Novembro, 2023 MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA Ministro de Estado Alexandre Silveira de Oliveira Secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral Vitor Eduardo de Almeida Saback SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL – CPRM DIRETORIA EXECUTIVA Diretor-Presidente Inácio Melo Diretora de Hidrologia e Gestão Territorial Alice Silva de Castilho Diretor de Geologia e Recursos Minerais Francisco Valdir Silveira Diretor de Infraestrutura Geocientífica Paulo Afonso Romano Diretor de Administração e Finanças Cassiano de Souza Alves COORDENAÇÃO TÉCNICA Chefe do Departamento de Hidrologia Andrea de Oliveira Germano Chefe da Divisão de Hidrologia Aplicada Adriana Dantas Medeiros EQUIPE TÉCNICA Keyla Almeida dos Santos Fábio Araújo da Costa George Rodrigues de Sousa Araújo Cristiane Ribeiro de Melo Solange Cavalcanti Melo Tatyana Augusto Gomes da Silva Kleverson Holland de Lima Rocha Jackson Almeida Silva Lucas Leandro dos Santos - estagiário MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA SECRETARIA DE GEOLOGIA, MINERAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO MINERAL SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL – CPRM DIRETORIA DE HIDROLOGIA E GESTÃO TERRITORIAL – DHT Departamento de Hidrologia Divisão de Hidrologia Aplicada Programa de Gestão de Riscos e Desastres AÇÃO LEVANTAMENTOS, ESTUDOS, PREVISÃO E ALERTA DE EVENTOS HIDROLÓGICOS CRÍTICOS AUTORES Keyla Almeida dos Santos Artur José Soares Matos Recife Novembro, 2023 REALIZAÇÃO Diretoria de Hidrologia e Gestão Territorial AUTORES Keyla Almeida dos Santos Artur José Soares Matos FOTOS DA CAPA: Registro fotográfico do rio Mundaú durante a cheia de 2023, na cidade de Murici – AL, realizado pela equipe da Defesa Civil do município, em julho de 2023. Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) S237r Santos, Keyla Almeida dos. Sistema de alerta hidrológico na bacia do rio Mundaú : relatório de atividades / Keyla Almeida dos Santos, Artur José Soares Matos. – Recife : Serviço Geológico do Brasil – CPRM, nov. 2023. 1 recurso eletrônico : PDF ; il. – (Relatório de atividades ; 1. Ano 2023) Programa de Gestão de Riscos e Desastres. Ação Levantamentos, Estudos, Previsão e Alerta de Eventos Hidrológicos Críticos. ISBN 978-65-5664-423-3 1. Hidrologia. 2. Bacias hidrográficas. I. Matos, Artur José Soares. II. Título. CDD 551.48 Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Nelma Botelho CRB-4 2341 Direitos desta edição: Serviço Geológico do Brasil – CPRM Permitida a reprodução desta publicação desde que mencionada a fonte Serviço Geológico do Brasil - CPRM www.sgb.gov.br https://rigeo.sgb.gov.br seus@sgb.gov.br RESUMO Há 6 anos o Serviço Geológico do Brasil – SGB/CPRM, por meio da Superintendência Regional de Recife (Sureg-RE), opera o Sistema de Alerta Hidrológico na bacia do rio Mundaú, em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O Sistema de Alerta contra enchentes é uma medida não estrutural adotada para a prevenção/mitigação de prejuízos causados por eventos de cheias nas bacias hidrográficas. Neste contexto, o presente relatório irá apresentar os principais resultados da operação 2023 do Sistema de Alerta do rio Mundaú, cobrindo o período chuvoso entre os meses de abril de 2023 a agosto de 2023 na Região Nordeste do Brasil, no qual foram emitidos 31 boletins técnicos contendo os níveis dos rios Mundaú e Canhoto, e que podem contribuir como instrumento para a prevenção/mitigação dos efeitos causados por eventos de cheias nessas localidades. ABSTRACT For 6 years, the Geological Survey of Brazil – SGB/CPRM, through the Recife Office (Sureg-RE), has operated the Flood Warning System in the Mundaú river basin, in partnership with the National Water Agency (ANA). The Flood Warning System is a non-structural measure adopted to prevent / mitigate losses caused by floods. In this context, the present report will present the main results of the 2023 operation of the Flood Warning System in the Mundaú River basin, covering the rainy period between the months of April 2023 to August 2023 in the Northeast Region of Brazil, in which 31 technical bulletins were issued containing the levels of the Mundaú and Canhoto rivers, and which can contribute as an instrument for the prevention / mitigation of the effects caused by flood events in these locations. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Área de abrangência e localização da bacia do rio Mundaú. .............. 13 Figura 2 - Diagrama unifilar da bacia do rio Mundaú. ......................................... 13 Figura 3 - Isoietas Anuais Médias, período de 1977 – 2006. ............................... 14 Figura 4 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente nos dias 16 e 17 de junho de 2010, às 23:45h e 02:15h, respectivamente. ................................... 17 Figura 5 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente no dia 17 de junho de 2010, às 05:15h e 08:15h ................................................................................ 17 Figura 6 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente no dia 17 de junho de 2010, às 11:15h e 14:45h. ............................................................................... 18 Figura 7 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente no dia 17 de junho de 2010, às 17:45h e 20:45h. ............................................................................... 18 Figura 8 - Municípios afetados pelas inundações nos Estados de Pernambuco e Alagoas, Região Nordeste do Brasil. Dados da Defesa Civil Estadual em junho de 2010. ..................................................................................................................... 19 Figura 9 - Momento da passagem da onda de cheia em São José da Laje, Alagoas, em junho de 2010 no rio Canhoto. ...................................................................... 20 Figura 10 - Ruas do centro de São José da Laje após a passagem da onda da cheia de junho 2010 no rio Canhoto. ............................................................................. 20 Figura 11 - Usina Laginha no município de União dos Palmares, durante a cheia de junho de 2010, no rio Mundaú. Destaque para o local onde funcionava o tanque de álcool. .................................................................................................. 