: minerais ferromagnesianos e micáceos etc. – Variável na horizontal – Não se aplica: aluviões. – Variável na vertical Entretanto, se várias litologias sustentarem a unidade – Variável na horizontal e vertical geológico-ambiental, a classificação será: – Não se aplica. Figura 14.1 - Resistência à compressão uniaxial e classes de alteração para diferentes tipos de rochas. Fonte: Modificado de VAZ, 1996. 221 geodiVersidade do estado do ceará Características do Manto de Alteração – Predominantemente argilo-síltico-arenoso: rochas Potencial (Solo Residual) granitoides e gnáissico-migmatíticas ortoderivadas. – Variável de arenoso a argilossiltoso: sequências sedi- Procede-se à dedução a partir da análise da composição mentares e vulcanossedimentares compostas por alternân- mineral das rochas. Por exemplo, independentemente das cias irregulares de camadas pouco espessas, interdigitadas, variáveis que influenciam as características do solo, como de composição mineral muito contrastante, a exemplo das clima, relevo e evolução do solo, o manto de alteração de um sequências em que se alternam, irregularmente, camadas basalto será argiloso e o de um granito, argilo-síltico-arenoso. de arenitos quartzosos com pelitos, calcários ou rochas – Predominantemente arenoso: substrato rochoso vulcânicas. sustentado por espessos e amplos pacotes de rochas pre- – Predominantemente siltoso: siltitos e folhelhos. dominantemente arenoquartzosas. – Não se aplica – Predominantemente argiloso: predominância de rochas que se alteram para argilominerais, a exemplo de Porosidade Primária derrames basálticos, complexos básico-ultrabásico-alca- linos, terrenos em que predominam rochas calcárias etc. Relação entre o volume de poros ou vazios e o volume – Predominantemente argilossiltoso: siltitos, folhelhos, total da rocha. O preenchimento deverá seguir os procedi- filitos e xistos. mentos descritos na Tabela 14.1. Tabela 14.1 - Porosidade total dos diversos materiais rochosos. Material Porosidade Total (% m) Porosidade Eficaz (% me) Obs. Normal Extraordinária Tipo Descrição Média Média Máx. Mín. Máx. Mín. Máx. Mín. Granito 0,3 4 0,2 9 0,05 <0,2 0,5 0,0 A Rochas maciças Calcário maciço 8 15 0,5 20 <0,5 1 0,0 B Dolomito 5 10 2 <0,5 1 0,0 B Rochas metamórficas 0,5 5 0,2 <0,5 2 0,0 A Piroclasto e tufas 30 50 10 60 5 <5 20 0,0 C, E Escórias 25 80 10 20 50 1 C, E Rochas vulcânicas Pedra-pome 85 90 50 <5 20 0,0 D Basaltos densos, fonólitos 2 5 0,1 <1 2 0,1 A Basaltos vesiculares 12 30 5 5 10 1 C Pizarras sedimentares 5 15 2 30 0,5 <2 5 0,0 E R o c h a s s e d i m e n t a r e s Arenitos 15 25 3 30 0,5 10 20 0,0 F consolidadas (ver rochas maciças) Creta blanda 20 50 10 1 5 0,2 B Calcário detrítico 10 30 1,5 3 20 0,5 Aluviões 25 40 20 45 15 15 35 5 E Dunas 35 40 30 20 30 10 Cascalho 30 40 25 40 20 25 35 15 Loess 45 55 40 <5 10 0,1 E R o c h a s s e d i m e n t a r e s Areias 35 45 20 25 35 10 inconsolidadas Depósitos glaciais 25 35 15 15 30 5 Silte 40 50 25 10 20 2 E Argilas não compactadas 45 60 40 85 30 2 10 0,0 E Solos superiores 50 60 30 10 20 1 E Fonte: Modificado de CUSTODIO; LLAMAS, 1983. Nota: Alguns dados, em especial os referentes à porosidade eficaz (me), devem ser tomados com precaução, segundo as circunstâncias locais. A = Aumenta m e me por meteorização; B = Aumenta m e me por fenômenos de dissolução; C = Diminui m e me com o tempo; D = Diminui m e pode aumentar me com o tempo; E = me muito variável, segundo as circunstâncias do tempo; F = Varia segundo o grau de cimentação e solubilidade. 222 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica Caso seja apenas um tipo de litologia a sustentar a uni- Portanto, esta proposta difere, substancialmente, das dade geológico-ambiental, observar o campo “Descrição” metodologias de mapeamento geomorfológico presentes da Tabela 14.1. Entretanto, se forem complexos plutônicos na literatura, tais como a análise integrada entre a compar- de várias litologias, a porosidade é baixa. timentação morfológica dos terrenos, a estrutura subsu- – Baixa: 0 a 15% perficial dos terrenos e a fisiologia da paisagem proposta – Moderada: de 15 a 30% por Ab’Saber (1969); as abordagens descritivas em base – Alta: >30% morfométrica, como as elaboradas por Barbosa, Franco e Para os casos em que várias litologias sustentam a Moreira, (1977) para o Projeto RADAMBRASIL; Ponçano et unidade geológico-ambiental, observar o campo “Tipo” al. (1979) e Ross e Moroz (1996) para o Instituto de Pesquisas da Tabela 14.1. Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT); as abordagens – Variável (0 a >30%): a exemplo das unidades em que sistêmicas, com base na compartimentação topográfica em o substrato rochoso é formado por um empilhamento irre- bacias de drenagem (MEIS; MIRANDA; FERNANDES, 1982); gular de camadas horizontalizadas porosas e não porosas. ou a reconstituição de superfícies regionais de aplainamento (LATRUBESSE; RODRIGUES; MAMEDE, 1998). Característica da Unidade O mapeamento de padrões de relevo é, essencial- Lito-Hidrogeológica mente, uma análise morfológica do relevo com base em fotointerpretação da textura e rugosidade dos terrenos a São utilizadas as seguintes classificações: partir de diversos sensores remotos. – Granular: dunas, depósitos sedimentares inconso- Nesse sentido, é de fundamental importância escla- lidados, planícies aluviais, coberturas sedimentares etc. recer que não se pretendeu produzir um mapa geomor- – Fissural fológico, mas um mapeamento dos padrões de relevo em – Granular/Fissural consonância com os objetivos e as necessidades de um – Cárstico mapeamento da geodiversidade do território nacional em – Não se aplica escala continental. Com esse enfoque, foram selecionados 28 padrões ATRIBUTOS DO RELEVO de relevo para os terrenos existentes no território brasileiro (Tabela 14.2), levando-se essencialmente em consideração: Com o objetivo de oferecer uma informação geomor- – Parâmetros morfológicos e morfométricos que fológica clara e aplicada ao mapeamento da geodiversidade pudessem ser avaliados pelo instrumental tecnológico do território brasileiro em escalas de análise reduzidas disponível nos kits digitais (imagens LandSat GeoCover (1:500.000 a 1:1.000.000), procurou-se identificar os gran- e Modelo Digital de Terreno (MDT) e Relevo Sombreado des conjuntos morfológicos passíveis de serem delimitados (SRTM); mapa de classes de hipsometria; mapa de classes em tal tipo de escala, sem preocupação quanto a gênese de declividade). e evolução morfodinâmica das unidades e dos processos – Reinterpretação das informações existentes nos ma- geomorfológicos atuantes. Avaliações e controvérsias de pas geomorfológicos produzidos por instituições diversas, âmbito exclusivamente geomorfológico, daí resultantes, em especial os mapas desenvolvidos no âmbito do Projeto seriam de pouca valia para atender aos propósitos deste RADAMBRASIL em escala 1:1.000.000. estudo. Portanto, termos tais como depressão, crista, – Execução de perfis de campo, com o objetivo de patamar, platô, cuesta, hogback, pediplano, peneplanos, aferir a classificação executada. etchplano, escarpa, serra, maciço, dentre tantos outros, Para cada um dos atributos de relevo e respectivas foram englobados em um reduzido número de conjuntos bibliotecas há uma legenda explicativa (Apêndice II – Bi- morfológicos. blioteca de Relevo do Território Brasileiro), que agrupa Tabela 14.2 - Atributos e biblioteca de padrões de relevo do território brasileiro. Símbolo Tipo de Relevo Declividade (graus) Amplitude Topográfica (m) R1a Planícies Fluviais ou Fluviolacustres 0 a 3 zero R1b1 Terraços Fluviais 0 a 3 2 a 20 R1b2 Terraços Marinhos 0 a 3 2 a 20 R1b3 Terraços Lagunares 0 a 3 2 a 20 R1c1 Vertentes Recobertas por Depósitos de Encosta 5 a 45 Variável R1c2 Leques Aluviais 0 a 3 2 a 20 R1d Planícies Fluviomarinhas 0 (plano) zero R1e Planícies Costeiras 0 a 5 2 a 20 223 geodiVersidade do estado do ceará Tabela 14.2 - Atributos e biblioteca de padrões de relevo do território brasileiro. (continuação) Símbolo Tipo de Relevo Declividade (graus) Amplitude Topográfica (m) R1f1 Campos de Dunas 3 a 30 2 a 40 R1f2 Campos de Loess 0 a 5 2 a 20 R1g Recifes 0 zero R2a1 Tabuleiros 0 a 3 20 a 50 R2a2 Tabuleiros Dissecados 0 a 3 20 a 50 R2b1 Baixos Platôs 0 a 5 0 a 20 R2b2 Baixos Platôs Dissecados 0 a 5 20 a 50 R2b3 Planaltos 0 a 5 20 a 50 R2c Chapadas e Platôs 0 a 5 0 a 20 R3a1 Superfícies Aplainadas Conservadas 0 a 5 0 a 10 R3a2 Superfícies Aplainadas Degradadas 0 a 5 10 a 30 R3b Inselbergs 25 a 60 50 a 500 R4a1 Domínio de Colinas Amplas e Suaves 3 a 10 20 a 50 R4a2 Domínio de Colinas Dissecadas e Morros Baixos 5 a 20 30 a 80 R4a3 Domos em Estrutura Elevada 3 a 10 50 a 200 R4b Domínio de Morros e de Serras Baixas 15 a 35 80 a 200 R4c Domínio Montanhoso 25 a 60 300 a 2000 R4d Escarpas Serranas 25 a 60 300 a 2000 R4e Degraus Estruturais e Rebordos Erosivos 10 a 45 50 a 200 R4f Vales Encaixados 10 a 45 100 a 300 Fonte: Elaborado por Marcelo E. Dantas, 2010. características morfológicas e morfométricas gerais, como terreno e suas inter-relações com as formas de relevo também informações elementares e generalizadas quanto e da drenagem e seus padrões de forma direta, o que à gênese e vulnerabilidade frente a processos geomorfoló- possibilita a determinação tanto do grau de dissecação gicos (intempéricos, erosivos e deposicionais). do relevo como da declividade e altimetria, tornando-se Considerando-se a vastidão do território brasileiro, imprescindível, por exemplo, em determinação de áreas de com um conjunto diversificado de paisagens bioclimáticas proteção permanente, projetos de estradas e barragens, e condicionantes geológico-geomorfológicas singulares, as mapeamento de vegetação etc. informações de amplitude de relevo e declividade devem A escolha do Shuttle Radar Topography Mission ser reconhecidas como valores-padrão, não aplicáveis in- (SRTM) – missão espacial liderada pela NASA, em parceria discriminadamente a todas as regiões. Por outro lado, com com as agências espaciais da Alemanha (DLR) e Itália (ASI), o objetivo de promover um contínuo aprimoramento da realizada entre 11 e 22.02.2000, visando à geração de Tabela 14.2 e do Apêndice II, apresentados nesse modelo, um modelo digital de elevação quase global – deveu-se à sugestões de ajuste serão sempre benvindas. disponibilidade de seus MDTs para toda a América do Sul, com resolução espacial de aproximadamente 90 x 90 m, MODELO DIGITAL DE TERRENO – SHUTLLE alta acurácia e confiabilidade, além da gratuidade (CCRS, RADAR TOPOGRAPHY MISSION (SRTM) 2004 citado por BARROS et al., 2004). Durante a execução do levantamento da geodiversidade A utilização do Modelo Digital de Terreno (MDT) do território brasileiro, apesar de todos os pontos positivos ou Modelo Digital de Elevação ou Modelo Numérico de apresentados, os dados SRTM, em algumas regiões, apre- Terreno, no contexto do Mapa Geodiversidade do Estado sentaram problemas, tais como: valores espúrios (positivos e do Acre, justifica-se por sua importância em estudos de negativos) nas proximidades do mar e áreas que não possuem análise ambiental. valores de altitude (BARROS et al., 2004). Essas áreas recebem O MDT é um modelo contínuo da superfície terrestre, o valor -32768, indicando que não há dado disponível. no nível do solo, representado por uma malha digital de A literatura sobre o tema apresenta diversas possibi- matriz cartográfica encadeada, ou raster, em que cada lidades de correção, desde substituição dessas áreas por célula da malha retém um valor de elevação (altitude) dados oriundos de outros produtos, como o GTOPO30, ao do terreno. O MDT fornece uma visão tridimensional do uso de programas que objetivam diminuir tais incorreções 224 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica por meio de edição de dados (BARROS et al., 2004). Neste – Geodiversidade: arquivo de domínios e unidades estudo, foi utilizado o software ENVI 4.1 para solucionar geológico-ambientais. os problemas citados. – Estruturas: arquivo de estruturas geológicas. – Planimetria: cidades, vilas, povoados, rodovias MOSAICO GEOCOVER 2000 etc. – Áreas restritivas: áreas de parques estaduais e fede- O Mosaico GeoCover 2000 é um mosaico ortorreti- rais, terras indígenas, estações ecológicas etc. ficado de imagens ETM+ do sensor LandSat 7, resultante – Hidrografia: drenagens bifilar e unifilar. do sharpening das bandas 7, 4, 2 e 8. Esse processamen- – Bacias hidrográficas: recorte das bacias e sub-bacias to procede à transformação RGB-IHS (canais de cores de drenagem. RGB-IHS / vermelho, verde e azul – Matiz, Saturação e – Altimetria: curvas de nível espaçadas de 100 m. Intensidade) utilizando as bandas 7, 4 e 2 com resolução – Pontos geoturísticos: sítios geológicos, paleonto- espacial de 30 m e, posteriormente, a transformação lógicos etc. IHS-RGB utilizando a banda 8 na Intensidade (I) para – Recursos minerais: dados de recursos minerais. aproveitar a resolução espacial de 15 m. Tal procedimento – Assentamento: arquivo das áreas de assentamento alia as características espaciais da imagem com resolução agrícola. de 15 m às características espectrais das imagens com – Áreas de desertificação: arquivo das áreas de de- resolução de 30 m, resultando em uma imagem mais sertificação. “aguçada”. As imagens do Mosaico GeoCover LandSat 7 – Paleontologia: dados de paleontologia. foram coletadas no período de 1999/2000 e apresentam – Poços: dados de poços cadastrados pelo Sistema resolução espacial de 14,25 m. de Informações de Águas Subterrâneas (SIAGAS) criado Além da exatidão cartográfica, o Mosaico GeoCover pela CPRM/SGB. apresenta outras vantagens, tais como facilidade de aqui- – MDT_SRTM: arquivo grid pelo recorte do estado. sição dos dados sem ônus, âncora de posicionamento, – Declividade: arquivo grid pelo recorte do estado. boa acurácia e abrangência mundial, o que, juntamente – GeoCover: arquivo grid pelo recorte do estado. com o MDT, torna-o imprescindível aos estudos de análise – Simbologias ESRI: fontes e arquivos *style (arquivo de ambiental (ALBUQUERQUE; SANTOS; MEDEIROS, 2005; cores e simbologias utilizadas pelo programa ArcGIS) para CREPANI; MEDEIROS, 2005). implementação das simbologias para leiaute – instruções de uso por meio do arquivo leia-me.doc, que se encontra ANÁLISE DA DRENAGEM dentro da pasta. As figuras 14.2 a 14.4 ilustram parte dos dados Segundo Guerra e Cunha (2001), o reconhecimento, do kit digital para o Mapa Geodiversidade do Estado a localização e a quantificação das drenagens de determi- do Acre. nada região são de fundamental importância para enten- Os procedimentos de tratamento digital e processa- dimento dos processos geomorfológicos que governam as mento das imagens geotiff e MrSid (SRTM e GeoCover, transformações do relevo sob as mais diversas condições respectivamente), dos grids (declividade e hipsométrico), climáticas e geológicas. Nesse sentido, as informações bem como dos recortes e reclass dos arquivos vetoriais espaciais extraídas do traçado e da forma das drenagens (litologia, planimetria, curvas de nível, recursos mine- são indispensáveis na análise geológico-ambiental, uma vez rais etc.) contidos no kit digital foram executados em que são respostas/resultados das características ligadas a ambiente SIG, utilizando-se os softwares ArcGIS9 e aspectos geológicos e estruturais e a processos geomor- ENVI 4.4. fológicos, os quais atuam como agentes modeladores da paisagem e das formas de relevo. Trabalhando com o Kit de Dessa forma, a integração de atributos das redes de Dados Digitais drenagem – tipo de canais de escoamento, hierarquia da rede fluvial e configuração dos padrões de drenagem – a Na metodologia adotada, a unidade geológico-am- outros temas trouxe respostas a várias questões relaciona- biental, fruto da reclassificação das unidades geológicas das a comportamento dos diferentes ambientes geológicos (reclass), é a unidade fundamental de análise, na qual foram e climáticos locais, processos fluviais dominantes e dispo- agregadas todas as informações da geologia possíveis de sição de camadas geológicas, dentre outros. serem obtidas a partir de produtos gerados pela atualiza- ção da cartografia geológica dos estados, SRTM, Mosaico KIT DE DADOS DIGITAIS GeoCover 2000 e drenagem. Com a utilização dos dados digitais contidos em DVD- Na fase de execução dos mapas de geodiversidade -ROM foi estruturado, para cada folha ou mapa estadual, estaduais, o kit de dados digitais constou, de acordo com um Projeto.mxd (conjunto de shapes e leiaute), organi- o disponível para cada estado, dos seguintes temas: zado no software ArcGIS9. 225 geodiVersidade do estado do ceará Figura 14.2 - Exemplo de dados do kit digital para o estado do Acre: unidades geológico-ambientais versus infraestrutura, recursos minerais e áreas de proteção ambiental. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. Figura 14.3 - Exemplo de dados do kit digital para o estado do Acre: unidades geológico-ambientais versus relevo sombreado. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. Figura 14.4 - Exemplo de dados do kit digital para o estado do Acre: modelo digital de elevação (SRTM) versus drenagem bifilar. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. 226 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica No diretório de trabalho havia um arquivo shapefile – A partir da escala 1:1.000.000, criação de atributos denominado geodiversidade_estado.shp, que corres- geológicos aplicáveis ao planejamento e informações dos pondia ao arquivo da geologia em que deveria ser aplicada compartimentos do relevo. a reclassificação da geodiversidade. – Acuidade cartográfica compatível com as escalas Após a implantação de domínios e unidades geoló- adotadas. gico-ambientais, procedia-se ao preenchimento dos parâ- – Estruturação de um modelo conceitual de base metros da geologia e, posteriormente, ao preenchimento para o planejamento, com dados padronizados contidos dos campos com os atributos do relevo. em bibliotecas. As informações do relevo serviram para melhor ca- – Elaboração de legenda para compor os leiautes dos racterizar a unidade geológico-ambiental e também para mapas de geodiversidade estaduais. subdividi-la. Porém, essa subdivisão, em sua maior parte, – Criação de um aplicativo de entrada de dados local alcançou o nível de polígonos individuais. desenvolvido em Visual Basic 6.0 Aplicativo GEODIV. Quando houve necessidade de subdivisão do polígo- – Implementação do modelo de dados no GEOBANK no, ou seja, quando as variações fisiográficas eram muito (Oracle) e migração dos dados do Aplicativo GEODIV para contrastantes, evidenciando comportamentos hidrológicos a Base Geodiversidade. e erosivos muito distintos, esse procedimento foi realizado. – Entrada de dados de acordo com a escala e fase Nessa etapa, considerou-se o relevo como um atributo (mapas estaduais). para subdividir a unidade, propiciando novas deduções – Montagem de SIGs. na análise ambiental. – Disponibilização dos mapas na Internet, por meio A ss im, a nova unidade geológico-ambien- do módulo Web Map do GEOBANK (http://geobank. tal resultou da interação da unidade geológico sa.cprm.gov.br), onde o usuário tem acesso a informações -ambiental definida na primeira etapa com o relevo. relacionadas às unidades geológico-ambientais (Base Finalizado o trabalho de implementação dos parâ- Geodiversidade) e respectivas unidades litológicas (Base metros da geologia e do relevo pela equipe responsável, Litoestratigrafia). o material foi enviado para a Coordenação de Geopro- A necessidade de prover o SIG Geodiversidade com cessamento, que procedeu à auditagem do arquivo tabelas de atributos referentes às unidades geológico- digital da geodiversidade para retirada de polígonos -ambientais, dotadas de informações para planejamento, espúrios, superpostos e vazios gerados durante o pro- implicou a modelagem de uma Base Geodiversidade, cesso de edição. Paralelamente, iniciou-se a carga dos intrinsecamente relacionada à Base Litoestratigrafia, uma dados na Base Geodiversidade – APLICATIVO GEODIV vez que as unidades geológico-ambientais são produto de (VISUAL BASIC) –, com posterior migração dos dados reclassificação das unidades litoestratigráficas. para o GEOBANK. Esse modelo de dados foi implantado em um aplicativo de entrada de dados local, desenvolvido em Visual Basic ESTRUTURAÇÃO DA BASE DE DADOS: 6.0, denominado GEODIV. O modelo do aplicativo apre- GEOBANK senta seis telas de entrada de dados armazenados em três tabelas de dados e 16 tabelas de bibliotecas. A primeira tela Com os projetos de levantamento da geodiversida- recupera, por escala e fase, todas as unidades geológico- de do Brasil, a CPRM/SGB teve como objetivo principal -ambientais cadastradas, filtrando, para cada uma delas, oferecer aos diversos segmentos da sociedade brasileira as letras-símbolos das unidades litoestratigráficas (Base uma tradução do conhecimento geológico-científíco, Litoestratigrafia) (Figura 14.5). com vistas à sua aplicação no ordenamento territorial e Posteriormente, de acordo com a escala adotada, o planejamento de diversos setores – mineral, transporte, usuário cadastra todos os atributos da geologia de interesse agricultura, turismo e meio ambiente –, tendo como para o planejamento (Figura 14.6). base as informações geológicas contidas no SIG da Carta Na última tela, o usuário cadastra os compartimentos Geológica do Brasil ao Milionésimo (SCHOBBENHAUS; de relevo (Figura 14.7). GONÇALVES; SANTOS, 2004). Todos os dados foram preenchidos pela equipe da Com essa premissa, a Coordenação de Geoprocessa- Coordenação de Geoprocessamento e inseridos no apli- mento da Geodiversidade, após uma série de reuniões com cativo que possibilita o armazenamento das informações as coordenações temáticas e as equipes locais da CPRM/ no GEOBANK (Oracle), formando, assim, a Base Geodiver- SGB, estabeleceu normas e procedimentos básicos a se- sidade (Figura 14.8). rem utilizados nas diversas atividades dos levantamentos O módulo da Base Geodiversidade, suportado por bi- estaduais, com destaque para: bliotecas, recupera, também por escala e por fase (quadrícu- – Definição de domínios e unidades geológico-am- la ao milionésimo, mapas estaduais), todas as informações bientais, com base em parâmetros geológicos de interesse das unidades geológico-ambientais, permitindo a organiza- na análise ambiental, em escalas 1:2.500.000 e 1:1.000.00 ção dos dados no GEOBANK e a conexão dos dados veto- e mapas estaduais. riais com os dados alfanuméricos. 227 geodiVersidade do estado do ceará Em uma primeira fase, com auxílio dos elementos- chave descritos nas tabelas, é possível vincular, facilmente, mapas digitais ao GEOBANK, como na montagem de SIGs, em que as tabelas são produtos da consulta sistemática ao banco de dados. Outra importante ferramenta de visualização dos mapas geoambientais é o módulo Web Map do GEOBANK, onde o usuário tem acesso a informações relacionadas às unidades geológico-ambientais (Base Geodiversidade) e respectivas unidades litológicas (Base Litoestratigrafia), po- dendo recuperar as informações dos atributos relacionados à geologia e ao relevo diretamente no mapa (Figura 14.9). Figura 14.5: Tela de cadastro das unidades geológico-ambientais para os mapas estaduais da geodiversidade (aplicativo GEODIV). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Figura 14.6: Tela de cadastro dos atributos da geologia (aplicativo GEODIV). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. Figura 14.7: Tela de cadastro dos atributos do relevo (aplicativo Figura 14.8: Fluxograma simplificado da base Geodiversidade GEODIV). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. (GEOBANK). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. 228 metodologia, estruturação da base de dados e organização em sistema de informação geográfica TIPO_DEF (TIPO DE DEFORMAÇÃO) – Relacionado à rocha ou ao grupo de rochas que compõe a unidade geológico-ambiental. COM_REOL (COMPORTAMENTO REOLÓGICO) – Relacionado à rocha ou ao grupo de rochas que compõe a unidade geológico-ambiental. ASPECTO (ASPECTOS TEXTURAIS E ESTRUTU- RAIS) – Relacionado às rochas ígneas e/ou metamórficas que compõem a unidade geológico-ambiental. INTEMP_F (RESISTÊNCIA AO INTEMPERISMO FÍSICO) – Relacionado à rocha ou ao grupo de rochas sãs que compõe a unidade geológico-ambiental. INTEMP_Q (RESISTÊNCIA AO INTEMPERISMO QUÍMICO) – Relacionado à rocha ou ao grupo de rochas sãs que compõe a unidade geológico-ambiental. GR_COER (GRAU DE COERÊNCIA DA(S) ROCHA(S) FRESCA(S)) – Relacionado à rocha ou ao grupo de rochas que compõe a unidade geológico-ambiental. TEXTURA (TEXTURA DO MANTO DE ALTERAÇÃO) – Relacionado ao padrão textural de alteração da rocha ou ao grupo de rochas que compõe a unidade geológico -ambiental. PORO_PRI (POROSIDADE PRIMÁRIA) – Relacionado à porosidade primária da rocha ou do grupo de rochas que compõe a unidade geológico-ambiental. AQUÍFERO (TIPO DE AQUÍFERO) – Relacionado Figura 14.9: Módulo Web Map de visualização dos arquivos ao tipo de aquífero que compõe a unidade geológico vetoriais/base de dados (GEOBANK). Fonte: Elaborado pelos autores, 2013. -ambiental. COD_REL (CÓDIGO DOS COMPARTIMENTOS DO ATRIBUTOS DOS CAMPOS DO RELEVO) – Siglas para a divisão dos macrocompartimentos ARQUIVO DAS UNIDADES GEOLÓGICO- de relevo. AMBIENTAIS: DICIONÁRIO DE DADOS RELEVO (MACROCOMPARTIMENTOS DO RELEVO) – Descrição dos macrocompartimentos de relevo. São descritos, a seguir, os atributos dos campos GEO_REL (CÓDIGO DA UNIDADE GEOLÓGICO que constam no arquivo shapefile da unidade geológico -AMBIENTAL + CÓDIGO DO RELEVO) – Sigla da nova uni- -ambiental. dade geológico-ambiental, fruto da composição da unidade COD_DOM (CÓDIGO DO DOMÍNIO GEOLÓGICO geológica com o relevo. Na escala 1:1.000.000, é o campo in- -AMBIENTAL) – Sigla dos domínios geológico-ambientais. dexador que liga a tabela aos polígonos do mapa e ao banco de DOM_GEO (DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO GEOLÓ dados (é formada pelo campo COD_UNIGEO + COD_REL). -GICO-AMBIENTAL) – Reclassificação da geologia pelos OBS (CAMPO DE OBSERVAÇÕES) – Campo-texto grandes domínios geológicos. onde são descritas todas as observações consideradas COD_UNIGEO (CÓDIGO DA UNIDADE GEOLÓGI- relevantes na análise da unidade geológico-ambiental. CO-AMBIENTAL) – Sigla da unidade geológico-ambiental. UNIGEO (DESCRIÇÃO DA UNIDADE GEOLÓGICO REFERÊNCIAS -AMBIENTAL) – As unidades geológico-ambientais foram agrupadas com características semelhantes do ponto de AB’SABER, A.N. Um conceito de geomorfologia a serviço vista da resposta ambiental a partir da subdivisão dos das pesquisas sobre o quaternário. Geomorfologia, domínios geológico-ambientais e por critérios-chaves São Paulo, n. 18, p. 1-23, 1969. descritos anteriormente. DEF_TEC (DEFORMAÇÃO TECTÔNICA/DOBRA- ALBUQUERQUE, P.C.G.; SANTOS, C.C.; MEDEIROS, J.S. MENTOS) – Relacionado à rocha ou ao grupo de rochas Avaliação de mosaicos com imagens LandSat TM que compõe a unidade geológico-ambiental. para utilização em documentos cartográficos em CIS_FRAT (TECTÔNICA FRATURAMENTO/CI- escalas menores que 1/50.000. São José dos Campos: SALHAMENTO) – Relacionado à rocha ou ao gru- INPE, 2005. Disponível em: . 229 geodiVersidade do estado do ceará BARBOSA, G.V.; FRANCO, E.M.S.; MOREIRA, M.M.A. RAMOS, M.A.B.; JESUS, J.D.A. de; ESPÍRITO SANTO, E.B. Mapas geomorfológicos elaborados a partir do sensor do; CERQUEIRA, D.B. de. Proposta para determinação radar. Notícia Geomorfológica, Campinas, v. 17, n. 33, de atributos do meio físico relacionados às unidades p. 137-152, jun. 1977. geológicas, aplicado à análise geoambiental. In: OFICINA INTERNACIONAL DE ORDENAMENTO TERRITORIAL BARROS, R.S.; CRUZ, M.B.C.; REIS, B.R.; ROCHA, F.M.E.; MINEIRO, 2005, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: BARBOSA, G.L. Avaliação do modelo digital de elevação CPRM, 2005. da SRTM na ortorretificação de imagens Spot 4. Estudo de caso: Angra dos Reis – RJ. In: SIMPÓSIO EM CIÊNCIAS ROSS, J.L.S.; MOROZ, I.C. Mapa geomorfológico do estado GEODÉSICAS E TECNOLOGIA DA GEOINFORMAÇÃO, 1., de São Paulo. Revista do Departamento de Geografia 2004, Recife. Anais… Recife: UFPE, 2004. da FFLCH/USP, São Paulo, v. 10, p. 41-59, 1996. CREPANI, E.; MEDEIROS, J.S. Imagens CBERS + SCHOBBENHAUS, C.; GONÇALVES, J.H.; SANTOS, J.O.S. imagens SRTM + mosaicos GeoCover Landsat. Carta geológica do Brasil ao milionésimo: sistema Ambiente Spring e TerraView: sensoriamento de informações geográficas (SIG). Brasília, DF: CPRM, remoto e geoprocessamento gratuitos aplicados ao 2004. 46 folhas na escala 1:1.000.000. 41 CD-ROMs. desenvolvimento sustentável. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO Programa Geologia do Brasil. DE SENSORIAMENTO REMOTO, 12., 2005, Goiânia. Anais… São José dos Campos: INPE, 2005. THEODOROVICZ, A. et al. Projeto paisagens geoquímicas e geoambientais do vale do Ribeira. CUSTODIO, E.; LLAMAS, M.R. Hidrologia subterrânea. São Paulo: CPRM/UNICAMP/FAPESP, 2005. 2. ed. corrigida. Barceleno: Omega, 1983. Tomo I. 1157 p.: il. THEODOROVICZ, A.; THEODOROVICZ, A.M. de G.; CANTARINO, S. de C. Estudos geoambientais e GUERRA, A.J.T.; CUNHA, S.B. (Org.). Geomorfologia: geoquímicos das bacias hidrográficas dos rios uma atualização de bases e conceitos. 4. ed. Rio de Mogi-Guaçu e Pardo. São Paulo: CPRM, 2002. CD-ROM. Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. THEODOROVICZ, A. et al. Projeto médio Pardo. São LATRUBESSE, E.; RODRIGUES, S.; MAMEDE, L. Sistema de Paulo: CPRM, 2001. classificação e mapeamento geomorfológico: uma nova proposta. GEOSUL, Florianópolis, v. 14, n. 27, p. 682- HEODOROVICZ, A.; THEODOROVICZ, A.M. de G.; 687, 1998. CANTARINO, S. da C. Projeto Curitiba: informações básicas sobre o meio físico. Subsídios para o MEIS, M.R.M.; MIRANDA, L.H.G.; FERNANDES, N.F. planejamento territorial. Curitiba: CPRM, 1994. 109 p. 1 Desnivelamento de altitude como parâmetros para mapa, escala 1:100.000. a compartimentação do relevo: bacia do médio- baixo Paraíba do Sul. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE TRAININI, D.R.; ORLANDI FILHO, V. Mapa GEOLOGIA, 32., 1982, Salvador. Anais... Salvador: SGB, geoambiental de Brasília e entorno: ZEE-RIDE. Porto 1982, v. 4, p. 1459-1503. Alegre: CPRM/EMBRAPA/Consórcio ZEE Brasil/Ministério da Integração, 2003. OLIVEIRA, A.M.S.; BRITO, S.N.A. (Ed.). Geologia de engenharia. São Paulo: ABGE, 1998. 587 p. TRAININI, D.R.; GIOVANNINI, C.A.; RAMGRAB, G.E.; VIERO, A.C. Carta geoambiental da região PONÇANO, W.L.; CARNEIRO, C.D.R.; ALMEIDA, hidrográfica do Guaíba. Porto Alegre: CPRM/FEPAM/ M.A.; PIRES NETO, A.G.; ALMEIDA, F.F.M. O conceito PRÓ-GUAÍBA, 2001. Escala 1:250.000. de sistemas de relevo aplicado ao mapeamento geomorfológico do estado de São Paulo. In: SIMPÓSIO VAZ, L.F. Classificação genética dos solos e dos orizontes REGIONAL DE GEOLOGIA, 2., 1979, Rio Claro. Atas... Rio de alteração de rocha em regiões tropicais. Revista Claro: SBG/NS, 1979, v. 2, p. 253-262. Solos e Rochas, v. 19, n. 2, p. 117-136, 1996. 230 15 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES/ POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Amilcar Adamy (amilcar.adamy@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil SUMÁRIO Introdução ..........................................................................................................233 Domínio dos Sedimentos Cenozoicos Inconsolidados ou pouco Consolidados, Depositados em Meio Aquoso (DC) ............................ 234 Domínio dos Sedimentos Cenozoicos Inconsolidados do Tipo Coluvião e Tálus (DCICT) ........................................................................252 Domínio das Coberturas Cenozoicas Detrito-Lateríticas (DCDL) ........................ 254 Domínio dos Sedimentos Cenozoicos e/ou Mesozoicos, pouco a Moderadamente Consolidados, Associados a Profundas Extensas Bacias Continentais (DCM) .................................................................. 