20 Figura 12 - Vista de cima da cidade de Palmares no dia 22/06/10, após a enchente de 2010 no rio Una. .............................................................................................. 21 Figura 13 - Curva do rio Una na cidade de Palmares no dia 22/06/10 ................ 21 Figura 14 - Registro do dia 18/06/10 no município de Santana do Mundaú às 15h20h. ................................................................................................................. 22 Figura 15 - Registro da cidade no dia 19/06/10 às 7:40h, após a onde de cheia no município de Santana do Mundaú ....................................................................... 23 Figura 16 - Réguas da estação fluviométrica de Santana do Mundaú recuperadas após a cheia de junho de 2010. ............................................................................ 23 Figura 17 - Conceitos das cotas de referências básicas para operação dos Sistemas de Alerta Hidrológicos .......................................................................................... 30 Figura 18 – Nível do rio Canhoto e precipitação na PCD da estação Canhotinho no município de Canhotinho – PE no período de 10/04/23 à 15/08/23. ................. 33 Figura 19 – Nível do rio Inhumas e precipitação na PCD da estação Palmeirina no município de Palmeirina – PE no período de 10/04/23 à 15/08/23. ................... 34 Figura 20 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação Correntes no município de Correntes – PE no período de 10/04/23 à 15/08/23. .................... 34 Figura 21 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação Santana do Mundaú no município de Santana do Mundaú – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. .............................................................................................................. 35 Figura 22 – Nível do rio Canhoto e precipitação na PCD da estação São José da Laje no município de São José da Laje – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. .............................................................................................................................. 35 Figura 23 - Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação de União dos Palmares no município de União dos Palmares – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. .............................................................................................................. 36 Figura 24 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação de Murici- Ponte no município de Murici – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. .......... 36 Figura 25 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação Fazenda Boa Fortuna no município de Rio Largo – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. .. 37 Figura 26 – Registro fotográfico de drone no município de Murici - AL em julho/2023. ........................................................................................................... 37 Figura 27 – Registro fotográfico aéreo do município de Murici - AL na passagem da cheia em julho/2023 ........................................................................................ 38 Figura 28 – Registro fotográfico do município de Murici - AL durante a cheia de julho/2023 ............................................................................................................ 38 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de Santana do Mundaú. ............................................................................................................... 24 Tabela 2 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de União dos Palmares. .............................................................................................................. 24 Tabela 3 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de São José da Laje. .............................................................................................................................. 25 Tabela 4 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de Murici-Ponte. .............................................................................................................................. 25 Tabela 5 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de Fazenda Boa Fortuna. ................................................................................................................ 26 Tabela 6 - Cotas de referências básicas para operação do Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do rio Mundaú. ................................................................... 30 Tabela 7 – População no último censo do IBGE 2022 nos municípios atendidos pelo monitoramento do SAH Mundaú. ................................................................ 39 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 12 1.1 CARACTERIZAÇÃO DA BACIA ...................................................................... 12 2 HISTÓRICO DE OPERAÇÃO DO SAH ............................................................ 14 2.1 HISTÓRICO DAS CHEIAS .............................................................................. 14 2.2 OPERAÇÃO DO SAH .................................................................................... 26 3 ÁREA DE ABRANGÊNCIA ............................................................................ 28 3.1 DADOS GERAIS DAS ESTAÇÕES DE MONITORAMENTO ............................. 28 3.2 MUNICÍPIOS ATENDIDOS ............................................................................ 29 3.3 COTAS DE REFERÊNCIA E ATUALIZAÇÕES................................................... 30 3.3 DESCRIÇÃO DOS LOCAIS ONDE HÁ PREVISÃO E MÉTODOS DE PREVISÃO UTILIZADOS ....................................................................................................... 30 4 DESCRIÇÃO DO EVENTO OCORRIDO .......................................................... 33 4.1 CHEIAS ........................................................................................................ 33 5 OPERAÇÃO REALIZADA DURANTE OS EVENTOS ......................................... 38 5.1 CHEIAS ........................................................................................................ 38 6 PARTICIPAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DE REUNIÕES/EVENTOS ......................... 39 7 AGRADECIMENTOS .................................................................................... 40 8 CONCLUSÕES ............................................................................................. 40 9 REFERÊNCIAS ............................................................................................. 41 1 INTRODUÇÃO 1.1 CARACTERIZAÇÃO DA BACIA A bacia hidrográfica do rio Mundaú está localizada entre as latitudes sul 8048’11” e 90 40’23’’ e os meridianos de longitude oeste 360 37’52” e 350 43’44”, abrangendo uma área total de 4.126 km2, com 52,2% situada em Pernambuco, onde o rio nasce, e 47,8% em Alagoas, onde desemboca na lagoa Mundaú. Por isso enquadra-se na categoria de rio federal. Percorre uma distância de 182,6 km de extensão e seu principal afluente é o rio Canhoto (Santos, 2013). O trecho pernambucano da bacia, com uma área de 2.155 km2, está localizado na Mesorregião do Agreste Pernambucano, onde ficam inseridos, total ou parcialmente, territórios de 15 municípios, dos quais 8 com suas sedes municipais, a maior delas a cidade de Garanhuns (SUDENE, 1999). Na parte alagoana da bacia, que corresponde à sua metade inferior, a superfície é de 1.971 km2, onde estão inseridos total ou parcialmente, territórios de 15 municípios da Mesorregião do Leste Alagoano. Encontram-se 10 sedes municipais, além de uma pequena parte da zona urbana de Maceió (SUDENE, 1999). O rio Mundaú nasce a oeste da cidade pernambucana de Garanhuns, na parte sul do Planalto da Borborema a uma altitude de aproximadamente 930 m, tendo quase 195 km de extensão e entra em Alagoas na cachoeira da Escada, ao sul da cidade de Correntes e noroeste da cidade alagoana de Santana do Mundaú. Atravessa a área central da Mata Alagoana e chega ao litoral, formando o Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM). A Figura 1 apresenta a abrangência e o mapa de localização da bacia. E a Figura 2 o diagrama unifilar da bacia. A bacia hidrográfica do rio Mundaú tem uma precipitação média anual de 900 mm e uma vazão média anual de 30,6 m3/s. O clima da bacia é quente com temperaturas médias anuais em torno de 240C. Os meses de fevereiro a julho correspondem à aproximadamente 72,6% de toda a precipitação anual local (Silva et al., 2008). Figura 1 – Área de abrangência e localização da bacia do rio Mundaú. Fonte: Santos, 2013. Figura 2 - Diagrama unifilar da bacia do rio Mundaú. Fonte: Elaborada pela autora. Os totais anuais médios de chuva variam de 1.700 mm na faixa litorânea até 600 mm no trecho oeste da bacia (Figura 3). Figura 3 - Isoietas Anuais Médias, período de 1977 – 2006. Fonte: Santos, 2013. 2 HISTÓRICO DE OPERAÇÃO DO SAH 2.1 HISTÓRICO DAS CHEIAS Desde 1632, a história registrou grandes enchentes em Pernambuco. Umas de maiores, outras de menores proporções, mas todas causando muitos danos à população. Abaixo apresenta-se, resumidamente, um histórico do que aconteceu nos principais eventos de inundações em Pernambuco. (Santos, 2013). Entre os dias 30 de julho e 01 de agosto de 2000, fortes chuvas castigaram o Estado, inclusive a Região Metropolitana do Recife (RMR), deixando um total de 22 mortos, 100 feridos e mais de 60 mil pessoas desabrigadas. Cidades foram parcialmente destruídas, pontes e casas foram levadas pelas águas que transbordaram dos rios. As chuvas atingiram 300 milímetros em apenas três dias e só na RMR aconteceram 102 deslizamentos de barreiras. No município de Belém de Maria, com 15 mil habitantes, 450 casas foram arrastadas pelas águas. O centro de Palmares ficou complemente debaixo de água e em Barreiros a água atingiu o teto do hospital da cidade. Dos 33 municípios seriamente atingidos, em 16 foi decretado estado de emergência e em 17, estado de calamidade pública, entre os quais Rio Formoso, Gameleira, Belém de Maria, Goiana, Cupira e São José da Coroa Grande. O presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, veio a Pernambuco observar de perto os efeitos da calamidade. Entre 08 de janeiro e 02 de fevereiro de 2004 fortes chuvas castigaram todas as regiões do Estado, deixando 36 mortos e cerca de 20 mil pessoas desabrigadas. As chuvas, jamais registradas entre os dois primeiros meses do ano, foram provocadas por fenômenos atípicos e destruíram pontes e estradas, açudes romperam, casas desabaram e populações inteiras ficaram ilhadas. Treze cidades ficaram em estado de calamidade pública e 76 em estado de emergência. Petrolina, a maior cidade do sertão do São Francisco, ficou vários dias isolada, pois as águas levaram a estrada de acesso à cidade. Todos os açudes e barragens do Sertão e Agreste transbordaram, inclusive, a barragem de Jucazinho, em Surubim. De acordo com levantamento do governo estadual, os prejuízos em todo o Estado chegaram a R$ 54 milhões. Entre os dias 30 de maio e 02 de junho de 2005, fortes chuvas provocaram enchentes em 25 cidades do Agreste, Zona da Mata e Litoral pernambucanos, deixando 36 mortos e mais de 30 mil pessoas desabrigadas. Cerca de sete mil casas foram parcialmente ou totalmente destruídas, 40 pontes foram danificadas e 11 rodovias estaduais foram atingidas, sendo que sete delas ficaram interditadas. A água inundou as ruas centrais, hospitais, escolas e casas comerciais de várias cidades, provocando enormes prejuízos materiais. Pouco mais de 30 mil estudantes da rede estadual de ensino ficaram vários dias sem aulas. Em todas as cidades atingidas, 93 escolas foram danificadas e outras 11 foram transformadas em abrigos para os desabrigados. As cidades mais atingidas foram: Moreno, Vitória de Santo Antão, Jaboatão, Nazaré da Mata, Pombos, Ribeirão, Cabo e Escada. O município que teve o maior número de casas destruídas ou parcialmente danificadas foi Vitória de Santo Antão, totalizando 5 (cinco) mil casas. No Brasil ocorreram diversos eventos extremos nos últimos anos. Na região Nordeste, particularmente na bacia do rio Mundaú, registrou-se como evento marcante o ocorrido em junho de 2010, nos territórios pernambucano e alagoano, e que provocou destruição avassaladora. Os Estados de Pernambuco e Alagoas foram atingidos por fortes temporais provocados por sistemas meteorológicos vindos do litoral. Ambos