258 Domínio das Coberturas Sedimentares e Vulcanossedimentares Mesozoicas e Paleozoicas, pouco a Moderadamente Consolidadas, Associadas a Grandes e Profundas Bacias Sedimentares do Tipo Sinéclise (Ambientes Deposicionais: Continental, Marinho, Desértico, Glacial e Vulcânico (DSVMP) ...........................................................................................266 Domínio das Sequências Sedimentares Proterozoicas Dobradas, Metamorfizadas de Baixo a Alto Grau (DSP2) .....................................................272 Domínio dos Complexos Alcalinos Intrusivos e Extrusivos Diferenciados do Paleógeno, Mesozoico e Proterozoico (DCA) .................................................275 Referências ..........................................................................................................279 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO INTRODUÇÃO De forma complementar, considerando sua impor- tância para o conhecimento do processo de ocupação Ao longo do tempo, ao se estudar um ambiente natu- do estado de Acre, foram introduzidas informações sobre ral, as paisagens recebiam uma interpretação notadamente terrenos de importância arqueológica identificados em geomorfológica, sem maior relação com as demais carac- diversos estudos, onde se destacam os geoglifos, de terísticas do meio físico. Com a introdução do conceito de reconhecida importância em nível mundial. Ressalta-se geodiversidade, essas duas variáveis passaram a ser consi- que existem numerosos sítios arqueológicos em fase de deradas em conjunto, permitindo um novo e eficaz instru- identificação não considerados presentemente, associados, mento de análise do ambiente natural e, em particular, da principalmente, a essas estruturas de terra. paisagem, favorecendo um planejamento territorial em bases Ao desenvolver a metodologia descrita no capítulo sustentáveis e uma melhor conservação do meio ambiente, 14 (Metodologia, Estruturação da Base de Dados e Orga- além de possibilitar a avaliação dos impactos decorrentes nização em Sistema de Informação Geográfica), também da implantação de diferentes atividades econômicas sobre aplicada no Projeto Geodiversidade do Estado do Acre, a o espaço geográfico (SILVA et al., 2008). Torna-se claro, CPRM (2006) utilizou, como base de informação para o assim, que sérios problemas para a qualidade de vida dos entendimento da geodiversidade, a divisão do espaço terri- seres humanos e para o meio ambiente estão associados a torial em geossistemas ou domínios geológico-ambientais. uma inadequada intervenção na geodiversidade. Tais domínios, por sua vez, são subdivididos em unidades De conceituação relativamente recente, geodiversida- geológico-ambientais, por meio das quais se objetiva de é definida por CPRM (2006) como: reunir unidades litológicas que apresentem características O estudo da natureza abiótica (meio físico) constituída semelhantes frente ao uso e à ocupação dos terrenos. A por uma variedade de ambientes, composição, fenômenos e execução dessa etapa teve como suporte a Carta Geológi- processos geológicos que dão origem às paisagens, rochas, ca do Brasil ao Milionésimo (CPRM, 2004), na qual foram minerais, águas, fósseis, solos, clima e outros depósitos introduzidas modificações em decorrência dos trabalhos superficiais que propiciam o desenvolvimento da vida na de campo do projeto retromencionado. Terra, tendo como valores intrínsecos a cultura, o estético, De acordo com essa concepção, o estado do Acre foi o econômico, o científico, o educativo e o turístico. dividido em sete grandes compartimentos de terreno de- No decorrer do estudo da geodiversidade de determi- nominados domínios geológico-ambientais, os quais, nada área ou região, os diferentes componentes do meio em decorrência de particularidades geológicas, foram abiótico são analisados e interpretados em função de suas subdivididos em 13 unidades geológico-ambientais, características geológicas, geotécnicas, geomorfológicas, que, por sua vez, foram subdivididas em 21 subunidades, pedológicas, hidrológicas e climáticas. Concomitante- diferenciadas no Mapa Geodiversidade do Estado do Acre mente, a análise de uso e ocupação do território frente às por meio de numeração sequencial, que traduzem um re- múltiplas intervenções antropogênicas sobre o espaço ge- levo relativamente homogêneo em boa parte do território ográfico é considerada, com o intuito de se avaliar áreas de acreano. maior fragilidade do meio físico decorrentes da ocupação Em cada domínio serão descritas as respectivas uni- humana. Nesse contexto, o mapa geológico desempenha dades geológico-ambientais, fundamentadas nas feições papel relevante, por se constituir em informação funda- de geologia e forma de relevo, condicionando suas carac- mental para a análise dos demais temas. terísticas de adequabilidades, limitações/potencialidades Na elaboração deste produto, cujo objetivo é subsidiar frente a obras de engenharia, agricultura (práticas agro- o planejamento e a gestão do território acreano em bases pecuárias), recursos hídricos (superficiais e subterrâneos), sustentáveis, principalmente quanto a obras de infraestru- potencial mineral, potencial geoturístico, fontes poluidoras tura, exploração do potencial mineral, práticas agrícolas, e impactos ambientais. uso dos recursos hídricos e riscos de contaminação de solos Os domínios geológico-ambientais representam e águas subterrâneas frente a fontes poluidoras (THEODO- uma grande divisão, associados ao contexto geológico, ROVICZ; CANTARINO; THEODOROVICZ, 1999), priorizou-se vinculados a uma unidade geotectônica e à cronologia o estabelecimento de uma linguagem simples e objetiva original das rochas constituintes, estando hierarquizados das informações sobre o meio físico contidas em mapas e das unidades litoestratigráficas mais novas para as mais textos, de modo a que fossem inteligíveis a qualquer cate- antigas, desde os sedimentos cenozoicos inconsolidados goria de leitor, independentemente de sua especialização. ou pouco consolidados para o Complexo Granítico-Gnáis- No intuito de agregar valor aos produtos desenvolvi- sico-Migmatitico e Granulitos Proterozoicos. Ressalva-se dos, foram incorporadas informações sobre o aproveita- que os domínios estabelecidos abrangem todo o território mento do potencial geoturístico representado por sítios brasileiro, não se identificando muitos deles no espaço geológicos, geomorfológicos, paleontológicos e outros territorial acreano. atrativos naturais. De posse dessa contextualização, foram Por sua vez, as unidades geológico-ambientais apontadas as adequabilidades e limitações ao uso e à ocu- refletem, principalmente, o predomínio dos litótipos pação do espaço físico (SILVA et al., 2008). formadores, também contextualizadas para todo o país. 233 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Tais unidades foram sobrepostas às formas de relevo por DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS elas representadas (Capítulo 3 – Origem das Paisagens), INCONSOLIDADOS OU POUCO resultando em um novo nível de informação (unidades CONSOLIDADOS, DEPOSITADOS EM MEIO geológico-ambientais x formas de relevo). AQUOSO (DC) A associação das informações relacionadas ao binômio geologia/estruturas e formas de relevo permite identificar Esse domínio é constituído por terrenos geologica- uma série de características, que, analisadas em conjunto, mente mais novos do estado do Acre, de idade quaternária, são capazes de indicar as adequabilidades e as limitações formados por um empilhamento irregular de camadas de dos terrenos, visando a determinada forma de uso ou sedimentos horizontalizados depositados pelo sistema atu- ocupação, bem como a avaliar seu potencial mineral, hi- al de drenagem, seja ao longo de seus leitos, nas planícies drológico e geoturístico. de inundação ou em bacias de deposição fluviolacustre. Muitas dessas informações são factuais e independem Trata-se de áreas em franco processo construtivo, ocupan- de outras variáveis. Pode-se assumir, por exemplo, dentre do terrenos baixos que estão associados a fenômenos tais outras características e implicações positivas e negativas, como erosão e transporte de sedimentos e subsequente que um sedimento arenoso, rico em quartzo, seja capaz de deposição em sistemas de drenagem. desenvolver um solo arenoso bastante permeável, ácido, de baixa capacidade de reter elementos e alta erodibilidade Elementos de Definição natural; se associado a um relevo suavizado, com baixos e Área de Ocorrência declives e amplitudes, será mais espesso, sujeito à areni- zação pela água das chuvas. Por outro lado, sedimentos São caracterizadas três unidades geológico-ambien- síltico-argilosos, portadores de argilas expansivas, poderão tais nesse domínio – Ambiente de Planícies Aluvionares originar solos diversos, de textura argilosa (Argissolos, Ver- Recentes (DCa), Ambiente Fluviolacustre (DCfl) e Ambiente tissolos etc.), bastante impermeáveis e de alta capacidade de Terraços Aluvionares (DCta) –, distribuídas por toda a de reter elementos químicos, estando sujeitos às variações extensão territorial do estado, preferencialmente ao longo sazonais próprias do clima amazônico. das drenagens de maior porte (Figura 15.1). Figura 15.1 - Distribuição espacial das unidades geológico-ambientais definidas no domínio DC no estado do Acre. Fonte: Amilcar Adamy, 2013. 234 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO A unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Recentes (DCa) é constituída pelas várzeas dos rios sazonalmente inundadas, distribuindo-se como faixas lineares ao longo dos canais de drenagem de maior porte da rede hidrográ- fica regional, seccionando todo o estado. É interessante destacar o predomínio dessas planícies em direção SW/NE, acompanhando o traçado geral dos maiores cursos d’água, tais como os rios Tarauacá, Purus, Iaco e Acre, tendendo a S/N no curso do rio Juruá. Em drenagens menores, de primeira e segunda ordem, também estão presentes, porém não são mapeáveis na escala de trabalho adotada para este projeto. A unidade Ambiente Fluviolacustre (DCfl) ocorre, predominantemente, no entorno da cidade de Cruzeiro do Sul, correspondendo à Formação Içá, também chamada Formação Cruzeiro do Sul (ACRE, 2010). Representa uma Figura 15.2 - Camada de matéria orgânica interdigitada em unidade importante pela alta potencialidade hidrogeo- sedimentos arenosos recentes do rio Juruá (proximidades da lógica. cidade de Marechal Thaumaturgo). Por sua vez, a unidade Ambiente de Terraços Alu- Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. vionares (DCta) distribui-se como faixas descontínuas ao longo das principais drenagens, tais como rios Juruá, Purus e Acre, constituídos por material aluvionar mais antigo e em cota topográfica mais alta do que o nível das enchentes dos rios e das várzeas atuais. São observados, também, em drenagens de menor porte, porém não mapeáveis na escala deste trabalho. Geologia Do ponto de vista geológico, os terrenos formados pela unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Re- centes (DCa) são superfícies deposicionais que continuam a receber sedimentos provenientes do processo erosivo atuante sobre terrenos dispostos em áreas circunvizinhas mais altas e transportados por rios e enxurradas. Repre- sentam a unidade litoestrutural mais jovem, ainda em Figura 15.3 - Extensa barra em pontal do rio Juruá (proximidades processo de construção. Abrangem sedimentos inconso- da cidade de Cruzeiro do Sul). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. lidados de depósitos interdigitados de leitos e margens dos canais fluviais atuais ou sub-recentes, de espessura variável, sendo periodicamente inundáveis. Nos depósitos de canal, incluindo as barras em pontal, ocorrem areias quartzosas de granulação fina a grosseira, enquanto nos depósitos de transbordamento predominam silte e argila; é comum a presença de níveis ou camadas delgadas de matéria orgânica (conteúdo fossilífero) representada por fragmentos de troncos, galhos, folhas carbonizadas e, pro- vavelmente, pólen (Figura 15.2) Correspondem à unidade geológica Depósitos Aluvionares. Os principais depósitos são registrados em drenagens de grande porte, onde têm papel importante na formação de ilhas e barras de areia, às vezes com grande extensão linear (Figura 15.3). Lagos colmatados, de configuração variável, são comuns nas maiores drenagens, revelando an- tigos meandros abandonados ou migração lateral do canal Figura 15.4 - Traçado meandrante do rio Macauã, com barras (Figura 15.4). As areias e os cascalhos podem se mostrar em pontal e meandro abandonado e em processo de colmatação. parcialmente ferruginosos, configurando maior resistência Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. 235 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE ao processo erosivo fluvial (Figura 15.5). É comum exibirem seja nos taludes marginais, favorecendo o desenvolvimento estratificação plano-paralela, às vezes com sets cruzados do fenômeno das “terras caídas”, de grande ocorrência na acanalados (Figura 15.6). Região Amazônica, responsável pelo avanço das margens Durante os trabalhos de campo, foram identificados terra adentro, com tombamento da vegetação marginal alguns afloramentos de sedimentos conglomeráticos no (Figura 15.10). leito do alto rio Juruá e alto rio Purus, compostos por seixos e grânulos de silte e/ou argila submetidos a um processo geoquímico de formação de crostas ferruginosas de co- loração avermelhada, atípicos para a região estudada, de espessura restrita, associados a sedimentos arenosos finos subjacentes (Figuras 15.7 e 15.8). São comuns, ainda, seixos de material carbonático e fragmentos fósseis de fauna e flora pleistocênicos (Figura 15.9). Cavalcante (2010) abor- da outra concepção desses sedimentos conglomeráticos, integrando-os aos terraços pleistocênicos. Processos erosivos atuais, associados à dinâmica fluvial (em especial, processos de migração lateral do canal ou de avulsão), mais ativa em cursos d’água de maior porte, retrabalham os depósitos arenosos, seja no próprio canal, Figura 15.7 - Ortoconglomerado enriquecido por íons de ferro, formando crostas no entorno dos seixos (cachoeira do Gastón, alto rio Juruá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. Figura 15.5 - Níveis ferruginizados em sedimentos arenosos (cachoeira do Gastón, rio Juruá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. Figura 15.8 - Camada de ortoconglomerado sobreposta a Figura 15.6 - Sedimentos arenosos atuais estratificados (rio Moa). sedimentos arenosos sub-recentes (cachoeira do Gastón, alto rio Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. Juruá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. 236 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Figura 15.9 - Fragmento de madeira fóssil incrustado em sedimento conglomerático (cachoeira do Gastón, alto rio Juruá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Figura 15.11 - Colina tabular constituída por sedimentos arenosos da formação Içá (Marechal Thaumaturgo). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Figura 15.10 - Taludes marginais do rio Purus em franco desenvolvimento do fenômeno das “terras caídas”. Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. A unidade Ambiente Fluviolacustre (DCfl) é repre- sentada pela Formação Içá (ou Cruzeiro do Sul, segundo Cavalcante (2010)), observada, predominantemente, no extremo oeste do estado. Essa unidade é composta por sedimentos arenosos finos, esbranquiçados, friáveis, com intercalações decimétricas de argilitos em formato lenti- cular (Figuras 15.11 e 15.12), depositados por correntes fluviais ou processos de decantação fluviolacustre, capa- zes de originar estratificação plano-paralela a cruzada acanalada. Comumente, esses sedimentos ocupam a parte su- perior de colinas tabulares, sobrepostos aos sedimentos síltico-argilosos da Formação Solimões (Figura 15.13). Ca- valcante (2010) diverge dessa assertiva, considerando que Figura 15.12 - Lentes de argilito intercaladas nos sedimentos os sedimentos subjacentes à Formação Içá representam arenosos da formação Içá (zona urbana de Marechal terraços antigos. Thaumaturgo). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. 237 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 15.13 - Sedimentos arenosos inconsolidados capeando Figura 15.15 - Terraço aluvionar no rio Tarauacá; talude marginal pelitos da formação Solimões; relevo colinoso (área periférica de abrupto, submetido à erosão fluvial (fenômeno das “terras Cruzeiro de Sul). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. caídas”). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. Como produto de intensa lixiviação sobre os sedimen- Ocorrem como faixas descontínuas ao longo das dre- tos arenosos da Formação Içá, submetidos posteriormente nagens de maior porte, tais como os rios Juruá, Purus, Iaco e a processos pedogenéticos, desenvolvem-se camadas Acre, sendo constituídos por sedimentos malselecionados, espessas de areias quartzosas, que ocorrem em porções inconsolidados a semiconsolidados, de espessura variável interfluviais, com lençol freático elevado e área de expo- e coloração variegada em tons amarelados, avermelhados sição delimitada por Campinaranas (CAVALCANTE, 2010) e creme. Entretanto, foram identificados praticamente em (Figura 15.14). Em decorrência da expressiva quantidade todos os rios de médio porte, ocupando áreas restritas, de matéria orgânica, esses sedimentos apresentam feições não mapeáveis em escalas de trabalho menores. São re- características do processo pedogenético denominado presentados por argilas, siltes e areias, ferruginosas ou não, orstein, próprio de Espodossolos Hidromórficos. estratificadas ou não, podendo conter níveis de matéria Já a unidade Ambiente de Terraços Aluvionares orgânica (Figura 15.16). (DCta) representa antigas planícies de inundação e canais Cavalcante (2010) caracteriza esses terraços de forma fluviais semelhantes aos atuais, estando associados à unida- individualizada, classificando-os como de idade pleistocê- de geológica Terraços Aluvionares, de idade pleistocênica. nica e holocênica, separando-os em função de estarem Ocorrem como superfícies planas, por vezes escalonadas, ou não dissecados por drenagens de primeira e segunda com gradientes suaves e convergentes em direção às dre- ordem e pela presença de raros meandros colmatados, nagens dominantes, frequentemente exibindo contatos mais comuns em terraços holocênicos. abruptos com a planície fluvial (Figura 15.15). Figura 15.16 - Superfície deposicional plana na margem do rio Figura 15.14 - Areal do Alvir: areias quartzosas inconsolidadas Juruá; provável terraço aluvionar submetido a intensa erosão derivadas da formação Içá (rodovia AC-405). fluvial (próximo à cidade de Rodrigues Alves). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. 238 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Neste trabalho, os terraços considerados holocênicos são integrados à unidade Ambiente de Planícies Aluvio- nares Recentes (DCa), apresentando ambos as mesmas características físicas quanto à aplicação do conceito de geodiversidade adotado. Formas de Relevo Esse domínio caracteriza-se por terrenos de relevo plano ou quase plano, de superfícies horizontalizadas a sub-horizontalizadas, com baixas declividades, oscilando entre 0 e 3º. O contexto morfológico exibe duas formas de relevo principais, de clara correlação com as unidades geológico-ambientais caracterizadas. A primeira, associada às Planícies Aluvionares Recentes (1) e ao ambiente flu- violacustre, evidencia uma configuração geomorfológica de zona de acumulação atual e amplitude de relevo zero, Figura 15.18 - Planície aluvionar do rio Tarauacá, sujeita a inundações sazonais (Jordão). Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. onde o relevo é suavizado e estabilizado, de baixa susce- tibilidade à erosão (Figuras 15.17 e 15.18). O potencial de movimentos naturais de massa é praticamente nulo, os Características, Adequabilidades e quais estão, invariavelmente, embutidos em fundos de Limitações Frente ao Uso e à Ocupação vales. O ambiente fluviolacustre pode apresentar uma variação morfológica mais expressiva, associada tanto às Considerando que, do ponto de vista de relevo e cons- superfícies tabulares em posição de interflúvio quanto às tituição litológica, as três unidades geológico-ambientais Colinas Dissecadas (2), observadas nos sedimentos areno- que compõem esse domínio são bastante semelhantes, sos da Formação Içá. com características, adequabilidades e limitações comuns, Uma terceira manifestação do relevo é representada elas serão abordadas em conjunto, destacando-se as va- pelos Terraços Fluviais (3), vinculada à zona de acumulação riações peculiares de cada uma. subatual constituída pelas paleoplanícies de inundação Como esses terrenos estão vinculados diretamente situadas em um nível topográfico mais elevado do que aos cursos d’água, existem sérias limitações a todo tipo aquele encontrado nas várzeas atuais, estando acima do de uso e ocupação e explotação de seus recursos mine- nível das cheias sazonais. Possui uma amplitude de relevo rais, particularmente ao longo das planícies aluvionares entre 2 a 20 m, sendo comum o contato brusco com as recentes, sujeitas a inundações sazonais com frequência. planícies fluviais. Processos erosivos derivados de ação Ressalta-se que a legislação ambiental vigente determina a fluvial podem desestabilizar os taludes, provocando o seu preservação das matas ciliares ao longo das drenagens, o desmantelamento (fenômeno das “terras caídas”). que também restringe seu uso e ocupação. Nesses terrenos predominam solos hidromórficos – Neossolos Flúvicos e Gleissolos Háplicos. Representam áreas inadequadas à ocupação urbana (excetuando-se os terraços fluviais mais altos) e à implan- tação de fontes poluidoras, tais como parques industriais, lixões, aterros sanitários, cemitérios e tanques de armaze- namento de combustíveis, bem como qualquer utilização de agrotóxicos na agricultura de várzeas. Obras de engenharia Em geral, constituem terrenos planos que apresen- tam dificuldades de grau variável para qualquer obra de engenharia, embora possam ser aproveitados para alguma finalidade específica. São formados por sedimentos empi- lhados de disposição horizontalizada, variando bastante na vertical em decorrência de características granulométricas Figura 15.17 - Planície aluvionar do rio Tarauacá, destacando-se e composicionais distintas. a superfície deposicional plana, com amplitude de relevo igual a A implantação de obras de engenharia nesses terrenos zero. Fotografia: Amilcar Adamy, 2013. é favorecida por eles apresentarem boa homogeneidade 239 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE mecânica e hidráulica lateral; baixa resistência ao corte e As obras implantadas em terrenos desse domínio à penetração, devido à inconsolidação do solo e dos se- têm custos mais elevados, devido à carência generalizada dimentos, além de fácil remoção por maquinário; relevo de rochas duras em todo o estado do Acre, utilizadas suavizado e estabilizado, de baixa suscetibilidade à erosão, como agregados, sendo necessário buscá-las em estados e nulo potencial de movimentos naturais de massa. vizinhos, com transporte por longas distâncias. Nesse Por outro lado, apresentam limitações associadas a contexto, destaca-se a construção da Rodovia BR-364 descontinuidades geomecânica e hidráulica que favorecem e de diversas pontes ao longo desse trajeto, que exigiu a desestabilização e os processos erosivos em paredes es- agregados procedentes de usinas de britagem localizadas cavadas; em períodos chuvosos, o nível freático é elevado em Rondônia, em distâncias superiores a 800 km (Figuras em decorrência da saturação do solo e dos sedimentos, 15.21 e 15.22). podendo aflorar ou se situar em baixas profundidades, alagando escavações, encharcando obras enterradas e de- formando fundações e pavimentos viários; há predomínio de solos de baixa capacidade de suporte e de sedimentos pouco consolidados ou inconsolidados; edificações podem apresentar problemas de rupturas (Figura 15.19) e recalques (abatimentos) (Figura 15.20). Figura 15.21 - Construção de ponte sobre o rio Purus (rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2007. Figura 15.19 - Ruptura em construção da Estação de Tratamento de Água/Departamento Estadual de Pavimentação e Saneamento (ETA/DEPASA) de Rio Branco. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.22 - Revestimento com pedra britada procedente do estado de Rondônia (rodovia BR-364, trecho Feijó-Manoel Urbano). Fotografia: Amilcar Adamy, 2007. São terrenos propícios a escoamento superficial e sub- superficial deficiente, com lenta circulação das águas, com possibilidade de empoçamento de água e alagamentos em Figura 15.20 - Estrutura afetada pela baixa capacidade de suporte períodos chuvosos, notadamente em áreas urbanas. Nesse dos sedimentos fluviais (ETA/DEPASA de Rio Branco). contexto, ruas e acessos estarão sujeitos a alagamentos Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. constantes (Figura 15.23). 240 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Figura 15.24 - Rua inundada, marginal ao rio Purus (Santa Rosa do Purus). Fotografia: Sérgio Valle/Defesa Civil Estadual, 2012. Figura 15.23 - Área urbana submetida a alagamento na estação chuvosa (Jordão). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Nessas condições, redes de esgoto estarão sujeitas a entupimentos frequentes, com necessidade de bombea- mento para melhorar o fluxo, assim como há possibilidade de ocorrer reversão de fluxo e entupimento em dutos en- terrados. A umidade alta favorece a proliferação de fungos e bactérias, tornando o ambiente insalubre para moradias. As obras viárias têm de ser executadas em condições de maior custo e dotadas de canalizações que favoreçam o escoamento das águas das chuvas com facilidade, evitando a acumulação de água da chuva. A forma de ocupação do estado do Acre, com im- plantação de núcleos urbanos ao longo dos rios maiores Figura 15.25 - Extensa área inundada pela cheia do rio Acre (Rio em terrenos de domínio das unidades DCa (Ambiente de Branco). Fotografia Sérgio Valle/Defesa Civil Estadual, 2012. Planícies Aluvionares Recentes) e DCfl (Ambiente Fluviola- custre), aliada à inexistência de vias de acesso rodoviário, torna a maioria das cidades acreanas suscetíveis a enchentes sazonais, que se refletem na população local em expressivas perdas materiais e, por vezes, de vidas. Em 2012, durante a estação chuvosa, ocorreu impressionante elevação do nível fluviométrico dos rios de maior porte, inundando a maioria dos municípios do estado, com significativas perdas mate- riais (Figuras 15.24 e 15.25). Em áreas de terraços (unidade DCta), os alagamentos são menos expressivos e com menor tempo de duração, por estarem situados em terrenos mais elevados do que o nível das enchentes dos rios. A presença de argilas expansivas em grande parte do estado, derivadas da Formação Solimões, dificulta escavações e obras viárias, tornando os custos elevados para implantação de obras de qualquer natureza (Figuras 15.26 e 15.27). A unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Recentes (Dca) caracteriza-se, ainda, por conter solos e sedimentos com alto conteúdo de matéria orgânica que se mantêm excessivamente encharcados na maior parte do ano. Em decorrência desse fato, tais terrenos produzem ácidos bas- Figura 15.26 - Vertissolo dominante, caracterizado por argilas tante corrosivos, que danificam rapidamente materiais de expansivas (rodovia AC-40, trajeto para Plácido de Castro). obras enterradas. A decomposição dessa matéria orgânica Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 241 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE período chuvoso. Na estação seca, as terras apresentam boa potencialidade para culturas de ciclo curto ou adap- tadas a terrenos saturados. Em geral, constituem solos de baixa fertilidade natural (principalmente os arenosos), de baixa capacidade de reter, fixar e assimilar nutrientes; entretanto, a renovação anual da matéria orgânica pela sazonalidade climática confere melhor fertilidade a esses sedimentos. Essa unidade caracteriza-se, também, pela deposição de solos e de matéria orgânica transportados por enxur- radas e enchentes de rios das áreas altas circunvizinhas. Tais condições favorecem a geração de manchas de solos ricos em matéria orgânica, periodicamente renovados, de boa fertilidade natural, aproveitados pelos ribeirinhos para plantio de culturas de subsistência de ciclo curto (Figura 15.29). Figura 15.27 - Obras enterradas em terreno formado com argilas expansivas (Shopping Via Verde, Rio Branco). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. também pode liberar gás metano, de alta mobilidade e inflamável, passível de entrar em combustão espontânea e se infiltrar nas tubulações de obras, criando condições propícias a incêndios ou explosões. Agricultura O aproveitamento agrícola das áreas ocupadas por esse domínio sofre importantes restrições, apesar da identificação de adequabilidades específicas. Entre as ca- raterísticas determinantes dessas unidades geoambientais, destacam-se as descritas a seguir. O predomínio de terrenos planos ou quase planos, com baixa suscetibilidade à erosão hídrica, traduz-se em Figura 15.28 - Gleissolo junto à planície aluvionar do rio Moa terras mecanizáveis nos terraços fluviais (em relação às (Mâncio Lima). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. planícies, a agricultura de várzea restringe-se ao período de vazante), potencialmente favoráveis para a prática da agricultura em pequena a média escala. O escoamento superficial e subsuperficial precário, mormente em solos argilossiltosos derivados de sedimen- tos pelíticos da Formação Solimões, de ampla distribuição no território acreano, favorece a acumulação de água no solo (poças de água), tornando os alagamentos comuns na maior parte do ano. O lençol freático aflorante ou próximo à superfície torna-se vulnerável à contaminação por agrotóxicos. A alta umidade do solo e do ar na estação chuvosa favorece a proliferação de pragas agrícolas (fungos, bac- térias e insetos), prejudicando culturas suscetíveis a pragas (por exemplo, hortaliças). Os solos desenvolvidos sobre a unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Recentes (DCa) são periodicamente inundáveis e imperfeitamente a mal drenados (Gleissolos Figura 15.29 - Várzeas arenosas, enriquecidas sazonalmente em e Neossolos Flúvicos) (Figura 15.28); portanto, impróprios matéria orgânica, aproveitadas para o cultivo de espécies de ciclo ao plantio de culturas perenes ou espécies de raízes pro- curto, como o feijão (rio Tarauacá). fundas, que não permitem seu aproveitamento durante o Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 242 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Os solos da unidade Ambiente Fluviolacustre (DCfl) são de uso restrito para cultivo, devido à baixa fertilidade natural, sendo constituídos, predominantemente, por Espodossolos e Neossolos Quartzarênicos. São solos arenosos, friáveis, bastante erosivos, sujeitos à arenização e potencialmente favoráveis ao desenvolvimento de voçorocas (Figura 15.30). Também são solos ácidos, excessivamente permeáveis, de baixa capacidade hídrica, perdendo água rapidamente depois de cessadas as chuvas, e baixa capacidade de fixar e reter nutrientes. Em geral, apresentam baixa capacidade de retenção de umidade e de incorporar nutrientes. Esses solos são capazes de se enriquecer pedogeneticamente em matéria orgânica, desenvolvendo camadas endurecidas tipo orstein, com formação de blocos consolidados (Figura 15.31). Presentemente, ocupam relevos planos a colino- sos, não sujeitos a inundações sazonais. Entretanto, seu Figura 15.31 - Espodossolos derivados de sedimentos arenosos aproveitamento com pastagens e vias de acesso rural gera da formação Içá; localmente, observam-se blocos pouco impactos ambientais, devido à derrubada de mata nativa. consolidados, enriquecidos em matéria orgânica (orstein) (Areal do Os solos da unidade Ambiente de Terraços Aluvionares Alvir, Cruzeiro do Sul). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. (DCta) são mais bem drenados e profundos do que os das unidades anteriores, ocupando áreas de relevo plano, livres oscilações das enchentes que ocorrem nas áreas vizinhas. de enchentes sazonais, favorecendo o aproveitamento Predominam Gleissolos (Figura 15.32) nas áreas mais baixas, agrícola de forma mecanizada na estação seca. Entretanto, sendo os mais suscetíveis às influências do nível de água. deve ser levado em conta que o nível freático está sujeito às Em terrenos de drenagem imperfeita, principalmente nas encostas, podem se desenvolver Plintossolos, enquanto Neossolos Flúvicos ocorrem em áreas aplainadas e Argis- solos e Latossolos em áreas mais elevadas. São terrenos aptos ao uso agrícola, mediante adequado planejamento e aplicação de corretivos e fertilizantes. Figura 15.32 - Gleissolo em terraço aluvionar que sofre alagamento na estação chuvosa (rodovia AC-475, próximo a Plácido de Castro). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Recursos hídricos São áreas de grande importância hídrica, constituídas por sedimentos horizontalizados de areia e cascalho, com Figura 15.30 - Voçoroca em desenvolvimento em sedimentos arenosos da formação Içá, sobrepondo-se aos sedimentos síltico- configuração favorável à recarga e descarga de águas argilosos da formação Solimões (rodovia AC-407). subterrâneas, porém pouco espessas, à exceção dos sedi- Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. mentos da unidade DCfl, de maior espessura. 243 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Em geral, esses sedimentos são altamente permeáveis e de alta capacidade de armazenamento e de transmissi- vidade de água, de excelentes características hidrodinâ- micas e boa homogeneidade lateral, constituindo-se em aquíferos sedimentares superficiais ou subsuperficiais, de grande expressividade areal e fácil e barata explotação. Entretanto, são muito vulneráveis à contaminação, devido à alta porosidade, à baixa profundidade do aquífero e ao fluxo de água horizontal em todas as direções. Ocorrem em terrenos planos, bastante vulneráveis à contaminação, devido ao lençol freático estar exposto ou situado em baixas profundidades, com fluxo de água horizontal em todas as direções, principalmente quando os sedimentos forem arenosos, com baixa capacidade de reter e depurar poluentes. Quando em sedimentos mais argilosos, a drenabilidade é deficiente e elementos con- taminantes demoram muito a se dispersar e depurar. Nas Figura 15.33 - Cavas para piscicultura (Km 11,5 da rodovia AC-40). unidades DCfl (Ambiente Fluviolacustre) e DCta (Ambiente Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. de Terraços Aluvionares), a possibilidade de contaminação é minimizada, por ocuparem áreas mais elevadas do que a mais concentradora que dispersora, quando os rios se cota dos rios e o lençol freático se situar a profundidades apresentam com baixa energia, de águas lentas e pouco pouco maiores. turbulentas, com baixo potencial de se oxigenar e de se A unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Recen- autodepurar, favorecendo o assoreamento; na estação das tes (DCa), que ocupa as várzeas dos rios, é composta por chuvas, observa-se alto potencial erosivo, com desmonte terrenos de grande importância hídrica, que favorecem a dos taludes fluviais, gerando imenso volume de material recarga das águas subterrâneas e o fluxo superficial dos em transporte (Figura 15.34). Inundações eventuais na próprios rios, pela descarga das águas subterrâneas nos estação seca também têm alto poder erosivo, com des- períodos de vazante. Constituem terrenos inundáveis, barrancamento de margens dos rios, águas turbulentas e com sedimentos que se mantêm úmidos na maior parte de elevado conteúdo de material em suspensão; porém, do ano, muitos enriquecidos em matéria orgânica, o que são de curta duração (Figura 15.35). pode comprometer a qualidade das águas para consumo A unidade Ambiente Fluviolacustre (DCfl), desen- humano, devido à acidez elevada e ao odor desagradável, volvida em sedimentos arenosos inconsolidados a pouco situação também constatada na unidade DCta. consolidados da Formação Içá ou Cruzeiro do Sul (CAVAL- A capacidade hidrogeológica é variável, porém, como CANTE, 2010), constitui aquíferos importantes na região são pouco espessos, perdem água rapidamente. Cacimbas oeste do estado, dispostos em profundidades rasas até e poços escavados apresentam baixas vazões, geralmen- mais profundas (80-100 m), com configuração favorável à te inferiores a 10 m3/h, sendo capazes, entretanto, de recarga (chuvas sazonais)/descarga de águas subterrâneas atender a pequenas demandas, revestindo-se de grande (Figura 15.36). Dados obtidos na perfuração de poços importância para a população em áreas não abastecidas tubulares indicam espessuras significativas, com maior pelo serviço público. volume de água armazenada e de boa transmissividade, Atividades econômicas são desenvolvidas em algu- capaz de oferecer vazões suficientes para abastecimento mas regiões do estado, com represamento de drenagens público de núcleos urbanos. A cidade de Cruzeiro do Sul de primeira ordem ou escavações abastecidas com água é atendida parcialmente por esse aquífero, estando em oriunda de precipitações pluviométricas, que favorecem execução a perfuração de poços tubulares, que, em seu a implantação da piscicultura (Figura 15.33), em franco conjunto, permitirão o abastecimento unicamente por crescimento no estado. água subterrânea. Registra-se a presença de importante aquífero na Os recursos hídricos superficiais também são abun- região de Rio Branco (Aquífero Rio Branco), associado à dantes e de grandes vazões, mormente na estação chuvosa, unidade DCa. As projeções iniciais indicam um potencial de quando se registra um fluxo turbulento e de grande capa- abastecimento parcial da capital do estado, assolada anual- cidade erosiva (Figura 15.37). Em períodos de cheias mais mente por baixas vazões do rio Acre, que comprometem o pronunciadas, causam grande efeito destrutivo ao invadir fornecimento de água tratada para a população. Segundo núcleos urbanos situados às margens de rios de grande por- projeções do órgão estadual, esse aquífero passou a ser te. Caracterizam-se, ainda, por apresentar comportamento objeto de explotação a partir de 2013. sazonal, diminuindo sensivelmente as vazões depois de Trata-se de um ambiente com sistemas de relevo e cessada a estação chuvosa, dificultando o abastecimento drenagem com características sazonais: na estação seca, público e a navegação fluvial (Figura 15.38). 244 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Figura 15.34 - Desmonte de taludes fluviais por ação erosiva do Figura 15.37 - Furo recente no alto rio Purus, oriundo de forte alto rio Tarauacá (fenômeno das “terras caídas”). ação erosiva fluvial. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Figura 15.35 - Alta turbulência do rio Amônia, afluente do rio Juruá, junto à cidade de Marechal Thaumaturgo, em decorrência Figura 15.38 - Redução de vazão do rio Acre, com rebaixamento de chuvas intensas no mês de junho, período de estiagem. do nível fluviométrico. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Nota: Em fevereiro de 2012, esse rio provocou enchente histórica em Rio Branco e Brasileia, inundando bairros e ruas. Potencial mineral A unidade DCa se constitui em ambiente favorável à ocorrência de insumos básicos para a construção civil (areia e argila), extraíveis em aluviões, barrancas de terraços fluviais e paleocanais abandonados de cursos d’água de porte médio, onde se destaca o rio Acre, capaz de atender a vários municípios ao longo de seu trajeto. O aproveitamento de depósitos inconsolidados de areia, argila e eventualmente cascalho, associado ao sistema de drenagem atual, para uso imediato na construção civil, está presente na maioria dos municípios acreanos, notadamente ao longo do eixo das principais rodovias (BR-364 e BR-317), decorrente do surto de crescimento experimentado nos últi- mos anos, com expansão notável de obras de infraestrutura, Figura 15.36 - Sedimentos arenosos inconsolidados derivados da formação Içá, de excelente potencialidade hidrogeológica (rodovia às quais se associa a melhoria da rede viária intermunicipal, um AC-405). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. dos objetivos prioritários do governo estadual (Figura 15.39). 245 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE - ARIM 4: Vinculada ao amplo aproveitamento de areia e distribuída ao longo do canal do rio Acre entre as cidades de Porto Acre e Brasileia, passando pela capital do estado, Rio Branco, com demanda crescente desse bem mineral. - ARIM 6: Situada em terrenos aluvionares do rio Envira, próximo à cidade de Feijó, com aproveitamento de de- pósitos arenosos. - ARIM 7: Localizada no município de Sena Madureira, onde são explotadas aluviões arenosas do rio Iaco. - ARIM 10: Associada aos depósitos arenosos do rio Ta- rauacá, junto ao rio homônimo. Os sedimentos argilosos identificados nessa unidade exibem consistência plástica, sendo utilizados na indústria da cerâmica vermelha para confecção de tijolos, de amplo uso na construção civil e na pavimentação de vias urbanas. Uma utilização mais nobre desses depósitos argilosos ainda Figura 15.39 - Implantação de ponte sobre o rio Envira não foi avaliada, sendo necessárias análises laboratoriais (rodovia BR-364). com esse objetivo. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. É interessante observar a quase completa ausência de depósitos cascalhíferos associados à rede de drenagem, de Uma feição comum observada na maioria das sedes dos grande aplicação na construção civil. Durante os trabalhos municípios acreanos é a pavimentação urbana com tijolos, de campo, foram identificados dois sítios com exposição dada a inexistência de afloramentos rochosos capazes de de seixos de siltitos enriquecidos em ferro, o que os torna fornecer pedra brita ou mesmo de cascalho, normalmente mais resistentes aos efeitos intempéricos; entretanto, sua utilizados para revestimento de vias urbanas. Como a maioria localização, no alto curso dos rios Purus e Juruá, pra- das cidades acreanas está assentada sobre um substrato ticamente inviabiliza seu aproveitamento. A exposição constituído por argilas expansivas, que dificultam extrema- no rio Juruá, que se situa próximo à cidade de Marechal mente a circulação de pessoas e veículos na estação chuvosa, Thaumaturgo e aflorante apenas na estação de estiagem, compreende-se a importância do revestimento dessas vias contém fragmentos fósseis, não sendo recomendada sua com as alternativas disponíveis localmente. Esse contexto explotação (Figura 15.41). gera uma demanda substancial de produtos cerâmicos não só para a construção civil como também para implantação e conservação das vias de acesso urbano (Figura 15.40). Foram caracterizadas quatro Áreas de Relevante Interesse Mineral (ARIM) para materiais básicos de uso na construção civil, distribuídas na unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Recentes (DCa): Figura 15.41 - Afloramento de seixos de siltitos enriquecidos em ferro (alto rio Juruá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. A unidade DCfl (Ambiente Fluviolacustre), representa- da pela Formação Içá, constitui excelente alternativa para fornecimento de sedimentos arenosos de boa qualidade, largamente empregados na construção civil no âmbito do Figura 15.40 - Pavimentação urbana com produtos cerâmicos polo regional de Cruzeiro do Sul. A lavra desse bem mine- (tijolos) (Assis Brasil). Fotografia: Amilcar Adamy, 2007. ral se processa a céu aberto em terrenos constituídos por 246 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO depósitos inconsolidados ou pouco consolidados, livres da sazonalidade climática, o que permite sua explotação praticamente durante o ano inteiro (ARIM 1) (Figura 15.42). Em conjunto com os depósitos arenosos vinculados a Formação Içá, foram caracterizados depósitos argilosos de intenso aproveitamento industrial (ARIM 1) (Figura 15.43), direcionados à produção de tijolos, de grande demanda no mercado regional (Figura 15.44). Além de Cruzeiro do Sul e municípios próximos, cidades mais distantes, como Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, são supridas por essa produção, que é transportada por via fluvial. A argila empregada na indústria cerâmica pode ser derivada de camadas sub-horizontalizadas in- tercaladas em sedimentos arenosos, mas também pode provir da alteração intempérica dos sedimentos pelíticos da Formação Solimões. Em terrenos da unidade Ambiente de Terraços Aluvio- Figura 15.44 - Indústria cerâmica (Cruzeiro do Sul). Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. nares (DCta), uma possível favorabilidade está associada a depósitos arenosos e/ou argilosos para uso na construção civil. Atenção redobrada deve ser concedida a esse apro- veitamento, dada a possibilidade de conter fragmentos fósseis retrabalhados, de idade miocênica a pleistocênica. As condições deposicionais desses terraços sugerem a exis- tência de eventuais turfeiras para aproveitamento agrícola, de baixo poder calorífico. Potencial geoturístico Uma das características marcantes da Amazônia é a riqueza de sua bacia de drenagem, com rios de grande porte distribuídos por todos os estados dessa macror- região. Afluentes importantes do rio Amazonas, como Purus e Juruá, drenam os terrenos do estado do Acre, e, juntamente com afluentes menores, favorecem a existência Figura 15.42 - Lavra de areia por desmonte hidráulico (Areal do Alvir, localizado na rodovia AC-405). de paisagens fluviais de grande beleza cênica, como cacho- Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. eiras, praias arenosas, corredeiras, remansos etc., capazes de oferecer alternativas à implantação de projetos de apelo ecoturístico, notadamente na estação seca, quando exposições arenosas, às vezes de extensões consideráveis, espraiam-se por todos os recantos do estado, tanto nos grandes rios como em diminutos igarapés (Figuras 15.45 e 15.46). A sazonalidade climática amazônica permite obser- var uma fisiografia variável em decorrência da alternância das estações seca e chuvosa, com variedade de paisagens e atrativos. Esses sítios de beleza cênica são emoldurados pelo ecossistema amazônico, caracterizado por exuberante floresta equatorial e expressiva variedade e quantidade de vida animal (répteis, mamíferos, aves e peixes), desenvolvida por uma cadeia alimentar diversificada própria de ambiente equatorial. A pesca esportiva, largamente praticada na região, embora se constitua em forte apelo turístico, está limitada temporalmente, de acordo com leis específicas, Figura 15.43 - Explotação de argila (Cruzeiro do Sul). pelo período de defeso dos peixes (piracema), quando Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. ocorre a sua reprodução natural. 247 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE se desenvolve junto à fronteira trinacional (Brasil, Peru e Bolívia) estabelecida pelo referido rio. Essa cidade, que de- verá experimentar um surto desenvolvimentista crescente, constitui a porta de entrada para o oceano Pacífico e para os países andinos, por meio da Rodovia Interoceânica, recentemente concluída, que cruza o território peruano. A cidade peruana de Iñapari, estabelecida na margem direita do rio Acre, representa o marco inicial (Figura 15.49), tendo a bela ponte binacional sobre o rio Acre como referência (Figura 15.50). Próximo a Assis Brasil identificam-se nu- merosos sítios fossilíferos no leito do rio Acre, objeto de intensa pesquisa por pesquisadores regionais e nacionais. Ainda nessa região, ressaltam-se grupamentos in- dígenas situados às margens dos rios navegáveis, como as aldeias dos indios Kaxinawá no rio Jordão (Purus) e Ashaninka no rio Amônea, que atraem turistas nacionais e estrangeiros interessados em conhecer a cultura dessas Figura 15.45 - Área de lazer no rio Acre, divisa internacional Brasil-Peru (Assis Brasil). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. etinias (Figura 15.51). Figura 15.46 - Balneário do rio Moa (rodovia AC-405; Cruzeiro do Sul). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.47 - Sítio Niterói (margem direita do rio Acre). Fotografia: Francisco Negri, s/d. Na unidade Ambiente de Planícies Aluvionares Re- centes (DCa) são registrados numerosos sítios paleontoló- gicos, identificados nos taludes marginais dos rios, onde foram coletados fragmentos fósseis de grande interesse geocientífico, tais como crocodilídeos, tartarugas, toxo- dontes, preguiças, madeira etc., representando paleofauna e paleoflora do período miocênico até pleistocênico. Em decorrência do volume de fósseis coletados, os rios Juruá, Purus e Acre são os de conteúdo mais representativo (Fi- gura 15.47). Feições morfológicas de interesse científico, asso- ciadas ao ambiente fluvial, também foram observadas, enfatizando-se aquelas presentes no rio Tarauacá, próximo à cidade homônima, caracterizadas por ampla planície de inundação, de relevo deposicional plano, periodicamente inundada (Figura 15.48). Uma referência especial diz respeito à cidade de Assis Figura 15.48 - Planície aluvionar do rio Tarauacá (a jusante de Brasil, implantada na margem esquerda do rio Acre e que ponte sobre a rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 248 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Fontes poluidoras Os terrenos dominados pela unidade Ambiente de Pla- nícies Aluvionares Recentes (DCa) caracterizam-se por seu nível freático elevado ou aflorante, o que os torna bastante vulneráveis a contaminantes superficiais, principalmente quando constituídos por sedimentos e solos arenosos e arenossiltosos, devido à sua expressiva permeabilidade. Em domínio de Ambiente Fluviolacustre (DCfl), de constituição predominantemente arenosa, com nível freático elevado ou aflorante, notadamente na estação chuvosa, as áreas são bastante vulneráveis a contaminantes superficiais, devido à sua expressiva permeabilidade. Antigas planícies aluviais, hoje consolidadas como Ter- raços Aluviais (DCta), situadas em topografia mais elevada Figura 15.49 - Marco inicial da rodovia interoceânica (cidade de e de nível freático mais rebaixado, são menos vulneráveis Iñapari, Peru). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. à contaminação dos mananciais hídricos superficiais e subterrâneos, embora sejam suscetíveis à contaminação principalmente quando constituídas por sedimentos e so- los arenosos e arenossiltosos, por sua boa permeabilidade (aquíferos porosos). Como regra geral, constituem solos mais bem drenados e com menor potencial de alagamento. As porções argilosas, quando presentes sob a forma de lentes e camadas, funcionam como excelente barreira à propagação de contaminantes, impedindo, muitas vezes, sua dispersão no subsolo e, assim, protegendo as águas subterrâneas. Em geral, como os sedimentos dessas unidades estão dispostos sub-horizontalmente, podem apresentar drena- bilidade deficiente, dificultando a dispersão de poluentes e favorecendo sua concentração. Por apresentarem áreas de relevo plano, que favorecem o aproveitamento agríco- la, devem ser adotadas medidas de proteção quando da utilização de produtos agrotóxicos. Figura 15.50 - Ponte binacional sobre o rio Acre, porta de entrada da rodovia interoceânica. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Impactos ambientais De maneira geral, os impactos ambientais atuantes sobre as unidades geoambientais do Domínio DC são pra- ticamente comuns a todas e associam-se a desmatamento, atividade mineral, remoção da mata ciliar, disposição irre- gular de lixo em áreas urbanizadas etc., diferindo apenas a intensidade do processo em cada unidade. Ressalta-se, nesse contexto, que as vias fluviais exer- cem importante papel na implantação de núcleos urbanos, na fixação da população ribeirinha e no desenvolvimento de atividades produtivas. Por outro lado, a ocupação de- sordenada traz consigo a remoção da cobertura vegetal primária, notadamente a mata ciliar, expondo as margens dos rios a uma atuação mais vigorosa da erosão fluvial e propiciando o seu desbarrancamento. Esse fenômeno, passível de ocorrer também por processos naturais, está presente nos principais rios do território acreano, princi- palmente naqueles de água branca, como Purus e Juruá, Figura 15.51 - Etnia Ashaninka, habitante dos rios Amônea, Breu sendo conhecido, popularmente, como “terras caídas”, (Juruá) e Envira (Tarauacá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. descrito frequentemente nas planícies aluvionares (DCa). 249 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE A ocupação pretérita e mesmo atual das planícies aluvio- nares por aglomerados urbanos dispostos de forma irregular causa importante impacto ambiental, o qual, na estação das chuvas sazonais, provoca inundações, alagamentos e instabilidade de taludes em grande número dos municípios acreanos, desalojando populações inteiras, com sérias conse- quências sociais e econômicas, o que se repete anualmente, com intensidades variáveis (Figuras 15.52 a 15.55). A implantação de atividades agropecuárias, favorecida por vias de acesso rodoviário e fluvial, tem provocado a remoção de amplas faixas da cobertura vegetal primária, gerando terrenos mais suscetíveis à erosão pluvial (Figura 15.56) e provocando o desbarrancamento de taludes fluviais. O desaparecimento da mata ciliar, associado à penetração humana, observada na maioria das drena- gens de maior porte, torna visível o recuo progressivo das Figura 15.54 - Vista aérea da cidade de Rio Branco, inundada margens, notadamente as côncavas, onde é mais intensa em fevereiro de 2012. Fotografia: Sergio Valle/Defesa Civil a ação erosiva do fluxo fluvial. Estadual, 2012. O relevo predominantemente plano desse domínio, bem como a vegetação de campos naturais em parte desses terrenos, favorece a introdução de práticas agropecuárias, em processo gradativo de implantação em alguns muni- Figura 15.55 - Instabilidade de taludes do rio Acre por ação erosiva fluvial (Brasileia). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Figura 15.52 - Aldeia Kulina Estirão, situada às margens do rio Purus, inundada sazonalmente, obrigando à remoção da comunidade indígena. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Figura 15.53 - Casas erguidas sobre palafitas às margens do rio Juruá, inundáveis anualmente (Cruzeiro do Sul). Figura 15.56 - Extensa área desmatada nas imediações da cidade Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. de Santa Rosa do Purus. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. 250 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO cípios do estado. Em consequência, culturas extensivistas Programas de sensibilização junto à comunidade ribei- não poderão ser introduzidas em território acreano, as rinha, para evitar a disposição de lixo urbano nos taludes do quais deverão ser monitoradas, por trazerem consigo rio Acre, seriam recomendáveis para minimizar o comprome- danos ambientais pela erradicação da cobertura vegetal timento da qualidade das águas superficiais (Figura 15.61). e riscos aos recursos hídricos subterrâneos pela utilização de produtos agrotóxicos. Dessa forma, a difusão de culturas agrícolas deve ser encarada com bastante precaução, considerando-se a possibilidade de elas afetarem o meio ambiente. A atividade extrativa mineral e a não recuperação do passivo ambiental agregado também contribuem para a geração de impactos ambientais nessas unidades geoambientais, associados, principalmente, à extração de materiais de uso imediato na construção civil, como areia e argila. É comum a existência de extensas áreas em antigas frentes mineiras ou em áreas em plena lavra submetidas a processo de degradação antrópica, comprometendo a pai- sagem natural. Essa explotação ocorre tanto em planícies aluvionares (Figura 15.57) como em ambiente fluviolacustre (Figura 15.58) e terraços aluvionares. As atividades de mineração devem ser muito bem planejadas e controladas, de modo a se evitar impactos Figura 15.58 - Extração manual de areia em ambiente ambientais, tais como retirada de mata ciliar, erosão das fluviolacustre (Cruzeiro do Sul). Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. margens, assoreamento de rios e lagoas, poluição dos recursos hídricos superficiais, cavas abandonadas, degra- dação paisagística, comprometimento da produtividade biológica etc. Outras formas de uso e ocupação do solo em ter- renos desse domínio que possam trazer danos ao meio ambiente, tais como a instalação de depósitos de resíduos sólidos urbanos e/ou cemitérios, devem ser adequadamente monitoradas (Figura 15.59) ou mesmo ter impedida sua implementação, o que evitaria riscos ambientais futuros. A desativação de empreendimentos capazes de com- prometer o meio natural também deve ser monitorada, assegurando-se a adequada recuperação dos danos pro- vocados ao longo do tempo (Figura 15.60). Figura 15.59 - Cemitério Parque Morada da Paz, situado junto ao igarapé Batista (zona urbana de Rio Branco). Fotografia: Amilcar Adamy, 2007. Figura 15.57 - Extração de areia no rio Acre. Figura 15.60 - Antigo depósito de lixo urbano de Rio Branco. Fotografia: Luiz G. Dall’Igna, 2012. Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. 251 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Elementos de Definição e Área de Ocorrência Constituem áreas representadas por uma mistura caótica de materiais das frações argila, silte, areia, seixos, blocos e matacões, com composição vinculada à geologia da área-fonte. São materiais pouco consolidados, sem qualquer seleção granulométrica e com muitos espaços vazios entre os fragmentos de diferentes tamanhos. Nesse domínio caracteriza-se a unidade geológico -ambiental Colúvio e Tálus – materiais inconsolidados, de granulometria e composição diversa provenientes de trans- porte gravitacional (DCICT), distribuída no extremo oeste do estado do Acre, bordejando o flanco leste da serra do Divisor, em uma faixa aproximada norte-sul, com extensão Figura 15.61 - Lixo despejado nos taludes fluviais do rio Acre aproximada de 80 km e 2-3 km de largura (Figura 15.62). A (zona urbana de Rio Branco). Fotografia: Amilcar Adamy, 2007. forma de ocorrência é bastante irregular e dispersa. São terrenos inseridos integralmente no Parque DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS Nacional da Serra do Divisor, protegido por uma base de INCONSOLIDADOS DO TIPO COLUVIÃO E fiscalização do Instituto Chico Mendes de Conservação TÁLUS (DCICT) da Biodiversidade (ICMBio) situada na entrada do parque. Domínio caracterizado por terrenos sustentados Geologia por materiais detríticos que são depositados por ação da gravidade em sopés e meias-encostas de relevos com de- A ocorrência desses materiais pouco consolidados clives acentuados, devido a diversos tipos de movimentos está diretamente associada a frentes dissecadas de cuestas de massa. e hogbacks da serra do Divisor, constituídas, predominan- Figura 15.62 - Distribuição espacial da unidade geológico-ambiental definida no domínio DCICT no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. 252 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO temente, por sedimentos arenosos da Formação Moa, res- natureza de sua composição. Consistem em materiais ponsáveis pela maior parcela dos constituintes formadores de características geomecânicas extremamente hetero- dessa unidade geoambiental. Variações locais são observa- gêneas, com drenagem interna, de baixa capacidade de das em terrenos onde afloram intercalações pelíticas dessa suporte, o que significa que uma obra sobre eles locada formação e/ou pelitos da Formação Rio Azul, ou, ainda, em pode sofrer abatimentos e trincamentos, bem como ter caráter pontual, metassedimentos da Formação Formosa e suas fundações desestabilizadas por recalques ou deslo- rochas sieníticas da unidade Sienito República. camentos vertente abaixo quando submetidas a cargas elevadas. Por serem constituídos por blocos e matacões Formas de Relevo de rochas duras e abrasivas, oferecem resistência à esca- vação, à colocação de estacas e à perfuração com sondas As formas de relevo caracterizadas no presente do- rotativas. mínio foram classificadas como Vertentes Recobertas por Em geral, apresentam espessura reduzida e bastante Depósitos de Encostas, incluindo leques aluviais, rampas irregular. Portanto, eventuais escavações poderão alcançar de colúvio e tálus (4), não sendo possível sua individualiza- litologias ou solos de unidades geológicas subjacentes ção na escala de trabalho. Embora estejam recobertas por e de características composicionais bastante diferentes, densa vegetação tropical em sua maior parte de ocorrên- provocando descontinuidades geomecânica e hidráulica cia, duas feições distintas são identificadas: uma, exposta que facilitam a desestabilização e a instalação de proces- parcialmente pelo desmatamento antrópico, caracteriza-se sos erosivos em paredes escavadas, além de movimentos por superfícies suavemente inclinadas, com desnível de até naturais de massa, especialmente em relevos declivosos e 300 m entre o topo da escarpa e a planície aluvial (Figura quando sobrepostos a materiais pouco permeáveis (THE- 15.63); outra, encoberta pela mata fechada, é constituída ODOROVICZ; THEODOROVICZ, 2010). por superfícies de forte declive junto aos sopés das verten- tes íngremes da zona escarpada da serra do Divisor. Agricultura Como são constituídos por material de textura e ca- racterísticas físico-químicas muito diferenciadas de local para local, não representam alternativas favoráveis para uso agrícola. Além disso, apresentam pedregosidade e rochosidade elevadas, são naturalmente erosivos e dis- tribuídos em terrenos de relevo declivoso, impeditivo à agricultura semimecanizada; caracterizam-se, também, por alta erosão hídrica, com carreamento de sedimentos e fragmentos rochosos. Recursos hídricos São terrenos de pouca expressividade areal para se- rem considerados como relevantes do ponto de vista de recursos hídricos. Entretanto, possuem importância relativa Figura 15.63 - Material coluvionar depositado junto ao flanco por estarem dispostos na borda leste de sedimentos are- leste da serra do Divisor. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. nosos, detentores de alto potencial hídrico, onde nascem numerosos cursos d’água, que drenam esses sedimentos Características, Adequabilidades e coluvionares até atingirem a bacia do rio Moa. Limitações Frente ao Uso e à Ocupação Caracterizam-se, ainda, por alta permeabilidade e porosidade identificadas em materiais coluvionares A inserção integral desse domínio no Parque Nacional depositados nos sopés de encostas, geralmente com da Serra do Divisor torna impeditiva qualquer forma de espessura reduzida, não favorecendo a existência de uso e ocupação que não seja voltada à preservação e à bons aquíferos. conservação da região. Limitações naturais dos materiais constituintes dessa unidade também impossibilitam outras Potencial mineral formas de uso e ocupação, como indicado a seguir. Depósitos de tálus e colúvio podem ser boas fontes Obras de engenharia para explotação de blocos e matacões de rochas duras. Entretanto, o potencial de explotação é limitado pela lo- Depósitos de colúvio e tálus não apresentam ade- calização em unidade de proteção ambiental e inexistência quabilidade a qualquer tipo de obra, considerando-se a de demanda na região. 253 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Potencial geoturístico em litologias sedimentares, principalmente associadas à Formação Solimões (Figura 15.64). Embora não haja da- Como unidade individualizada não apresenta qual- tações dessa unidade no Acre, geralmente é atribuída ao quer atrativo. No entanto, como ocorre associada a relevo Plioceno e Pleistoceno, quando houve grandes variações movimentado característico da serra do Divisor, com atra- climáticas de períodos secos e úmidos. tivos paisagísticos marcantes, pode assumir importância Essas coberturas, caracterizadas por camadas endu- secundária. Nesse contexto se inserem drenagens de belo recidas de concreções ferruginosas e horizonte colunar traçado e interessantes corredeiras e cachoeiras, tais como de um perfil imaturo, conduziram à definição da unidade a cachoeira Formosa, ao longo do rio Anil. geológico-ambiental Horizonte Laterítico In Situ (DCDLi) (Figura 15.65), descrita como proveniente de processos de Fontes poluidoras Não se vislumbram riscos potenciais de contaminação nesse domínio, devido ao fato de estar inserido em área prote- gida, embora cuidados especiais devam ser tomados em rela- ção à conservação da cobertura vegetal primária, praticamente intocada, exceto em áreas pontuais e com dimensão reduzida. DOMÍNIO DAS COBERTURAS CENOZOICAS DETRITO-LATERÍTICAS (DCDL) O domínio de coberturas detrito-lateríticas se faz presente na região leste do estado do Acre. Elementos de Definição e Área de Ocorrência Constituem coberturas detrito-lateríticas resultantes Figura 15.64 - Sedimentos da formação Solimões em processo de de intemperismo químico atuando de forma indiscriminada laterização (rodovia AC-475). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.65 - Distribuição espacial da unidade geológico-ambiental definida no domínio DCDL no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. 254 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO laterização em rochas de composições diversas formando crosta. Esse domínio apresenta distribuição areal restrita ao Acre, ocupando uma faixa NNE-SSW no extremo leste do estado, na forma de baixos platôs, com cotas médias de 120 a 160 m. Geologia São depósitos argiloarenosos e síltico-arenosos ricos em concreções ferruginosas (Figura 15.66), com perfis incompletos, bem como depósitos detríticos derivados do desmantelamento da crosta laterítica subjacente por processos erosivos. Figura 15.67 - Horizonte mosqueado. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.66 - Concreções limoníticas em terrenos do sítio do Sr. Jacó Sá (rodovia BR-317). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Evidencia-se cobertura detrito-laterítica onde houve lixiviação de elementos mais solúveis (sódio, potássio, cálcio e magnésio) e fixação de elementos mais resistentes (ferro Figura 15.68 - Horizonte protocolunar de perfil lateritico e alumínio), assim como geração de minerais secundários imaturo (área do aterro sanitário de Rio Branco; rodovia BR-364). do grupo das argilas (gibsita). Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. Trabalhos de campo têm identificado unicamente lateritos imaturos em território acreano, caracterizados ferruginosas (Figura 15.69). Níveis de canga ferruginosa por concentração de ferro formando crostas ferruginosas são bastante frequentes (Figura 15.70). Solos espessos de amplo uso em construção civil e revestimento primário ocorrem comumente sobre esses lateritos, predominando de estradas e rodovias. Latossolos. O contexto geológico particular do estado do Acre, com a formação de amplo corpo aquoso e a consequente Formas de Relevo deposição da Formação Solimões ocorrida até a época mio- cena, não favoreceu o desenvolvimento de perfis lateríticos A unidade geológico-ambiental DCDLi exibe uma maturos ou mesmo uma distribuição mais expressiva. Os configuração morfológica relativamente uniforme (Figura horizontes mais comumente observados, da base para o 15.71), estando representada no Mapa Geodiversidade do topo, são: mosqueado (Figura 15.67), protocolunar (Figura Estado do Acre por Baixos Platôs (5). 15.68) e concreções ferruginosas. Na configuração morfológica dos platôs, há predo- Essa unidade é marcada pelo desenvolvimento fre- mínio de horizonte concrecionário/colunar na parte alta, quente de materiais coluvionares e eluvionares ricos em sustentando o relevo aplainado e preservando-o da ação detritos lateríticos e fragmentos de quartzo e níveis de erosiva; o horizonte mosqueado tende a se desenvolver linhas de pedra, oriundos da desagregação das crostas na meia-encosta. 255 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Características, Adequabilidades e Limitações Frente ao Uso e à Ocupação Obras de engenharia Essa unidade apresenta características geomecânicas, espessura, grau de consolidação e dureza variáveis de região para região e, comumente, de local para local. As rochas podem ser bastante compactas e coesas, com alta resistência ao corte e à penetração, como as crostas ferru- ginosas, ou moles e friáveis em horizontes mosqueados. As linhas de pedra e o horizonte concrecionário possuem fácil a moderada desagregação. As seções compostas pelos perfis lateríticos e solos conferem moderada a alta capacidade de suporte de carga aos terrenos. Entretanto, podem formar cavidades de dimensão variável, prejudiciais à implantação Figura 15.69 - Nível de petroplintitos em sedimentos argiloarenosos (Vila Catorze; rodovia AC-475). de obras de engenharia (Figura 15.72). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.70 - Níveis de canga ferruginosa (rodovia -317; trecho Brasileia-Assis Brasil). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.72 - Cavidade desenvolvida em crosta laterítica ferruginosa (rodovia BR-317, Brasileia). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Ocorrem de forma bastante irregular (lajeados, blocos e camadas em subsuperfície irregularmente distribuídas), dificultando as escavações e a perfuração com sondas rotativas. A retirada da crosta laterítica comum em obras Figura 15.71 - Baixos platôs sustentados por crostas detrito- de terraplanagem pode desestabilizar o perfil de solo e lateríticas (rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. favorecer a instalação de processos erosivos. 256 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Agricultura Em geral, os solos lateríticos apresentam baixa fertili- dade natural e altos teores de alumínio e ferro. São bastante ácidos, com predomínio de Latossolos (Figuras 15.73 e 15.74). Plintossolos Háplicos desenvolvem-se em terrenos de drenagem imperfeita. Presença de solum (horizonte A+B) pouco espesso e ocorrência frequente de Plintossolos Pétricos, ricos em concreções ferruginosas, que dificultam a prática agrícola por favorecerem a pedregosidade ou a rochosidade dos solos (Figura 15.75). São solos de baixa erosividade natural e boa estabili- dade em taludes de corte. Constituem terras mecanizáveis em relevos aplainados a suave ondulados, onde o solo é mais espesso; em áreas de uso agrícola mais intensivo, é Figura 15.75 - Plintossolo pétrico (rodovia BR-317). necessário o uso de corretivos e adubação. Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Recursos hídricos Constituem aquíferos porosos, com potencialidade hidrogeológica baixa, com recarga e descarga rápidas. As águas subterrâneas podem ser impróprias para consumo humano, pelo alto teor de ferro e alumínio, com alterações no sabor e riscos à saúde. O potencial de explotação desses aquíferos é local e irregular, mais favorável na estação das chuvas, podendo ser usados em áreas onde não há alternativa. As águas subterrâ- neas circulam por pequenas cavidades de lixiviação (vesículas), mais abundantes superficialmente, formando um meio de alta vulnerabilidade à contaminação das águas subterrâneas. Potencial mineral Figura 15.73 - Latossolo com níveis de canga ferruginosa As concreções ferruginosas são amplamente utilizadas (rodovia BR-317; trecho Brasileia-Assis Brasil). na construção civil e no revestimento de estradas (piçarras e Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. cascalheiras). A manutenção e a recuperação da malha viária rural obrigam as administrações municipais a alternativa de menor custo, tais como a utilização de depósitos de cascalho ferruginoso derivado de coberturas detrito-lateríticas (Figura 15.76). Por sua vez, os horizontes mosqueados (argilosos) são Figura 15.76 - Extensa área de lavra de cascalho ferruginoso, Figura 15.74 - Latossolo com desenvolvimento de perfil laterítico usado no revestimento primário de estradas. (rodovia BR-364). Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. Fotografia: Amilcar Adamy, 2006. 257 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE favoráveis ao emprego na cerâmica vermelha e no preparo de DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS argamassa. A utilização na indústria cimenteira do tipo pozolâ- E/OU MESOZOICOS, POUCO A nico deve ser investigada para viabilidade de empreendimentos MODERADAMENTE CONSOLIDADOS, setoriais. É alta a potencialidade dessas rochas para uso na ASSOCIADOS A PROFUNDAS E EXTENSAS construção civil, quando se desenvolve o horizonte colunar. BACIAS CONTINENTAIS (DCM) Potencial geoturístico Esse domínio é representado pela Bacia Sedimentar do Solimões, depositada em ambiente fluviolacustre, Embora essa unidade contenha cavidades que pode- ocupando a maior parte do território acreano (Figura riam representar algum interesse geoturístico, apesar de 15.78). O domínio DCM é representado por duas unidades sua reduzida expressividade areal, não foram identificados geológico-ambientais: Predomínio de Sedimentos Areno- sítios diferenciados para uma aplicação turística. argilosos e/ou Síltico-Argilosos de Deposição Continental, Lacustre ou Deltaica, ocasionalmente com Presença de Fontes poluidoras Linhito (DCMld); Predomínio de Sedimentos Arenosos de Deposição Continental, Lacustre, Fluvial ou Eólica – Trata-se de materiais suscetíveis à contaminação por Arenitos (DCMa). sua permeabilidade, possuindo baixa capacidade de reter, fixar e eliminar poluentes. As coberturas mais consolidadas, Elementos de Definição menos permeáveis, são menos vulneráveis. e Área de Ocorrência Os terrenos aplainados apresentam baixa dispersão de poluentes, necessitando, porém, de medidas de proteção Com o soerguimento da cordilheira andina, o sistema em áreas de uso agrícola, devido ao uso de agrotóxicos, fluvial, que drenava para oeste, sofre uma inversão gradual que podem contaminar as águas subterrâneas. para leste, devido à movimentação do relevo, provocando o barramento do fluxo das águas, responsável pela geração Impactos ambientais de um sistema lacustre que cobre inteiramente a Amazônia Ocidental denominado Lago Pebas (HOORN et al., 1995; A explotação de jazidas de cascalho laterítico para RÄSÄNEN et al., 1998), submetido a um contínuo processo uso na construção civil gera cavas de dimensões variáveis, de subsidência, onde foram depositados os sedimentos com impactos na paisagem local. Todavia, não se observam da Formação Solimões por rios avulsivos associados a um ações de recuperação ambiental. sistema de megaleques e por rios avulsivos nas planícies A esse processo de aproveitamento mineral associa- de inundação antes que houvesse uma completa inversão -se a remoção da cobertura vegetal nativa, submetendo da drenagem em sentido leste. Essa sedimentação repre- as coberturas lateríticas e os solos derivados a processos senta uma resposta sedimentar à fase tectônica Quéchua erosivos promovidos por águas pluviais, o que favorece o ocorrida nos Andes durante o Mioceno Médio/Superior desenvolvimento de sulcos e ravinas. (LATRUBESSE et al., 1997). É importante salientar que a A configuração morfológica favorável em terrenos Formação Solimões e as formações equivalentes (Pebas, aplainados desse domínio, onde predomina o horizonte Peru) possuem ampla distribuição na Região Amazônica, concrecionário, promove a implantação de práticas agríco- estendendo-se aos países vizinhos. las, às vezes em grandes extensões (milho). Entretanto, tal Em diversas publicações técnicas, Latrubesse et al. prática implica o desmatamento generalizado, com a con- (1997, 2007, 2010), amparados em estudos paleontoló- sequente instalação de processos erosivos (Figura 15.77). gicos (vertebrados, moluscos), palinológicos e geológicos estabelecem uma idade do Mioceno Superior ao Plioceno para essa sedimentação ocorrida em ambiente continen- tal dentro de uma bacia subsidente. No Plioceno Inferior, cessa a deposição de sedimentos e torna-se uma área erosional, contribuindo com sedimentos ao sistema fluvial amazônico. Nesse período, esse sistema fluvial é integrado regionalmente e adquire sua aparência atual e também se inicia a drenagem dos rios e sedimentos em larga escala para o oceano Atlântico. Os sedimentos dessa formação se dispõem em ca- madas horizontais a sub-horizontais e podem alcançar espessuras expressivas ao longo da borda entre os estados Figura 15.77 - Extensa plantação de milho em terreno aplainado do baixo platô formado por Latossolo, com presença de do Acre e Amazonas. concreções ferruginosas (rodovia BR-364). Considerando a inserção do território acreano no Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. pretérito corpo aquoso derivado da inversão da rede de 258 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Figura 15.78 - Distribuição espacial das unidades geológico-ambientais definidas no domínio DCM no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. drenagem, onde houve espessa acumulação de sedimentos constante na energia de transporte durante a deposição fluviolacustres vinculados à Formação Solimões, é compre- dos sedimentos (MAIA et al., 1977). ensível o predomínio absoluto dessa formação, que ocupa Os sedimentos formadores do domínio são repre- a maior parte do espaço geográfico acreano. sentados por argilitos, siltitos e arenitos, com intercala- ções finas de calcários, linhitos e turfas, depositados em Geologia ambiente predominantemente redutor e agrupados sob a denominação Formação Solimões (Figura 15.83). Amostras Em termos gerais, esses sedimentos apresentam duas de sedimentos coletadas em alguns rios acreanos indicam fácies principais (LATRUBESSE et al., 2010): uma fácies do- minada por sedimentos de canal constituídos por siltitos e arenitos vermelho-amarronzados a marrom e cascalho de grã fina, principalmente intraformacional, apresentando mud-balls com estratificação cruzada característica mais suscetíveis à ação erosiva (Figuras 15.79 e 15.80); uma se- gunda fácies predominante, constituída por sedimentos de planície de inundação, lagos e pântanos, de baixa energia, compostos por argilitos e argilitos siltosos de cor verde a verde-acinzentado e verde-azulado, caracterizados por laminações e camadas convolutas, com importantes sítios fossilíferos (Figuras 15.81 e 15.82). Sedimentos constituídos por fácies de transição também são identificados, representados por depósitos clássicos de crevasse-splay e depósitos deltaicos de planície de inundação. Esse domínio é constituído por espesso pacote de rochas pouco consolidadas, composto por camadas lenti- culares de extensões variáveis, horizontalizadas a sub-ho- Figura 15.79 - Amplo afloramento de arenitos fluviais com rizontalizadas, transicionando vertical e lateralmente tanto estratificação cruzada acanalada de pequeno porte (rodovia BR- de forma brusca como gradual, evidenciando oscilação 364, próximo à cidade de Feijó). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 259 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE que o quartzo é o mineral dominante e os minerais argilosos são compostos por esmectita predominante, caulinita e ilita rara, podendo ocorrer ainda gipsita e calcita. A tectônica andina manifesta-se sobre esses sedi- mentos por meio de falhamentos (Figura 15.84), fraturas, drenagens encaixadas e deslizamento de encostas (neo- tectônica), mais frequentes no trecho entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá. Figura 15.80 - Abundantes mud-balls em arenitos estratificados (rodovia BR-364, trecho entre Cruzeiro do Sul e Tarauacá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.83 - Camadas de calcário intercaladas em sedimentos pelíticos carbonáticos (curso médio do rio Juruá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.81 - Pacote de sedimentos da formação Solimões, predominando pelitos (rodovia BR-364, entre as cidades de Feijó e Manoel Urbano). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.84 - Feição neotectônica em sedimentos pelíticos da formação Solimões (rodovia BR-364, próximo a Tarauacá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Formas de Relevo As formas de relevo identificadas nesse domínio são representadas no Mapa Geodiversidade do Estado do Acre por Vertentes Recobertas por Depósitos de Encosta (6), Baixos Platôs (7), Domínio de Colinas Amplas e Suaves (8) Figura 15.82 - Morro do Careca, importante sítio fossilífero (rodovia BR-364, próximo à cidade de Tarauacá). e Domínio de Colinas Dissecadas e Morros Baixos (9, 10) Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. (Figuras 15.85 e 15.86). 260 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO sivos, que podem conduzir a fendilhamento, desagregação e desestabilização em taludes de corte. Solos com pedogênese pouco desenvolvida, podendo conter minerais argilosos expansivos, tornando-se erosivos pela remoção da cobertura vegetal e submetidos à sazonali- dade das estações (úmida e seca). O fenômeno de colapsivi- dade pode afetar esses materiais pela expansão e contração de argilominerais expansivos. Esse tipo de sedimentos e o solo deles derivado dificulta a implantação de obras viárias e de construção civil, onerando seu custo; frequentemente, vias de acesso sem pavimentação tornam-se intrafegáveis em períodos chuvosos (Figuras 15.87 e 15.88). Terrenos constituídos por coluviões assentados sobre sedimentos síltico-argilosos estão sujeitos a rastejamentos Figura 15.85 - Colinas amplas e suaves (estrada São José, área de quando dissecados e saturados pelas chuvas sazonais, entorno de Cruzeiro do Sul). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. podendo acarrretar danos materiais consideráveis (Figuras 15.89 e 15.90). Figura 15.86 - Colinas dissecadas (rodovia BR-364, próximo à cidade de Tarauacá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Características, Adequabilidades e Figura 15.87 - Pavimentação assentada sobre sedimentos da Limitações Frente ao Uso e à Ocupação formação Solimões e rompida na estação chuvosa (rodovia BR-364, trecho Feijó-Manoel Urbano). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Constituem terrenos com comportamento relativa- mente homogêneo, no que diz respeito às adequabilidades e limitações ao uso e à ocupação. Obras de engenharia São identificadas camadas horizontalizadas a sub- horizontalizadas não deformadas, em geral com boa ho- mogeneidade geotécnica e hidráulica lateral; na vertical, tais características podem variar, devido aos sedimentos de naturezas distintas. Predominam sedimentos pouco consistentes, de baixa resistência ao corte e à penetração, escavados com facilidade com ferramentas e maquinário. Os sedimentos síltico-argilosos, quando maciços, são rijos, de alta cerosidade e plásticos, sendo capazes de dificultar a escavação e a perfuração com sondas rotativas, prendendo o equipamento; quando úmidos, são aderentes e escor- Figura 15.88 - Rompimento de via urbana pelo retrabalhamento regadios. Os sedimentos síltico-argilosos são finamente de sedimentos expansivos (área urbana de Epitaciolândia). laminados, com habitual presença de argilominerais expan- Fotografia: Amilcar Adamy, 2007. 261 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 15.89 - Rastejamento de coluviões assentados sobre Figura 15.91 - Latossolo Amarelo em terreno aplainado sedimentos síltico-argilosos expansivos, com afundamento (rodovia BR-317, próximo a Senador Guiomard). do subsolo (rua Floriano Peixoto, área central de Rio Branco). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.92 - Argissolo Vermelho-Amarelo com níveis de canga ferruginosa (rodovia BR-317, entre as cidades de Brasileia e Assis Figura 15.90 - Rastejamento de coluviões provocando danos em Brasil). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. construções (área urbana de Marechal Thaumaturgo). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. Esses terrenos apresentam maior suscetibilidade à ero- são em encostas declivosas e desprovidas de vegetação, em geral quando forem constituídos, predominantemente, por sedimentos arenosos, com menor grau de consolidação. Em áreas de desmatamento recente, verifica-se notável incremento de processos de erosão laminar e ravinamentos, que promovem o entulhamento dos fundos de vales por significativo aporte de sedimentos. Agricultura De modo geral, esse domínio apresenta solos de baixa fertilidade natural, com relevo ondulado (Latossolos e Argissolos), e solos com drenagem imperfeita (Plintos- solos), sujeitos a alagamentos periódicos nas áreas baixas Figura 15.93 - Plintossolo Háplico com horizonte mosqueado (Gleissolos e Neossolos Flúvicos) (Figuras 15.91 a 15.93). (próximo a Sena Madureira). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 262 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Possuem baixa capacidade de retenção de umidade e de nutrientes nas áreas mais arenosas (Espodossolos e Neossolos Quartzarênicos). São solos mais suscetíveis aos processos erosivos, devido ao elevado gradiente textural, principalmente nas encostas (Argissolos). Em decorrência da natureza expansiva dos minerais argilosos predominantes nos sedimentos da Formação Solimões, solos do tipo Vertissolo foram identificados em diversas exposições ao longo das rodovias BR-364 e BR- 317 (Figura 15.94). Embora de ocorrência mais pontual, Cambissolos e Luvissolos também foram caracterizados (Figuras 15.95 e 15.96). Os solos residuais derivados de sedimentos síltico- argilosos (DCMld) são porosos, armazenam água e mantêm boa disponibilidade hídrica para uso agrícola na estação seca. Têm boa capacidade de reter, fixar e assimilar nutrientes e de incorporar matéria orgânica, respondendo Figura 15.96 - Luvissolo Crômico (avermelhado) com horizonte bem à adubação. Por outro lado, podem conter alumínio superior siltoso (“cabeça branca”) (rodovia BR-364, entre Feijó e Manoel Urbano). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. em excesso (ácidos); quando submetidos à mecanização ou a intenso pisoteio de gado, são passíveis de compactação, impermeabilização, erosão hídrica laminar e erosão em sulco. Os solos mais arenosos (DCMa) são mais erosivos e instáveis em taludes de corte; constituem solos ácidos, de baixa fertilidade natural e bastante permeáveis; apresentam baixa capacidade hídrica, perdendo água rapidamente depois de cessadas as chuvas. Da mesma forma, possuem baixa capacidade de reter, fixar nutrientes e assimilar ma- téria orgânica, respondendo mal à adubação. Relevos aplainados e suavizados, em geral com solos mais profundos, são favoráveis à mecanização; se corre- tamente manejados, constituem boa alternativa para uso agrícola, à exceção dos solos arenosos. Predomínio de Figura 15.94 - Exposição de Vertissolo fendilhado (rodovia BR- pedogênese nos topos aplainados e de morfogênese nas 364, próximo a Sena Madureira). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. encostas dos tabuleiros. É recomendável a preservação das áreas mais decli- vosas e arenosas. Recursos hídricos A potencialidade hidrogeológica é variável e irregu- lar, sendo baixa em sedimentos síltico-argilosos, menos permeáveis, e moderada em sedimentos arenosos, com melhor permeabilidade e capazes de acumular água em boa quantidade, porém, mais suscetíveis à contaminação superficial. Solos residuais derivados de sedimentos síltico- -argilosos são porosos, armazenando água e mantendo boa disponibilidade hídrica para uso agrícola na estação seca. Os sedimentos arenosos são permeáveis, com baixa capacidade hídrica, perdendo água rapidamente depois de cessadas as chuvas. Figura 15.95 - Luvissolo Crômico (avermelhado) (rodovia AC-040, Os sedimentos síltico-argilosos têm baixa capa- próximo a Plácido de Castro). Fotografia: Amilcar Adamy, 2012. cidade de recarga da água subterrânea por serem 263 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE poucos permeáveis. Por isso, poços perfurados nesses sedimentos geralmente apresentam vazões reduzidas, incapazes de atender a comunidades de maior porte. Em diversos poços profundos perfurados em território acreano, alguns dos quais com profundidades superiores a 100 m, não foram encontradas vazões significativas, fato agravado pela qualidade da água subterrânea, principalmente quando seccionam camadas ou lentes carbonáticas, conforme identificado na área urbana de Marechal Thaumaturgo. De modo geral, suas águas possuem baixa qualidade devido a fatores naturais, como elevados teores de matéria orgânica, carbonatos e enxofre. Na cidade de Marechal Thaumaturgo foram perfurados poços profundos, com vazões satisfatórias; entretanto, a água, salobra, não era apropriada ao consumo humano, devido aos horizontes carbonáticos seccionados em profundidade. Em áreas Figura 15.97 - Calçamento de vias públicas com tijolos (Marechal onde afloram camadas arenosas e inexiste alternativa de Thaumaturgo). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. abastecimento, deverá ser considerada sua utilização para uso público. - ARIM 3: Aproveitamento de depósitos arenosos e argilo- A rede hidrográfica que drena terrenos de sedimen- sos próximos à cidade de Manoel Urbano, já explotados tos síltico-argilosos, pouco permeáveis, caracteriza-se por para consumo regional em obras civis e pavimentação vazões altamente contrastantes nos períodos de chuva de vias urbanas. e seca, devido ao seu baixo potencial hidrogeológico, - ARIM 5: Explotação de depósitos argilosos em Rio Branco, agravando-se na estação chuvosa, quando a maior parte derivados da alteração de sedimehntos pelíticos. das precipitações pluviais tende a escoar pela superfície, - ARIM 8: Ocorrências de camadas de calcário de espessura fornecendo grandes volumes de água para as drenagens, decimétrica a métrica em colinas de pequeno porte, inter- o que eleva rapidamente o nível fluviométrico e provoca, caladas em sedimentos pelíticos da Formação Solimões, com frequência, inundações e alagamentos em traçados revelando paleoambiente diferenciado. urbanos. - ARIM 9: Depósitos argilosos oriundos da Formação So- limões, junto à área urbana de Feijó. Potencial mineral - ARIM 10: Aproveitamento de pacotes argilosos próxi- mos à cidade de Tarauacá, resultantes da alteração de Esse domínio exibe expressiva potencialidade para sedimentos pelíticos; essa área foi definida em conjunto depósitos de areia e argila vermelha, prospectáveis para com depósitos arenosos aluvionares do rio Tarauacá, que outras argilas de aplicabilidades diferenciadas. Solos drena o referido núcleo urbano. argilosos derivados de sedimentos síltico-argilosos da - ARIM 11: Numerosas ocorrências de gipsita distribuídas Formação Solimões têm grande aproveitamento na in- em terrenos argilosos da Formação Solimões na região de dústria cerâmica como material de revestimento de vias Xapuri. A Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (FUN- públicas, fato comum na maioria das cidades acreanas, TAC) já efetuou atividades de reconhecimento geológico dada a inexistência de rochas duras (Figura 15.97). Um da região, procurando avaliar a sua potencialidade mineral. programa permanente do governo estadual estimula o - ARIM 12: Lavra de pequeno porte junto aos depósitos calçamento com tijolos em ruas de diversos municípios, argilosos no entorno da cidade de Sena Madureira. inclusive naqueles desprovidos de acesso rodoviário, como O contexto geológico associado à Formação Solimões Marechal Thaumaturgo e Jordão, sendo esse produto possibilita a ocorrência de delgadas lentes de turfa de baixo transportado por via fluvial. poder calorífico, baixo teor de carbono fixo e elevado teor Os trabalhos de campo desenvolvidos pelo projeto de cinzas. Por outro lado, apresenta baixo potencial como agregaram novas ocorrências minerais, tais como calcário, fonte energética. gipsita e água mineral, algumas delas já caracterizadas por O nível de conhecimento geológico do estado do Acre instituições locais e/ou regionais, o que amplia a favorabili- ainda é insuficiente para a definição de áreas favoráveis à dade metalogenética da Formação Solimões. Considerando existência de depósitos minerais, sendo indispensável a execu- essas informações preliminares, foram definidas oito Áreas ção de programas técnicos de caracterização e avaliação das de Relevante Interesse Mineral nesse domínio: áreas recomendadas, que possam alavancar o crescimento e - ARIM 2: Envasamento de água mineral ou potável em a diversificação da produção mineral. Cita-se, por exemplo, a sedimentos da Formação Solimões, abastecendo as busca de uma caracterização tecnológica das argilas, visando cidades de Rio Branco e Senador Guiomard. ao seu aproveitamento na indústria cimenteira. 264 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Potencial geoturístico Domínio geológico-ambiental sem maior potencial geoturístico, principalmente devido à morfologia monó- tona dos terrenos. No entanto, uma alternativa importante se oferece a partir de seu expressivo conteúdo fossilífero, de idade mesozoica, representado por ampla variedade de espé- cimes da paleofauna e paleoflora, com destaque para os vertebrados, identificados em dezenas de sítios distribuídos pelas bacias hidrográficas dos rios Juruá, Purus e Acre, en- tre outros, os quais foram objeto de numerosas pesquisas paleontológicas e paleoambientais, despertando interesse nacional e internacional, com publicações técnicas em diversos países. No momento, esse interesse é mantido, Figura 15.98 - Instabilidade de taludes em encosta de colinas tendo à frente a Universidade Federal do Acre (UFAC), dissecadas, onde se desenvolve Argissolo avermelhado (rodovia com o desenvolvimento de inúmeras equipes de pesquisa, AC-475; Vila Catorze, município de Plácido de Castro). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. inclusive em outras bacias de drenagem. Fontes poluidoras As águas subterrâneas desse domínio possuem vulnerabilidade variável à contaminação, dependendo do tipo dos sedimentos aflorantes: baixa em sedimentos síltico-argilosos, por sua baixa permeabilidade, e alta capa- cidade de reter e fixar contaminantes; alta em sedimentos arenosos, mais permeáveis e com moderada capacidade de reter, fixar e eliminar poluentes. Por outro lado, a disposição horizontalizada das ca- madas não favorece a dispersão dos poluentes, devendo- se tomar cuidado com o uso de agrotóxicos em áreas de cultivo agrícola. Impactos ambientais Figura 15.99 - Amplo deslizamento rotacional em encostas de morros baixos assentados em sedimentos síltico-argilosos O relevo aplainado favorece a introdução de ativida- da formação Solimões (rodovia BR-364, próximo à cidade de des agropecuárias, o que conduz ao desmatamento de Tarauacá). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. grandes extensões superficiais. Em terrenos síltico-argilo- sos, pode se tornar comum o processo de rastejamento em relevos mais dissecados, notadamente quando saturados pelas chuvas sazonais, provocando danos ambientais e materiais consideráveis. Além disso, os terrenos desprovidos de sua proteção vegetal e sujeitos aos rigores climáticos estão expostos à instabilidade de taludes em áreas de relevo colinoso e/ ou de morros, provocando deslizamentos rotacionais de amplitude variável, que podem atingir algumas centenas de metros (Figuras 15.98 e 15.99). Processos de ravinamento e voçorocamento também são comuns em terrenos desse domínio geoambiental, notadamente em sedimentos arenosos, embora possam ocorrer também em sedimentos síltico-argilosos, devido à presença de argilominerais expansivos (Figuras 15.100 Figura 15.100 - Ravinamento em sedimentos síltico-argilosos pedogenizados (rodovia BR-317, próximo a Senador Guiomard). e 15.101). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 265 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE de idade predominantemente cretácica, constituído pelas formações Moa, Rio Azul, Divisor e Ramon, de ambiente deposicional continental e marinho raso, distribuídas no extremo oeste do estado. O domínio DSVMP reveste-se de grande importân- cia para o estado, considerando-se suas potencialidades naturais, principalmente geoturísticas e hidrogeológicas, constituindo-se, no entanto, em séria preocupação quanto à sua proteção e preservação. Uma importante limitação vinculada às unidades geológico-ambientais desse domínio é a sua extrema fragili- dade aos processos de instabilidade de taludes, evidenciada pela incidência frequente de deslizamentos de encostas, notadamente nas formações Moa e Divisor, detentoras de declive acentuado. Figura 15.101 - Desenvolvimento de voçoroca em sedimentos arenoargilosos (rodovia AC-040, entre Senador Guiomard e Plácido Elementos de Definição de Castro). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. e Área de Ocorrência DOMÍNIO DAS COBERTURAS SEDIMENTARES Os sedimentos constituintes desse domínio englobam E VULCANOSSEDIMENTARES MESOZOICAS E formações geológicas predominantemente cretácicas, re- PALEOZOICAS, POUCO A MODERADAMENTE presentantes de várias fases de preenchimento da bacia, CONSOLIDADAS, ASSOCIADAS A GRANDES formando o Grupo Jaquirana. E PROFUNDAS BACIAS SEDIMENTARES DO As diferenças de associações ou de predomínio lito- TIPO SINÉCLISE (AMBIENTES DEPOSICIONAIS: lógico levaram a dividir o domínio em quatro unidades CONTINENTAL, MARINHO, DESÉRTICO, geológico-ambientais (Figura 15.102): GLACIAL E VULCÂNICO). (DSVMP) Predomínio de Sedimentos Síltico-Argilosos com Intercalações Arenosas (DSVMPsaa): corresponde aos ter- Esse domínio é formado por sedimentos de origem renos sustentados pela Formação Ramon, constituídos por clástica e clastoquímica pertencentes ao Grupo Jaquirana, folhelhos na base e calcarenitos no topo (DUARTE, 2011). Figura 15.102 - Distribuição espacial das unidades geológico-ambientais definidas no domínio DSVMP no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. 266 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Predomínio de Arenitos e Intercalações de Pelitos (DSVMPap): representados por sedimentos da Formação Divisor, onde predominam arenitos. Intercalações Irregulares de Sedimentos Arenosos, Síltico-Argilosos e Calcários (DSVMPasac): corresponde à unidade geológica Formação Rio Azul, essencialmente pelítica. Predomínio de Arenitos e Conglomerados (DSVMPa- cg): corresponde aos terrenos dominados pela Formação Moa, predominantemente arenosa. Os litótipos associados a esse domínio ocorrem ape- nas na extremidade oeste do estado, ocupando um relevo acidentado denominado serra do Divisor, que se estende desde a divisa com o estado do Amazonas até a bacia do rio Ouro Preto, em direção sul. Geologia Figura 15.103 - Amplo paredão de arenitos Moa, com estratificação cruzada acanalada (rio Moa). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. A serra do Divisor é a principal resultante morfológica dos eventos de uma tectônica compressiva oriunda da ele- vação da cordilheira andina atuantes a partir do Cretáceo, gerando estruturas típicas de inversão tectônica, anticlinais e sinclinais regionais, demonstrados amplamente nas litolo- gias constituintes do Grupo Jaquirana. A tectônica andina altera profundamente o comportamento estrutural original sub-horizontalizado, dobrando e fraturando intensamente o pacote sedimentar. Portanto, esses sedimentos foram depositados sob a atuação da orogenia andina, em am- biente continental com influência marinha (BAHIA, 2014). Caputo (1973) apresenta uma interpretação diferenciada para as diversas unidades geológicas, indicando sedimen- tação continental fluvial para a Formação Moa, marinho raso para as formações Rio Azul e Ramon e deltaica para a Formação Divisor. A Formação Moa é constituída, predominantemen- te, por arenitos, ocorrendo níveis conglomeráticos nas porções mais basais; camadas de argilitos e siltitos foram Figura 15.104 - Exposição de arenitos da formação Divisor identificadas nas partes médias da formação, dispostas (cachoeira Pedernal; rio Moa). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. intercaladamente com os arenitos (Figura 15.103). Por sua vez, a Formação Rio Azul apresenta pelitos e arenitos in- tercalados entre si e um relevo mais arrasado do que o das Formas de Relevo demais unidades. A Formação Divisor contempla arenitos, por vezes conglomeráticos, exibindo grandes escarpas Devido à ampla variação litológica, alta movimentação (Figura 15.104). Essas três formações são concordantes e tectônica e expressão areal desse domínio, foram identi- interdigitadas entre si, evidenciando contato discordante ficadas diferentes formas de relevo, desde terrenos mais com as unidades superiores e inferiores. acidentados (degraus estruturais, morros e serras baixas) A Formação Ramon repousa em discordância an- a terrenos de morfologia ondulada (colinas dissecadas e gular de baixo ângulo sobre os sedimentos da Formação morros baixos) a suave ondulados a aplainados (colinas Divisor, estando constituída por uma sequência de red- amplas e suaves e curtos planaltos residuais alçados). De -beds com folhelhos, siltitos e calcarenito. Destaca-se modo geral, predominam terrenos acidentados, próprios que a representação morfológica da Formação Ramon é das unidades arenosas (formações Moa e Divisor), caracteri- menos pronunciada do que a das demais formações do zados por morros e serras baixas (Figuras 15.105 e 15.106), Grupo Jaquirana. que atingem até 600 m de altitude na parte norte do con- Manifestações magmáticas são descritas associadas junto serrano, onde afloram sedimentos da Formação Moa. à bacia sedimentar da serra do Divisor, compreendendo Em acordo com a nomenclatura morfológica ado- rochas sieníticas (Sienito República). tada no presente documento, foram identificadas as 267 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Figura 15.105 - Relevo característico da serra do Divisor, constituído por morros e serras baixas. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.107 - Degrau estrutural em arenitos fortemente inclinados da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.106 - Serra baixa, típica da formação Moa (borda leste da serra do Divisor). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. seguintes formas de relevo: Domínio de Colinas Amplas Figura 15.108 - Encosta fortemente declivosa em arenitos da e Suaves (11), Domínio de Colinas Dissecadas e Morros formação Moa; trilha de acesso ao topo da elevação com 300 m. Baixos (12, 14, 17), Planaltos (13), Domínio de Morros e Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. de Serras Baixas (15, 19) e Degraus Estruturais e Rebordos Erosivos (16, 18). mudam bruscamente de uma camada para outra, sendo Em domínio serrano, os vales apresentam-se encai- intensamente afetadas por fraturamentos. xados e de encostas fortemente declivosas, cobertas por As unidades geológico-ambientais formadoras desse vegetação equatorial (Figuras 15.107 e 15.108) e densidade domínio podem ser agrupadas em dois conjuntos distintos: de drenagem moderada a alta. terrenos com predomínio de arenitos e, subordinadamen- Por outro lado, a Formação Ramon, de feições morfo- te, conglomerados e pelitos (formações Moa e Divisor); lógicas diferenciadas, caracteriza-se por um relevo colinoso terrenos com predomínio de intercalações irregulares de mais suavizado, desde colinas dissecadas a amplas e suaves. camadas de sedimentos síltico-argilosos e arenosos (for- Essa unidade não foi individualizada no relevo serrano da mações Rio Azul e Ramon). serra do Divisor. Obras de engenharia Características, Adequabilidades e Limitações Frente ao Uso e à Ocupação Na execução de obras sobre esses terrenos, alguns fatores devem ser levados em consideração, tais como os Trata-se de um conjunto de camadas dobradas de descritos a seguir. diversas espessuras formadas por sedimentos diferente- Escavações e sondagens de poucos metros, indepen- mente consolidados, de características mineralógicas e dentemente de outras variáveis, podem atingir litologias das granulométricas distintas, que, na maior parte das vezes, mais variadas e contrastantes características geotécnicas, 268 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO hidráulicas e hidrogeológicas, as quais mudam brusca- mais baixas, o que significa que a implantação de obras de mente de uma característica para outra, resultando em engenharia não exigiriam cortes profundos em taludes nem descontinuidades geomecânicas e hidrodinâmicas, o que muitas obras de transposição de drenagem, além do potencial facilita a surgência de água e a desestabilização de taludes de movimentos naturais de massa ser baixo. Trata-se de relevo (Figura 15.109). Por apresentarem relevo mais acidentado, mais favorável à pedogênese que à morfogênese, por isso, o principalmente morros e serras baixas e degraus estruturais, manto de alteração deve ser mais profundo. litologias distintas, tais como arenitos, pelitos e conglome- Predomínio de sedimentos de baixa resistência ao rados, podem estar expostas nas encostas, acentuando os corte e à penetração, que podem ser desmontados e esca- problemas de estabilidade dos taludes. Quando presentes, vados com ferramentas e maquinários de corte. Sedimentos os sedimentos conglomeráticos, por serem constituídos por conglomeráticos são possuidores de maior resistência ao seixos e grânulos diversos, mostram-se heterogêneos em corte e à penetração; suas características geomecânicas e hidráulicas. Sedimentos síltico-argilosos podem se apresentar Nesses relevos, o escoamento superficial é rápido finamente laminados, por vezes excessivamente plásticos e sujeito a formar enxurradas de alto potencial erosivo e e de cerosidade elevada, tornando-se materiais mais resis- destruidor de obras. A espessura do manto de alteração é tentes à escavação e à perfuração com sondas rotativas. bastante irregular. Como os sedimentos dessas formações Esses sedimentos podem conter argilas expansivas, gerando estão densamente fraturados e percolativos, principalmente solos argilosos aderentes e escorregadios quando úmidos. os arenitos, podem se desprender blocos e placas, gerando Presença de sedimentos arenosos, constituídos à base depósitos de tálus e colúvios nos sopés das encostas mais de quartzo, que se alteram para solos arenosos, erosivos, declivosas, materiais naturalmente instáveis. friáveis e permeáveis, sendo ainda abrasivos. Ao contrário, em áreas de relevo mais suavizado, Como o substrato rochoso é constituído por alternân- identificadas como colinas amplas e suaves, presentes cia irregular de camadas de várias composições, o manto na Formação Ramon, espera-se maior homogeneidade de alteração pode variar, em curtas distâncias, de arenoso litológica na lateral, já que as camadas tendem a ser sub- a argiloso, principalmente nas áreas de relevo mais movi- horizontalizadas. Esses terrenos são favoráveis à execução mentado, como em colinas dissecadas e morros baixos, de obras, pois tanto os declives como as amplitudes são morros e serras baixas e degraus estruturais. Agricultura Como se trata de um conjunto de camadas sub- horizontalizadas de composições diferentes, hoje dobradas e fraturadas, as características físico-químicas dos solos dependem de qual dos sedimentos se expõe na superfície e das características de relevo. Em terrenos de relevo suave ondulado (Formação Ramon), como colinas amplas e suaves, é possível que as características físico- químicas e, por consequência, a qualidade agrícola do solo, mantenham-se relativamente homogêneas. Em áreas de relevo mais movimentado, como colinas dissecadas e morros baixos, morros e serras baixas e degraus estruturais, é maior a possibilidade de aflorarem vários tipos de sedimentos ao longo do perfil das encostas; nesse caso, a textura do solo pode variar bastante de região para região e, por vezes, de local para local. Esses terrenos apresentam variação litológica signifi- cativa nas áreas de relevo movimentado e fraturado, o que se reflete na textura dos solos residuais, desde arenosa a argilosa, com respostas agrícolas bastante diferenciadas. Os solos residuais derivados de sedimentos arenosos são ácidos, permeáveis, de baixa fertilidade natural, de baixa capacidade hídrica, baixa capacidade de reter e fixas nutrientes e de assimilar matéria orgânica; respondem mal à adubação, têm alto potencial erosivo e perdem água Figura 15.109 - Desestabilização de talude em terreno declivoso rapidamente quando cessadas as chuvas. (arenitos da formação Moa expostos no rio Moa). Os solos residuais derivados de sedimentos síltico-ar- Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. gilosos, onde se intercalam arenitos, são menos permeáveis 269 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE e erosivos, têm melhor capacidade hídrica, melhor capaci- dade de reter e fixar nutrientes e melhor fertilidade natural do que os terrenos arenosos. Solos residuais derivados de conglomerados geralmente são pedregosos. Em terrenos de relevo mais pronunciado, predominam solos pouco profundos, sendo comuns exposições do subs- trato rochoso; são altamente suscetíveis a erosão hídrica. Já em terrenos de relevo constituído por colinas amplas e suaves, os solos são mais profundos e mais lixiviados. As unidades DSVMPasac e DSVMPsaa, onde predo- minam sedimentos síltico-argilosos, contendo ainda de forma subordinada sedimentos carbonáticos, requerem cuidado especial com um possível uso agrícola dos terrenos, devido à possibilidade de ligação direta entre os fluxos de água superficial e subterrâneo a partir da dissolução dos calcários, por onde poluentes agrícolas podem se infiltrar e alcançar o lençol aquoso subterrâneo. Os sedimentos carbonáticos, quando alterados, li- beram cálcio e magnésio, que conferem boa fertilidade natural aos solos residuais. Recursos hídricos Em terrenos predominantemente arenosos, convém que se considerem os fatores a seguir descritos. Esses terrenos constituem unidades sedimentares Figura 15.110 - Furo de sondagem da Petrobras, com jorro de granulometria entre areia e silte, fraturados, represen- permanente de água subterrânea levemente aquecida (arenitos da tando aquíferos granular e fissural de alta potencialidade formação Moa). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. hidrogeológica. Poços tubulares capazes de proporcionar vazões significativas de águas subterrâneas de boa quali- ao uso como saibro e cascalho; dade (Figura 15.110). - lentes de calcário nos sedimentos das formações Rio Esses terrenos têm boa capacidade armazenadora e Azul e Ramon, citadas por pesquisadores, configurando transmissora de água, bem como de recarga anual com possível importância geoeconômica; as chuvas sazonais, notadamente em litologias arenosas, - alta potencialidade para águas subterrâneas, com espessa bastante permeáveis. A intensa ação tectônica, fraturando coluna de sedimentos arenosos, permeáveis; os sedimentos, favorece a percolação de fluidos. - alta capacidade de recarga, devido ao elevado índice plu- Em áreas em que o relevo é mais pronunciado, o viométrico da região (> 2.500 mm anuais) e intenso fratu- escoamento superficial é rápido, com a maior parte das ramento dos sedimentos, frequentemente verticalizados. águas das chuvas escorrendo rapidamente para os canais de drenagem; por isso, são locais desfavoráveis à recarga Potencial geoturístico de águas subterrâneas. Em terrenos com predomínio de sedimentos síltico- Na região oeste do estado, desenvolve-se um conjunto -argilosos, a potencialidade hidrogeológica é menor, serrano bastante movimentado por eventos tectônicos, embora possuam maior capacidade hídrica, mantendo a com diferenças de cotas superiores a 600 m, denominado disponibilidade de água para as plantas no período seco. serra do Divisor. Essa serra contempla numerosos sítios de real interesse para a introdução do ecoturismo, estando Potencialidade mineral limitada, no entanto, pela precariedade do acesso, efetuado unicamente por via fluvial. Esse domínio é composto por sedimentos destituídos A área apresenta boa potencialidade para empreen- de maior importância geoeconômica atual, inexistindo dimentos geoturísticos, dada a incidência de numerosos ocorrências minerais caracterizadas. Entretanto, devem ser atrativos naturais (cânions, cachoeiras, corredeiras, piscinas consideradas as seguintes situações: naturais, cavernas, mirantes etc.), além de terrenos favo- - ambiência geológica favorável à prospecção de hidro- ráveis à implantação de um geoparque, a despeito de se carbonetos, areia e cascalho; tratar de uma região virtualmente despovoada (Figuras - sedimentos arenosos com manto de alteração favorável 15.111 a 15.115). 270 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Figura 15.113 - Cânion em arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.111 - Cachoeira do ar condicionado, instalada em arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.114 - Cavidade em arenitos da formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.115 - Conjunto serrano, constituído por sedimentos Figura 15.112 - Amplo paredão escarpado em arenitos da cretácicos, inserido no Parque Nacional da Serra do Divisor. formação Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. 271 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Essa região está totalmente inserida no Parque Nacio- Impactos ambientais nal da Serra do Divisor, criado pelo Decreto nº 97.839, de 16.06.1989, com o objetivo de preservação ambiental, por Esse domínio, protegido em sua quase totalidade por ser caracterizada como uma das maiores biodiversidades um parque nacional, não evidencia impactos ambientais da Amazônia, possuindo espécies endêmicas vegetais e significativos, observando-se apenas sítios pontuais, vin- animais. Como se situa próxima ao ecossistema andino, culados à ocupação eventual de ribeirinhos. Além disso, representa uma área de transição entre as terras baixas da constituem áreas inadequadas para ocupação, devido à ero- Amazônia e a cordilheira dos Andes. Na realidade, a serra sividade dos sedimentos arenosos e ao relevo acidentado. do Divisor consiste no seu primeiro contraforte oriental no Os sedimentos arenosos, por sua alta erosividade, extremo oeste do território brasileiro. constituem fonte de alta carga de detritos, que podem A natureza preservada da região, com restrita pene- assorear as drenagens. tração humana e condições acidentadas do relevo, favorece A forte declividade das elevações predispõe ao desli- a fauna diversificada e a flora exuberante, próprias da zamento natural das encostas, arrastando consigo solo e floresta amazônica. vegetação. A remoção da cobertura vegetal torna o solo A descoberta recente de fósseis de idade cretácica, exposto, geralmente pouco profundo, favorecendo a atu- contidos em sedimentos da Formação Moa, a partir de ação dos processos erosivos e a consequente instabilidade estudos desenvolvidos por pesquisadores da Universi- dos taludes (Figura 15.116). dade Federal do Acre, induz à realização de trabalhos geocientíficos nas áreas paleontológica e paleoambiental, capazes de mobilizar expedições científicas de procedên- cia distinta. Fontes poluidoras Por se tratar de área protegida legalmente e se ca- racterizar por um relevo bastante acidentado, o que difi- culta maior penetração, a existência de fontes poluidoras no âmbito desse domínio é considerada improvável, o que favorece a sua preservação ambiental. Além disso, a ocupação do entorno por ribeirinhos é muito esparsa, limitando-se esta à jusante do conjunto serrano, disposta em trechos dos rios que drenam esse relevo. A vulnerabilidade à contaminação das águas sub- terrâneas varia bastante de região para região e de local para local, dependendo do sedimento aflorante. Terrenos dominados por sedimentos e solos residuais argilossiltosos Figura 15.116 - Deslizamento de encosta em barrancas do rio Moa. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. (Formação Rio Azul) apresentam baixa permeabilidade e alta capacidade de reter e eliminar poluentes, conferindo baixo risco de contaminação às águas subterrâneas. Já em DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES sedimentos predominantemente arenosos (formações Moa PROTEROZOICAS DOBRADAS, e Divisor), o risco de contaminação está presente, devido METAMORFIZADAS DE BAIXO A ALTO GRAU à maior permeabilidade e baixa capacidade de reter e (DSP2) eliminar poluentes. Por estarem submetidos a intensa movimentação Essas coberturas são constituídas por diversos tipos tectônica, é alta a incidência de arenitos fraturados e de sedimentos depositados em ambientes marinho e con- bastante percolativos, os quais, em muitos locais, po- tinental e, mais restritamente, rochas vulcânicas dobradas dem aflorar ou situar-se próximos à superfície. Estes são e metamorfizadas de baixo a alto grau. locais em que as águas subterrâneas são diretamente recarregadas e, por isso, vulneráveis à contaminação. Elementos de Definição e Área de Pelas fraturas, os poluentes podem se infiltrar e al- Ocorrência cançar rapidamente as águas subterrâneas sem sofrer depuração. Trata-se de uma unidade geológica pouco conhe- Sedimentos carbonáticos, embora subordinados em cida, embora as primeiras referências datem da década algumas formações, são bastante suscetíveis à percolação de 1940 (MOURA; WANDERLEY, 1938), quando se relata de fluidos, sendo, portanto, vulneráveis a eventuais con- uma variação significativa de rochas metassedimentares taminantes. das mais diversas composições, texturas e deformações, 272 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO que se intercalam irregularmente, formando pacotes com bastante deformadas e fraturadas, com frequentes intru- grande heterogeneidade composicional. Entretanto, devido sões de rochas sieníticas e diques de quartzo queratófiro. à dificuldade de acesso e distância de núcleos urbanos, sua As litologias identificadas consistem em quartzitos, arenitos caracterização ainda permanece questionável. quartzíticos, metassiltitos e chert (Figura 15.118). A presença do fóssil braquiópode (Productus cora) Do ponto de vista estrutural, representa uma emersão sugere uma idade paleozoica para essa unidade litoestra- do Escudo Brasileiro, aflorando como uma janela estrutural tigráfica, por sua correlação com formações paleozoicas (CAPUTO, 1973) dentro dos sedimentos arenosos da For- da Amazônia portadoras desse fóssil; contudo, como as mação Moa e, por sua vez, intrudidos por rochas sieníticas informações não são conclusivas, sua idade permanece da unidade Sienito República. indefinida. No contexto geológico do estado do Acre, correspon- Esse domínio é constituído por terrenos sedimenta- de à Formação Formosa (LEITE, 1958). res antigos, submetidos às condições de dobramento e metamorfismo de baixo a médio grau, correspondendo à Formação Formosa. Ambientes geológicos semelhantes observados na Região Amazônica caracterizam um paleo- ambiente associado a uma bacia pull-apart, com ingresso de mar epicontinental de águas rasas. Os sedimentos desse domínio possuem distribuição bastante restrita, limitando-se a algumas exposições ao longo do igarapé Anil, afluente do rio Moa, situado no interior da serra do Divisor, no extremo noroeste do estado. O domínio DSP2 é representado pela unidade geológi- co-ambiental Intercalações Irregulares de Metassedimentos Arenosos e Síltico-Argilosos (DSP2msa) (Figura 15.117). Geologia Essa unidade é constituída por rochas metassedi- mentares psamopelíticas submetidas a metamorfismo de Figura 15.118 - Exposição de quartzitos. contato em condições de fácies albita-epidoto hornfels, Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.117 - Distribuição espacial da unidade geológico-ambiental definida no domínio DSP2 no estado de Acre. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. 273 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Formas de Relevo a áreas com alto potencial de erosão hídrica, devido à compartimentação morfológica. Ao se considerar o caráter restrito de ocorrências O predomínio de rochas arenosas (quartzitos, arenitos desse domínio, limitadas a algumas exposições no interior quartzíticos) revela a tendência de alteração para solos da serra do Divisor, dispostas ao longo do curso superior arenoquartzosos, que liberam poucos nutrientes, de baixa de drenagens afluentes da margem esquerda do rio Moa, fertilidade natural, excessivamente ácidos (liberam muito torna-se impraticável estabelecer formas de relevo especí- alumínio) e facilmente erosivos. Tais solos, por serem à base ficas da unidade, embora o relevo observado no entorno de quartzo, apresentam baixa capacidade para reter e fixar seja constituído por um conjunto serrano – Domínio de elementos e assimilar matéria orgânica; geralmente, são bas- Morros e de Serras Baixas (20). tante permeáveis, por isso, difíceis de serem corrigidos, pois, quando adubados, não fixam os nutrientes. Caracterizam-se Características, Adequabilidades e pela baixa capacidade hídrica, ou seja, quando chove ou são Limitações Frente ao Uso e à Ocupação irrigados quase não retêm água, o que os torna inadequados para culturas de ciclo curto e plantas de raízes curtas. Obras de engenharia Os solos argilosos ou argilossiltosos (metassiltitos) são pouco permeáveis. Apresentam boa capacidade de reter, As observações pertinentes a esse domínio sugerem fixar e assimilar nutrientes e de incorporar matéria orgânica, que as rochas, compostas por intercalações irregulares de respondendo bem à adubação. camadas ou lentes de distintas espessuras, de composição mineral e textura bastante diferentes, foram submetidas a Recursos hídricos intensa deformação e metamorfismo, o que implica carac- terísticas geotécnicas e hidráulicas diferenciadas, tanto na Em terrenos constituídos pelo domínio DSP2, bastante vertical como na horizontal. Dessa forma, são portadoras afetados por metamorfismo e deformação, a porosidade de muitas descontinuidades geomecânicas e hidráulicas primária das rochas encontra-se prejudicada pela recrista- relacionadas a falhas e fraturas de diversas direções, além da lização metamórfica; além disso, as rochas ocorrem sob xistosidade, sendo comuns diques de quartzo queratófiro a forma de camadas ou lentes, diferentemente dobradas variáveis em espessuras e intrusões sieníticas. e tectonizadas, com características hidrodinâmicas muito Em consequência, esses terrenos são suscetíveis a risco diferentes uma das outras, formando um sistema hidroló- de desestabilização e ocorrência de surgência de água em gico complexo e bastante heterogêneo. Nessas áreas, as taludes de corte, uma vez que tais descontinuidades se águas subterrâneas circulam e se armazenam em falhas e comportam como superfícies percolativas. Por outro lado, fraturas, ou seja, são aquíferos do tipo fissural. Salienta-se os dobramentos superimpostos às camadas produzem que, dada a complexidade estrutural-textural, são terrenos mergulhos variáveis de local para local, de verticalizado a com possibilidades restritas para conter bons depósitos horizontalizado, podendo comprometer a estabilidade dos de água subterrânea, exceção feita quando relacionados taludes quando forem desfavoráveis ao corte. a armadilhas e barreiras hidrogeológicas formadas pelas Apresentam alta resistência ao corte e à penetração e mudanças abruptas entre litologias de características hi- boa capacidade de suporte. A profundidade do substrato drodinâmicas distintas e outras descontinuidades ou arma- rochoso é bastante irregular. dilhas estruturais relacionadas a dobras, falhas e fraturas. O potencial hidrogeológico é variável de local para local, Agricultura dependendo da existência de fraturas abertas, de sua distri- buição, tamanho, densidade, interconectividade entre elas No planejamento do uso agrícola, deve-se levar em e clima local (porosidade secundária), favorecido na região conta que todos os terrenos desse domínio são sustenta- pela alta precipitação pluviométrica em boa parte do ano. dos por diversos tipos de litologias. Isso significa que as características dos solos podem variar bastante de região Potencialidade mineral para região, ou mesmo de local para local, dependendo de qual das litologias predomina e é aflorante. Essa variação O conhecimento restrito sobre esse domínio geoam- se acentua nas áreas em que as sequências se encontram biental impossibilita uma melhor definição de sua poten- bastante deformadas e/ou dobradas, como nas exposições cialidade mineral. observadas no igarapé Anil. Há de se considerar, ainda, que o relevo acidentado da Potencial geoturístico região, onde os processos pedogenéticos se desenvolvem de forma bastante diferenciada, contribui para a variabili- O Parque Nacional da Serra do Divisor, no qual está dade dos solos. É lícito supor que nessas regiões os solos inserido o domínio DSP2, exibe um potencial geoturístico apresentam grandes diferenciações locais de espessura e impressionante. Além da exuberante biodiversidade, onde de características físico-químicas. Correspondem, também, se observam fauna e flora diversificadas, é pródigo em 274 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO paisagens naturais fascinantes, graças ao modelado ge- omorfológico serrano, capaz de propiciar a formação de sítios atraentes (cachoeiras, corredeiras, piscinas naturais, mirantes etc.). Por outro lado, pelas restrições de acesso, inviabiliza a ocupação humana, favorecendo a preservação da natureza primitiva e impactante. O domínio DSP2 mantém esse cenário mesmo em escala geográfica reduzida, destacando-se a imponente cachoeira Formosa, também composta por rochas sieníti- cas que se dispõem em longo trecho do rio Anil (Figuras 15.119 a 15.121). Figura 15.121 - Curso médio do rio Anil. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Fontes poluidoras O potencial de contaminação da região por fontes poluidoras, principalmente dos recursos hídricos, é praticamente inexistente, seja pela proteção legal da área, seja pela baixa densidade demográfica da bacia do rio Moa. A vulnerabilidade dessas rochas à contaminação é variável de região para região, às vezes, de local para local, desde baixa a alta, em função da irregularidade da distribuição das litologias e de sua capacidade de reter e Figura 15.119 - Cachoeira Formosa (rio Anil): primeira queda. depurar poluentes. Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Impactos ambientais A área desse domínio localiza-se a uma distância superior a 10 km do rio Moa, dificul- tando o acesso mais contínuo, que é efetuado por um caminho precário no interior da mata nativa. Dessa forma, não foram observados impactos ambientais, estando totalmente preservado o meio ambiente natural, que é visitado eventualmente por moradores da região ou turistas regionais. DOMÍNIO DOS COMPLEXOS ALCALINOS INTRUSIVOS E EXTRUSIVOS DIFERENCIADOS DO PALEÓGENO, MESOZOICO E PROTEROZOICO (DCA) Corresponde aos terrenos sustentados pelas rochas magmáticas alcalinas do Sienito República (BARROS et al., 1977), representa- Figura 15.120 - Cachoeira Formosa (rio Anil): segunda queda. dos, principalmente, por quartzo-sienitos e Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. quartzo-traquitos. 275 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Elementos de Definição O Sienito República é constituído, predominantemen- e Área de Ocorrência te, por quartzo-sienitos e quartzo-traquitos. Os primeiros apresentam estrutura isotrópica, granulação média e Compreende pequenas exposições de rochas intrusivas cor avermelhada; os quartzo-traquitos estão geralmente nas bacias dos igarapés Anil, Capanaua, Índio, Coronel e alterados, com coloração rósea, exibindo fenocristais República, localizadas no extremo noroeste do estado do euedrais de feldspato alcalino imersos em matriz fina Acre e abrangidas pelo município de Mâncio Lima, próximo à (Figura 15.125). fronteira internacional com o Peru. Constitui uma unidade ge- ológica ainda pouco conhecida, apesar de ter sido identificada há várias décadas; a localização geográfica e o acesso precário dificultam uma observação mais definitiva e detalhada. Essas pequenas exposições foram incluídas na unidade geológico-ambiental Série Alcalina Saturada e Alcalina Subsaturada (sienito, quartzo-sienitos, traquitos, nefelina- -sienito, sodalita-sienito etc.) (DCAalc) (Figura 15.122). Geologia A representatividade espacial do Sienito República foi caracterizada em dois sítios distintos: (i) bacia dos igarapés Capanaua, Índio, Coronel e República, na forma de corpos intrusivos contornados por sedimentos da Formação Soli- mões, ocupando terrenos colinosos baixos e dissecados, de pouca amplitude de relevo (Figura 15.123); (ii) alto curso do igarapé Anil, na forma de corpos intrusivos nos sedimentos metamorfizados e dobrados da Formação Formosa, dispos- tos no interior da serra do Divisor, de relevo extremamente Figura 15.123 - Matacões de sienitos. movimentado (Figura 15.124). Fotografia: Gil Barreto, 2011. Figura 15.122 - Distribuição espacial da unidade geológico-ambiental definida no domínio DCA no estado do Acre. Fonte: Elaborado por Amilcar Adamy, 2013. 