os Estados tiveram um número significativo de municípios devastados pelas ondas de cheias (CPRM, 2010). Na bacia do rio Mundaú foi gerada uma cheia extraordinária, acentuada pela grande declividade deste rio no território pernambucano, castigando de forma mais severa o Estado vizinho, Alagoas. O Laboratório de Meteorologia do Estado de Pernambuco – LAMEPE, a partir dos dados sobre o evento meteorológico, verificou que se tratava de uma de Onda de Leste e publicou a seguinte nota técnica: “Analisando os dados sobre o evento meteorológico, verificamos que se tratava de uma Onda de Leste, intensificada por um sistema frontal, localizado sobre o Atlântico Sul, o qual fortaleceu esse sistema meteorológico. Além disso, as temperaturas elevadas da água do mar, adjacente à costa de Pernambuco, contribuíram ainda mais para instabilizar a atmosfera” (CPRM, 2010). Esse evento é um típico sistema meteorológico do Nordeste do Brasil chamado de “Ondas de Leste”, que são agrupamentos de nuvens que se movem no Atlântico, de leste para oeste, até atingirem a costa oriental da região Nordeste, provocando precipitação ao longo do litoral, de 50 a 130S (leste do Rio Grande do Norte até o Nordeste da Bahia), durante o período de maio a agosto. Esses sistemas influenciam principalmente as áreas costeiras, não avançando muito para o interior da região. As Figuras 4 a 7 exibem imagens do evento monitorado entre os dias 16 e 17 de junho, onde podemos ver as nuvens se formando no Atlântico norte avançando em direção ao litoral do Nordeste e entrando no continente pelo estado da Paraíba e atingindo o litoral de Pernambuco e Alagoas com chuvas bastante acentuadas (Santos, 2013). Figura 4 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente nos dias 16 e 17 de junho de 2010, às 23:45h e 02:15h, respectivamente. Fonte: Santos, 2013. Figura 5 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente no dia 17 de junho de 2010, às 05:15h e 08:15h. Fonte: Santos, 2013. Figura 6 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente no dia 17 de junho de 2010, às 11:15h e 14:45h. Fonte: Santos, 2013. Figura 7 - Distúrbio da onda de leste, adentrando o continente no dia 17 de junho de 2010, às 17:45h e 20:45h. Fonte: Santos, 2013. Em Alagoas, 28 municípios (27,4%) foram afetados, sendo que 04 decretaram situação de emergência e 15 decretaram estado de calamidade pública. Em Pernambuco, 67 municípios foram afetados, 30 municípios com situação de emergência e 9 em estado de calamidade pública. A Figura 8 ilustra os municípios afetados nesses dois estados (Santos, 2013). Figura 8 - Municípios afetados pelas inundações nos Estados de Pernambuco e Alagoas, Região Nordeste do Brasil. Dados da Defesa Civil Estadual em junho de 2010. Fonte: Santos, 2013. O número de indivíduos afetados chegou a 284.632, sendo que 181.018 foram do estado de Alagoas e 103.612 de Pernambuco. O número de desalojados chegou a 55.643 em Pernambuco e 47.897 em Alagoas, totalizando 102.420 indivíduos. Os óbitos somaram 79 (34 em Alagoas e 17 em Pernambuco), segundo boletim do Centro Nacional de Gerenciamento de Risco e Desastres de Alagoas (Cenad-AL) e Coordenação Estadual de Defesa Civil de Pernambuco (Codecipe). A seguir apresentam-se algumas fotos retratando os danos causados pela enchente de 2010 em alguns municípios afetados (Figuras 9 a 13). Figura 9 - Momento da passagem da onda de cheia em São José da Laje, Alagoas, em junho de 2010 no rio Canhoto. Fonte: CPRM, 2010. Figura 10 - Ruas do centro de São José da Laje após a passagem da onda da cheia de junho 2010 no rio Canhoto. Fonte: CPRM, 2010. Figura 11 - Usina Laginha no município de União dos Palmares, durante a cheia de junho de 2010, no rio Mundaú. Destaque para o local onde funcionava o tanque de álcool. Fonte: CPRM, 2010. Figura 12 - Vista de cima da cidade de Palmares no dia 22/06/10, após a enchente de 2010 no rio Una. Fonte: CPRM, 2010. Figura 13 - Curva do rio Una na cidade de Palmares no dia 22/06/10. Fonte: CPRM, 2010. Santana do Mundaú foi considerado um dos municípios mais atingidos da bacia hidrográfica do rio Mundaú, tanto pelo número de desabrigados como pelo trabalho que exigiu do quadro funcional da defesa civil municipal. Residências, escolas, praças, serviços oferecidos pela prefeitura em suas secretarias municipais, bancos, comércios, acesso rodoviário ao município, entre outros, e tudo mais que pertencia ao espaço urbano, foi totalmente ou parcialmente destruído (CPRM, 2010). A estrutura da ponte principal que interligava as margens urbanas resistiu, porém, os guarda-corpos foram levados. O mesmo não aconteceu com a ponte que interligava a zona rural do município, que teve parte da sua estrutura destruída e cabeceiras erodidas, impossibilitando o tráfego para qualquer tipo de veículo. Este fato favoreceu a proliferação da pobreza na região após o episódio meteorológico, uma vez que, tal ponte, seria o único acesso viário para escoamento e comercialização do principal produto cultivado no município, que é a fruticultura da laranja (CPRM, 2010). A Figura 14 apresenta o vale inundado na cidade de Santana do Mundaú durante o pico da cheia no dia 18 de junho de 2010 e a Figura 15 a situação após as águas baixarem. A estação fluviométrica (Código 39700000) teve os mourões e as réguas limnimétricas levadas pelas águas. A recuperação da estação ocorreu através de uma RN (Referência de Nível), próxima à casa do observador, que resistiu à correnteza. Foi transportada a cota altimétrica para o local da recuperação, novas réguas e RN foram erguidas e niveladas. A Figura 16 mostra a reinstalação da estação fluviométrica de Santana do Mundaú após a enchente de 2010 (CPRM, 2010). Figura 14 - Registro do dia 18/06/10 no município de Santana do Mundaú às 15h20h. Fonte: CPRM, 2010. Figura 15 - Registro da cidade no dia 19/06/10 às 7:40h, após a onde de cheia no município de Santana do Mundaú. Fonte: CPRM, 2010. Figura 16 - Réguas da estação fluviométrica de Santana do Mundaú recuperadas após a cheia de junho de 2010. Fonte: CPRM, 2010. Nas tabelas 1 a 5 consta a lista das maiores cheias registradas nas estações de Santana do Mundaú, União dos Palmares, São José da Laje, Murici e Fazenda Boa Fortuna, todas no estado de Alagoas. Na primeira coluna mostra a ordem decrescente dos