276 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Figura 15.124 - Lajeado de rochas sieníticas (alto curso do rio Anil). Fotografia: Amilcar Adamy, 2011. Figura 15.126 - Morrote residual de sienito, pouco realçado no relevo. Fotografia: Gil Barreto, 2011. Características, Adequabilidades e Limitações Frente ao Uso e à Ocupação Obras de engenharia Esses terrenos apresentam mais limitações do que adequabilidades geotécnicas para seu aproveitamento, seja do ponto de vista do substrato rochoso, seja com relação à precariedade de acesso e distância de centros consumidores. São rochas de textura maciça, isótropas, de boa homogeneidade geomecânica lateral e vertical, alta resistência à compressão, alta capacidade de suporte e características físico-químicas adequadas para utilização na produção de brita. Por outro lado, possuem alto grau Figura 15.125 - Amostra de quartzo-sienito (sienito República). de coesão, com alta resistência ao corte e à penetração, Fotografia: Gil Barreto, 2011. sendo necessário o uso de explosivos para desmontá-las. Alteram-se de forma heterogênea, deixando blocos e ma- Datações geocronológicas efetuadas em rochas sie- tacões em meio ao solo que podem se desestabilizar em níticas indicam uma idade posicionada no intervalo entre taludes de corte e em obras assentadas sobre eles (Figura 100-300 Ma (TASSINARI; TEIXEIRA, 1976). Esses autores 15.127); em alguns sítios se encontram bem preservadas usaram métodos Rb/Sr muito imprecisos (duas datações) do intemperismo, onde o substrato rochoso aflora ou se e K/Ar, mais preciso, com idades bem distintas a partir de situa a baixas profundidades, características que as tornam elevado erro analítico. problemáticas para execução de escavações e implantação de obras, tanto superficiais como subterrâneas, implicando, Formas de Relevo também, custos elevados, tanto na fase de planejamento como na de execução das obras; Esse domínio, de restrita distribuição, caracteriza-se São rochas geralmente fraturadas, que se alteram por uma feição morfológica pouco expressiva, constituin- para solos argilosos. Pelas características do relevo, o solo do morrotes residuais, de forma grosseiramente circular, deve ser pouco espesso, ou seja, sem espessura suficiente ilhados e pouco realçados em meio ao domínio colinoso para proteger as águas subterrâneas da contaminação, o formado por depósitos fluviolacustres da Formação que implica cuidados extremos em caso de instalação de Solimões (Figura 15.126). Ocorre também em corpos obras destinadas ao armazenamento ou à circulação de intrusivos dispostos no interior da serra do Divisor, ca- produtos poluentes. As bordas dos corpos intrusivos são racterizado pela forma de relevo Domínio de Morros e portadoras de maior densidade de fraturas e de textura de Serras Baixas (21). foliada, facilitando a ação intempérica. 277 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Um eventual aproveitamento agrícola desses solos é restringido por condições topográficas dominantes, con- texto ambiental de vegetação nativa preservada e reduzida distribuição espacial. Recursos hídricos De modo geral, são terrenos com baixa potencialida- de hidrogeológica, considerando-se que a configuração morfológica de morros residuais, com declives muitas vezes acentuados, favorece o escoamento superficial rá- pido, representando terrenos desfavoráveis à retenção e à infiltração das águas das chuvas e com potencial muito baixo de recarga das águas subterrâneas. Além disso, essa configuração morfológica de morros ilhados em meio ao relevo colinoso suave predominantemente argiloso da Figura 15.127 - Matacões de rochas sieníticas. Formação Solimões induz a uma baixa taxa de infiltração Fotografia: Ivan B. de Oliveira Filho, 2011. das águas pluviométricas. Em geral, são terrenos constituídos por rochas fratu- Agricultura radas, em que as fraturas são irregularmente distribuídas, abertas e dispostas em várias direções e com diferentes São terrenos com limitações ao uso agrícola, conside- ângulos de mergulho. Configuram-se aquíferos do tipo rando-se os fatores descritos a seguir. fissural, porém com potencial de explotação bastante Ocorrem sob a forma de morrotes isolados, em meio irregular, dependendo (i) de o poço cruzar fraturas e elas ao relevo colinoso suave dos sedimentos da Formação Soli- serem abertas para a água se armazenar e circular; (ii) da mões (unidade DCM) ou no interior da serra do Divisor, em densidade que as fraturas ocorrem e se estão interligadas. geral com solos rasos ou inexistentes e com rochosidade Por isso, é muito comum que nesse tipo de aquífero um elevada, características que os tornam inadequados ao uso poço dê excelente vazão, enquanto outro, nas imediações, de implementos agrícolas motorizados. Tal configuração seja seco. Entretanto, são comuns os preenchimentos das morfológica faz com que pouca água se infiltre no sub- fraturas abertas por diversos materiais, reduzindo a favo- solo e o escoamento superficial seja rápido e flua para as rabilidade hidrogeológica. drenagens próximas. Em terrenos densamente fraturados e com desconti- O uso agrícola desses terrenos, sem levar em con- nuidades estruturais, como nas bordas dos corpos rochosos sideração tais características, pode acarretar perda do intrusivos, é maior a possibilidade de acumulação de águas pouco de solo que existe e carreá-lo para as drenagens, subterrâneas. assim como os poluentes agrícolas. Por outro lado, os Os solos residuais, quando espessos e de pedogênese sedimentos da Formação Solimões, dominantes em seu pouco avançada, podem constituir aquíferos superficiais entorno, são predominantemente argilosos, com baixa aproveitáveis. taxa de infiltração. Trata-se de rochas que se alteram para solos argilosos Potencialidade mineral ou argilossiltosos, bastante porosos, com alta capacidade hídrica e alta capacidade de reter, fixar nutrientes e assimilar Ambientes geológicos semelhantes identificados em matéria orgânica; portanto, respondem bem à adubação e outras regiões do país exibem favorabilidade à prospecção mantêm boa disponibilidade de água para as plantas por de fosfatos, nióbio, titânio e terras-raras. Entretanto, em longo tempo dos períodos mais secos. território acreano, a potencialidade mineral desse domínio São de baixa erosividade natural, mas, se submetidos é pouco conhecida, devido à escassez de dados geológicos a cargas elevadas contínuas, como, por exemplo, pisote- mais consistentes, associada à sua localização espacial e amento de gado e uso de maquinários de grande porte, acesso precário. compactam-se, impermeabilizam-se e sofrem erosão la- Rochas alcalinas apresentam características físico- minar acentuada. químicas e colorações favoráveis para explotação como No processo de alteração, essas rochas, à base de brita e rocha ornamental; nesse último caso, favorecida pela feldspato alcalino e com minerais ferromagnesianos como existência de blocos e matacões. Essas rochas poderiam se acessórios, liberam potássio e alumínio. Pelas condições constituir em importante fonte de matéria-prima para brita, de relevo, é de se esperar que os solos que ocorrem nesse dada a dificuldade de obtenção desse insumo industrial domínio, em sua maioria, sejam pouco evoluídos, portanto, na região, obrigada a importá-la de distâncias superiores podem apresentar boa fertilidade natural. a mil quilômetros. 278 GEODIVERSIDADE: ADEQUABILIDADES / POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES FRENTE AO USO E À OCUPAÇÃO Potencial geoturístico vegetação e uso potencial da terra. Rio de Janeiro: DNPM, 1977. p. 17-101. 420 p. (Levantamento de Os atrativos naturais identificados nesse domínio Recursos Naturais, 13). vinculam-se ao conjunto de cachoeiras e corredeiras do curso médio a superior do rio Anil, drenando pelo interior CAPUTO, M.V. Relatório preliminar de exploração da serra do Divisor, onde as litologias do Sienito República da bacia do Acre. Belém: PETROBRAS, 1973. (Relatório ocorrem associadas aos sedimentos da Formação Formo- Técnico Interno, 665-A). sa, dos quais deriva a denominação atribuída a esse sítio geoturístico. Constitui um conjunto de cachoeiras cujo CAVALCANTE, L.M. Geologia do estado do Acre. desnivelamento total supera 30 m de altura, trechos de In: ACRE. Secretaria de Estado de Meio Ambiente. corredeiras e pequenas quedas alcançando extensão lon- Recursos naturais: fase II: geologia, geomorfologia e gitudinal superior a 1.000 m, além de numerosas piscinas solos do Acre. Rio Branco: SEMA, 2010. p. 10-29. Escala naturais, inseridas em meio a luxuriante vegetação tropical 1:250.000. (Coleção temática do ZEE Acre, 2). amazônica. CPRM. Carta geológica do Brasil ao milionésimo. Fontes poluidoras Sistema de Informações Geográficas (SIG). Brasília, DF: CPRM, 2004. Escala 1:1.000.000. 41 CD-ROMs. Embora isenta de qualquer atividade potencialmen- Programa Geologia do Brasil. te contaminante, deve sempre se fazer presente a con- dição fraturada do substrato rochoso e, em geral, com CPRM. Mapa geodiversidade do Brasil. Brasília, DF: manto de intemperismo raso ou inexistente; portanto, CPRM, 2006. Legenda expandida. Escala 1:2.500.000. são terrenos bastante vulneráveis à contaminação das águas subterrâneas. Neles, é preciso ter cuidado com DUARTE, K.S. Levantamentos exploratórios da ANP na a instalação de fontes potencialmente poluidoras, pois bacia do Acre. Revista Técnico-Científica da ANP, n. elas podem migrar pelas fraturas e alcançar as águas 1, p. 4-33, 2011. subterrâneas ou se espalhar e dispersar, fluindo para a bacia do rio Moa. HOORN, C.; GUERRERO, J.; SARMIENTO, G.A.; LORENTE, Em particular, as bordas de corpos rochosos intrusivos M.A. Andean tectonics as a cause for changing drainage se caracterizam por maior densidade de fraturas e textura patterns in Miocene northern South America. Geology, foliada, capazes de potencializar a infiltração de poluentes, v. 23, n. 3, p. 234-240, 1995. além de facilitar a ação intempérica; LATRUBESSE, E.M.; BOCQUENTIN, J.; SANTOS, J.C.R.; Impactos ambientais RAMONELL, C.G. Paleoenvironmental model for the late Cenozoic of southwestern Amazonia: paleontology O registro de impactos ambientais em terrenos do- and geology. Acta Amazonica, v. 27, n. 2, p. 103-118, minados por essa unidade é inexistente, sem remoção da 1997. cobertura vegetal nativa ou ocupação humana, devido à sua inserção parcial em área de proteção ambiental – Par- LATRUBESSE, E.M.; COZZUOI, M. da; SILVA-CAMINHA, que Nacional da Serra do Divisor –, além de precariedade S.A.F.; RIGSBY, C.A. The late Miocene paleogeography de acesso e distância de núcleos urbanos. of the Amazon basin and the evolution of the Amazon A remoção da cobertura vegetal nativa, se presente, river system. Earth-Science Reviews, v. 99, p. 99-124, potencializará a intermitência da rede de drenagem, ge- 2010. rando nascentes secas nos períodos de estiagem. LATRUBESSE, E.M.; SILVA, S.A.F. da; COZZUOL, M.; REFERÊNCIAS ABSY, M.L. Late Miocene continental sedimentation in southwestern Amazonia and its regional significance: BAHIA, R.B.C. Contexto geológico da bacia do Acre. In: biotic and geological evidence. Journal of South ADAMY, A. (Org.). Geodiversidade do estado do American Earth Sciences, v. 23, p. 61-80, 2007. Acre. Porto Velho: CPRM, 2014. Cap. 2. No prelo. LEITE, D.C. Detailed geologic investigations of northwestern território do Acre (serra do Moa, BARROS, A.M.; ALVES, E.D. de O.; ARAÚJO, J.F.V.; Jaquirana, headwaters of rio Javari). Belém: LIMA, M.I.C. de; FERNANDES, C.A.C. Geologia. In: PETROBRAS, 1958. (Relatório técnico interno, 281-A). BRASIL. Departamento Nacional de Produção Mineral. Projeto RADAMBRASIL. Folhas SB/SC.18 Javari/ MAIA, R.G.N.; GODOY, H. de O.; YAMAGUTI, H.S.; Contamana: geologia, geomorfologia, pedologia, MOURA, P.A.; COSTA, F.S.F. da; HOLANDA, M.A.; 279 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE COSTA, J.A. Projeto carvão no alto Solimões: do Brasil: conhecer o passado, para entender o relatório final. Manaus: CPRM; DNPM, 1977. presente e prever o futuro. Rio de Janeiro: CPRM, 2008. . Cap. 13. p. 181-202. MOURA, P. de, WANDERLEY, A. Noroeste do Acre: reconhecimentos geológicos para petróleo. Rio de TASSINARI, C.G.; TEIXEIRA, W. Estudos Janeiro: DNPM-DFPM, 1938. 176 p. il. (Boletim, 26). geocronológicos da parte norte da folha SA.19 Içá. Belém: Projeto RADAMBRASIL, 1976. (Relatório Interno). RÄSÄNEN, M. et al. Geologia y geomorfologia de la zona de Iquitos. In: KALLIOLA, R.; PAITÁN, S.F. (Ed.). THEODOROVICZ, A.M. de G.; CANTARINO, S. da C.; Geoecologia y desarrollo amazônico: estudio THEODOROVICZ, A. Projeto Curitiba: atlas de uso e integrado em la zona de Iquitos, Peru. Turun: Turun ocupação do solo da região metropolitana de Curitiba Yliopiston Julkaisuja, 1998. p. 59-137. (Annales e problemas ambientais relacionados. São Paulo: CPRM, Universitatis Turkuensis, A II). 1999. 14 p. Programa Informações para Gestão Territorial. SILVA, C.R. da; MARQUES, V.J.; DANTAS, M.E.; THEODOROVICZ, A.M.G.; THEODOROVICZ, A. (Org.). SHINZATO, E. Aplicações múltiplas do conhecimento da Geodiversidade do estado de Mato Grosso do Sul. geodiversidade. In: SILVA, C.R. da (Ed.). Geodiversidade São Paulo: CPRM, 2010. 179 p. 280 APÊNDICE I UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO APÊNDICE I - UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD. GEOLÓGICO-AMBIENTAL DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD. UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Ambiente de planícies aluvionares recentes – Material inconsolidado e de espessura variável. DCa Da base para o topo, é formado por cascalho, areia e argila. Ambiente de terraços aluvionares – Material inconsolidado a semiconsolidado, de espessura DCta variável. Da base para o topo, é formado por cascalho, areia e argila. Ambiente fluviolacustre – Predomínio de sedimentos arenosos, intercalados com camadas DCfl argilosas, ocasionalmente com presença de turfa. Ex.: Fm. Içá. DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS INCONSOLIDADOS OU POUCO CONSOLIDADOS, DC Ambiente lagunar – Predomínio de sedimentos DCl DEPOSITADOS EM MEIO AQUOSO. argilosos. Ambiente paludal – Predomínio de argilas DCp orgânicas e camadas de turfa. Ambiente marinho costeiro – Predomínio DCmc de sedimentos arenosos. Ambiente misto (Marinho/Continental) – Intercalações irregulares de sedimentos arenosos, DCm argilosos, em geral ricos em matéria orgânica (mangues). Colúvio e tálus – Materiais inconsolidados, DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS DCICT de granulometria e composição diversa DCICT INCONSOLIDADOS DO TIPO COLUVIÃO E TÁLUS. proveniente do transporte gravitacional. DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS INDIFERENCIADOS CENOZOICOS RELACIONADOS A RETRABALHAMENTO DE OUTRAS ROCHAS, GERALMENTE ASSOCIADOS A SUPERFÍCIES Relacionado a sedimentos retrabalhados DE APLAINAMENTO. DCSR de outras rochas – Coberturas DCSR arenoconglomeráticas e/ou síltico-argilosas Obs.: Engloba as coberturas que existem na associadas a superfícies de aplainamento. zona continental e representam uma fase de retrabalhamento de outras rochas que sofreram pequeno transporte em meio não aquoso ou pouco aquoso. DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS PROVENIENTES DA ALTERAÇÃO DE ROCHA IN SITU COM GRAU DE ALTERAÇÃO VARIANDO DCEL Sedimentos eluviais. DCEL DE SAPRÓLITO A SOLO RESIDUAL, EXCETO AS LATERITAS. DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS DCB Plataforma continental – recifes. DCBr BIOCLÁSTICOS. DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS DCE Dunas móveis – Material arenoso inconsolidado. DCEm EÓLICOS. 3 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS DCE Dunas fixas – Material arenoso fixado DCEf EÓLICOS. pela vegetação. Depósitos fluviais antigos – Intercalações DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS DCF de níveis arenosos, argilosos, siltosos DCFa SEMICONSOLIDADOS FLUVIAIS. e cascalhos semiconsolidados. Ex.: Formação Pariquera-Açu. Depósitos detrito-lateríticos – Provenientes de processos de lateritização em rochas DCDL de composições diversas sem a presença de DOMÍNIO DAS COBERTURAS CENOZOICAS crosta.DCDL DETRITO-LATERÍTICAS. Horizonte laterítico in situ – Proveniente de processos de lateritização em rochas DCDLi de composições diversas formando crosta. Ex.: Crostas ferruginosas. Depósitos detrito-carbonáticos – Provenientes DOMÍNIO DAS COBERTURAS CENOZOICAS DCDC de processos de lateritização em rochas DCDC DETRITO-CARBONÁTICAS. carbonáticas. Ex.: Formação Caatinga. Predomínio de sedimentos arenosos. Ex.: Sedimentos associados a pequenas bacias continentais do tipo rift, como as bacias de DCMRa Curitiba, São Paulo, Taubaté, Resende, dentre outras. DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS E/OU MESOZOICOS POUCO A MODERADAMENTE DCMR CONSOLIDADOS, ASSOCIADOS A PEQUENAS Predomínio dos sedimentos síltico-argilosos. DCMRsa BACIAS CONTINENTAIS DO TIPO RIFT. Calcários com intercalações síltico-argilosas. DCMRcsa Ex.: Formação Tremembé. Alternância irregular entre camadas de DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS DCT sedimentos de composição diversa (arenito, POUCO A MODERADAMENTE CONSOLIDADOS, DCT siltito, argilito e cascalho). ASSOCIADOS A TABULEIROS. Ex.: Formação Barreiras. Predomínio de sedimentos arenoargilosos e/ou síltico-argilosos de deposição continental lacustrina deltaica, ocasionalmente com presença DCMld DOMÍNIO DOS SEDIMENTOS CENOZOICOS de linhito. E/OU MESOZOICOS POUCO A MODERADAMENTE DCM Ex.: Formação Solimões. CONSOLIDADOS, ASSOCIADOS A PROFUNDAS E EXTENSAS BACIAS CONTINENTAIS. Predomínio de sedimentos arenosos de deposição continental, lacustre, fluvial ou eólica – arenitos. DCMa Ex.: Formação Urucuia. Predomínio de calcário e sedimentos DSMc síltico-argilosos. DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES Predomínio de sedimentos quartzoarenosos e MESOZOICAS CLASTOCARBONÁTICAS DSM conglomeráticos, com intercalações DSMqcg CONSOLIDADAS EM BACIAS DE MARGENS de sedimentos síltico-argilosos e/ou calcíferos. CONTINENTAIS (RIFT). Predomínio de sedimentos síltico-argilosos, com alternância de sedimentos arenosos DSMsa e conglomeráticos. 4 APÊNDICE I - UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD. CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD. GEOLÓGICO-AMBIENTAL DOMÍNIOUNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Intercalações de sedimentos síltico-argilosos DSMsaq DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES e quartzoarenosos. MESOZOICAS CLASTOCARBONÁTICAS DSM CONSOLIDADAS EM BACIAS DE MARGENS CONTINENTAIS (RIFT). Intercalação de sedimentos síltico-argilosos DSMscv e camadas de carvão. Predomínio de sedimentos quartzoarenosos finos, com cimentação carbonática e intercalações DOMÍNIO DAS COBERTURAS SEDIMENTARES subordinadas síltico-argilosas (ambientes MESOZOICAS (CRETÁCEAS), POUCO DSMCefdeposicionais: eólico e/ou eólico/fluvial). A MODERADAMENTE CONSOLIDADAS Ex.: Formações Goio-Erê, Araçatuba, Presidente DSMC Prudente. Ex.: Grupo Bauru (formações Vale do Rio do Peixe, Marília, Rio Paraná, São José do Rio Preto) e Grupo Predomínio de sedimentos quartzoarenosos finos Caiuá (formações Santo Anastácio e Goio-Erê). (ambiente deposicional eólico). DSMCe Ex.: Formações Vale do Rio do Peixe, Rio Paraná e São José do Rio Preto. Predomínio de sedimentos arenosos DSVMPa malselecionados. Predomínio de espessos pacotes de arenitos de deposição eólica. DSVMPae Ex.: Arenito Botucatu. Predomínio de espessos pacotes de arenitos de deposição mista (eólica e fluvial). DSVMPaef Ex.: Fm. Rio do Peixe, Fm. Caiuá. Predomínio de arenitos e conglomerados. DSVMPacg DOMÍNIO DAS COBERTURAS SEDIMENTARES E VULCANOSSEDIMENTARES MESOZOICAS Predomínio de arenitos a arenitos cauliníticos. DSVMPac E PALEOZOICAS, POUCO A MODERADAMENTE Ex.: Fm. Alter do Chão. CONSOLIDADAS, ASSOCIADAS A GRANDES DSVMP E PROFUNDAS BACIAS SEDIMENTARES DO TIPO SINÉCLISE (AMBIENTES DEPOSICIONAIS: Intercalações de sedimentos arenosos, CONTINENTAL, MARINHO, DESÉRTICO, GLACIAL síltico-argilosos e folhelhos. DSVMPasaf E VULCÂNICO). Ex: Formação Itararé. Predomínio de sedimentos síltico-argilosos DSVMPsaa com intercalações arenosas. Predomínio de arenitos vulcanoclásticos DSVMPav (tufos cineríticos). Predomínio de sedimentos síltico-argilosos DSVMPsaacv e arenosos, contendo camadas de carvão. Intercalações de paraconglomerados (tilitos) DSVMPcgf e folhelhos. 5 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Predomínio de sedimentos síltico-argilosos e calcários com intercalações arenosas DSVMPsaca subordinadas. Intercalações irregulares de sedimentos arenosos, DSVMPasac síltico-argilosos e calcários. Intercalações irregulares de sedimentos arenosos e síltico-argilosos com finas camadas DSVMPasaec de evaporitos e calcários. DOMÍNIO DAS COBERTURAS SEDIMENTARES E VULCANOSSEDIMENTARES MESOZOICAS Predomínio de rochas calcárias intercaladas DSVMPcsa E PALEOZOICAS, POUCO A MODERADAMENTE com finas camadas síltico-argilosas. CONSOLIDADAS, ASSOCIADAS A GRANDES DSVMP E PROFUNDAS BACIAS SEDIMENTARES DO TIPO SINÉCLISE (AMBIENTES DEPOSICIONAIS: Arenitos, conglomerados, tilitos e folhelhos. CONTINENTAL, MARINHO, DESÉRTICO, GLACIAL DSVMPactfEx.: Grupo Curuá. E VULCÂNICO). Arenitos, conglomerados, siltitos, folhelhos e calcário. DSVMPacsfc Ex.: Grupo Alto Tapajós. Predomínio de sedimentos síltico-argilosos intercalados de folhelhos betuminosos e calcários. DSVMPsabc Ex.: Formação Irati. Predomínio de arenitos e intercalações de pelitos. DSVMPap Ex.: Formação Utiariti. Predomínio de rochas básicas intrusivas. DVMgd Predomínio de rochas básicas extrusivas (basaltos). DVMb DOMÍNIO DO VULCANISMO FISSURAL DO TIPO PLATÔ DVM Predomínio de basalto com intertraps Ex.: Basaltos das bacias do Paraná e Maranhão, DVMba subordinados de arenito. Diques Básicos; Basalto Penetecaua, Kumdku do Mesozoico; Formação Seringa, de idade mesoproterozoica. Predomínio de rochas ácidas (riolitos DVMrrd e/ou riodacitos). Predomínio de rochas intermediárias (dacitos, DVMdaba andesitos e/ou basaltos andesíticos). DOMÍNIO DOS COMPLEXOS ALCALINOS INTRUSIVOS E EXTRUSIVOS, DIFERENCIADOS DO PALEÓGENO, MESOZOICO E PROTEROZOICO. DCA Indeterminado. DCAin Ex.: Alcalinas do Lineamento de Cabo Frio, Lajes. 6 APÊNDICE I - UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Tufo, brecha e demais materiais piroclásticos. DCAtbr Série subalcalina (monzonitos, DCAsbalc quartzomonzonitos, mangeritos etc.). DOMÍNIO DOS COMPLEXOS ALCALINOS INTRUSIVOS E EXTRUSIVOS, DIFERENCIADOS Série alcalina saturada e alcalina subsaturada DO PALEÓGENO, MESOZOICO E PROTEROZOICO. DCA (sienito, quartzossienitos, traquitos, nefelina DCAalc sienito, sodalita sienito etc.). Ex.: Alcalinas do Lineamento de Cabo Frio, Lajes. Gabro, anortosito, carbonatito, dique DCAganc de lamprófiro. Série alcalina saturada e/ou subsaturada, DCAalcubu com rochas básicas e/ou ultrabásicas associadas. Predomínio de rochas sedimentares. DSVEs DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES E VULCANOSSEDIMENTARES DO EOPALEOZOICO, ASSOCIADAS A RIFTS, NÃO OU POUCO DSVE Sequência vulcanossedimentar. DSVEvs DEFORMADAS E METAMORFIZADAS. Ex.: Grupo Camaquã, Fm. Campo Alegre Predomínio de vulcânicas. DSVEv DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES PROTEROZOICAS DO TIPO MOLASSA, NÃO Predomínio de metaconglomerados intercalados OU POUCO DEFORMADAS E METAMORFIZADAS DSPM de metarenitos arcoseanos, metarcóseos DSPMcgas e metassiltitos. Ex.: Formação Camarinha Indiferenciado DSP1in DOMÍNIO DAS COBERTURAS SEDIMENTARES Predomínio de sedimentos arenosos PROTEROZOICAS, NÃO OU MUITO e conglomeráticos, com intercalações DSP1acgsa POUCO DOBRADAS E METAMORFIZADAS. subordinadas de sedimentos síltico-argilosos. CARACTERIZADAS POR UM EMPILHAMENTO DE CAMADAS HORIZONTALIZADAS E SUB-HORIZONTALIZADAS DE VÁRIAS ESPESSURAS, Intercalações irregulares de sedimentos arenosos, DE SEDIMENTOS CLASTOQUÍMICOS DE VÁRIAS DSP1 síltico-argilosos e formações ferríferas DSP1asafmg COMPOSIÇÕES E ASSOCIADOS AOS MAIS e manganesíferas. DIFERENTES AMBIENTES TECTONODEPOSICIONAIS. Ex.: Fms. Palmeiral, Aguapeí, Dardanelos, Predomínio de sedimentos síltico-argilosos, com Prosperança, Ricardo Franco, Roraima, Beneficente, intercalações subordinadas de arenitos DSP1saagr Jacadigo e Cuiabá. e metarenito feldspático. Rochas calcárias com intercalações subordinadas DSP1csaa de sedimentos síltico-argilosos e arenosos. 7 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO DOMÍNIO DAS COBERTURAS SEDIMENTARES Diamictitos, metarenitos feldspáticos, sedimentos PROTEROZOICAS, NÃO OU MUITO DSP1dgrsaarenosos e síltico-argilosos. POUCO DOBRADAS E METAMORFIZADAS. CARACTERIZADAS POR UM EMPILHAMENTO DE CAMADAS HORIZONTALIZADAS E SUB-HORIZONTALIZADAS DE VÁRIAS ESPESSURAS, Predomínio de sedimentos síltico-argilosos DE SEDIMENTOS CLASTOQUÍMICOS DE VÁRIAS DSP1 com intercalações subordinadas de rochas DSP1sac COMPOSIÇÕES E ASSOCIADOS AOS MAIS calcárias. DIFERENTES AMBIENTES TECTONODEPOSICIONAIS. Ex.: Fms. Palmeiral, Aguapeí, Dardanelos, Predomínio de sedimentos síltico-argilosos, Prosperança, Ricardo Franco, Roraima, Beneficente, com intercalações de arenitos. DSP1saa Jacadigo e Cuiabá. Ex.: Formação Suapi e Supergrupo Roraima. Predomínio de vulcanismo ácido a intermediário. DSVP1va Predomínio de vulcanismo básico. DSVP1vb Sequência vulcanossedimentar. DSVP1vs DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS VULCÂNICAS OU VULCANOSSEDIMENTARES PROTEROZOICAS, NÃO OU POUCO DOBRADAS E METAMORFIZADAS DSVP1 Vulcanismo ácido a intermediário e intercalações Ex.: Formações Uatumã, Uailã, Iriri, Surumu, de sedimentos arenosos e síltico-argilosos, DSVP1vaa Iricomé e Cachoeira da Ilha. podendo conter formações ferríferas e/ou manganesíferas. Predomínio de ortoconglomerados. DSVP1ocg Predomínio de sedimentos arenosos e conglomerados, com intercalações de sedimentos síltico-argilosos. DSVP1sacg Ex.: Bacias de Campo Alegre e de Itajaí; Orógeno Pelotas. Metarenitos, quartzitos e metaconglomerados. DSP2mqmtc Predomínio de metarenitos e quartzitos, com intercalações irregulares de metassedimentos DSP2mqsafmg síltico-argilosos e formações ferríferas ou manganesíferas. DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES PROTEROZOICAS DOBRADAS, METAMORFIZADAS DSP2 Intercalações irregulares de metassedimentos DSP2msa DE BAIXO A ALTO GRAU arenosos e síltico-argilosos. Predomínio de metassedimentos síltico-argilosos, DSP2sag com intercalações de metarenitos feldspáticos. Predomínio de metassedimentos síltico-argilosos, representados por xistos, com intercalações DSP2mxaccal de metassedimentos arenosos, metacalcários e calssilicáticas. 8 APÊNDICE I - UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Predomínio de metassedimentos síltico-argilosos, representados por xistos, com níveis de quartzitos DSP2xq (milinotizados ou não). Intercalações irregulares de metassedimentos arenosos, metacalcários, calcossilicáticas e xistos DSP2mcx calcíferos. Predomínio de metacalcários, com intercalações subordinadas de metassedimentos síltico-argilosos DSP2mcsaa e arenosos. Predomínio de sedimentos síltico-argilosos DSP2saa com intercalações subordinadas de arenitos. DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS SEDIMENTARES PROTEROZOICAS DOBRADAS, METAMORFIZADAS DSP2 Predomínio de quartzitos. DSP2q DE BAIXO A ALTO GRAU Predomínio de metassedimentos síltico-argilosos, DSP2x representados por xistos. Metagrauvacas e metaconglomerados DSP2mgccg predominantes. Metavulcânicas ácidas a intermediárias xistificadas, intercaladas com sedimentos DSP2mvx psamíticos e pelíticos. Predomínio de metadiamictitos e filitos, DSP2mdmf localmente com lentes de quartzitos. Indiferenciado. DSVP2in Predomínio de quartzitos. DSVP2q DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS VULCANOSSEDIMENTARES PROTEROZOICAS DSVP2 Predomínio de metassedimentos síltico-argilosos, DSVP2x DOBRADAS METAMORFIZADAS DE BAIXO representados por xistos. A ALTO GRAU. Predomínio de rochas metacalcárias, com intercalações de finas camadas DSVP2csa de metassedimentos síltico-argilosos. Metacherts, metavulcânicas, formações ferríferas e/ou formações manganesíferas, metacalcários, DSVP2vfc metassedimentos arenosos e síltico-argilosos. 9 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Metarenitos feldspáticos, metarenitos, tufos DSVP2gratv e metavulcânicas básicas a intermediárias. Metassedimentos síltico-argilosos e vulcânicas DSVP2mva ácidas. Predomínio de rochas metabásicas DSVP2bu e metaultramáficas. Metacherts, metarenitos, metapelitos, vulcânicas básicas, formações ferríferas e formações DSVP2af manganesíferas. Metarenitos, metachert, metavulcânicas ácidas a intermediárias, formações ferríferas DSVP2avf e/ou manganesíferas. Predomínio de vulcânicas ácidas. DSVP2va DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS VULCANOSSEDIMENTARES PROTEROZOICAS DSVP2 Predomínio de metapelitos, com intercalações DSVP2pbu DOBRADAS METAMORFIZADAS DE BAIXO de rochas metabásicas e/ou metaultramáficas. A ALTO GRAU. Metacherts, metarenitos e/ou metapelitos. DSVP2cap Predomínio de metaconglomerados milonitizados, DSVP2mcv intercalados com metavulcânicas. Metassedimentos pelíticos intercalados DSVP2msmv com metavulcânicas. Metapelitos, metacarbonatos e quartzitos DSVP2pcqv intercalados com metavulcânicas. Metavulcânicas, metacalcários, metacherts, metassedimentos arenosos, calcissilicáticas, xistos DSVP2vscu e ultramafitos. Predomínio de metarenitos e quartzitos com intercalações irregulares de metassedimentos DSVP2mqsafmg síltico-argilosos e formações ferríferas ou manganesíferas. DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS VULCANOSSEDIMENTARES TIPO GREENSTONE Sequência vulcânica komatiitica associada a talco- BELT, ARQUEANO ATÉ O MESOPROTEROZOICO. DGB xistos, anfibolitos, cherts, formações ferríferas e DGBko metaultrabasitos. Ex.: Crixás, Araci, Rio das Velhas, Natividade e Rio Maria. 10 APÊNDICE I - UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD. GEOLÓGICO-AMBIENTAL DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD. UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Predomínio de sequência sedimentar. DGBss DOMÍNIO DAS SEQUÊNCIAS VULCANOSSEDIMENTARES TIPO GREENSTONE Sequência vulcanossedimentar, com alta BELT, ARQUEANO ATÉ O MESOPROTEROZOICO. DGB participação de metavulcânicas ácidas DGBvai e intermediárias. Ex.: Crixás, Araci, Rio das Velhas, Natividade e Rio Maria. Sequência vulcanossedimentar. DGBvs Série máfico-ultramáfica (dunito, peridotito etc.). DCMUmu DOMÍNIO DOS CORPOS MÁFICO-ULTRAMÁFICOS (SUÍTES KOMATIITICAS, SUÍTES TOLEÍTICAS, Série básica e ultrabásica (gabro, anortosito etc.). DCMUbu COMPLEXOS BANDADOS). DCMU Ex.: Cana Brava, Barro Alto e Niquelândia. Básicas e Ultrabásicas Alcalinas e Vulcanismo Vulcânicas básicas. DCMUvb Associado. Metamáficas, anfibolitos e gnaisses DCMUmg calcissilicáticos. DOMÍNIO DOS CORPOS BÁSICOS SOB A FORMA DCBSD Corpos básicos na forma de diques e sills.DE SOLEIRAS E DIQUES DE IDADES VARIADAS, DCBSDds Ex.: Corpo de Diabásio Avanavero e Taiano. NÃO METAMORFIZADOS Associações charnockíticas. Ex.: Piroxênio granitoides etc. DCGR1ch Minerais diagnósticos: hiperstênio, diopsídio. Séries graníticas peralcalinas. DCGR1palc DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GRANITOIDES Ex.: Granitos alcalinos a riebckita e arfvedsonita.DCGR1 NÃO DEFORMADOS. Séries graníticas alcalinas. Ex.: Alcalifeldspato granitos, sienogranitos, monzogranitos, quartzomonzonitos, monzonitos, DCGR1alc quartzossienitos, sienitos, quartzo-alcalissienitos, alcalissienitos etc. Alguns minerais diagnósticos: fluorita, alanita. Séries graníticas subalcalinas: calcialcalinas (baixo, médio e alto-K) e toleíticas. Ex.: Sienogranitos, monzogranitos, granodioritos, DCGR1salc tonalitos, dioritos, quartzomonzonitos, monzonitos etc. DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GRANITOIDES DCGR1 Alguns minerais diagnósticos: hornblenda, biotita, NÃO DEFORMADOS. titanita, epidoto. Granitoides peraluminosos. Ex.: Sienogranitos, monzogranitos, granodioritos etc. DCGR1pal Minerais diagnósticos: muscovita, granada, cordierita, silimanita, monazita, xenotima. 