eventos. Na segunda, terceira e quarta colunas as datas dos eventos, as cotas máximas (cm) e o tempo de retorno da vazão associada à cota máxima em Santana do Mundaú e demais estações. Tabela 1 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de Santana do Mundaú. N Data Cota (cm) Vazões (m3/s) Tempo de retorno* (anos) 1 18/06/2010 1.163 874,21 142 2 02/07/2022 776 401,11 21 3 08/07/2023 730 351,36 16 4 17/09/2000 574 202,59 6 5 10/06/2009 590 201,98 6 6 20/06/1994 618 191,92 5 7 02/06/2005 550 182,6 5 8 01/07/2017 516 169,32 4 9 18/07/2008 496 129,69 3 10 20/06/2002 466 119,23 3 *Cálculo do Tempo de retorno de acordo com equação de Virães e Pinto (2020e) Fonte: Elaborada pela autora (2023) Tabela 2 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de União dos Palmares. N Data Cota (cm) Vazões (m3/s) Tempo de retorno* (anos) 1 18/06/2010 1206 1057,03 219 2 02/07/2022 870 702,71 29 3 08/07/2023 827 657,42 22 4 28/05/2017 720 529,00 10 5 30/06/2005 674 477,06 7 6 08/05/1997 614 410,32 4 7 16/06/2022 578 395,58 4 8 10/06/2009 590 383,97 4 9 14/06/2001 589 382,88 4 10 15/01/2004 548 338,39 3 *Cálculo do Tempo de retorno de acordo com equação de Virães e Pinto (2020d) Fonte: Elaborada pela autora (2023) Tabela 3 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de São José da Laje. N Data Cota (cm) Vazões (m3/s) Tempo de retorno* (anos) 1 18/06/2010 738 379,19 82 2 02/07/2022 628 280,20 34 3 01/08/2000 570 231,94 21 4 07/07/2023 530 200,37 15 5 18/06/2005 436 132,24 6 6 30/04/2007 414 117,62 5 7 28/05/2017 400 108,60 4 8 07/05/1997 396 106,07 4 9 15/06/2020 390 102,30 4 10 14/06/2001 390 102,30 4 *Cálculo do Tempo de retorno de acordo com equação de Virães e Pinto (2020a) Fonte: Elaborada pela autora (2023) Tabela 4 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de Murici-Ponte. N Data Cota (cm) Vazões (m3/s) Tempo de retorno* (anos) 1 18/06/2010 1055 1388,04 113 2 08/07/2023 811 905,68 19 3 02/07/2022 761 815,57 13 4 03/06/2005 628 591,83 5 5 21/07/1986 598 544,75 4 6 28/05/2017 596 541,66 4 7 01/11/1993 590 532,42 4 8 20/06/1994 588 529,35 4 9 17/05/2008 584 523,23 4 10 14/06/2001 580 517,13 3 *Cálculo do Tempo de retorno de acordo com Virães e Pinto (2020c) Fonte: Elaborada pela autora (2023) Tabela 5 – Lista das 10 maiores cheias registradas na estação de Fazenda Boa Fortuna. N Data Cota (cm) Vazões (m3/s) Tempo de retorno* (anos) 1 18/06/2010 1238 2239,43 243 2 02/08/2000 1050 1422,47 40 3 02/07/2022 1043 1395,14 37 4 08/07/2023 998 1224,92 24 5 18/07/1988 983 1035,88 14 6 09/05/1997 882 723,12 5 7 19/08/1991 876 706,22 5 8 29/05/2017 831 678,58 5 9 15/06/2020 817 639,12 4 10 18/05/2008 814 630,80 4 *Cálculo do Tempo de retorno de acordo com Virães e Pinto (2020b) Fonte: Elaborada pela autora (2023) 2.2 OPERAÇÃO DO SAH Dentro desse contexto o “Sistema de Alerta Hidrológico na Bacia do rio Mundaú – SAH Mundaú” no âmbito da ação “Informações de Alerta de Enchentes e Inundações” foi lançado em dezembro de 2017 pelo SGB - Serviço Geológico do Brasil em parceria com a ANA – Agência Nacional de Águas, a SEMARH-AL – Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos e a APAC-PE - Agência Pernambucana de Águas e Clima. A operação do SAH Mundaú acompanha aproximadamente 8 pontos instalados na Bacia do rio Mundaú durante todo o período chuvoso na região. Os municípios beneficiados são: Correntes, Canhotinho e Palmeirina, no Estado de Pernambuco, Santana do Mundaú, São José da Laje, União dos Palmares, Murici e Rio Largo, no Estado de Alagoas. O monitoramento consiste na coleta de dados, armazenamento e atualização dos dados coletados, análise, elaboração da previsão hidrológica, e transmissão das informações. Os municípios que recebem os alertas com a previsão hidrológica são Murici e União dos Palmares. O SAH Mundaú opera como sistema de monitoramento e previsão de alerta de cheias, tendo como um dos produtos as informações em tempo real através dos boletins semanais e extraordinários com a divulgação para os órgãos competentes e parceiros. No período chuvoso o sistema fica com monitoramento 24h, sempre com um pesquisador e um técnico nos plantões. A CPRM transmite semanalmente para a SEMARH-AL (sala de alerta), Defesa Civil e prefeituras dos municípios da bacia do Mundaú, um boletim contendo os níveis dos rios nas estações fluviométricas. Além destes níveis, o boletim contém a cota de alerta e de inundação de algumas estações da bacia. A cota de alerta significa que foi atingido o nível do rio no qual a frequência de obtenção dos dados deve ser maior, pois o risco de acontecer uma enchente é grande. Neste caso o monitoramento passa a ser mais intenso, e a orientação, ao serem atingidas estas cotas, é que o próprio município passe a observar os níveis nas réguas localizadas nas estações fluviométricas. Já a cota de inundação significa que o ponto mais baixo da cidade começa a ser inundado. Quando atingidas as cotas de alerta, os órgãos competentes são avisados sobre a situação e passam a receber boletins com maior frequência, contendo a previsão se a cota de inundação será ou não ultrapassada. O encerramento do plantão 24 horas dá-se devido ao fim do período chuvoso e ao menor risco de inundações nesta época do ano. Porém, caso haja alguma previsão ou alguma possibilidade de ocorrência de um evento extremo na bacia, as atividades do plantão 24 horas serão retomadas e as previsões voltarão a ocorrer. O Serviço Geológico do Brasil, SGB/CPRM publicou e enviou 31 boletins durante a operação do Sistema de alerta contemplando as 8 cidades beneficiadas, contendo os níveis dos rios Mundaú e Canhoto. Do total de boletins enviados, 11 foram boletins extraordinários contendo previsões, onde as estações ultrapassaram as cotas de alerta ou inundação. 3 ÁREA DE ABRANGÊNCIA 3.1 DADOS GERAIS DAS ESTAÇÕES DE MONITORAMENTO A Estação Canhotinho é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, de qualidade de água e telemétrica (FDQT), localizada na margem direita do rio Canhoto. É operada pelo SGB/SUREG RE, instalada em 11/2011 no Município de Canhotinho, Pernambuco. A Estação Correntes II foi extinta por questões técnicas e operacionais e a PCD instalada na estação Correntes, localizada no mesmo município. É uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida e telemétrica (FDT), localizada na margem esquerda do rio Mundaú, a jusante do ponto de encontro entre o rio Correntes e o rio Mundaú. É operada pelo SGB/SUREG RE, instalada em 09/2009 no Município de Correntes, Pernambuco. A Estação Santana do Mundaú é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, de qualidade de água e telemétrica (FDQT), localizada na margem esquerda do rio Mundaú. É operada pelo SGB/SUREG RE, instalada em 10/1990 no Município de Santana do Mundaú, Alagoas. Apresenta uma área de drenagem de 765 km², uma precipitação anual média de 823 mm. A Estação Palmeirina é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, qualidade de água e telemétrica (FDQT), localizada na margem esquerda do rio Inhumas, afluente do rio Canhoto. É operada pela SGB/SUREG RE, instalada em 02/2011 no Município de Palmeirina, Pernambuco. A Estação São José da Laje é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, qualidade de água e telemétrica (FDQT), no rio Canhoto. É operada pela SGB/SUREG RE, instalada em 10/1990 no Município de São José da Laje, Alagoas. Apresenta uma área de drenagem de 1.178 km², uma precipitação anual média de 763 mm. A Estação União dos Palmares é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, qualidade de água e telemétrica (FDQT), localizada na margem esquerda do rio Mundaú. É operada pelo SGB/SUREG RE, instalada em 10/1990 no Município de União dos Palmares, Alagoas. Apresenta uma área de drenagem de 2.899 km², uma precipitação anual média de 877 mm. A Estação Murici – Ponte é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, qualidade de água e telemétrica (FDQT), localizada na margem direita do rio Mundaú. É operada pelo SGB/SUREG RE, instalada desde 12/1965 no Município de Murici, Alagoas. Apresenta uma área de drenagem de 3.295 km², uma precipitação anual média de 932 mm. A Estação Fazenda Boa Fortuna é uma estação fluviométrica com medição de descarga líquida, sedimentométrica, de qualidade de água e telemétrica (FDSQT), localizada na margem esquerda do rio Mundaú. É operada pelo SGB/SUREG RE, instalada em 10/1965 no Município de Rio Largo, Alagoas. Apresenta uma área de drenagem de 3.560 km², uma precipitação anual média de 973 mm. 3.2 MUNICÍPIOS ATENDIDOS O SAH Mundaú monitora 8 municípios localizados na Bacia do rio Mundaú, sendo 03 no Estado de Pernambuco e 05 no Estado de Alagoas. São eles: • Correntes – PE; • Canhotinho – PE; • Palmeirina – PE; • Santana do Mundaú – AL; • São José da Laje – AL; • União dos Palmares – AL; • Murici – AL; • Rio Largo – AL; E os municípios também atendidos com a previsão hidrológica e alerta de cheias são: União dos Palmares e Murici, ambos em Alagoas. 3.3 COTAS DE REFERÊNCIA E ATUALIZAÇÕES Os conceitos das cotas de referências básicas estabelecidas estão descritos na Figura 17, abaixo: Figura 17 - Conceitos das cotas de referências básicas para operação dos Sistemas de Alerta Hidrológicos. Fonte: SGB-CPRM, 2023. Tabela 6 - Cotas de referências básicas para operação do Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do rio Mundaú. ESTAÇÃO CÓDIGO COTA DE ATENÇÃO (m) COTA DE ALERTA (m) COTA DE INUNDAÇÃO (m) PALMEIRINA 39715000 1,70 2,10 CANHOTINHO 39575000 2,50 3,00 SÃO JOSÉ DA LAJE 39720000 2,50 3,20 4,20 CORRENTES 39690000 2,30 3,30 SANTANA DO MUNDAÚ 39700000 4,50 5,31 6,98 UNIÃO DOS PALMARES 39740000 3,50 4,50 5,80 MURICI PONTE 39760000 3,70 4,96 5,96 FAZENDA BOA FORTUNA 39770000 6,50 7,30 8,60 Fonte: Elaborada pela autora (2023). 3.3 DESCRIÇÃO DOS LOCAIS ONDE HÁ PREVISÃO E MÉTODOS DE PREVISÃO UTILIZADOS São dois os municípios onde há previsão hidrológica, Murici e União dos Palmares e, segundo o IBGE (2023), apresentam as seguintes caraterísticas físicas, demográficas e históricas descritas nos próximos parágrafos. Murici é um município do Estado de Alagoas. Os habitantes se chamam muricienses. O município se estende por 418,028 km² e conta com 25.187 habitantes no censo de 2022. A densidade demográfica é de 60,25 habitantes por km², em 2022, no território do município. Vizinho dos municípios de Branquinha, Messias e Flexeiras, Murici se situa a 17 km a Sul-Leste de União dos Palmares a maior cidade nos arredores e está situado a 88 metros de altitude. O monge Frei Domingos é considerado o fundador de Murici. Foi ele, que, segundo a lenda, plantou um “muricizeiro bravo” por volta de 1810. À sombra da árvore, paravam os viajantes para descansar e vender produtos. Antes de tornar- se cidade, o povoado de Murici pertenceu à antiga Vila dos Macacos, Imperatriz, Santa Maria Madalena e União dos Palmares. Os moradores da antiga Imperatriz eram conhecidos como “macaquitos da Imperatriz”. Foram eles que construíram uma capela para Nossa Senhora da Conceição e casas, chamadas de “testa de bode” e destinadas à compra de algodão em rama, uma das primeiras culturas da região. Em 1829, dois frades, Cassiano e João, reconstruíram a capela de Murici e mudaram a padroeira para Nossa Senhora das Graças. O primeiro grêmio político teve como fundador o padre Joaquim Lopes, um português que foi morar em Murici porque era perseguido como traidor do movimento mata-marinheiro. De 1855 a 1860 o povoado teve momentos de muita tensão política. Primeiro, por causa da luta entre os partidos liberal e conservador. Depois, em razão da política do Barão de Jaraguá que pretendia derrubar a Junta Governativa, composta pelo capitão Bruno Ferreira, Vasco Marinho, Gama de Melo, Vieira Peixoto, cônego Calheiros e representantes das famílias Holanda e Cansanção. Em 1892, através da Lei 15, foi transformada em cidade. União dos Palmares é um município do Estado de Alagoas. Os habitantes se chamam palmarinos. O município se estende por 420,376 km² e contava com 59.280 habitantes no censo de 2022. A densidade demográfica é de 141,02 habitantes por km², em 2022, no território do município. Vizinho dos municípios de São José da Laje, Branquinha e Ibateguara, União dos Palmares se situa a 39 km ao Norte-Oeste de Rio Largo e está situado a 145 metros de altitude. As primeiras habitações do município de União dos Palmares surgiram no século XVIII, num povoado chamado “Macacos”, à margem esquerda do rio Mundaú. O português Domingos de Pino construiu a primeira capela do local dedicada à Santa Madalena. A povoação passou a ter o nome da padroeira O