11 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD. CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD. GEOLÓGICO-AMBIENTAL DOMÍNIOUNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Série shoshonítica. Ex.: Gabrodiorito a quartzomonzonito etc. DCGR1sho Minerais diagnósticos: augita, diopsídio e/ou DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GRANITOIDES hiperstênio, anfibólio e plagioclásio.DCGR1 NÃO DEFORMADOS. Indeterminado. DCGR1in Associações charnoquíticas. Ex.: Piroxênio granitoides etc. DCGR2ch Minerais diagnósticos: hiperstênio, diopsídio. Séries graníticas peralcalinas. DCGR2palc Ex.: Granitos alcalinos a riebequita e arfvedsonita. Séries graníticas alcalinas. Ex.: Alcalifeldspato granitos, sienogranitos, monzogranitos, quartzomonzonitos, monzonitos, DCGR2alc quartzossienitos, sienitos, quartzo-alcalissienitos, alcalissienitos etc. Alguns minerais diagnósticos: fluorita, alanita. Séries graníticas subalcalinas: calcialcalinas (baixo, médio e alto-K) DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GRANITOIDES e toleíticas.DCGR2 DEFORMADOS. Ex.: Sienogranitos, monzogranitos, granodioritos, DCGR2salc tonalitos, quartzomonzodioritos, dioritos quartzomonzonitos, monzonitos etc. Alguns minerais diagnósticos: hornblenda, biotita, titanita, epidoto. Granitoides peraluminosos. Ex.: Sienogranitos, monzogranitos, granodioritos etc. DCGR2pal Minerais diagnósticos: muscovita, granada, cordierita, silimanita, monazita, xenotima. Série shoshonítica. Ex.: Gabrodiorito a quartzomonzonito etc. DCGR2sho Minerais diagnósticos: augita, diopsídio e/ou hiperstênio, anfibólio e plagioclásio. Indeterminado. DCGR2in Associações charnoquíticas. Ex.: Piroxênio granitoides etc. DCGR3ch Minerais diagnósticos: hiperstênio, diopsídio. Séries graníticas peralcalinas. DCGR3palc DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GRANITOIDES Ex.: Granitos alcalinos a riebequita e arfvedsonita.DCGR3 INTENSAMENTE DEFORMADOS: ORTOGNAISSES Séries graníticas alcalinas. Ex.: Alcalifeldspato granitos, sienogranitos, monzogranitos, quartzomonzonitos, monzonitos, DCGR3alc quartzossienitos, sienitos, quartzo-alcalissienitos, alcalissienitos etc. Alguns minerais diagnósticos: fluorita, alanita. 12 APÊNDICE I - UNIDADES GEOLÓGICO-AMBIENTAIS DO TERRITÓRIO BRASILEIRO DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD.DOMÍNIO CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD.GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Séries graníticas subalcalinas: calcialcalinas (baixo, médio e alto-K) e toleíticas. Ex.: Sienogranitos, monzogranitos, granodioritos, tonalitos, dioritos, quartzomonzonitos, DCGR3salc monzonitos etc. Alguns minerais diagnósticos: hornblenda, biotita, titanita, epidoto. Granitoides peraluminosos. Ex.: Sienogranitos, monzogranitos, granodioritos etc. DCGR3pal DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GRANITOIDES DCGR3 Minerais diagnósticos: muscovita, granada, INTENSAMENTE DEFORMADOS: ORTOGNAISSES cordierita, silimanita, monazita, xenotima. Série Shoshonítica. Ex: Gabrodiorito a quartzomonzonito etc. DCGR3sho Minerais diagnósticos: augita, diopsídio e/ou hiperstênio, anfibólio e plagioclásio. Indeterminado. DCGR3in Predominam migmatitos ortoderivados. DCGMGLmo Predominam migmatitos paraderivados. DCGMGLmp Predomínio de gnaisses paraderivados. Podem DCGMGLgnp conter porções migmatíticas. Migmatitos indiferenciados. DCGMGLmgi DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GNÁISSICO- DCGMGL MIGMATÍTICOS E GRANULÍTICOS. Gnaisse-granulito paraderivado. Podem conter DCGMGLglp porções migmatíticas. Predomínio de paragnaisses com elevada DCGMGLdl incidência de cobertura detrito-laterítica. Gnaisses granulíticos ortoderivados. Podem conter DCGMGLglo porções migmatíticas. Granulitos indiferenciados. DCGMGLgli 13 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE DESCRIÇÃO DO DOMÍNIO CÓD. CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE CÓD. GEOLÓGICO-AMBIENTAL DOMÍNIOUNIGEO GEOLÓGICO-AMBIENTAL UNIGEO Predomínio de gnaisses ortoderivados. Podem DCGMGLgno conter porções migmatíticas. Gnaisses indiferenciados. DCGMGLgni Metacarbonatos. DCGMGLcar DOMÍNIO DOS COMPLEXOS GNÁISSICO- DCGMGL Anfibolitos. DCGMGLaf MIGMATÍTICOS E GRANULÍTICOS. Gnaisses, migmatitos e/ou granulitos, com alta incidência de corpos de metamáficas e/ou DCGMGLmu metaultramáficas. Gnaisses, migmatitos e/ou granulitos, associados a rochas metamáficas e/ou metaultramáficas, DCGMGLmufb incluindo formações ferríferas bandadas. Predomínio de quartzito. DCGMGLqt 14 APÊNDICE II BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO Marcelo Eduardo Dantas (marcelo.dantas@cprm.gov.br) CPRM – Serviço Geológico do Brasil APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO A ANÁLISE DE PADRÕES DE RELEVO constituindo-se em uma primeira e fundamental contri- COMO UM INSTRUMENTO APLICADO buição da Geomorfologia. AO MAPEAMENTO DA GEODIVERSIDADE A estrutura superficial das paisagens consiste no es- tudo dos mantos de alteração in situ (formações superficiais Ab’Saber, em seu artigo “Um conceito de geomorfolo- autóctones) e coberturas inconsolidadas (formações superfi- gia a serviço das pesquisas sobre o quaternário” [Geomor- ciais alóctones) que jazem sob a superfície dos terrenos. É de fologia, São Paulo, n. 18, 1969], já propunha uma análise grande relevância para a compreensão da gênese e evolução dinâmica da Geomorfologia aplicada aos estudos ambien- das formas de relevo e, em aliança com a compartimenta- tais, com base na pesquisa de três fatores interligados: ção morfológica dos terrenos, constitui-se em importante identificação de uma compartimentação morfológica ferramenta para se avaliar o grau de fragilidade natural dos dos terrenos; levantamento da estrutura superficial das terrenos frente aos processos erosivodeposicionais. paisagens e estudo da fisiologia da paisagem (Figura II.1). A fisiologia da paisagem, por sua vez, consiste na A compartimentação morfológica dos terrenos análise integrada das diversas variáveis ambientais em sua é obtida a partir da avaliação empírica dos diversos con- interface com a Geomorfologia. Ou seja, a influência de juntos de formas e padrões de relevo posicionados em condicionantes litológico-estruturais, padrões climáticos e diferentes níveis topográficos, por meio de observações de tipos de solos na configuração física das paisagens. Com campo e análise de sensores remotos (fotografias aéreas, essa terceira avaliação objetiva-se, também, compreender imagens de satélite e Modelo Digital de Terreno (MDT)). a ação dos processos erosivodeposicionais atuais, incluindo Essa avaliação é diretamente aplicada aos estudos de todos os impactos decorrentes da ação antropogênica sobre ordenamento do uso do solo e planejamento territorial, a paisagem natural. Dessa forma, embute-se na análise ge- omorfológica o estudo da morfodinâmica, privilegiando-se a análise de processos. Demonstração dos níveis de abordagem geomorfológica, A Biblioteca de Padrões de Relevo seguindo a metodologia de análise de Ab’Saber (1969). do Território Brasileiro foi elaborada para atender à compartimentação geológico- geomorfológica proposta pela metodo logia de mapeamento da geodiversidade do território brasileiro em escalas de aná- lise reduzidas (1:500.000 a 1:2.500.000). Nesse sentido, sua abordagem restringe- se a avaliar o primeiro dos pressupostos elencados por Ab’Saber: a compartimen- tação morfológica dos terrenos. Portanto, a compartimentação de relevo efetuada nos mapeamentos de geodiversidade elaborados pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais/Serviço Geológico do Brasil (CPRM/SGB) não representa um mapeamento geomorfológico, tendo em vista que não são considerados os aspec- tos de gênese, evolução e morfodinâmica. Com a Biblioteca de Padrões de Relevo do Território Brasileiro, a CPRM/SGB tem como objetivo precípuo inserir informa- ções de relevo-paisagem-geomorfologia, em uma análise integrada do meio físico aplicada ao planejamento territorial, empreendida nos mapeamentos de geo- diversidade. O mapeamento de padrões de relevo representa, em linhas gerais, o 3º táxon hierárquico da metodologia de mapeamento geomorfológico proposta por Ross (1990). Em todos os Sistemas de Informação Geográfica (SIGs) de Geodi- versidade desenvolvidos pela CPRM/SGB, o mapa de padrões de relevo correspon- 3 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE dente pode ser visualizado, bastando acessar, na shape, baixos interflúvios, denominados Áreas de Acumulação o campo de atributos “COD_REL”. Inundáveis (Aai), frequentes na Amazônia, estão inseridos nessa unidade. REfERêNCIAS: AB’SABER, A.N. (1969). Um conceito de geomorfologia a Amplitude de relevo: zero. serviço das pesquisas sobre o Quaternário. (Geomorfologia, 18). FFCHL, USP São Paulo, 23p. Inclinação das vertentes: 0º-3º. ROSS, J. L. S. (1990). Geomorfologia ambiente e planeja- mento. Ed. Contexto. São Paulo. 85p. I – DOMÍNIO DAS UNIDADES AGRADACIONAIS R1a – Planícies Fluviais ou Fluviolacustres R4d (planícies de inundação, baixadas inundáveis e abaciamentos) R4a1 Relevo de agradação. Zona de acumulação atual. R1a Superfícies sub-horizontais, constituídas de depósitos arenoargilosos a argiloarenosos, apresentando gradientes extremamente suaves e convergentes em direção aos cursos d’água principais. Terrenos imperfeitamente drenados nas planícies de inundação, sendo periodicamente inundáveis; R1a – Planície fluvial do alto curso do rio São João (Rio de Janeiro). bem drenados nos terraços. Os abaciamentos (ou suaves Zona de Baixada Litorânea. depressões em solos arenosos) em áreas planas ou em R4b R1a R1a R1a – Planície fluvial da bacia do rio Paquequer (Rio de Janeiro). Zona montanhosa. R1a R1b1 – Terraços Fluviais (paleoplanícies de inundação em fundos de vales) Relevo de agradação. Zona de acumulação subatual. Superfícies bem drenadas, de relevo plano a levemente ondulado, constituído de depósitos arenosos a argilosos de origem fluvial. Consistem de paleoplanícies de inundação R1a – Médio vale do rio Juruá (sudeste do estado que se encontram em nível mais elevado que o das vár- do Amazonas). zeas atuais e acima do nível das cheias sazonais. Devido à reduzida escala de mapeamento, essa unidade só pôde 4 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO ser mapeada em vales de grandes dimensões, em especial, R1b2 – Terraços Lagunares (paleoplanícies nos rios amazônicos. de inundação no rebordo de lagunas costeiras) Relevo de agradação. Zona de acumulação subatual. Amplitude de relevo: 2 a 20 m. Superfícies bem drenadas, de relevo plano a levemente Inclinação das vertentes: 0º-3o (localmente, ondulado constituído de depósitos arenosos a argilosos de ressaltam-se rebordos abruptos no contato com origem lagunar. Consistem de paleoplanícies de inundação a planície fluvial). que se encontram em nível mais elevado que o das planícies lagunares ou fluviolagunares atuais e acima do nível das cheias sazonais. Essa unidade encontra-se restrita ao esta- do do Rio Grande do Sul, mais especificamente na borda continental da Laguna dos Patos. Amplitude de relevo: 2 a 20 m. R1b1 Inclinação das vertentes: 0º-3 o (localmente, ressaltam-se rebordos abruptos no contato com a planície lagunar). R1b3 – Terraços Marinhos (paleoplanícies marinhas à retaguarda dos atuais cordões arenosos) Relevo de agradação. Zona de acumulação subatual. Superfícies sub-horizontais, constituídas de depósitos arenosos, apresentando microrrelevo ondulado, geradas por R1b1 processos de sedimentação marinha e/ou eólica. Terrenos bem drenados e não inundáveis. Amplitude de relevo: até 20 m. Inclinação das vertentes: 0º-5o. R1b1 – Médio vale do rio Juruá (sudeste do estado do Amazonas). R1c – Vertentes recobertas por depósitos de encosta (leques aluviais, rampas de colúvio e de tálus) Relevo de agradação. Zona de acumulação atual. R4a2 Os cones de tálus consistem de superfícies deposicionais R1b1 fortemente inclinadas, constituídas por depósitos de encosta, R1a de matriz arenoargilosa a argiloarenosa, rica em blocos, muito malselecionados. Ocorrem, de forma disseminada, nos sopés das vertentes íngremes de terrenos montanhosos. Apresentam baixa capacidade de suporte. As rampas de colúvio consistem de superfícies depo- sicionais inclinadas, constituídas por depósitos de encosta arenoargilosos a argiloarenosos, malselecionados, em interdigitação com depósitos praticamente planos das pla- R1b1 – Planície e terraço fluviais do médio curso do rio Barreiro de nícies aluviais. Ocorrem, de forma disseminada, nas baixas Baixo (médio vale do rio Paraíba do Sul – SP/RJ). encostas de ambientes colinosos ou de morros. 5 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Amplitude de relevo: variável, dependendo da extensão R1c2 – Leques Aluviais do depósito na encosta. Relevo de agradação. Zona de acumulação atual ou subatual. Inclinação das vertentes: 5º-20o (associados às rampas de colúvio). Os leques aluviais consistem de superfícies deposi- cionais inclinadas, constituídas por depósitos aluvionares Inclinação das vertentes: 20º-45o (associados aos de enxurrada, espraiados em forma de leque em uma cones de tálus). morfologia ligeiramente convexa em planta. São depósitos malselecionados, variando entre areia fina e seixos suban- gulosos a subarredondados, gerados no sopé de escarpas montanhosas ou cordilheiras. Em sua porção proximal, os leques aluviais caracterizam-se por superfícies fortemente inclinadas e dissecadas por canais efêmeros que drenam a cordilheira. Em sua porção distal, os leques aluviais caracte- rizam-se por superfícies muito suavemente inclinadas, com R1c1 deposição de sedimentos finos, em processo de coalescência com as planícies aluviais ou fluviolacustres, reproduzindo um ambiente playa-bajada de clima árido. Amplitude de relevo: 2 a 10 m. Inclinação das vertentes: 0º-3o (exceto nas por- ções proximais dos leques). R1d – Planícies Fluviomarinhas (mangues R1c1 e brejos) Relevo de agradação. Zona de acumulação atual. Superfícies planas, de interface com os sistemas depo- sicionais continentais e marinhos, constituídas de depósitos argiloarenosos a argilosos. Terrenos muito maldrenados, R1c – Planície borda norte da Chapada do Araripe (Ceará). prolongadamente inundáveis, com padrão de canais bas- tante meandrantes e divagantes, sob influência de refluxo R1c1 R1c – Rampas de colúvio que se espraiam a partir da borda oeste do platô sinclinal (Moeda – Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais). 6 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO R1d R1d R1d – Delta do rio Jequitinhonha (Bahia). de marés; ou resultantes da colmatação de paleolagunas. Baixa capacidade de suporte dos terrenos. Amplitude de relevo: zero. Inclinação das vertentes: plano (0o). R1d R1e – Planícies Costeiras (terraços marinhos e cordões arenosos) Relevo de agradação. Zona de acumulação atual. Superfícies sub-horizontais, constituídas de depósitos R1d – Ampla superfície embrejada de uma planície lagunar costeira arenosos, apresentando microrrelevo ondulado, geradas por (litoral norte do estado da Bahia, município de Conde). processos de sedimentação marinha e/ou eólica. Terrenos bem drenados e não inundáveis. Amplitude de relevo: até 20 m. Inclinação das vertentes: 0º-5o. R1f1 – Campos de Dunas (dunas fixas; dunas móveis) R1d Relevo de agradação. Zona de acumulação atual ou subatual. Superfícies de relevo ondulado constituído de depó- sitos arenoquartzosos, bem selecionados, depositados por ação eólica longitudinalmente à linha de costa. Por vezes, R1d – Planície fluviomarinha do baixo curso do rio Cunhaú, encontram-se desprovidos de vegetação e apresentam originalmente ocupado por mangues e atualmente desfigurado expressiva mobilidade (dunas móveis); ora encontram-se para implantação de tanques de carcinucultura (litoral sul-oriental recobertos por vegetação pioneira (dunas fixas). do estado do Rio Grande do Norte). 7 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE R1e R1e R1e – Planície do delta do rio Jequitinhonha (Bahia). R1f1 R1e R4a1 R1e – Sucessão de feixes de cordões arenosos em linha de costa progradante (Parque Nacional de Jurubatiba – Macaé, Rio de Janeiro). R1f1 R1e R1f1 – Litoral oriental do estado do Rio Grande do Norte. R1e – Planície costeira com empilhamento de cordões arenosos e depósitos fluviolagunares (litoral norte do estado da Bahia). 8 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO cionados, constituídos de sedimentos finos em suspensão depositados por ação eólica em zonas peridesérticas ou submetidos a paleoclimas áridos ao longo de períodos glaciais pleistocênicos. Apresentam solos com alta susce- tibilidade à erosão. R1f1 Amplitude de relevo: 0 a 20 m. Inclinação das vertentes: 0º-5o. R1g – Recifes Relevo de agradação. Zona de acumulação atual. Os recifes situam-se na plataforma continental interna em posição de linha de arrebentação ou off-shore, podendo ser distinguidos dois tipos principais: RECIFES DE ARENITO R1f1 – Campos de dunas junto à linha de costa, sobrepondo falésias DE PRAIA, que consistem de antigos cordões arenosos do grupo Barreiras (município de Baía Formosa, litoral sul (beach-rocks), sob forma de ilhas-barreiras paralelas à do estado do Rio Grande do Norte). linha de costa, que foram consolidados por cimentação ferruginosa e/ou carbonática; RECIFES DE BANCOS DE CORAIS, que consistem de bancos de recifes ou forma- ções peculiares denominadas “chapeirões”, submersos ou R1f1 R1g R1f1 – Campo de dunas transversais na restinga de Massambaba (Arraial do Cabo, Rio de Janeiro). Amplitude de relevo: até 40 m. Inclinação das vertentes: 3º-30o. R1g R1f2 – Campos de Loess Relevo de agradação. Zona de acumulação atual ou subatual. Superfícies de relevo plano a suave ondulado consti- R1g – Santa Cruz Cabrália (sul do estado da Bahia). tuído de depósitos sílticos ou síltico-argilosos, bem sele- 9 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE parcialmente emersos durante os períodos de maré baixa. Estes são produzidos por acumulação carbonática, devido à atividade biogênica (corais). Amplitude de relevo: zero. Inclinação das vertentes: plano (0o). II – DOMÍNIO DAS UNIDADES R2a1 DENUDACIONAIS EM ROCHAS SEDIMENTARES POUCO LITIfICADAS R2a1 – Tabuleiros R2a1 – Tabuleiros pouco dissecados da bacia de Macacu (Venda das Pedras, Itaboraí, Rio de Janeiro). Relevo de degradação em rochas sedimentares. Formas de relevo suavemente dissecadas, com exten- sas superfícies de gradientes extremamente suaves, com topos planos e alongados e vertentes retilíneas nos vales encaixados em forma de “U”, resultantes de dissecação fluvial recente. Predomínio de processos de pedogênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a mo- R2a1 R2a1 – Plantação de eucaliptos em terrenos planos de tabuleiros R2a1 não dissecados do grupo Barreiras (município de Esplanada, norte do estado da Bahia). derada suscetibilidade à erosão). Ocorrências esporádicas, restritas a processos de erosão laminar ou linear acelerada (sulcos e ravinas). Amplitude de relevo: 20 a 50 m. Inclinação das vertentes: topo plano: 0º-3o (lo- calmente, ressaltam-se vertentes acentuadas: 10º-25o). R2a1 R2a2 – Tabuleiros Dissecados Relevo de degradação em rochas sedimentares. Formas de relevo tabulares, dissecadas por uma rede de canais com alta densidade de drenagem, apresentando relevo movimentado de colinas com topos tabulares ou alongados e vertentes retilíneas e declivosas nos vales en- caixados, resultantes da dissecação fluvial recente. R2a1 – Porto Seguro (sul do estado da Bahia). Predomínio de processos de pedogênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a 10 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO moderada suscetibilidade à erosão). Ocorrência de proces- sos de erosão laminar ou linear acelerada (sulcos e ravinas). Amplitude de relevo: 20 a 50 m. Inclinação das vertentes: topos planos restritos: R2a2 0º-3o (localmente, ressaltam-se vertentes acen- tuadas: 10º-25o). R2a2 R2a2 – Tabuleiros dissecados em amplos vales em forma de “U”, em típica morfologia derivada do grupo Barreiras (bacia do rio Guaxindiba, São Francisco do Itabapoana, Rio de Janeiro). III – DOMÍNIO DAS UNIDADES DENUDACIONAIS EM ROCHAS SEDIMENTARES LITIfICADAS R2b1 – Baixos Platôs Relevo de degradação em rochas sedimentares. R2a2 Superfícies ligeiramente mais elevadas que os terrenos adjacentes, pouco dissecadas em formas tabulares. Sistema de drenagem principal com fraco entalhamento. Predomínio de processos de pedogênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a moderada suscetibilidade à erosão). Eventual atuação de processos de laterização. Caracterizam-se por superfícies R2a2 – Porto Seguro (sul do estado da Bahia). planas de modestas altitudes em antigas bacias sedimen- tares, como os patamares mais baixos da Bacia do Parnaíba (Piauí) ou a Chapada do Apodi, na Bacia Potiguar (Rio Grande do Norte). Amplitude de relevo: 0 a 20 m. Inclinação das vertentes: topo plano a suavemen- R2a2 te ondulado: 2º-5 o. R2b2 – Baixos Platôs Dissecados Relevo de degradação em rochas sedimentares. Superfícies ligeiramente mais elevadas que os ter- renos adjacentes, francamente dissecadas em forma de R2a2 – Tabuleiros dissecados, intensamente erodidos por processos colinas tabulares. Sistema de drenagem constituído por de voçorocamento junto à rodovia Linha Verde (litoral norte uma rede de canais com alta densidade de drenagem, do estado da Bahia). que gera um relevo dissecado em vertentes retilíneas e 11 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE voçorocas). Situação típica encontrada nos baixos platôs em- basados pela Formação Alter do Chão, ao norte de Manaus. Amplitude de relevo: 20 a 50 m. Inclinação das vertentes: topo plano a suavemen- te ondulado: 2º-5o, excetuando-se os eixos dos R2b1 vales fluviais, onde se registram vertentes com declividades mais acentuadas (10º-25o). R2b2 R2b1 R2b1 – Centro-sul do estado do Piauí. R2b2 R2b2 – Interflúvio entre os rios Uatumã e Nhamundá (nordeste do estado do Amazonas). R2b1 R2b2 R2b1 – Baixos platôs não dissecados da bacia do Parnaíba (estrada Floriano-Picos, próximo a Oeiras, Piauí). declivosas nos vales encaixados, resultantes da dissecação fluvial recente. Deposição de planícies aluviais restritas em vales fechados. Equilíbrio entre processos de pedogênese e morfogê- nese (formação de solos espessos e bem drenados, com moderada suscetibilidade à erosão). Eventual atuação de R2b2 – Baixos platôs dissecados em forma de colinas tabulares processos de laterização. Ocorrências esporádicas, restritas sobre arenitos imaturos da formação Alter do Chão (Presidente a processos de erosão laminar ou linear acelerada (ravinas e Figueiredo, Amazonas). 12 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO R2b3 – Planaltos R2b3 Relevo de degradação predominantemente em rochas sedimentares, mas também sobre rochas cristalinas. R4d Superfícies mais elevadas que os terrenos adjacentes, pouco dissecadas em formas tabulares ou colinas muito amplas. Sistema de drenagem principal com fraco enta- lhamento e deposição de planícies aluviais restritas ou em vales fechados. R3a2 Predomínio de processos de pedogênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a moderada suscetibilidade à erosão). Eventual atuação de processos de laterização. Ocorrências esporádicas, restritas a processos de erosão laminar ou linear acelerada (ravinas e voçorocas). R2b3 – Escarpa erosiva do planalto de Uruçuí (bacia do Parnaíba, Amplitude de relevo: 20 a 50 m. sudoeste do estado do Piauí). Inclinação das vertentes: topo plano a suavemen- te ondulado: 2º-5o, excetuando-se os eixos dos vales fluviais. R2b3 R2b3 R2b3 – Topo do planalto da serra dos Martins, sustentado por cornijas de arenitos ferruginosos da formação homônima (sudoeste do estado do Rio Grande do Norte). R2c – Chapadas e Platôs Relevo de degradação em rochas sedimentares. Superfícies tabulares alçadas, ou relevos soerguidos, planos ou aplainados, não ou incipientemente pouco dissecados. Os rebordos dessas superfícies, posiciona- dos em cotas elevadas, são delimitados, em geral, por vertentes íngremes a escarpadas. Representam algumas R2b3 das principais ocorrências das superfícies cimeiras do território brasileiro. Franco predomínio de processos de pedogênese (for- mação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a moderada suscetibilidade à erosão). Processos de morfogênese significativos nos rebordos R2b3 – Planalto de Uruçuí (sul do estado do Piauí). das escarpas erosivas, via recuo lateral das vertentes. Fre- quente atuação de processos de laterização. Ocorrências 13 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE esporádicas, restritas a processos de erosão laminar ou linear acelerada (ravinas e voçorocas). Amplitude de relevo: 0 a 20 m. R2c Inclinação das vertentes: topo plano, excetuando- -se os eixos dos vales fluviais. R3a2 R2c – “Tepuy” isolado da “serra” do Tepequém, uma forma em R2c chapada sustentada por arenitos conglomeráticos do supergrupo Roraima. IV – DOMÍNIO DOS RELEVOS DE APLAINAMENTO R3a1 – Superfícies Aplainadas Conservadas Relevo de aplainamento. Superfícies planas a levemente onduladas, promovidas pelo arrasamento geral dos terrenos, representando, em R2c linhas gerais, grandes extensões das depressões interpla- nálticas do território brasileiro. Amplitude de relevo: 0 a 10 m. Inclinação das vertentes: 0º-5o. R2c – Borda Leste da Chapada dos Pacaás Novos (região No bioma da floresta amazônica: franco predomínio central do estado de Rondônia). de processos de pedogênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa suscetibilidade à erosão). Eventual atuação de processos de laterização. Nos biomas de cerrado e caatinga: equilíbrio entre processos de pedogênese e morfogênese (a despeito das baixas declividades, prevalece o desenvolvimento de solos R2c rasos e pedregosos e os processos de erosão laminar são significativos). R4d R3a2 – Superfícies Aplainadas Retocadas ou Degradadas Relevo de aplainamento. Superfícies suavemente onduladas, promovidas pelo arrasamento geral dos terrenos e posterior retomada erosiva proporcionada pela incisão suave de uma rede de drenagem R2c – Topo da Chapada dos Guimarães e relevo ruiniforme junto a incipiente. Inserem-se, também, no contexto das grandes seu escarpamento. depressões interplanálticas do território brasileiro. 14 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO R3a1 R3a1 R3a1 – Médio vale do rio São Francisco (estado da Bahia). Amplitude de relevo: 10 a 30 m. Inclinação das vertentes: 0º-5o. R4b R3a2 R3a1 – Extensa superfície aplainada, delimitada por esparsas cristas de quartzitos (Canudos, norte do estado da Bahia). Caracteriza-se por extenso e monótono relevo suave ondulado sem, contudo, caracterizar ambiente colinoso, devido a suas amplitudes de relevo muito baixas e longas rampas de muito baixa declividade. R3a2 R4c R3a2 R3a2 – Médio vale do rio Xingu (estado do Pará). R3a2 – Extensa superfície aplainada da depressão sertaneja (sudoeste do estado do Rio Grande do Norte). 15 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE R3b – Inselbergs e outros relevos residuais (cristas isoladas, morros residuais, pontões, monolitos) R3b Relevo de aplainamento. Relevos residuais isolados destacados na paisagem aplainada, remanescentes do arrasamento geral dos terrenos. Amplitude de relevo: 50 a 500 m. Inclinação das vertentes: 25o-45o, com ocorrência R3b – Neck vulcânico do pico do Cabugi (estado do Rio Grande de paredões rochosos subverticais (60o-90o). do Norte). V – DOMÍNIO DAS UNIDADES DENUDACIONAIS EM ROCHAS CRISTALINAS OU SEDIMENTARES R4a1 – Domínio de Colinas Amplas e Suaves Relevo de degradação em qualquer litologia, predominando rochas sedimentares. R3b Relevo de colinas pouco dissecadas, com vertentes con- vexas e topos amplos, de morfologia tabular ou alongada. Sistema de drenagem principal com deposição de planícies aluviais relativamente amplas. R4a1 R3b R3b – Sul do estado do Rio Grande do Norte. R3b R4a1 R3b – Agrupamentos de inselbergs alinhados em cristas de rochas quartzíticas delineadas em zona de cisalhamento (estrada R4a1 – Depressão periférica (estado de São Paulo). Senhor do Bonfim-Juazeiro, estado da Bahia). 16 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO R4a2 R4a1 R4a1 – Colinas amplas e suaves modeladas sobre granulitos (cercanias de Anápolis, Goiás). R4a2 R4a1 R4a2 – Leste do estado da Bahia. R4a1 – Relevo suave colinoso (município de Araruama, R4a2 região dos Lagos, Rio de Janeiro). Predomínio de processos de pedogênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a mo- derada suscetibilidade à erosão). Ocorrências esporádicas, restritas a processos de erosão laminar ou linear acelerada (ravinas e voçorocas). Geração de rampas de colúvios nas baixas vertentes. R4a2 – Típico relevo de mar-de-morros no médio vale do rio Paraíba do Sul (topo da serra da Concórdia, Valença, Rio de Janeiro). Amplitude de relevo: 20 a 50 m. Inclinação das vertentes: 3º-10o. R4a2 – Domínio de Colinas Dissecadas R4a2 e de Morros Baixos Relevo de degradação em qualquer litologia. Relevo de colinas dissecadas, com vertentes convexo- -côncavas e topos arredondados ou aguçados. Sistema de drenagem principal com deposição de planícies aluviais R4a2 – Colinas e morros intensamente dissecados sobre restritas ou em vales fechados. metassiltitos (município de Padre Bernardo, Goiás). 17 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Equilíbrio entre processos de pedogênese e morfo- gênese (formação de solos espessos e bem drenados, em geral, com moderada suscetibilidade à erosão). Atuação frequente de processos de erosão laminar e ocorrência esporádica de processos de erosão linear acelerada (sulcos, ravinas e voçorocas). Geração de rampas de colúvios nas baixas vertentes. R4a3 Amplitude de relevo: 30 a 80 m. Inclinação das vertentes: 5º-20o. R4a3 – Domos em estrutura elevada Relevo de degradação em qualquer litologia. R4a3 – Domo de Guamaré, arqueando as rochas sedimentares da bacia Potiguar (estado do Rio Grande do Norte). Relevo de amplas e suaves elevações em forma de meia esfera, com modelado de extensas vertentes convexas e centrífugo. Sistema de drenagem principal em processo e topos planos a levemente arredondados. Em geral, essa inicial de entalhamento, sem deposição de planícies aluviais. morfologia deriva de rochas intrusivas que arqueiam a su- Predomínio de processos de pedogênese (formação de perfície do terreno, podendo gerar estruturas dobradas do solos espessos e bem drenados, em geral, com baixa a mo- tipo braquianticlinais. Apresenta padrão de drenagem radial derada suscetibilidade à erosão). Ocorrências esporádicas, restritas a processos de erosão laminar ou linear acelerada (ravinas e voçorocas). R4a3 Amplitude de relevo: 50 a 200 m. Inclinação das vertentes: 3º-10o. R4b – Domínio de Morros e de Serras Baixas Relevo de degradação em qualquer litologia. Relevo de morros convexo-côncavos dissecados e topos arredondados ou aguçados. Também se insere nessa uni- dade o relevo de morros de topo tabular, característico das chapadas intensamente dissecadas e desfeitas em conjunto de morros de topo plano. Sistema de drenagem principal com restritas planícies aluviais. Predomínio de processos de morfogênese (formação de solos pouco espessos em terrenos declivosos, em geral, com R4a3 moderada a alta suscetibilidade à erosão). Atuação frequente de processos de erosão laminar e linear acelerada (sulcos e ravinas) e ocorrência esporádica de processos de movimen- tos de massa. Geração de colúvios e, subordinadamente, depósitos de tálus nas baixas vertentes. Amplitude de relevo: 80 a 200 m, podendo apre- sentar desnivelamentos de até 300 m. R4a3 – Domo de Guamaré (estado do Rio Grande do Norte). Inclinação das vertentes: 15º-35o. 18 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO R4c – Domínio Montanhoso (alinhamentos serranos, maciços montanhosos, front de cuestas e hogback) Relevo de degradação em qualquer litologia. R4b Relevo montanhoso, muito acidentado. Vertentes predominantemente retilíneas a côncavas, escarpadas e topos de cristas alinhadas, aguçados ou levemente arre- dondados, com sedimentação de colúvios e depósitos de tálus. Sistema de drenagem principal em franco processo de entalhamento. Franco predomínio de processos de morfogênese (formação de solos rasos em terrenos muito acidentados, em geral, com alta suscetibilidade à erosão). Atuação fre- quente de processos de erosão laminar e de movimentos de massa. Geração de depósitos de tálus e de colúvios nas baixas vertentes. R4b Amplitude de relevo: acima de 300 m, podendo apresentar, localmente, desnivelamentos inferio- res a 200 m. Inclinação das vertentes: 25o-45o, com ocorrência R4b – Serra do Tumucumaque (norte do estado do Pará). de paredões rochosos subverticais (60 o-90o). R4b R4c R4b – Relevo de morros elevados no planalto da região serrana do estado do Rio de Janeiro. R4c R4b R4b – Relevo fortemente dissecado em morros sulcados e alinhados R4c – Sul do estado de Minas Gerais. a norte do planalto do Distrito Federal. 