crescimento do lugarejo provocou seu desmembramento do município de Atalaia, a 13 de outubro de 1831, através de Decreto Governamental. A denominação “União” surgiu através de Decreto e teve origem no fato de a cidade ser o elo entre as estradas de ferro de Alagoas e Pernambuco. Em 1944, ocorreu a mudança definitiva para “União dos Palmares”, homenageando o quilombo que permaneceu na região por quase um século. Foi em União dos Palmares, mais precisamente na Serra da Barriga (uma das atrações turísticas da cidade), que os negros rebelados contra a escravidão construíram a República Independente do Quilombo dos Palmares, o símbolo do anseio e da resistência negra pela liberdade, tendo como líder maior o negro Zumbi, imortalizado numa estátua no alto da serra. O SAH Mundaú é focado em eventos graduais de inundação, pois a bacia do rio Mundaú além de ser uma bacia pequena e de alta declividade, apresentando respostas muito rápidas no hidrograma, pode haver a ocorrência de eventos de chuvas intensas localizadas e concentradas apenas sobre o município e suas adjacências (eventos de chuvas convectivas), os quais podem resultar no aumento abrupto do nível do rio e provocar enchentes repentinas e localizadas. Nesses eventos, a diferença de tempo entre a previsão e a ocorrência dos danos é incompatível e, portanto, inviabiliza em muitos casos a tomada de ações com a antecedência necessária. O SAH Mundaú utiliza o modelo cota-cota para a previsão de cotas através da utilização de planilhas do Excel. As equações geradas dependem das cotas atuais das estações a serem previstas e das cotas das estações à montante. No caso de Murici, a equação prevê com 6 horas na frente, mas que na prática temos 5h de antecedência quanto à probabilidade de ocorrência de inundação. Em União dos Palmares prevê com 5h na frente e na prática 4h de antecedência. Mas como a bacia tem respostas rápidas, essa previsão depende muito da permanência das chuvas na calha do rio, vindo a baixar o nível assim que as chuvas cessam. As previsões são feitas sempre baseadas na permanência das chuvas, fazendo com que elas nem sempre se concretizem caso não ocorra ou cesse. Por isso, o acompanhamento dos níveis dos rios e das chuvas são feitos de forma contínua, sendo intensificado quando atinge a cota de referência de atenção e/ou alerta. As previsões são feitas e refeitas a cada 1h e atualizadas para as defesas civis e órgãos competentes imediatamente. 4 DESCRIÇÃO DO EVENTO OCORRIDO 4.1 CHEIAS Durante a operação do sistema de alerta hidrológico da bacia do rio Mundaú, no período de 10 de abril à 15 de agosto de 2023 ocorreram alguns eventos que ultrapassassem a cota de alerta ou inundação. O evento que mais se destacou ocorreu no período de 07/07/2023 à 09/07/2023. Os gráficos das Figuras 18 a 25 mostram todo o período da operação nas estações de Canhotinho, Palmeirina, Correntes, Santana do Mundaú, São José da Laje, União dos Palmares, Murici-Ponte e Fazenda Boa Fortuna. Figura 18 – Nível do rio Canhoto e precipitação na PCD da estação Canhotinho no município de Canhotinho – PE no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 19 – Nível do rio Inhumas e precipitação na PCD da estação Palmeirina no município de Palmeirina – PE no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 20 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação Correntes no município de Correntes – PE no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 21 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação Santana do Mundaú no município de Santana do Mundaú – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 22 – Nível do rio Canhoto e precipitação na PCD da estação São José da Laje no município de São José da Laje – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 23 - Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação de União dos Palmares no município de União dos Palmares – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 24 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação de Murici-Ponte no município de Murici – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. Figura 25 – Nível do rio Mundaú e precipitação na PCD da estação Fazenda Boa Fortuna no município de Rio Largo – AL no período de 10/04/23 à 15/08/23. Fonte: Elaborada pela autora. As figuras 26 a 28 são algumas fotos que retratam a passagem do evento de julho/2023 no município de Murici. Esses registros fotográficos aéreos foram realizados por drone que sobrevoou o município durante a passagem da cheia. As imagens foram cedidas pela Defesa Civil municipal. Figura 26 – Registro fotográfico de drone no município de Murici - AL em julho/2023. Fonte: Defesa Civil do Município de Murici – AL. Figura 27 – Registro fotográfico aéreo do município de Murici - AL na passagem da cheia em julho/2023. Fonte: Defesa Civil do Município de Murici – AL. Figura 288 – Registro fotográfico do município de Murici - AL durante a cheia de julho/2023. Fonte: Defesa Civil do Município de Murici – AL. 5 OPERAÇÃO REALIZADA DURANTE OS EVENTOS 5.1 CHEIAS Foram publicados 20 boletins de monitoramento (ordinário) e 11 boletins com previsão hidrológica (extraordinário), totalizando 31 boletins durante a operação do Sistema de alerta 2023, contendo os níveis dos rios Mundaú e Canhoto e contemplando as oito cidades beneficiadas. Dentro desse contexto o sistema de alerta hidrológico da bacia do rio Mundaú beneficia e envolve uma população em torno de 165.094 pessoas (ver Tabela 7). Tabela 7 – População no último censo do IBGE 2022 nos municípios atendidos pelo monitoramento do SAH Mundaú. Município População no último censo 2022 (IBGE) Correntes 17.131 Palmeirina 7.031 Canhotinho 24.329 Santana do Mundaú 11.323 São José da Laje 20.813 Murici 25.187 União dos Palmares 59.280 Fonte: Elaborada pela autora (2023) Ao longo do ano de 2023 foram realizadas 06 campanhas de operação regular, sendo elas em janeiro, março, maio, julho, setembro e novembro. Durante o período chuvoso foram realizadas 05 campanhas extras, sendo deslocadas 05 equipes para as estações do Mundaú para manutenção corretiva nas PCD´s, réguas e medição de vazão em cotas altas. Dentro do planejamento pós-cheia foi feito uma campanha de campo em setembro para atualização das cotas de inundação e verificação das marcas de cheias desse ano. 6 PARTICIPAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DE REUNIÕES/EVENTOS Ao longo do ano o SAH Mundaú teve reuniões com as defesas civis municipais, com as equipes de campo, treinamentos com a equipe, tira-dúvidas dos plantões individualmente com cada membro da equipe. Em outubro foi apresentada uma palestra sobre o sistema de alerta hidrológico da bacia do rio Mundaú no XI Workshop de Mudanças Climáticas e Recursos Hídricos do Estado de Pernambuco e VIII Workshop Internacional de Mudanças Climáticas e Biodiversidade, ocorrido no período de 25 a 27 de outubro de 2023. 7 AGRADECIMENTOS A operação do sistema de alerta hidrológico da bacia do rio Mundaú, no período de 10/04/2023 a 15/08/2023, só foi possível com a utilização dos dados hidrológicos provenientes da Rede Hidrometeorológica Nacional (RHN) de responsabilidade da Agência Nacional de Águas (ANA), operada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e demais parceiros. Por meio de Termo de Execução Descentralizada (TED) de operação da RHN, a Agência Nacional de Águas disponibiliza apoio operacional e financeiro para operação e manutenção das estações da RHN/RHNR, bem como para uso de equipamento de medição. 8. CONCLUSÕES O Serviço Geológico do Brasil, por meio da Superintendência Regional de Recife, operou o Sistema de Alerta Hidrológico da bacia do rio Mundaú durante todo o período chuvoso entre os meses de abril a agosto de 2023, em parceria com a Agência Nacional de Águas (ANA), Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado de Alagoas (SEMARH-AL) e a Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC-PE). A operação inclui plantões de 24 horas durante todo o período chuvoso, onde engenheiros e técnicos coletam, armazenam, atualizam, fazem análises, elaboram as previsões hidrológicas e transmitem os dados e informações. Durante a operação do SAH Mundaú 2023 foram emitidos 11 boletins extraordinários, pois as estações ultrapassaram as cotas de alerta ou inundação. E foram emitidos 20 boletins de monitoramento transmitidos semanalmente aos órgãos competentes e/ou parceiros, contemplando os 8 municípios beneficiados, contendo os níveis dos rios Mundaú, Canhoto e Inhumas. O período chuvoso desse ano de 2023 verificou-se apenas um evento de maior destaque por ter uma magnitude muito alta em relação ao histórico, com o atingimento das cotas de alerta e inundação na maioria dos pontos de monitoramento. Esse evento ocorreu no período de 07 à 09 de julho quando a maioria dos pontos registraram vazões muito altas, recebendo total atenção nas operações do Sistema de Alerta. A operação do sistema foi concluída com sucesso e nesse contexto, o Serviço Geológico do Brasil cumpre seu papel disponibilizando à sociedade informações de monitoramento hidrológico nos rios em âmbito nacional e, especificamente, na bacia do rio Mundaú e auxiliando os gestores de recursos hídricos no processo de tomada de decisão no enfrentamento dos efeitos dos eventos de cheias. As informações sobre o Sistema Hidrológico da bacia do rio Mundaú foram disponibilizadas na internet através do site http://www.sgb.gov.br/sace/mundau. 9 REFERÊNCIAS CPRM - SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Projeto de monitoramento de eventos hidrológicos extremos: enchentes de Alagoas em junho 2010. Recife: CPRM, 2010. Tomo I: levantamento de Campo. IBGE. Alagoas. [2023]. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al. Acesso em: 30 nov. 2023. SANTOS, K. A. dos. Modelagem do acompanhamento e controle de cheias em bacias hidrográficas de grande variação de altitude. Estudo de caso: Bacia do Rio Mundaú. 2013. 124 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013. SILVA, D. F. de; SOUSA, F. de A. S. de; KAYANO, M. T.; ARAÚJO, L. E. de. Acompanhamento climático das bacias hidrográficas do Rio Mundaú (AL e PE) e do Rio Paraíba (PB). Engenharia ambiental, Espírito Santo do Pinhal, v. 5, n. 3, p. 79-93, set./dez. 2008. Disponível em: http://ferramentas.unipinhal.edu.br/engenhariaambiental/viewarticle.php?id=144&la yout=abstract. Acesso em: 6 nov. 2023. SGB-CPRM. SACE - Sistema de Alerta de Eventos Críticos. Rio de Janeiro, [2023]. Disponível em: https://www.sgb.gov.br/sace/. Acesso em: 30 nov. 2023. SUDENE. Plano diretor de recursos hídricos da bacia do Rio Mundaú. Recife, 1999. VIRÃES, M. V.; PINTO, E. J. de A. Disponibilidade hídrica do Brasil: estudos de regionalização nas bacias hidrográficas brasileiras. Análise de frequência de sistemas de alerta: Sistema de Alerta Bacia do Rio Mundaú, Rio Canhoto, Estação Fluviométrica São José da Laje, código 39720000. Recife: CPRM, 2020a. Disponível em: https://rigeo.sgb.gov.br/handle/doc/21990. Acesso em: 6 nov. 2023. VIRÃES, M. V.; PINTO, E. J. de A. Disponibilidade hídrica do Brasil: estudos de regionalização nas bacias hidrográficas brasileiras. Análise de frequência de sistemas de alerta: Sistema de Alerta Bacia do Rio Mundaú, Rio Mundaú, Estação Fluviométrica Fazenda Boa Fortuna, código: 39770000. Recife: CPRM, 2020b. Disponível em: https://rigeo.sgb.gov.br/handle/doc/21994. Acesso em: 6 nov. 2023 VIRÃES, M. V.; PINTO, E. J. de A. Disponibilidade hídrica do Brasil: estudos de regionalização nas bacias hidrográficas brasileiras. Análise de frequência de sistemas de alerta: Sistema de Alerta Bacia do Rio Mundaú, Rio Mundaú, Estação Fluviométrica Murici - Ponte, código 39760000. Recife: CPRM, 2020c. Disponível em: https://rigeo.sgb.gov.br/handle/doc/21993. Acesso em: 6 nov. 2023. VIRÃES, M. V.; PINTO, E. J. de A. Disponibilidade hídrica do Brasil: estudos de regionalização nas bacias hidrográficas brasileiras: análise de frequência de sistemas de alerta: Sistema de Alerta Bacia do Rio Mundaú, Rio Mundaú, Estação Fluviométrica União dos Palmares, código 39740000. Recife: CPRM, 2020d. Disponível em: https://rigeo.sgb.gov.br/handle/doc/21991. Acesso em: 6 nov. 2023. VIRÃES, M. V.; PINTO, E. J. de A. Disponibilidade hídrica do Brasil: estudos de regionalização nas bacias hidrográficas brasileiras. Análise de frequência de vazões de sistemas de alerta: Sistema de Alerta Bacia do Rio Mundaú, Rio Mundaú, Estação Fluviométrica Santana do Mundaú, código 39700000. Recife: CPRM, 2020e. Disponível em: https://rigeo.sgb.gov.br/handle/doc/21989. Acesso em: 6 nov. 2023.