19 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE R4c R4d R4c – Relevo montanhoso do maciço do Caraça, modelado em quartzitos (Quadrilátero Ferrífero, Minas Gerais). R4c R4d R4d – Escarpa da serra Geral (nordeste do estado do Rio Grande do Sul). R4c – Vale estrutural do rio Araras; reverso da serra do Mar (Petrópolis, Rio de Janeiro). R4d – Escarpas Serranas R4d Relevo de degradação em qualquer litologia. Relevo montanhoso, muito acidentado. Vertentes predominantemente retilíneas a côncavas, escarpadas e topos de cristas alinhadas, aguçados ou levemente arre- dondados, com sedimentação de colúvios e depósitos de tálus. Sistema de drenagem principal em franco processo R4d – Aspecto imponente da serra Geral, francamente entalhada por uma densa rede de drenagem, gerando uma escarpa festonada de entalhamento. Representam um relevo de transição com mais de 1.000 m de desnivelamento. entre duas superfícies distintas alçadas a diferentes cotas altimétricas. Franco predomínio de processos de morfogênese R2c (formação de solos rasos em terrenos muito acidentados, em geral, com alta suscetibilidade à erosão). Atuação fre- quente de processos de erosão laminar e de movimentos R4d de massa. Geração de depósitos de tálus e de colúvios nas baixas vertentes. Amplitude de relevo: acima de 300 m. Inclinação das vertentes: 25º-45o, com ocorrência R4d – Escarpa da serra de Miguel Inácio, cuja dissecação está de paredões rochosos subverticais (60o-90o). controlada por rochas metassedimentares do grupo Paranoá (cercanias do Distrito Federal). 20 APÊNDICE II – BIBLIOTECA DE RELEVO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO R4e – Degraus Estruturais e Rebordos Erosivos R4f – Vales Encaixados Relevo de degradação em qualquer litologia. Relevo de degradação predominantemente em rochas sedimentares, mas também sobre rochas cristalinas. Relevo acidentado, constituído por vertentes predo- minantemente retilíneas a côncavas, declivosas e topos Relevo acidentado, constituído por vertentes predo- levemente arredondados, com sedimentação de colúvios minantemente retilíneas a côncavas, fortemente sulcadas, e depósitos de tálus. Sistema de drenagem principal em declivosas, com sedimentação de colúvios e depósitos de franco processo de entalhamento. Representam relevo de tálus. Sistema de drenagem principal em franco processo de transição entre duas superfícies distintas alçadas a diferentes entalhamento. Consistem em feições de relevo fortemente cotas altimétricas. entalhadas pela incisão vertical da drenagem, formando vales Franco predomínio de processos de morfogênese (for- encaixados e incisos sobre planaltos e chapadas, estes, em ge- mação de solos rasos, em geral, com alta suscetibilidade à ral, pouco dissecados. Assim como as escarpas e os rebordos erosão). Atuação frequente de processos de erosão laminar erosivos, os vales encaixados apresentam quebras de relevo e de movimentos de massa. Geração de depósitos de tálus abruptas em contraste com o relevo plano adjacente. Em e de colúvios nas baixas vertentes. geral, essas formas de relevo indicam uma retomada erosiva recente em processo de reajuste ao nível de base regional. Franco predomínio de processos de morfogênese (for- Amplitude de relevo: 50 a 200 m. mação de solos rasos, em geral, com alta suscetibilidade à erosão). Atuação frequente de processos de erosão laminar Inclinação das vertentes: 10º-25o, com ocorrência e de movimentos de massa. Geração de depósitos de tálus de vertentes muito declivosas (acima de 45o). e de colúvios nas baixas vertentes. R4e R4e R4e – Degrau escarpado da serra do Roncador (leste do estado de Mato Grosso). R4e R4e R4e – Degrau estrutural do flanco oeste do planalto de morro do R4e – Degrau estrutural no contato da bacia do Parnaíba com o Chapéu (Chapada Diamantina, Bahia). embasamento cristalino no sul do Piauí. 21 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE Amplitude de relevo: 100 a 300 m. Inclinação das vertentes: 10º-25º, com ocorrência de vertentes muito declivosas (acima de 45º). R4f R2b3 R2b3 R4f R4f R4f – Planalto de Uruçuí e vale do Gurgueia R4f – Vale amplo e encaixado de tributário do rio Gurgueia no (sul do estado do Piauí). planalto de Uruçuí (sudoeste do estado do Piauí). 22 NOTA SOBRE OS AUTORES GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE AMILCAR ADAMY – Geólogo (1971) formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com especialização (1979) em Fotointerpretação Geológica pelo Centro Interamericano de Fotointerpretación (CIAF), Bogotá (Colômbia), e mestre (2005) em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Em 1972, ingressou na Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais/Serviço Geológico do Brasil (CPRM/SGB), tendo participado de diversos projetos de Mapeamento Geológico e Prospecção Geoquímica, Metalogenia, Pesquisa Mineral, Gestão Territorial em Municípios da Amazônia, Zoneamento Ecológico-Econômico, Seleção de Áreas para Disposição de Resíduos Sólidos Urbanos e para Cemitério e Mapeamentos de Geodiversidade. Entre os trabalhos mais relevantes em que atuou, destacam-se: Projeto Província Estanífera de Rondônia; Projeto Estudo dos Garimpos Brasileiros – Rio Madeira; mapas metalogenéticos das folhas SC.20 e SD.20, em escala 1:1.000.000; Zoneamento Ecológico-Econômico Brasil-Bolívia; Projeto Rio Madeira (Levantamento de Informações Geomorfológicas para Subsidiar o Estudo de Viabilidade dos Aproveitamentos Hidrelétricos de Jirau e Santo Antônio no Rio Madeira); Geodiversidade do Brasil, escala 1:2.500.000 e Geodiversidade do Estado de Rondônia, escala 1:250.000; Carta de Suscetibilidade dos municípios de Petrópolis e Duque de Caxias (RJ). Exerceu os cargos de chefe da Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO) (1990-1992); delegado do Ministério de Minas e Energia (MME) no período 1992-1996; Gerente Regional de Hidrologia e Gestão Territorial em Rondônia (1996-2008). Atualmente, é chefe de projetos da área de Gestão Territorial. Membro do Conselho Estadual de Turismo/SETUR e do Comitê Diretor do Plano Estadual de Resíduos Sólidos, ambos vinculados ao governo estadual de Rondônia. ANTÔNIA DAMASCENO BARBOSA – Graduada (2009) em Geografia (bacharelado) pela Universidade Federal do Acre (UFAC); especialização (2012) em Geoprocessamento Aplicado em Análise Ambiental pela União Educacional do Norte UNINORTE; mestre (2014) em Arqueologia (PPGA/UFPA). Atua em pesquisas arqueológicas no estado do Acre, principalmente na área de Arqueologia Pré-Histórica. ANTONIO THEODOROVICZ – Geólogo formado (1977) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialização (1990) em Geologia Ambiental. Ingressou na Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais/Serviço Geológico do Brasil (CPRM/SGB) – Superintendência Regional de Porto Velho (SUREG-PV) em 1978. Desde 1982 atua na Superintendência Regional de São Paulo (SUREG-SP). Executou e chefiou vários projetos de mapeamento geológico, prospecção mineral e metalogenia em diversas escalas nas regiões Amazônica, Sul e Sudeste. De 1990 até 2012 atuou como supervisor/executor de vários estudos geoambientais, para os quais concebeu uma metodologia própria, adaptada e aplicada também na geração dos mapas Geodiversidade do Brasil e estaduais. Ministra, ainda, treinamento de campo para caracterização do meio físico para fins de planejamento e gestão ambiental para equipes da CPRM/SGB e de países da América do Sul. Atualmente é coordenador regional do Projeto Geoparques da CPRM/SGB, conselheiro da Comissão de Monumentos Geológicos do Estado de São Paulo e executor do Projeto Geodiversidade do Quadrilátero Ferrífero. CATHARINA RAMOS DOS PRAZERES CAMPOS – Graduada (2002) em Engenharia Civil pela Universidade da Amazônia em Belém do Pará, mestre (2005) em Recursos Hídricos pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Em 2006, integrou o grupo de trabalho para elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos do Pará. No período de 2006 a 2010, atuou como engenheira civil no governo do estado do Pará. Ingressou como Pesquisadora em Geociências na Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO), em 29 de junho de 2010. No período de julho/2012 a dezembro dez/2013, exerceu a chefia do Projeto Sistema de Alerta de Cheias na Bacia do Rio Acre. Atualmente, integra a equipe do Projeto Atlas Pluviométrico do Brasil. CLÁUDIO CÉSAR DE AGUIAR CAJAZEIRAS – Geólogo (2004) formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre (2007) na área de Hidrogeologia pela UFC. No período 2007-2009, atuou na iniciativa privada, em projetos de prospecção mineral para pegmatitos nos estados do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Em 2009 ingressou na Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO), atuando como coordenador regional do Projeto Rede Integrada de Monitoramento de Águas Subterrâneas (RIMAS). Atualmente, trabalha na Unidade Regional da CPRM em Fortaleza (CE) no Projeto Ação Emergencial para Reconhecimento de Áreas de Alto a Muito Alto Risco a Movimento de Massas e Enchentes. Foi titular do Conselho Estadual de Recursos Hídricos de Rondônia no período 2011-2013. DENISE SCHAAN – Doutora (2004) em Antropologia/Arqueologia pela Universidade de Pittsburgh, EUA. Foi presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (2007-2009). É professora adjunta IV da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Dedica-se à pesquisa arqueológica na Amazônia desde 1993, tendo pesquisado na ilha do Marajó, baixo Amazonas e no leste do Acre, principalmente. Publicou 13 livros, 28 artigos e 26 capítulos em livros. Em 2013, ganhou do governo do estado do Pará o prêmio “Destaque Científico” do ano, na categoria “Ciências Humanas e Sociais, Letras e Artes”. EDGAR SHINZATO – Graduado (1990) em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e mestre (1998) em Agronomia pela Universidade Estadual do Norte Fluminense - UENF. Área de concentração: Pedologia, Meio Ambiente e Geoprocessamento. Atualmente é coordenador executivo do Departamento de Gestão Territorial (DEGET) da CPRM/SGB. Desenvolveu atividades profissionais em projetos do Programa GATE/CPRM, como estudos e mapeamentos de solos, capacidade de uso das terras, aptidão agrícola e uso e cobertura vegetal. Foi coordenador de Geoprocessamento dos Estudos do TAV (Trem de Alta Velocidade) e do Projeto Setorização de Riscos Remanescentes de Nova Friburgo-RJ. Coordenador técnico de solos para o Projeto Geodiversidade do Brasil e Projeto de Cartas de Suscetibilidade a Movimentos de Massa e Inundações. É membro do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, núcleo regional de estudo, Rio de Janeiro. É membro do Comitê Assessor Externo da Embrapa Solos. EDSON GUILHERME – Graduado (1994) em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Acre (UFAC), mestre (1997) em Ciências Biológicas (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)/Universidade Federal do Amazonas e doutor (2009 em Zoologia (Ornitologia) pelo Museu Paraense Emílio Goeldi/Universidade Federal do Pará. É membro do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas (LPP) da Universidade Federal do Acre desde 1991 e professor adjunto da Universidade Federal do Acre, lotado no Centro de Ciências Biológicas e da Natureza. Participa de inúmeras pesquisas visando ao encontro e ao resgate de fósseis em todo o território acreano e circunvizinhanças. Juntamente com a equipe do LPP está envolvido, atualmente, com a preparação de fósseis e a publicação de artigos científicos relacionados à fauna pretérita da Amazônia sul-ocidental. FRANCISCO DE ASSIS DOS REIS BARBOSA – Graduado (2003) em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e mestre (2006) em Engenharia Urbana pela mesma instituição (2006). Experiência na área de Engenharia Civil, com ênfase em Hidrologia, atuando, principalmente, nos seguintes temas: Modelagem Hidrossedimentológica em Bacias Urbanas e Rurais; Controle de Inundações Urbanas. Participou como pesquisador, entre os anos de 2006-2009, no Projeto Pesquisa e Desenvolvimento para Integração de Modelos Chuva-Vazão 2 NOTA SOBRE OS AUTORES ao SNIRH, que tinha como finalidade acoplar modelos chuva-vazão distribuídos e concentrados, em várias escalas temporais, dotados de algoritmos de calibração e avaliação de desempenho, ao Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos. Desde junho de 2010 atua como Engenheiro Hidrólogo na CPRM/SGB. Atualmente, é Assistente de Produção da Diretoria de Hidrologia e Gestão Territorial na Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO). Também é supervisor do Projeto Rede Hidrometeorológica Nacional e Membro do Conselho Estadual de Recursos Hídricos. IVAN BISPO DE OLIVEIRA FILHO – Graduado (2006) em geologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), especialização (2009) em Auditoria e Perícia Ambiental pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESP) e mestre (2015) em geotecnia pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Trabalhou com mineração subterrânea de carvão em Criciúma – SC (2007 a 2010). Ingressou na CPRM/SGB em 2010, tendo atuado em projetos nas áreas de Geodiversidade e Geoparque pela Residência de Porto Velho (REPO). Atualmente, atua na área de geotecnia em projetos de risco geológico e carta geotécnica de aptidão à urbanização, no Escritório Rio de Janeiro da CPRM/SGB. JONAS PEREIRA DE SOUZA-FILHO – Graduado (1982) em Geografia pela Universidade Federal do Acre (UFAC), mestre (1987) e doutor (1998) em Geociências (Paleontologia) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e pós-doutor (2010) pela Universidade de Brasília (UnB). É professor associado da UFAC, lotado no Centro de Ciências Biológicas e da Natureza (CCBN). Foi reitor da Universidade Federal do Acre por dois mandatos (2000-2004/2004-2008) e suplente da vice-presidência da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) (2003-2004). Especialista em Crocodyliformes, com várias publicações e larga experiência em pesquisas paleontológicas, especialmente na região sul ocidental da Amazônia. LILIAN REBELLATO – Graduada (1995) em Ciências Sociais (Habilitação em Antropologia) na Universidade de Campinas (UNICAMP), mestrado em Arqueologia (2007) na Universidade de São Paulo (USP) e doutorado (2011) em Geografia na Universidade do Kansas. Professora na Universidade Federal do Oeste do Pará, Adjunto 1. Trabalha com análises de solos antrópicos em sítios arqueológicos na Amazônia, com ênfase em Geoarqueologia. Tem como principal objetivo entender as alterações que sociedades humanas pretéritas geraram na paisagem e solo. LUIZ ANTONIO DA COSTA PEREIRA – Graduado (1978) em Geologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), especialista (1991) em Gestão e Administração Territorial pela CPRM/SGB; especialista (1994) em Hidrogeologia pela Universidade Federal de Pernambuco (IFPE), especialista (1997) em Desenvolvimento Regional Sustentável pela Universidade Federal de Rondônia (UFRO); mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (2004) pela UFRO. Trabalha na Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO) desde 1978, onde desenvolveu atividades de Prospecção Mineral, Mapeamento Geológico, Assistência Técnica e Fiscalização de Produção Mineral, Geologia de Planejamento, Coordenação do Programa de Qualidade local, Gestão e Mapeamento Hidrogeológico. Atualmente, integra a equipe do Projeto Rede Integrada de Monitoramento das Águas Subterrâneas (RIMAS). É conselheiro suplente da Câmara Especializada de Engenharia Civil, Geologia, Minas e Agrimensura no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Rondônia (CREA - RO). LUIZ GILBERTO DALL’IGNA – Graduado (1977) em Geologia pela Universidade Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS); especialista (1994) em Amazônia: A Questão Ambiental e Regional pela Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR); especialista (2002) em Informática, com ênfase em Banco de Dados, pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) e mestre (2006) em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UNIR). Atuou na Mineração Oriente Novo S/A como chefe de pesquisa (1978-1983), gerente distrital de pesquisa (1983-1985), gerente regional de pesquisa (1985-1993) e respondendo interinamente pela gerência geral (1991-1993). Ingressou na Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO) em 1994, onde executou o Programa Nacional de Prospecção de Ouro e foi Assistente de Produção de Relações Institucionais e Desenvolvimento. No Departamento de Recursos Minerais (DEREM/RJ) coordenou o Programa de Avaliação Geológico-Econômica de Insumos Minerais para Agricultura. Na CPRM/REPO foi Assistente no Departamento de Recursos Minerais, Coordenador Temático do Banco de Dados de Recursos Minerais do Projeto GIS Brasil e Assistente de Relações Institucionais e Desenvolvimento. Requisitado pelo Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), atuou como chefe das divisões de Monitoramento Territorial (2004-2005), Análise Ambiental (2005-2006) e Sistematização da Informação (2006-2008). Em 2008, retornou à CPRM/REPO, atuando no Projeto Geodiversidade e como Coordenador Executivo até agosto de 2012. Regressou ao Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) como Chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto. MARCELO EDUARDO DANTAS – Graduado (1992) em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com os títulos de licenciado em Geografia e geógrafo. Mestre (1995) em Geomorfologia e Geoecologia pela UFRJ. Nesse período integrou a equipe de pesquisadores do Laboratório de Geo-Hidroecologia (GEOHECO/UFRJ), tendo atuado na investigação de temas como: Controles Litoestruturais na Evolução do Relevo; Sedimentação Fluvial; Impacto das Atividades Humanas sobre as Paisagens Naturais no Médio Vale do Rio Paraíba do Sul. Em 1997 ingressou na CPRM/SGB, atuando como geomorfólogo até o presente. Desenvolveu atividades profissionais em projetos na área de Geomorfologia, Diagnósticos Geoambientais e Mapeamentos da Geodiversidade, em atuação integrada com a equipe de geólogos do Programa GATE/CPRM. Dentre os trabalhos mais relevantes, destacam-se: Mapa Geomorfológico e Diagnóstico Geoambiental do Estado do Rio de Janeiro; Mapa Geomorfológico do ZEE RIDE Brasília; Estudo Geomorfológico Aplicado à Recomposição Ambiental da Bacia Carbonífera de Criciúma; e Análise da Morfodinâmica Fluvial Aplicada ao Estudo de Implantação das UHEs de Santo Antônio e Jirau (Rio Madeira - Rondônia). Atualmente é coordenador nacional de Geomorfologia do Projeto Geodiversidade do Brasil (CPRM/SGB). Atua na elaboração e supervisão dos mapas de padrões de relevo para o Projeto Cartas de Suscetibilidade a Movimentos Gravitacionais de Massa e Inundações. Membro associado da União da Geomorfologia Brasileira (UGB) desde 2007. MARCOS NÓBREGA II – Graduado (2003) em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Oceanografia (2010) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Geologia e Geofísica Marinha (2011) pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Nesse período, integrou a equipe de pesquisadores do Laboratório de Geologia Marinha da UFF, desenvolvendo trabalhos relacionados à estruturação e ao desenvolvimento da margem equatorial brasileira durante os últimos 100 milhões de anos. Em 2010, ingressou como Pesquisador em Geociências na CPRM/SGB na área de Hidrogeologia, atuando nos estados de Rondônia e Acre. Atua na área de Geologia Marinha dessa mesma empresa em águas rasas (plataforma continental) e águas profundas (talude continental e bacias oceânicas profundas) do oceano Atlântico adjacente à costa brasileira, ambos ligados aos projetos da Divisão de Geologia Marinha (DIGEOM), que inclui a Elevação do Rio Grande (PROERG). Participou do primeiro embarque da CPRM/SGB em águas internacionais, em 2011 e, em 2013, fez parte da segunda fase de trabalhos da Cooperação Brasil-Japão, na Elevação de São Paulo. Atualmente, integra o grupo PROCORDILHEIRA, que tem como objetivo encontrar e viabilizar mineralizações de elementos como ferro, manganês e mais raros como índio e zinco. 3 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE MARIA ADELAIDE MANSINI MAIA – Graduada (1996) em Geologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestra (2013) em Ciências (Geologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ingressou na CPRM/SGB em 1997, onde exerce o cargo de pesquisadora em geociências na área de Gestão Territorial (DEGET). Atuou de 1997 a 2009, na Superintendência Regional de Manaus (SUREG-MA), nos projetos de Gestão Territorial, destacando-se o Mapa da Geodiversidade do Estado do Amazonas e os Zoneamentos Ecológico-Econômicos (ZEEs) do Vale do Rio Madeira, da porção central do estado de Roraima e do Distrito Agropecuário da Zona Franca de Manaus. Participou do Mapeamento Geológico-Geotécnico do Traçado do Trem de Alta Velocidade (TAV) e do Mapeamento de Área de Risco Geológico no Município de Nova Friburgo-RJ . Atualmente lotada no Escritório Rio de Janeiro, desenvolve atividades ligadas à coordenação executiva do DEGET, notadamente no Programa Geologia do Brasil – Levantamento da Geodiversidade e Cartas de Suscetibilidade a Movimentos Gravitacionais de Massa e Inundações. É coautora nos livros “Geodiversidade do Brasil” e “Levantamento da Geodiversidade dos Estados do Amazonas e de Roraima” e autora de diversos trabalhos científicos. MARIA ANGÉLICA BARRETO RAMOS – Graduada (1989) em geologia pela Universidade de Brasília (UnB) e mestra (1993) em Geociências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ingressou na CPRM/SGB em 1994, onde atuou em mapeamento geológico no Projeto Aracaju ao Milionésimo. Em 1999, no Departamento de Gestão Territorial (DEGET), participou dos projetos Acajutiba-Aporá-Rio Real e Porto Seguro- Santa Cruz Cabrália. Em 2001, na Divisão de Avaliação de Recursos Minerais, integrou a equipe de coordenação do Projeto GIS do Brasil e do Banco de Dados da CPRM/SGB. A partir de 2008 atua como coordenadora executiva do Departamento de Gestão Territorial (DEGET) da CPRM/ SGB onde atuou na coordenação de geoprocessamento do Projeto Geodiversidade do Brasil nas escalas 1:2.500.000, 1:1.000.000 e Mapas de Geodiversidade Estaduais. A partir de 2012 integra a equipe de coordenação técnica do Projeto Mapas de Suscetibilidade de Movimentos Gravitacionais de Massa e Inundações e suporte ao Projeto Riscos Geológicos. Também atua em linhas de pesquisa na área de remineralizações de solo e zoneamento agrogeológico em parceria CPRM/UnB/CCPq. Especialista em Modelagem Espacial de Dados em Geociências, ministra cursos e treinamentos em ferramentas de SIG aplicados a projetos da CPRM/SGB. É autora de 35 trabalhos individuais e coautora nos livros “Geologia, Tectônica e Recursos Minerais do Brasil”, “Geodiversidade do Brasil” e “Geodiversidade do Estado da Bahia”. Foi presidenta da Associação Baiana de Geólogos no período de 2005-2007 e vice-presidenta de 2008 a 2009. PEDRO AUGUSTO DOS SANTOS PFALTZGRAFF – Graduado (1984) em geologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mestre (1994) na área de Geologia de Engenharia e Geologia Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor (2007) em Geologia Ambiental pela Universidade Federal de Pernambuco. Trabalhou, entre 1984 e 1988, em obras de barragens e projetos de sondagem geotécnica na empresa Enge Rio – Engenharia e Consultoria S.A. Entre os anos de 1985-1994 trabalhou como geólogo autônomo. Ingressou na CPRM/SGB em 1994, no cargo de pesquisador em geociências, no Escritório do Rio de Janeiro (DEGET), tendo sido coordenador regional de Geodiversidade do Nordeste no período 2006-2010. Atua em diversos projetos de Geologia de Engenharia, Geologia Ambiental e Geotecnia, e Levantamento e Mapeamento de Riscos Geológicos. ROBERTO MATIAS DA SILVA – Graduado (1983) em Geologia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), mestre (2003) em Geologia Ambiental (Geofísica e Geotermia Ambiental) pela mesma instituição. Trabalhou como geólogo na Mineração Oriente Novo, em Rondônia (exploração de cassiterita e columbita-tantalita), exercendo a função de Gerente de Mina. Desde 1991 atua como pesquisador da Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (FUNTAC), tendo sido diretor técnico e de produção no período de 1992 a 1994 e diretor-presidente de 1995 a 1998. Foi consultor da Eletronorte, na construção das linhas de transmissão de energia para Sena Madureira e Epitaciolândia (Acre), no período de julho de 2005 a janeiro de 2008. Atualmente, exerce a função de Pesquisador II e de Professor na Universidade do Norte (UNINORTE) das disciplinas Geologia Ambiental, Hidrologia e Drenagem, Planejamento Ambiental e Ciências da Terra. RUY BENEDITO CALLIARI BAHIA – Graduado (1982) em Geologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestre (1997) em Tectônica e Sedimentação Proterozoica pela mesma universidade e doutor (2007) em Tectônica e Sedimentação Paleozoica pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Ingressou na Unidade Regional da CPRM em Porto Velho (RO) em 1987, onde exerceu diversas funções: chefe de projetos de pesquisa mineral em províncias diamantíferas e auríferas; coordenador de projetos de mapeamento geológico em bacias sedimentares e embasamento cristalino e coordenador regional do Projeto Carta Geológica do Brasil ao Milionésimo para as Bacias Sedimentares Paleozoicas da Amazônia, sendo responsável pela execução dos mapas Geológico, Tectônico e de Recursos Minerais do Brasil nas escalas 1:2.500.000 e 1:1.000.000. De agosto de 2009 a junho de 2012 exerceu a função de Assistente de Produção (ASSPRO-DGM). Atualmente, é Coordenador Executivo nessa mesma unidade. VALTER JOSÉ MARQUES – Graduado (1966) em Geologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialização em Petrologia (1979), pela Universidade de São Paulo (USP), e Engenharia do Meio Ambiente (1991), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nos primeiros 25 anos de carreira dedicou-se ao ensino universitário, na Universidade de Brasília (UnB), e ao mapeamento geológico na CPRM/SGB, entremeando um período em empresas privadas (Mineração Morro Agudo e Camargo Correa), onde atuou em prospecção mineral em todo o território nacional. Desde 1979, quando retornou à CPRM/SGB, exerceu diversas funções e ocupou diversos cargos, dentre os quais o de Chefe do Departamento de Geologia da CPRM/SGB e o de Superintendente de Recursos Minerais. Nos últimos 24 anos vem se dedicando à gestão territorial, com destaque para o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE), sobretudo na Amazônia e nas faixas de fronteira com os países vizinhos, atuando como coordenador técnico de diversos projetos binacionais. Nos últimos 10 anos vem desenvolvendo estudos quanto à avaliação da Geodiversidade para o desenvolvimento regional utilizando técnicas de cenários prospectivos. VITÓRIO ORLANDI FILHO – Geólogo (1967) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialização em Sensoriamento Remoto e Fotointerpretação no Panamá e Estados Unidos. De 1970 a 2007, exerceu suas atividades junto à CPRM/SGB, onde desenvolveu projetos ligados a Mapeamento Geológico Regional, Prospecção Mineral e Gestão Territorial. Em 2006, participou da elaboração do Mapa Geodiversidade do Brasil (CPRM/SGB). WENCESLAU GERALDES TEIXEIRA – Graduado (1989) em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), mestre (1992) em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutor (2001) em Geoecologia pela Universidade de Bayreuth (Alemanha). Desde 1995 é pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), lotado atualmente na unidade da Embrapa Solos na cidade do Rio de Janeiro. Participa como professor associado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) no curso de pós- graduação em Agronomia Tropical. Trabalha na área de Agronomia, com ênfase em Física, Manejo e Conservação do Solo e da Água, atuando principalmente nos seguintes temas: Métodos de Avaliação das Características Físico-Hídricas de Solos Tropicais; Modelagem de Fluxos de Água e Solutos no Solo; Gênese dos horizontes antrópicos do solo (Terras Pretas de Índio). É bolsista de produtividade do CNPq e Jovem Cientista da FAPERJ. 4 NOTA SOBRE OS AUTORES WILLIAM WOODS – Graduado (1970) em Antropologia, mestre (1973) em Geografia e Arqueologia, com ênfase em analise química de solos em sítios arqueológicos, e doutor (1986) em Geografia e Arqueologia, com ênfase em padrões de assentamentos pré-coloniais, todos os títulos pela University of Wisconsin-Milwaukee (1986). Trabalhou como principal pesquisador de Cahokia durante 20 anos, um dos principais sítios arqueológicos dos Estados Unidos da América Atualmente, é professor no Departamento de Geografia e Antropologia e do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade do Kansas (EUA). 5 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE PROGRAMA GEOLOGIA DO BRASIL LEVANTAMENTO DA GEODIVERSIDADE PROGRAMA GEOLOGIA DO BRASIL LEVANTAMENTO DA GEODIVERSIDADE Geodiversidade do Estado do Acre é um produto concebido para oferecer aos diversos segmentos da sociedade acriana uma tradução do atual conhecimento geocientífico da região, com vistas ao planejamento, aplicação, gestão e uso adequado do território. Destina-se a um público-alvo variado, SEDE desde empresas de mineração, passando pela SGAN – Quadra 603 • Conj. J • Parte A – 1º andarBrasília – DF • 70830-030 comunidade acadêmica, gestores públicos estaduais Fone: 61 3326-9500 • 61 3322-4305 Fax: 61 3225-3985 e municipais, sociedade civil e ONGs. Escritório Rio de Janeiro – ERJ Av. Pasteur, 404 – Urca Dotado de uma linguagem voltada para múltiplos Rio de Janeiro – RJ • 22290-255 Fone: 21 2295-5337 • 21 2295-5382 usuários, o mapa compartimenta o território acriano Fax: 21 2542-3647 em unidades geológico-ambientais, destacando suas Presidência limitações e potencialidades frente a agricultura, Fone: 21 2295-5337 • 61 3322-5838 Fax: 21 2542-3647 • 61 3225-3985 obras civis, utilização dos recursos hídricos, fontes poluidoras, potencial mineral e geoturístico. Diretoria de Hidrologia e Gestão TerritorialFone: 61 3223-1059 • 21 2295-8248 Fax: 61 3323-6600 • 21 2295-5804 Nesse sentido, com foco em fatores estratégicos Departamento de Gestão Territorial para a região, são destacadas Áreas de Relevante Fone: 21 2295-6147 • Fax: 21 2295-8094 Interesse Mineral (ARIM), Potenciais Hidrogeológico Diretoria de Relações Institucionais e Desenvolvimento e Geoturístico, Riscos Geológicos aos Futuros Fone: 21 2295-5837 • 61 3223-1166/1059 Empreendimentos, dentre outros temas do meio Fax: 21 2295-5947 • 61 3323-6600 físico, representando rico acervo de dados e Superintendência Regional de Manaus Avenida André Araújo, 2160 - Aleixo informações atualizadas e constituindo valioso Manaus - AM - Brasil • 69.060-001 subsídio para a tomada de decisão sobre o uso Fone: PABX 92 2126-0300 • Fax: 92 2126-0319 racional e sustentável do território nacional. Assessoria de Comunicação Fone: 61 3321-2949 • 61 3321-2949 asscomdf@cprm.gov.br Divisão de Marketing e Divulgação Fone: 31 3878-0372 • Fax: 31 3878-0382 marketing@cprm.gov.br Ouvidoria Geodiversidade é o estudo do meio físico constituído por ambientes Fone: 21 2295-4697 • Fax: 21 2295-0495 diversos e rochas variadas que, submetidos a fenômenos naturais ouvidoria@cprm.gov.br e processos geológicos, dão origem às paisagens, ao relevo, outras Serviço de Atendimento ao Usuário – SEUS rochas e minerais, águas, fósseis, solos, clima e outros depósitos Fone: 21 2295-5997 • Fax: 21 2295-5897 superficiais que propiciam o desenvolvimento da vida na Terra, tendo seus@cprm.gov.br como valores intrínsecos a cultura, o estético, o econômico, o científico, o educativo e o turístico, parâmetros necessários à preservação www.cprm.gov.br responsável e ao desenvolvimento sustentável. 2015 2015 2015 GEODIVERSIDADE DO ESTADO DO ACRE